Conte Sua História de SP: a revolução nas minhas aulas de taquigrafia

 

Por Neide de Souza Praça
Ouvinte-internauta

 

Ouça este texto que foi ao ar na CBN, sonorizado pelo Cláudio Antonio

 

Há algumas semanas ouvi de uma participante deste quadro que, em 1968, ela presenciou as manifestações estudantis que dominaram o país naquele período. Ao contrário dela, não tive a oportunidade de ver o presidente da UNE, mas também tenho recordações daquele tempo.

 

Nasci em São Paulo na década de 1950. Em 1968, cursava o quarto ano do ginásio (atual oitava série do ensino fundamental), e morava em Itaquera, bairro do subúrbio do município de São Paulo. Na época, o bairro era servido por trens da Central do Brasil, que precedeu a CPTM. Eram trens que, partindo da estação Roosevelt, no bairro do Brás, chegavam à cidade de Mogi das Cruzes. Itaquera ficava no meio deste trajeto, a trinta minutos do Brás. Outro meio de transporte eram os ônibus que ligavam o subúrbio ao centro da cidade transitando pela Avenida Celso Garcia, como rota principal, já congestionada. Os carros ainda eram bens de poucos.

 

Com o propósito de me preparar para o futuro, frequentava o ginásio pela manhã, no mesmo bairro onde residia, e às terças e quintas-feiras, juntamente com uma colega, fazia um curso de taquigrafia, cuja escola situava-se à Rua Riachuelo, no centro da cidade. Para chegarmos até ela, íamos de trem até o Brás, e depois pegávamos um ônibus até a região central, num percurso total de aproximadamente uma hora e meia. A Rua Riachuelo se localiza exatamente atrás da Faculdade de Direito da USP, no Largo São Francisco. As aulas terminavam em torno de cinco da tarde, horário difícil para o retorno à Itaquera. Na época, meu pai era motorista em uma empresa que permitia que ele levasse para casa o carro que dirigia, de modo a facilitar seu acesso. Só que seu dia de trabalho se encerrava às sete da noite. Portanto, às terças e quintas, eu e minha colega esperávamos por ele para nos levar para casa. No intervalo entre o final da aula e a “carona”, passeávamos pelo centro da cidade visitando as lojas da Rua Direita, Rua José Bonifácio, Rua São Bento. Toda semana, calmamente, olhávamos as mesmas vitrines até que meu pai nos pegava em um determinado ponto na Rua Boa Vista.

 

Quando nosso curso de taquigrafia estava próximo do final, começaram as manifestações. Estávamos em sala de aula e ouvíamos os estrondos das bombas disparadas pelos militares contra os estudantes que se reuniam no Largo São Francisco. Os estrondos eram tão altos que pareciam que ocorriam na sala ao lado. O medo tomava conta dos alunos que teriam de sair às ruas após o término da aula, correndo o risco de se ver em meio ao tumulto. O que fazer para esperar pela carona de meu pai, por duas horas, em um clima tão hostil?

 

Tínhamos conhecimento do que estava ocorrendo, porém, ainda adolescentes, não dimensionávamos a situação. Ao sair às ruas, por várias vezes nos deparávamos com jovens correndo em várias direções e quase sempre havia muita fumaça. Não me lembro se as lojas fechavam as portas, provavelmente sim, mas não seriam lugar seguro.
Neste contexto, quando a aula terminava, eu e minha colega, rapidamente nos esgueirávamos pelas ruas menos tumultuadas e nos escondíamos no local que nos parecia o mais apropriado, pois o julgávamos livre de invasão: a Igreja de São Bento, no Largo São Bento, próximo à Rua Boa Vista onde às 19 horas meu pai nos apanharia.
Lembro-me que o interior da igreja era escuro, silencioso e sombrio, mas nos fazia sentir seguras. Ficávamos lá, de onde, por vezes, ouvíamos gritos e estrondos pelas ruas da região. Quando os grupos eram dispersos, saíamos de nosso refúgio, embora temêssemos ser abordadas pelos militares, ou cair no meio de novo conflito, que a cada semana se intensificava. Quando escurecia, o medo era ainda maior. Enfim, o curso terminou e voltamos ao nosso cotidiano em Itaquera, distantes das manifestações.
Foi dessa maneira que conheci a Igreja de São Bento. Hoje sei que ela é um marco da história da cidade.

 

O curso de taquigrafia valeu para eu captar com maior rapidez o conteúdo dos cursos que frequentei, mas por outro lado, me levou a ser um ator daquele momento histórico inesquecível do país.

 

Neide de Souza Praça é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade. Escreva para milton@cbn.com.br. Ou agende uma entrevista, em áudio e vídeo, no Museu da Pessoa. Para ouvir outras histórias de São Paulo vá no blog, o Blog do Mílton Jung

Conte Sua História de SP: a gaita de fole paulistana

 

Por Cybele Meyer
Ouvinte-internauta da CBN

 

Nasci em São Paulo por opção própria.
Achou estranho?
Então vou lhe contar como tudo aconteceu:

 

Meus avós maternos vinham frequentemente a São Paulo na década de 50. Meu avô tinha fazenda de café em Martinópolis e vinha negociar em São Paulo. Habitualmente, ficava no Hotel Fasano com minha avó que não perdia uma única oportunidade de desfrutar das iguarias servidas no restaurante do hotel. Como sua vinda ficava cada vez mais habitual resolveu comprar um apartamento em São Paulo, na Rua Augusta, para que pudessem, inclusive, receber visitas com mais liberdade.

 

Ouça este texto que foi ao ar no Conte Sua História de Sp da CBN e sonorizado pelo Cláudio Antonio

 

Minha mãe, que já era casada nesta época e morava em Mandaguari, no norte do Paraná, sempre, ao saber que minha avó estava em São Paulo, vinha visitá-la e aproveitava para passear sob a garoa das tardes paulistanas. Sua loja preferida era a Sears, na Paulista, que tinha como lema “satisfação garantida ou seu dinheiro de volta”, uma das primeiras iniciativas de marketing. Adorava andar de bonde e aproveitava que o bonde 5 passava pela Bela Vista, bem em frente ao prédio de três andares da minha avó.

 

Em fevereiro de 1955, minha mãe grávida de mim de oito mês, veio passar o Carnaval em São Paulo. Apesar do meu nascimento estar previsto para março, não desperdicei a oportunidade e às 2h05 do dia 16 de fevereiro, terça-feira de Carnaval, na casa da minha avó, na esquina da Rua Augusta com a Dona Antônia de Queiroz, eu nasci não dando tempo nem da minha mãe ir para o hospital.

 

Por isso digo que sou paulistana por opção.

 

Quando tinha 4 anos meus pais se mudaram para Santos e todos os fins de semana íamos para São Paulo passear. Nosso lugar preferido era o Ginásio do Ibirapuera, pois sempre tinha grandes atrações. Íamos na UD – Utilidades Domésticas, Salão do Automóvel, Salão da Criança. Assisti a inúmeras apresentações do Holiday on Ice, Circo de Moscou, Disney on Parade e outros.
Quando não havia nenhum show novo íamos ao Comodoro Cinerama, na Rua São João, pois o filme era projetado em uma tela com uma enorme curvatura  e trazia em destaque ao lado do título a referência – “formato 70 mm”. Devido ao meu tamanho pequeno tinha a impressão de estar participando das cenas. Era o máximo! 

 

Eu estudava no Colégio “Imaculado Coração de Maria” em Santos e tocava na banda da escola. Em 1970 o colégio comprou oito gaitas de fole também conhecidas por gaitas escocesas e eu fui uma das que optaram por este instrumento. Para nos ensinar a tocar veio a Santos o sargento Fernando Werneck Teixeira, do corpo de Fuzileiros Navais do Rio de Janeiro. No ano seguinte, em 24 de outubro, o Colégio participou do Concurso Nacional de Bandas e Fanfarras, em São Paulo. Desci o Vale do Anhangabaú tocando Asa Branca e, na sequência, o Hino da Escócia. Concorremos com 104 bandas e fomos campeãs. Assistindo estava o governador Laudo Natel que anunciou o Colégio Coração de Maria campeão nacional de 1971, e nos entregou o troféu Comendador Siqueira. Ao retornarmos a Santos desfilamos pelas avenidas da praia em um caminhão do Corpo de Bombeiros.  O colégio ainda ganhou o diploma de “Amigos da Marinha de Guerra do Brasil.”. Pura honra e emoção!

 

Hoje, sou educadora e moro em Indaiatuba, há 90 km de São Paulo. Não há uma só semana que não esteja na cidade participando de eventos, feiras, simpósios, reuniões, Congressos ou mesmo encontrando amigos queridos que moram na capital, nos reunindo nos  inúmeros barzinhos, restaurantes ou casas de chás. Também não perco os espetáculos teatrais, exposições, Mostras e shows que São Paulo oferece.

 

Assim como São Paulo não para nunca, eu, como exemplar paulistana, compartilho do mesmo bordão, pois estou em constante movimento.

 


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Conte Sua História de SP: Que bela cidade preguiçosa

 

Por Marcel Crespin
Ouvinte-internauta

 

Ouça este texto que foi sonorizado pelo Cláudio Antonio

 

Hoje a cidade acordou preguiçosa

 

Hoje, dois de janeiro de dois mil e treze, a cidade acordou preguiçosa. Nem o sol ousou levantar. O céu cinzento, desde cedo, anunciava um dia lento em São Paulo. Acostumada ao trânsito que consome horas do cotidiano paulistano, a cidade estava lenta, o trânsito não. Quase não havia carros na rua. O trajeto que levo, em média, mais de uma hora para percorrer, não levou sequer 20 minutos para ser percorrido.

 

Quem dera fosse esse o ritmo da cidade. Não o da produção das indústrias ou o da intelectual, não o dos espetáculos culturais, nem o do comércio pungente, não o da educação ou o das feiras livres, nem tampouco o dos anunciantes ou o das agências de propaganda, mas da vida, que muitas vezes deixamos de saborear como deveria ser feito, por conta da correria insana do dia a dia.

 

A lassidão do primeiro dia útil do ano podia ser notada em tudo o que se via por aí. As poucas pessoas que andavam a passos lentos pelas ruas, bocejavam preguiçosamente e se espreguiçavam como quem acaba de levantar da cama. As faixas de pedestres surpreendentemente vazias das ruas e avenidas mais movimentadas da cidade, ilustravam que de útil o dia só tinha o nome. Ou quase isso.

 

Ao entrar na garagem, as inúmeras vagas disponíveis antecipavam o movimento praticamente inexistente de pessoas no luxuoso edifício da marginal Pinheiros. Subi sozinho no elevador que me conduziu ao térreo, onde fiz a baldeação para o outro elevador que me levaria até meu destino final.

 

Normalmente coalhado de pessoas indo e vindo, o andar térreo do edifício dessa vez estava completamente vazio. Nem mesmo o balcão da recepção tinha todas as moças que tradicionalmente atendem as intermináveis filas de visitantes. Ao invés de várias, apenas uma estava lá, lixando entediada e cuidadosamente as unhas. Passei pela catraca estranhamente sem fazer fila e lá estavam todos os elevadores me esperando para um confortável passeio até o décimo segundo andar.

 

Ao ter as portas do elevador fechadas, notei que uma televisão dava notícias exclusivamente para mim. Aquela televisão, presença cada vez mais comum nos elevadores, que via de regra traz as últimas notícias e anuncia de forma masoquista a quilometragem caótica do trânsito paulistano, hoje trazia as primeiras notícias do ano e anunciava os inacreditáveis oito quilômetros de congestionamento em toda a cidade.

 

Ao ver as portas do elevador se abrindo novamente, sem fazer sequer uma escala em outro andar, pude ver muito pouco. O corredor do décimo segundo andar era todo meu. Nem uma pessoa dividia aquele espaço comigo. Pude ouvir meus passos me conduzindo, apenas intercalados pelo som da minha própria respiração. Pelo caminho, as luzes apagadas dos escritórios vizinhos, tradicionalmente acesas até tarde da noite, manchavam de escuro o piso claro do corredor que iluminava nada, nem ninguém.

 

Ao chegar, me senti aliviado por encontrar vida alheia. Poucas, bem poucas, mas lá estavam alguns heróis da resistência.

 

Como sempre faço ao chegar de manhã, fui à minha sala, me ajeitei na cadeira e abri meu computador para checar meus emails. Apenas para desencargo de consciência, uma vez que já havia checado inúmeras vezes antes de sair de casa e pelo caminho, dessa vez percorrido muito rapidamente, se comparado a um dia normal.

 

Com a preguiça de um domingo de manhã, minha caixa de entrada me ajudou a perceber logo que a letargia das ruas não havia invadido apenas esse edifício da marginal Pinheiros, mas muito provavelmente tantos outros dessa cidade, que em plena quarta-feira nos dava a nítida certeza de que o mundo não havia acabado, conforme anunciado, mas que também o ano ainda não havia começado.

 

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Conte Sua História de SP: sou filho seu também

 

Por Sebastiao Mendes Lages

 

Ouça esta poesia sonorizada por Cláudio Antônio

 

Vindo de terras distantes, alterosas
De um chão fértil e pedras preciosas
Para encontrar o louro da conquista
Um peregrino que a sorte arrisca
Sem pensar nunca, em ser oportunista
Nascer mineiro e depois virar paulista.

 

Do prédio, no chão a sombra vaporosa
O apressado caminhante em rua sinuosa
Atento a luz do semáforo quando pisca
O gari, o boy, o padre, o missivista
A multidão correndo, atravessando a pista
Só um sábio, esta cidade linda administra.

 

É do trabalho, a mão laboriosa
Desta terra assás, prodigiosa
Que o imigrante agrega de longa vista
A boa vinda, a saga otimista
Feliz quem mora aqui, ou é turista
Mas é comum, gostar de ser paulista.

 

Escrevi um livro, em curta prosa
Plantei arbusto, floriu, terra chuvosa
Uma família, uma casa, sou ativista
Sua guarida, agradeço, terra bendita
Seu fardo é doce, a destra pacifista
Sou filho seu também, ah… sou paulista.

 

Conte Sua História de SP: na fila para comprar passagem de trem (ou TIM)

 

Por Douglas Rufatto

 

Ouça aqui o texto que foi sonorizado pelo Cláudio Antonio

 

Depois de criança, minha primeira chegada a São Paulo foi engraçada. No interior de Santa Catarina me formei advogado. Logo procurei conhecer Goiás com ideia fixa de ficar rico, comprar fazenda, criar gado. Que esperança! Depois de visitar cidades que cresciam não sei quanto por ano, parei em Rio Verde, não mais que três dias, suficientes para desistir de toda aquela ideia e voltar para Santa Catarina com a humildade que aquela idade não quer aceitar. Entendi que onde o povo prospera o advogado vai mal. O advogado não prospera onde a prosperidade faz ninho. Advogado vai bem onde impera o problema. Onde impera a falência e a desgraça alheia. É essa a verdade. Não é outra a realidade da profissão. Mas para não perder o foco, volto a São Paulo.

 

Contava que saí de Rio Verde de ônibus e cheguei pelo terminal da Barra Funda, chegada de quem vem do norte. Minhas instruções eram boas, mas só para quem vem do sul, e chega pelo Tiete. Por sorte, o sertanejo que tem boca e um pouco de coragem, obtém, lá mesmo na rodoviária, um papelzinho explicando como tomar o metro e em que direção seguir. Tomei o pequeno mapa e fui logo à fila, tencionava comprar a passagem do trem. Acho que fiquei uma hora esperando minha vez. A fila era grande e eu, fazendo cara de macho, esperando a chamada, com o dinheiro dividido entre o bolso e a meia, sem olhar para o lado. Depois daquela espera, com a perna cansada de ficar em pé, já com a perna curada de ter ficado sentando uma noite e um dia, pedi à moça que me desse passagens do metro. Arrumando as notas que recebera do cliente anterior, sem me dirigir o olhar, disse apenas: “senhor, aqui não vendo passagem do trem. E indicando com o dedo, para cima, como quem mostra a lua, mostrou-me uma placa gigante que dizia: “RECARGA TIM”.

 

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Conte Sua História de SP: o médico da Freguesia do Ó

 

Por Luís Augusto do Prado
Ouvinte-internauta

 

Ouça esta história que foi ao ar na CBN, sonorizada pelo Cláudio Antonio

 

A história de São Paulo que quero contar não é minha, e como dois dos personagens já são falecidos, o outro não conheço, fico à vontade e omito os nomes.

 

Aconteceu no início dos anos 1980.

 

O tio do meu pai era um homem dinâmico, nasceu em 1900, foi um dos fundadores do sindicato de sua categoria, andava muito a pé, morava na rua Itapeva, ia e voltava ao trabalho na Santa Cecília, às vezes ia em casa ou na da minha tia, ambas na Freguesia do Ó, sempre a pé. Recuperou-se de derrames com fisioterapia caseira, ele mesmo fez “instalações” para isso. Por isso sempre teve físico bom.

 

Uma noite, só com a esposa em casa, ele caiu no banheiro.  Como ela não tinha força para levantá-lo, não pensou duas vezes, foi à rua e pediu ajuda ao primeiro homem que passou. Esse, gentilmente, atendeu ao pedido, ajudou a colocar na cama, aguardou que ela fizesse curativos, conversou um pouco com eles e não esperou nem por um cafezinho.

 

No dia seguinte, toca a campainha. A tia foi ver quem era, não tinha a visão muito boa e não reconheceu a visita. Foi até o portão. Continuou não reconhecendo quem era. Então o homem perguntou pelo marido dela e se identificou dizendo que ele é quem tinha ajudado na véspera. Ela fez com que entrasse e logo o homem foi ver o Tio. Conversou com eles e se apresentou: era médico e acabara de fazer seu plantão no hospital Umberto Primo, que ficava próximo.  A tia questionou porque na noite anterior não se identificara e ajudou a fazer os curativos. O doutor respondeu que ela os fez muito bem e que viu que o Tio estava bem, batimento cardíaco, temperatura, bem orientado. 

 

Isso foi há 30 anos,

 

Já hoje…. é uma outra história.
 

 

Luís Augusto do Prado é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade. Escreva para milton@cbn.com.br. Ou agende uma entrevisa, em áudio e vídeo, no Museu da Pessoa. Para ouvir outras histórias de São Paulo vá no blog, o Blog do Mílton Jung

Conte Sua História de SP: o mundo está aqui

 

Por Esmeralda Marcato
Ouvinte-internauta

 

Ouça o texto que foi ao ar na CBN, sonorizado pelo Cláudio Antonio

 

Ah! falar ou escrever sobre a cidade de São Paulo, é muito fácil, porque vivi momentos mágicos, como ver todas as noites o céu estrelados com trilhões de estrelas brilhantes que iluminavam toda a cidade. Havia festas nos clubes; cinemas em todos os bairros; as ruas eram enfeitadas para comemoramos as festas juninas, o Carnaval, o Natal; enfim, as amizades eram as mais ricas e cristalinas. As crianças brincavam o dia inteiro na rua, tinham toda a liberdade e corriam alegremente. Brincavam de mãe da lata, bolinha de gude, bola de meia, pega-pega, pique, esconde e esconde, perna de pau, pipas. E à noite as crianças se encontravam para conversar e trocar ideias, e rir muito com piadas e histórias que inventavam.

 

Com o tempo tudo isso mudou. O céu perdeu suas estrelas, as crianças, a magia de brincar, as ruas ficaram desertas, os cinemas fecharam, os clubes não existem mais, os enfeites das ruas desapareceram no tempo e no espaço, as amizades são muito superficiais, nada dura. Que pena! O progresso veio e eliminou toda a beleza e a riqueza desta gigante e majestosa cidade de São Paulo. Mas continuo admirando-a e a amando a cada segundo, porque “Ela” é única, e sendo assim, posso declarar o meu eterno amor, o meu carinho à toda a população. Porque “Ela” abraça e recebe todas as pessoas do Brasil, da America Latina, Europa, Ásia, o mundo inteiro está representado nesta grande cidade. Parabéns São Paulo. Milhões de felicidades para você. E que cada pessoa possa renascer um pouco desta linda e bela magia que foi São Paulo, principalmente no tocante as amizades e a união das famílias. Conto com todos vocês. Amem essa cidade com a alma e o coração, diariamente.

 

Esmeralda Marcato é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade. Escreva para milton@cbn.com.br. Ou agende uma entrevisa, em áudio e vídeo, no Museu da Pessoa. Para ouvir outras histórias de São Paulo vá no blog, o Blog do Mílton Jung

Conte Sua História de SP: amor pela Vila Nova Cachoeirinha

 


Por Alecir Macedo
Ouvinte da CBN e do Adote Um Vereador

 

Ouça aqui esta história sonorizada pelo Cláudio Antonio

 



Minha história em São Paulo teve início em meados de novembro de 1978. 
Em dificuldades financeiras, com 20 anos, recém-casado e 
filho de quatro meses, morando em cidade pequena com empregos escassos, 
resolvi tentar a sorte na cidade grande como tantos outras pessoas 
recebidas por aqui com os braços abertos. A esposa e o filho ficaram na 
casa de minha mãe.

 

Sem nenhum conhecimento, apenas um convite de um cunhado que conhecera 
alguns meses atrás, em visita a minha sogra, para que viesse tentar a 
sorte por aqui. Como referência apenas uma orientação: pega o ônibus na 
praça Princesa Isabel com destino ao Jardim Peri. Pede ao cobrador que 
lhe avise quando chegar perto da maternidade Vila Nova Cachoeirinha, 
disse ele. Desça e atravesse a avenida, vá a um bar na esquina e 
procure por mim. Caso não encontre ninguém no bar, atravesse uma avenida nova e larga que acabaram de construir (era a Inajar de Souza) e procure uma casa verde no 
alto de um barranco. É a quarta casa.

 

Usei a segunda opção pois era por volta das seis da manhã e o bar estava fechado, Encontrei a casa que ficava na divisa com a favela da Divinéia e lá morei com ele por uns seis meses junto com sua família – a esposa e quatro filhos. Era uma casa de três cômodos.

 

Encontrei meu primeiro emprego na  capital paulista, como auxiliar de 
Depto. Pessoal, em uma transportadora na Av. dos Emissários – hoje 
Marques de São Vicente- e lá trabalhei por 12 anos chegando a Gerente de 
Filial. Sofri muito com as enchentes que persistem até hoje por lá.
Mas quero mesmo é falar do orgulho que tenho em morar na Vila Nova 
Cachoeirinha, por 35 anos, lugar onde sem ter a mínima ideia de onde 
estava me metendo me acolheu. Por aqui acompanhei o desenvolvimento do 
bairro e, aquela avenida larga recém-construída (ainda existia a 
cahoeirinha que deu nome ao bairro) foi avançando e hoje chega ao Jd. 
Vista Alegre no extremo norte da periferia. Na parte mais alta do 
bairro, olhava em direção ao Bairro do Limão e só lá enxergava os 
primeiros prédios que estavam sendo construídos na altura do nº 1200 da 
Deputado Emilio Carlos.

 

Hoje os arranha-céus estão por toda a região, mudou a paisagem mas continua morando por aqui aquela gente simples e carente lutando a seu modo pelo pão de cada dia. Falta muita coisa para chegar ao lugar ideal, mas tenho 
muito orgulho daqui, e faço minha parte tentando ajudar na melhoria 
das condições de vida na região, missão quase impossível.

 

De uma coisa tenho certeza: amo a Vila Nova Cachoeirinha e São Paulo que 
com carinho soube me acolher e dar condições para que eu continuasse por 
aqui todos estes anos.

 


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Conte Sua História de SP: dos tempos da Vila Medeiros

 

Por Odnides Pereira
Ouvinte-internauta da CBN

 

Ouça esta história que foi ao ar no CBN SP, sonorizada pelo Claudio Antonio

 

Minha história com São Paulo começou quando em 21 de abril de 1959, nasci na maternidade de Vila Maria, meus pais moravam em um cortiço no bairro de Vista Alegre, já tinha um irmão de dois anos. Depois eles comparam um terreno na Vila Medeiros na divisa com a Vila Sabrina (todos esses bairros estão na zona norte), onde construíram nossa casa existente até hoje. Naquela época parecia não haver tanto perigo, tanto que minha mãe percebendo que choveria pediu que eu levasse um guarda-chuva para meu irmão que estava na escola de madeira (Escola Estadual Enéas de Carvalho Aguiar) onde estudava o primeiro ano primário. Bati na porta, a professora abriu, em um primeiro momento não me viu, eu tinha cinco anos. Depois pediu para meu irmão avisar minha mãe para não repetir essa façanha, pois eu poderia me perder.

 

Minha infância foi jogar bola, brincar de “manda rua”, esconde-esconde, raqueta ou taco, estreação de nova cela, bolinha de gude, pega-pega, entre outras brincadeiras sempre na rua que não era asfaltada. Quando chovia muito, além de jogarmos bola na chuva, e dava enchente por não existir as galerias de água, meus amigos e eu, entrávamos na correnteza no início da rua e só parávamos no final dela.

 

Onde hoje é o Jardim Guançã era o nosso Varjão, existiam por volta de dez campos de futebol de várzea. Aos domingos, assistíamos aos jogos. Como os campos eram muito perto um dos outros muitas vezes a bola de um jogo caprichosamente caía no campo do outro, mas nada disso atrapalhava ninguém. No caminho para o Vajão, existiam lagoas, pescávamos os pequenos lambaris. Era muito divertido.

 

Estudei o primário na escola de mesmo nome que meu irmão estudou, e já era de tijolo recém-reconstruída. Tive que fazer o exame de admissão e fui estudar o ginásio no Primeiro Colégio Estadual de Vila Medeiros. Às vezes tinha que correr da gangue da Turma do Coqueiro. Fiz a primeira comunhão na Igreja Nossa Senhora do Loreto também na Vila Medeiros.

 

Tinham os “bailinhos na garagem” com muito samba-rock, regado por Jacson Five, Billy Paul, Barry White e até Pink Floyd. Dançávamos até tarde ou seja onze e meia da noite.

 

Fiz o curso técnico de eletrônica, na Oswaldo Cruz – Paes Lemes, que era o colégio técnico, onde se fazia o colegial, também. O curso superior de Marketing, foi na faculdade IBTA.

 

Casei-me tenho um filho e um neto, sou aposentado, tenho uma chácara em Itu, mas continuo a morar na zona norte agora no Bairro do Mandaqui. Já pensei em mudar para a chácara, mas minha esposa não quer sair dessa nossa capital, que apesar da correria, trânsito, entre outras coisas, não conseguimos nos afastas de tudo isso, impregnou no nosso sangue! Adoramos São Paulo.

 

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Conte Sua História de São Paulo: a cidade das revistas

 

PorJúnia Lopez
Ouvinte-internauta da CBN

 

Ouça este texto que foi ao ar na CBN, sonorizado pelo Cláudio Antonio

 

Quando era pequena, morava na região central do país. Lá naquelas terras longínquas onde muitos sulinos na ignorância acreditam ser terra de índios e feras. Naquela época os índios já haviam sido extintos e as feras quase totalmente.  Isso foi por volta dos anos 1980, quando ainda vivíamos às sombras da ditadura militar. Os meios de comunicação eram precários, nem todas casas tinham um televisor e mesmo assim sobressaíasse à censura.

 

Mas uma coisa  lembro-me com clareza. Semanalmente, a revista Veja chegava com as principais notícias do país e do mundo. Raramente uma matéria sobre as regiões menos povoadas como o estado de Goiás. Era a melhor revista que recebíamos. E  sempre trazia propagandas sobre lojas que não existiam por lá ou marcas que não vendiam em nosso comércio. Nossa cultura era outra e bem menos consumista.  Esta época não era de globalização.

 

Quase três décadas após,  uma história de amor trouxe-me  à capital paulista  e , meses depois,  a São Paulo das revistas tornou-se a minha rua, a minha casa, o meu bairro  Higienópolis. Tudo aquilo que parecia longe à minha imaginação infantil, está há poucas quadras, há poucas ruas ou há poucos “minutos”  como os paulistanos costumam dizer.

 

Quando saio nas ruas de meu bairro, começo  reviver cada imagem que na minha infância era apenas coisa de  revista.  E cada semana quando as revistas chegam,  ponho-me a analisar cada foto, cada reportagem e fico a pensar quantas pessoas conhecem a grande metrópole apenas pelas revistas.

 


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