Conte Sua História de São Paulo: o pedal da turma da loja revelou a cidade desconhecida

Por Adriana Yamamoto Christofolete

Ouvinte da CBN

Photo by Pixabay on Pexels.com

Há alguns anos, escrevi para esse programa para contar minha história sobre a juventude na cidade. O tempo passou, a cidade mudou, e o meu amor por Sampa também ficou diferente. Da outra vez, contei como vim parar na Mooca. Tempos atrás, voltei a viver mais em São Paulo e precisei procurar algo para diminuir o estresse de viver nessa cidade linda tanto quanto estressante.

Peguei minha velha bike, tirei a poeira, e lógico que ambas estávamos enferrujadas. Lembrei de uma bicicletaria ali perto para fazer os ajustes. Enquanto esperava, ouvi a conversa do pessoal que estava lá sobre “uns pedais”. Soube que saíam em grupo para pedalar à noite. Vendo a todos equipados com roupa, capacete, luvas, acessórios, pensei comigo: isso não é para mim!

Comecei minhas pedaladas aos domingos bem cedo pelo bairro. Na volta aproveitava para passar no sacolão ou na feira. Conforme a prática, dar duas voltas na avenida atrás de casa, em 30 minutos, mesmo subindo as travessas que eu evitei no início, porque meu joelho doía, passou a ficar fácil e insuficiente.

Lembrei dos “pedais da turma da loja”. Sempre receptivos, me orientaram sobre o mínimo necessário para estar com o grupo à noite: capacete e luzes de sinalização.

Numa terça-feira, lá fui eu, envergonhada sem conhecer ninguém. Logo, um deles veio me perguntar se era a primeira vez, deu as dicas e explicou que ele ficava no final para não deixar ninguém para trás. 

Naquele dia, não sei para onde fomos, mas lembro que subimos a Vergueiro, que eu achei que não fosse conseguir! Muitos me encorajaram e esperaram lá no fim da subida. Além da sensação de liberdade que pedalar nos traz, me senti protegida no grupo ao atravessar as ruas e avenidas. Descobri uma Sampa que fica viva até tarde da noite, formada por gente que trabalha, se diverte, se exercita, e cuida da cidade. 

Como em todas as pedaladas da vida, temos altos e baixos. Passei por problemas pessoais bem complexos, perdi minhas referências, fiquei sem chão, achei que não suportaria, mas por algum motivo, mesmo assim, não deixei de ir aos pedais. Pude pedalar calada, chorando às vezes, disfarçando as lágrimas no suor do pedal, seguindo o grupo por lugares que eu nem sei como cheguei, por ruas e travessas que ainda nem conhecia. E a cada pedal, voltava para casa um pouco melhor.

Sobre a bike vi namoros começarem e acabarem, vi outros se tornarem casamentos. Vi a solidariedade no pneu furado sobre o Minhocão, quando mais de 100 ciclistas esperaram, em uma noite de inverno, porque eu não tinha câmara reserva. Testemunhei a ajuda ao ciclista perdido, o revezamento dos colegas para ajudar os menos preparados na subida.

Sobre duas rodas, Sampa revelou-se outra cidade. E sou grata de várias formas ao grupo Pedala Mooca, que começou há mais de 20 anos com passeios nas ruas do bairro e hoje faz parte da vida de muita gente.

Adriana Yamamoto Christofolete é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva agora o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

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