Conte Sua História de SP: da laje na Vila Munhoz, enxergava a Paulista

 

Por José Cássio de Goes

 

 

Morei na rua André da Fonseca, 176. Vila Munhoz. Embora pequena – não chegava sequer ao número 400 – era muito importante na região. Abrigava o posto de saúde que é hoje a UBS Vila Maria Dr. Luiz Paulo Gnecco. E ao lado, tem o parque infantil que hoje é chamado de EMEI Eduardo Carlos Pereira. Além de ser o ponto final do ônibus que fazia a linha Pq. D. Pedro II Vila Munhoz – o 2123. Era um ônibus da empresa Alto do Pari com cores verde e branco. Hoje não existe mais essa linha.

 

Morei por 40 anos, na André da Fonseca, e ainda tenho familiares lá – irmãs, sobrinho, cunhado.

 

Lembro que da laje de minha casa, eu e meu pai costumávamos observar os inúmeros prédios do centro, até os da Avenida Paulista; minha rua ficava há 800 metros do nível do mar … um mirante.

 

Certa vez, no parque infantil que chamávamos de “parquinho” apresentaram-se os palhaços Torresmo e Pururuca. Eu e meus amigos da rua nos divertimos muito. Uma cena inesquecível: em um determinado momento caía a calça do Torresmo e um coração vermelho aparecia no traseiro do calção dele… E gargalhadas quase infinitas ecoavam pelo parque.

 

Não menos importante, era a venda da Dona Maria, uma portuguesa que ficava na outra ponta da rua… onde a garotada, quando tínhamos algumas moedas, comprava pé de moleque, maria-mole, suspiro e paçoca. Hoje, no local da venda construíram sobrinhos.

 

A transformação da cidade de São Paulo e da Vila Munhoz foi e é brutal. Assim como a cidade, a minha Vila, também precisa ser mais humana, pois está contida na metrópole.

 

José Cássio de Góes é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você mais um capítulo da nossa cidade: envie seu texto para milton@cbn.com.br. Se quiser conhecer outras histórias de São Paulo, vá agora ao meu blog miltonjung.com.br

Conte Sua História de SP: “Vai pra Sum Paulu, fía?”

 

Por Flávia A Souza
Ouvinte-internauta da Rádio CBN

 

 

Contemplar diferenças. Eis o mistério e o encanto desta metrópole. Das marginais superpovoadas aos parques-oásis, das robustas pontes às estreitas ruas de favela, da plataforma incessante de modernos edifícios à arquitetura imperial remanescente, do sincretismo dos idiomas das gentes do mundo ao mundo de gente de dialetos regionais, da insegurança sem alento ao irradiante fascínio da celeridade, da ilusão camuflada ao discreto e adormecido amor sublime, do indivíduo central ao coletivo em nichos, do anonimato ao ensaio da vaidade, das perguntas evitadas às respostas contundentes, das dúvidas oscilantes às certezas insistentes.

 

Sim, contraste e esplendor. E semeio meu caminho por estas bandas.

 

“Vai pra Sum Paulu, fía?”, indagou minha família, do Centro-Oeste do Brasil, quando aqui ancorei. Vivi meus 20’s, 30’s e já me aproximo dos 40’s na capital do desenvolvimento. Culpo-me pela saturação, pois sou imigrante, dentre os tantos que catalisam os problemas desta cidade mais do que as soluções. Também me indulgencio quando emano ternura por esta terra tão intrigante e sedutora.

 

No balanço, sinto-me mais que menos. Daqui fiz o benço do meu filho, inspirada pela Abençoada missão de fazer dele um homem bom: meu presente para São Paulo, quem me traz tantos presentes, a cada fato e sentimento que vivo, com sorriso, às vezes úmido, mas sempre providente.

 

Flávia Souza é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capitulo da nossa cidade: envie seu texto para milton@cbn.com.br

Conte Sua História de SP:o hino que cantei na inauguração do Pacaembu

 

Por Elmira Pasquini

 

 

São Paulo, que pena que seus filhos hoje não entendem de patriotismo, que deixou de ser ensinado nas suas escolas públicas. Deixou de lado o respeito aos professores que  sabiam despertar os corações para amar a pátria que aos poucos foi perdendo  seu valor.

 

Hino Nacional, Hino à Bandeira, Hino da Proclamação da Republica e outros eram ensinados e cantados com todo o respeito e amor.

 

No ano de 1940 quando foi inaugurado nosso Estádio do Pacaembu, lá estávamos como estudantes, outros como atletas, uniformizados e perfilados, esbanjando nosso amor pela pátria, através do respeito à nossa bandeira, e aos hinos entoados com vibração e alegria.

 

Depois de desfilarmos na volta ao estádio, fomos colocados perfilados  no campo de futebol, bem em frente ao local do hasteamento da bandeira. A alegria não poderia ser maior, demonstrando o que aprendíamos no lar, nas escolas, nos clubes e em nossa vida diária.

 

Que pena São Paulo chegamos a um saudoso sofrimento, mas com orgulho podemos dizer: somos felizes que, como antigos, muitos ainda podemos afirmar que  nos orgulhamos deste São Paulo que apesar de não ter  continuado a ser o exemplo de amor, dedicação e dignidade muitos ainda tem coração e lágrimas nos olhos ao entoar o Hino Nacional, assistir ao hasteamento da bandeira, etc.

 

Deixamos aqui um apelo àqueles que ainda sentem este amor pela pátria: não desanimem, levantem suas vozes com seus corações cheios de esperança e amor para que nossos descendentes ainda possam continuar a se orgulhar deste São Paulo tão sofrido.

 

Tenho orgulho de ser nascida neste torrão de terra.

 

O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar aos sábados, após às 10h30, no CBN SP. A sonorização é do Cláudio Antonio e a narração de Mílton Jung.

Conte Sua História de SP: minha vida na cidade começou de fato no Fórum João Mendes

 

Por Paula Calloni
Ouvinte da rádio CBN

 

 

O Hospital e Maternidade Central Nossa Senhora da Abadia, em Santo Amaro, que era administrado por freiras, já não existe mais. Lá conheci meus pais pela primeira vez, quando tinha 15 dias de vida, em 1968.

 

Eles já tinham 3 filhos, mas queriam mais uma menina. A freira levou minha mãe ao berçário e mostrou vários recém-nascidos, abandonados pelas mães biológicas… a maioria solteiras e recém-chegadas à cidade. Ao me pegar no colo, minha mãe disse: “quero esta”. E não adiantou a irmã apresentar outros bebês: “quero esta!” – disse mamãe, firme.

 

Dias depois, lá fui eu para o fórum João Mendes, região da Sé, nos braços da enfermeira Venina de Oliveira Costa, já falecida, que me entregaria para meus pais adotivos.

 

Quantas vidas se encontrando na São Paulo que se agigantava, vivaz, onde viver já era uma correria.

 

Naquela manhã, o juiz da Vara de Menores do Fórum propôs que eu ficasse num abrigo para menores até sair a papelada oficial da adoção.

 

Nesse momento, meu pai, imigrante italiano, me segurou firme e desafiou o juiz: “ela é minha filha e se eu não sair com ela no colo hoje, vou deixá-la aqui!”.

 

O que fazer? O juiz se viu encurralado. E cedeu. Ufa…

 

Ganhei uma família. Ganhei um lar.

 

Hoje, quando passo ao lado do Fórum João Mendes, olho para ele, imponente, sem jamais esquecer que ali, de fato, começava a minha história com São Paulo.

 

O Conte Sua História de São Paulo tem sonorização do Cláudio Antonio e narração de Mílton Jung. Vai ao ar aos sábados, após às 10h30, no CBN SP. Para participar, envie seu texto para milton@cbn.com.br

Conte Sua História de SP: lembranças de São Roque, nosso galo bom de briga

 

Por João Rodrigues Neto

 

 

Em 1969, eu com 12 e meu irmão com 11 anos passamos por um perrengue por conta da tal briga de galo. Movidos mais pela necessidade do dinheiro do que amor ao esporte, dois adolescentes, quase criança, nos metemos em treinar e levar galo pra brigar.

 

Morávamos num bairro extremo da periferia de São Paulo, em casa com grande quintal, rodeada por terrenos baldios e áreas verdes, parecido com ambiente rural. Nossos pais mantinham uma horta, pequeno pomar, e criação de galinhas. Numa grande ninhada, vingou um pintinho que logo nos primeiros dias de vida deu sinal de estar doente, o pintinho entrava em convulsão, debatia-se por alguns minutos, e depois voltava ao normal. Desenvolvia-se rapidamente tendo crescimento além do normal e sempre com o problema das convulsões, até tornar-se um belo galo, vermelhão, com forte bico e agudas esporas.

 

Minha mãe condoída com a situação resolveu preservar o animal e consagrou-o a São Roque, que ela acreditava ser o padroeiro dos animais. Assim esse galo não poderia ser molestado nem sacrificado devendo viver placidamente até sua morte natural.

 

De tanto brincar com ele, descobrimos como incitá-lo a ter as convulsões, bastava irritá-lo um pouco e o bicho danava a se debater, mas agora ficava extremamente agressivo. Com a noticia que se instalara no bairro uma rinha de galos, fomos até o local, a princípio por curiosidade, mas bastou ver as apostas para despertar nosso interesse, aí decidimos que colocaríamos o “São Roque” para brigar.

 

Dedicamos-nos a treinar o galo, todos os dias por uma hora, o bicho ficava cada vez mais agressivo. Chegou sábado, fomos à rinha e o “São Roque” deu o maior couro no Trovão, e ainda bateu dois outros galos no primeiro round, ali nascia um Campeão.

 

Outras brigas vieram, e nossa euforia só se comparava com o medo da mãe que já andava desconfiada. Naquele dia, a nossa seria a última briga da rinha, briga de campeões. Mas esse duelo não aconteceu, nossa mãe chegou e acabou com a festa.

 

A tragédia aconteceu mesmo foi na hora do jantar, após sentarmos à mesa nossa mãe colocou uma travessa com cheiroso frango (ou galo) ensopado. Ficamos petrificados com a cena, num choro convulsivo saímos da mesa, nosso herói estava ali morto, preparado ao molho pardo. Nos recolhemos tristes por ter quebrado a palavra dada à mãe, e por ter perdido nosso melhor amigo.

 

Pela manhã ouvimos o cantar de um galo, e imaginávamos ser o espírito do “São Roque” se despedindo. Meu irmão foi ao armário pegou uma vela acendeu-a e começou a rezar pedindo a Deus que levasse o “São Roque” para o céu dos Galos, onde a vida deve ser bem melhor. Minha mãe vendo aquela situação se aproximou nos pegou pelo braço, abriu a porta e nos mostrou o “São Roque” que esplendoroso cantava saudando um novo dia. O frango servido à mesa havia sido outro.

 

O “São Roque” viveu ainda por um bom tempo, até desaparecer, provavelmente indo para o céu dos Galos.

 

O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar, no CBN SP, aos sábados, logo após às 10h30. Tem narração de Mílton Jung e sonorização do Cláudio Antonio.

Conte Sua História de SP: vinha pra vida, no coração da cidade

 

Por Silvio de Melo Martins
Ouvinte-internauta da rádio CBN

 

 

Nasci e moro em São Paulo há 61 anos.

 

“Alguma coisa acontece no meu coração. Que só quando cruza a Ipiranga e Av. São João” – Caetano Veloso

 

Sim! Alguma coisa aconteceu no meu coração quando cruzei o centro velho de São Paulo. Estava exatamente no cruzamento das Avenidas Ipiranga e São João. Não foi melancolia! Foi o que fizeram com a minha cidade.

 

Lembrei dos tempos de faculdade, vinha de Guarulhos onde estudava. Saía no meio da aula noturna, já cansado de um dia de trabalho, mas com o vigor da juventude vinha para a vida, no coração da cidade de São Paulo. Demorava duas horas para chegar.

 

Éramos quatro: eu, Robertão, Mishio e Jessé. Às vezes, vínhamos na Brasília velha do Robertão, mas para economizarmos preferíamos mesmo o ônibus. Parávamos no Parque Dom Pedro II, subíamos a Ladeira Porto Geral, logo a rua Direita, a praça Patriarca, depois Viaduto do Chá. Passávamos pelo Teatro Municipal, sempre fervilhando de gente elegante. Pela Pitt, com sua vitrine e luminoso imensos. Descíamos a Conselheiro Crispiniano e estávamos na São João.

 

Lembro das ruas cheias de vida, as pessoas que desciam apressadas para o Largo do Paissandú ou Praça do Correio, talvez para pegarem o ultimo ônibus ou quem sabe a última sessão de cinema.

 

A avenida São João com seus cinema: o Art Palácio, tão imponente. Havia outros, Olido, Comodoro, Ritz …

 

Nossas vidas estavam ligadas à São João. Viam-se as pessoas entrando nos cinemas, felizes para a sessão. Falando alto. Os filmes eram os últimos lançamentos de Hollywood. Casais que passavam por nós, por vezes caminhavam na noite quente se deliciando com um sorvete ou apenas comendo pipoca. O mundo não importava a eles! Nem a nós!

 

Nosso “point” era a livraria Avenida com sua entrada discreta, seus engraxates, a charutaria e a lanchonete. Sentávamos para tomar café e jogarmos conversa fora. Por vezes uma paquera, nada mais que isso. Às vezes, folheávamos uma revista, ríamos e comprávamos livros, principalmente os de química.

 

Andávamos pela São João, uma ou outra vez um filme ou uma caminhada até a Alameda Nothman com suas casas noturnas. Tomávamos mais café, refrigerantes … Quando a fome apertavam descíamos para comer um lanche frio no Largo do Paissandú. Andávamos pela madrugada despreocupados. E as pessoas sem qualquer vontade de ir embora, lotavam a avenida e as ruas laterais, davam vida ao lugar. Grupos vindo de um lado, outros no sentido contrário. Riam! Brincavam entre eles.

 

Muitas vezes saíamos em direção a Ipiranga, o Bar Brahma. Quantas vezes pudemos ver o Adoniram por lá. Sentado, tomando sua cerveja rodeado de amigos. Acredito que muitos sucessos tenham tido inspiração ali.

 

Fim de madrugada, às vezes chegávamos à Ipiranga e alguns bares estavam fechando. A população noturna das boates da região tomava seu rumo, por vezes em direção a São Luís ou República para pegar um táxi ou mesmo o elétrico que ali faziam ponto.

 

Nós, agora como outros, íamos em direção ao Parque Dom Pedro II. Jessé tinha um longo caminho, era o único que morava em Guarulhos. A noite tinha sido boa. Afinal fugíamos de uma semana trivial. Tínhamos nos divertido como tantos naquela noite.

 

Após a despedida do Jessé, tomávamos o ônibus rumo a zona leste. Pelo caminho íamos nos despedindo. Hoje nem sei por onde eles andam. A vida nos fez perder contato.

 

Hoje, alguma coisa acontece no meu coração, a cidade que eu amo, tão abandonada foi tomada pelos drogados e camelôs. Cada esquina está marcada pela violência e degradação. Hoje, porém, eu vi que tenho muito a ver com essa cidade e sou um dos responsáveis, pela omissão, no que ela se tornou.

 

Agora cruzo a Ipiranga e a Avenida São João, como cruzo as ruas do centro de São Paulo, e alguma coisa acontece no meu coração.

 

O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar, no CBN SP, aos sábados, após às 10h30. Tem a sonorização do Cláudio Antonio e narração de Mílton Jung. Para participar, envie texto para milton@cbn.com.br

Conte Sua História de SP: no banco do Pateo do Collegio

 

Mônica Ortiz
Ouvinte da Rádio CBN

 

 

Eu trabalhava na Associação Comercial de São Paulo, próximo ao Pateo do Collegio.

 

Era apaixonada por um funcionário da área de marketing. Ele era lindo.

 

Acontece que após alguns meses almoçamos juntos e fomos passear na região.

 

Sentamos em um banco dentro do Pateo do Collegio, ali onde São Paulo foi criada.

 

Naquele cenário histórico, ele me beijou.

 

Eu fiquei em êxtase, não lembrava de nada, não via mais nada, não sentia mais nada, além daquele beijo.

 

Foi, então, que uma mão cutucou meu ombro. Era o coroinha a mando do Padre que eu sequer sabia que vivia ali.

 

Mandou a gente circular para a minha total vergonha.

 

Fiquei super vermelha, constrangida ….

 

Mas quer saber: foi um momento único.

 

O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar aos sábados, no CBN SP, tem sonorização do Cláudio Antonio e narração de Mílton Jung

Conte Sua História de SP: apesar dos nocivos predadores

 

 

Por Alceu Sebastião Costa
Ouvinte da CBN

 

Apesar dos nocivos predadores,
Dos contumazes agressores,
Dos impunes malfeitores,
Dos passivos moradores,
Dos narcisos sonhadores,
Dos chacais aproveitadores,
Sampa não perde o encanto,
Sua alegria supera o pranto.

 

Solidária e hospitaleira,
Postura de metrópole altaneira,
Dignificada pelo Amor da maioria,
Sedutora no compasso da magia,
Seu viço, sua história, sua verdade,
São Paulo, minha acolhedora Cidade,
Meu grito no infinito não é solitário,
Parabéns por mais este aniversário!

 

462 anos entre a paz e a turbulência,
Saldo positivo no filtro da indulgência.

 

O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar, no CBN SP, aos sábados, logo após às 10h30 da manhã, tem narração de Mílton Jung e sonorização de Cláudio Antonio

 

Conte Sua História de SP: os beijos de despedida na estação Vila Mariana

 

Por Dalva Rodrigues 
Ouvinte da Rádio CBN

 

 

Meu amor por São Paulo é caso antigo, desde que nasci, no bairro do Ipiranga, pertinho do museu, no comecinho dos anos 60. Minha rua , a Aracatu, na Vila Liviero, era de terra, vizinhança pequena, muitos terrenos vazios, campinhos e matas para as crianças explorarem com as mais diversas brincadeiras.

 

Como era gostoso conversar nas noites de céu limpo e estrelado…Histórias de ETs e papos que não acabavam mais (até uma das mães gritar que já passara muito da hora de entrar).

 

Nas noites frias de inverno, mal enxergávamos quem estava ao lado, de tão intenso era o nevoeiro. Voltar da casa da vizinha que tinha televisão, depois de assistir ao cine mistério – aos filmes de terror – era um ato de coragem: rapidíssimo, pernas para que te quero!

 

E no dia seguinte acordava com os galos cantando, o apito das fábricas chamando os operários que sumiam na rua, envoltos em neblina e garoa.

 

Meu primeiro amor de infância era irmão de meu amigo. Numa noite quente, na brincadeira ‘beijo, abraço ou aperto de mão’ ele escolheu: ‘beijo’, mas quando abriu os olhos e me viu, só quis mesmo me dar a mão… Bem me quer, mal me quer…Minha primeira desilusão. Um dia a família se mudou, perdi o amigo e o amor que ainda viveria muito tempo, só em meu coração.

 

Já moça, meus pais separados, fui morar em Vila Mariana, depois passei uns tempos no interior com meu pai, gostei da cidade, mas minha maior alegria era quando, chegando em São Paulo, subindo as escadas rolantes da estação República do Metrô, via minha cidade surgindo, linda, imponente…Como é bom voltar para casa, para nossa cidade!

 

Vivi um grande amor nesses tempos, amor que mais uma vez, mesmo sendo correspondido, não era meu. Um dia nos despedimos na véspera de Natal, na esquina da São João, em frente ao Largo do Paissandú. Foi o beijo mais romântico de minha vida…e o mais triste… Eu ali parada … ele atravessava a avenida. E enquanto as lágrimas desciam, soube que era próximo o fim. Até hoje sempre que passo por lá me lembro da cena.

 

Tempos depois me apaixonei novamente. Como eram bons os beijos de despedida na estação Vila Mariana,  quase todo dia. A suntuosa sala de espera do Cine Ipiranga foi palco de uma cena hilária quando quase saí no “braço” com uma menina que vendia balas, que ousadamente me ignorou e pegava no braço do meu noivo insistindo na venda… Esse episódio quase rendeu o fim do romance, mas superamos e nos casamos.

 

Hoje, moro na zona leste e os amores se foram…Acho que meu tempo já passou, tenho boas memórias, mas o amor por São Paulo…Esse não passa nunca!

 

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Conte Sua História de SP: o passeio com meu filho ao centro da cidade

 

Por Mario de Salles Oliveira Malta Junior
Ouvinte da Rádio CBN

 

 

Na semana passada, meu filho João Pedro me pediu para tirar o título de eleitor, uma vez que completou 16 anos recentemente. Ao invés de simplesmente orientá-lo em direção ao Centro da cidade, decidi acompanhá-lo. Talvez por intuição de minha parte, senti que poderia ser um revival de meus 4, 8 ou 16 anos de idade, rumo retroativo a 1955 em diante.

 

O ônibus articulado nos deixou atrás da Catedral, onde antes eu descia do CMTC da Linha 16, que ia da Rua Machado de Assis à Rua Cardoso de Almeida. Dependendo da direção que seguia, o trolebus assim se chamava. Quando eu o tomava, descia justamente na Praça João Mendes ou no Instituto de Educação Caetano de Campos, situado mais adiante na Praça da República. Mas essas são histórias para outras oportunidades…!

 

Contei ao João que as lojas de artigos para umbanda e, acima delas, o Bilhar do Seu Martins, sempre chamaram minha atenção, me impressionavam. Se fisicamente não mais estão ali na esquina com a Quintino Bocaiúva, ao menos na minha memória permanecem. Como também estão registrados os odores sentidos por milhares de transeuntes que iam e vinham por ali. Do Bilhar, os odores eram de frituras, pedidas pelos frequentadores. Imagino: será que “Carne Frita” veio desse local? Com Rui Chapéu, foi um dos maiores.

 

Nossa caminhada nos levou ao Largo da Misericórdia, que leva consigo minhas mais profundas recordações. Ali, no 12o. andar de um prédio ainda muito estiloso, acompanhava o bisavô e o avô do João Pedro ao trabalho. Aliás, ouvia deles a frase “…vamos trabalhar…” e assim me julgava fazendo durante toda a manhã quando lá ficava. Tenho aqui em casa a máquina de escrever, o furador de papéis, grampeador da época. Para mim, verdadeiras relíquias.

 

Decidi dar uma parada mais longa ao redor da Praça do Patriarca. Contei ao João rápidas passagens sobre a Casa São Nicolau, que era o point do Natal e mostrava na vitrine brinquedos inconquistáveis para a maioria. Bastava vê-los e imaginá-los em casa…!

 

Também lhe mostrei que, nessa ou naquela janela, funcionava o consultório do Dr. Dácio, meu pediatra. Profissional competente e simpático, que uma vez me diagnosticou com anemia e me mandou para Poços de Caldas, alimentado basicamente com fígado na chapa e no liquidificador!

 

Fui então com o João ali quase na esquina com a São Bento: e a Casa Califórnia, como não mostrá-la a ele? Ainda está lá, desde 1920 ou ao redor disso. E os lanches, muitos são basicamente iguais. Dei a saída nos pedidos: sanduíche de calabresa com suco de laranja, pois era isto que sempre peço por lá desde 1954. E o João, para não contrariar a mim nem ao bisavô nem ao avô, adivinhem o que pediu???

 

Enfim, fomos em direção ao que viemos. Atendimento excelente no posto do TRE, rápido e cortês. Mais incrível para mim, o João Pedro gostou das histórias, disse querer voltar ao Centro com mais calma, levando o irmão mais novo conosco. Também me pergunto: será pelas histórias de São Paulo ou pelo sabor dos sanduíches?

 

Quero crer que seja pelos 2 motivos!!!

 

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