Perfume

De Rissa Rodrigues

Foto de Mariana Tarkany

Aquela moça passou por mim na Paulista. 

Eu não sou o tipo de pessoa que costuma reparar no que se passa a minha volta. Sempre tão distraído num mundo que costumo chamar de meu, não percebo o que a realidade mostra aos tediosos e sem sonhos na cachola. 

Consolo-me em saber que aqueles que não compraram seu ingresso para o mundo dos pensamentos vivem a vida real por mim, para que eu, em meu agraciado silêncio contemplativo, possa continuar em meu caminho de tijolos dourados. 

Mas às vezes, e só às vezes, a realidade costuma me pegar pelos ombros e me chacoalhar, como uma mãe faz na hora mais gostosa de um sonho. 

No meu caso, o tapa não doeu, na verdade foi uma luva suave, um acariciar na face que me fez abrir os olhos por um instante, só para fechá-los em seguida, no intuito de sentir, com toda a minha essência, aquele perfume tão delicado. 

Não tinha um cheiro de rosas, eu detesto rosas, mas era suave, como morango e creme, uma brisa fresca numa tarde de sol frio que nos arrepia um pouco a pele, talvez fosse uma fragrância com um toque de alívio, como tomar um copo com água no calor, tinha um “quê” de segredo, como amantes que se encontram às escuras, havia violetas e carinho e no fundo um tom picante de canela. 

Quando abri meus olhos, automaticamente olhei para trás a procura da musa que passeava entre os mortais, a moça que fora capaz de me trazer do meu esconderijo em meio àquela grande avenida sempre tão cheia de pessoas e prédios. 

Queria poder olhar para ela, ver seus belos olhos e o cabelo sedoso esvoaçando ao sabor do vento. Se ela vira-se um pouco o rosto para trás para vislumbrar o efeito de seu feitiço, seus olhos se encontrariam com os meus, haveria um segundo de rubor e minha bela perfumada baixaria o rosto envergonhada. 

Eu iria até ela, totalmente rendido, e lhe convidaria para um café, ela não aceitaria de imediato dizendo estar ocupada, lhe daria então o meu melhor sorriso e receberia em troca um tímido curvar de lábios. 

E que lábios seriam! 

Não tão finos, nem tão grossos, mas belos, com um suave vermelho a se espalhar por sua extensão. 

E o que dizer de seus olhos? 

Iluminados com uma luz apaixonante, quentes e carinhosos, acolhedores na hora de amar. 

Mulher difícil, aceitaria meu café apenas depois de avaliar-me bem. 

Eu pagaria o café a fim de ouvi-la falar sobre o seu mundo. 

Trocaríamos telefones. 

Eu ligaria primeiro. 

Ela seria misteriosa ao falar, mas apenas para me deixar curioso. 

Descobriríamos coisas em comum. 

Ignoraria os gostos diferentes. 

Ela falaria de músicas, livros e filmes que eu nunca vi. E eu iria à loja no dia seguinte para comprá-los. 

E nesse meio tempo nos encontraríamos para outros cafés na avenida, agora tão amistosa aos meus olhos, que nos uniu.

Eu lhe contaria sobre o meu trabalho, minha vida solitária de São Paulo, ela falaria de seu apartamento, das flores que cultiva na janela, contaria do seu cachorro com nome do vocalista de sua banda favorita. 

Eu sentiria uma falta absurda dela nos dias que não pudéssemos nos ver e ela me mandaria mensagens pequenas e carinhosas mostrando que também sente saudades. 

Eu a levaria para jantar. 

Ela me daria um beijo. 

E eu diria que a amava. 

Passaríamos os fins de semana juntos, tentaria não dormir nos filmes românticos e secaria suas lágrimas enquanto ela murmurava uma desculpa por ser uma boba apaixonada. 

Iriamos ao parque nos sábados de manhã para passear com o cachorro e faríamos um piquenique na beira do lago. 

Eu apresentaria ela aos meus amigos, que fariam piadas dizendo o quanto estou mudado. 

No natal, viajaríamos para o interior para que eu me apresentasse a sua família, eu ficaria envergonhado e sorriria muito. 

Ela conheceria minha mãe e as duas se tornariam inseparáveis. 

No ano novo a pediria em casamento. E ela diria sim, com os olhos cheios de lágrimas. 

Passaríamos o ano correndo com os preparativos, brigaríamos na hora de decidir detalhes, ela choraria e cortaria meu coração. 

Eu compraria rosas, porque sei que ela gosta, e lhe entregaria pedindo desculpas. 

Ela me abraçaria com carinho dizendo que não brigaríamos mais e eu concordaria, mesmo sabendo que dali a uma semana teria que comprar mais rosas. 

Nós diríamos: Sim, aceito. 

Eu colocaria uma aliança em seu dedo. 

E ela estaria comigo para o resto da vida. 

Mas ela não olhou para trás e eu nunca consegui contemplar o rosto de minha dama perfumada. A garoa do início da noite começou na Paulista e apagou a suave fragrância. 

Segui o meu caminho.