Conte Sua História de SP: Um índio na Capital

 

Yaguarê YamãA vida na natureza e no centro urbano se misturam nas histórias contadas por Yaguarê Yamã, nascido na aldeia Yàbetué, na cidade de Nova Olinda do Norte, em Paraná do Urariá, no Amazonas.

Índio Maraguá passou sua infância no norte do País, chegando em São Paulo apenas quando já havia concluído o período escolar. Chegou para estudar, fez Geografia, escreveu livros, contou histórias para crianças e casou.

No depoimento gravado ao Museu da Pessoa, para o Conte Sua História de São Paulo, Yagaré fala das lições de criança e como aprendeu a desenhar usando uma espinha de peixe. Da cidade grande, reclamou do frio e da solidão, mas, por contraditório que pareça, foi aqui na capital que descobriu seu amor – uma descoberta que ainda causa espanto aos seus amigos da aldeia.

Ouça trechos do depoimento de Yagaré Yamã no Conte Sua História de São Paulo, sonorizado por Cláudio Antônio<

Você também pode registrar a sua história, grave seu depoimento no Museu da Pessoa. Agende uma entrevista pelo telefone 2144-7150 ou entre no site do Museu da Pessoa .

Conte Sua História de São Paulo: sentimental do tempo

 

Por Frank de Oliveira
Ouvinte-internauta do CBN SP

 

Ouça o texto de Franklin de Oliveira, sonorizado por Claudio Antonio

 

Para muitos, eu era ali um transeunte apenas, a disputar um espaço. Para esses muitos, tudo era apenas a metrópole pulsando ao cair da tarde. Para mim, era um mundo de lembranças, emoções e sentimentos. Quando parei o carro próximo à estação Marechal do metrô, tratava-se de uma providência prática. Por que insistir no trânsito até chegar ao centro da cidade, se o metrô era bem mais rápido? Mas a minha perdição foi desistir também do metrô e decidir ir a pé. Daí, o inevitável aconteceu: à minha revelia, as emoções me abraçaram, resultado das lembranças que emergiam pelas ruas por onde passava. Uma jornada psicossentimental por aquela região, mágica, que tinha em suas veias uma notável dicotomia – o chique de Higienópolis, ali tão perto, e a autenticidade dos Campos Elísios, que assumiam, impávidos, descontraídos até, a própria degradação, sem saudades do tempo em que eram o bairro mais badalado de São Paulo.

 

E foi por ali, no rumo das lembranças, que começou minha viagem no tempo. Ali, na rua Vitorino Carmilo, numa casa com tijolos aparentes, pertencente a uma vila inglesa, que por si já espelhava o passado.

 

Nessa casa, trabalhei no início deste século na edição de uma enciclopédia. Paralelamente, em casa minha, lia a biografia de Tarsila do Amaral escrita por sua sobrinha Tarsilinha, um mergulho na Belle Époque brasileira, com cenas que aconteciam ali bem próximo, na rua onde Tarsila tinha morado com Anita Malfatti, na casa de Mário de Andrade ou na de Dona Yolanda Penteado…

 

Histórias como aquela segundo a qual Mário comprava todas as flores da feira e mandava entregar na casa das meninas pintoras. Quando eu saía para o almoço, ficava imaginando que aqueles construtores de sonhos tinham andado um dia naquelas mesmas ruas, quem sabe com um poema ou um quadro a se formar na alma e na mente…

 

Da Vitorino para a rua Martim Francisco. Um espaço de alguns quarteirões, mas também um salto de muitos anos na minha vida. Um salto até a minha juventude em seus anos mais bonitos. Dezoito anos, a primeira namorada “firme”, Ângela… Ela morava na Martim Francisco, era nissei, de Sagitário. Três irmãs de personalidade fortíssima, e a mãe ainda mais. Ela me chamava de Toni (foi a única até hoje a fazê-lo). E volta e meia dizia: “Toni, eu não gosto disso!!!”. Quase um bordão. Com ela conheci muito de amor e de brigas, que aconteciam quase todos os dias e demoravam quase algumas horas…

 

Essa garota estudava comigo no Colégio Caetano de Campos, sim, mas o Caetano de sua versão mais bacana, ali na praça da República, com sua arquitetura antiga, ali onde conheci Jimi Hendrix, Janis Joplin, James Taylor, e onde aprendi, com o amigo Mazagão, que era possível você chorar diante da beleza, pelo excesso dela.

 

Em minha caminhada, antes de chegar ao colégio, havia o largo do Arouche, com seu cinema onde eu conhecia o porteiro, que me descolava ingressos gratuitos, para assistir a filmes que eu nem entendia direito. E também com seu restaurante macrobiótico Arroz de Ouro, onde eu ia com meu amigo Milton, que de tão fã dos Beatles quis também se ligar nessas modas, quando os quatro rapazes de Liverpool foram para o Oriente e voltaram de lá falando em meditação transcendental e em Ravi Shankar.

 

Ravi Shankar, que eu conheci ali bem perto, no Teatro Municipal. Naquele dia em que meus colegas descolados do Caetano de Campos me convenceram a cabular as duas últimas aulas, sair escondido e ir lá fazer pressão para entrar mesmo sem ter ingresso. E entramos! Difícil imaginar o efeito que causou naquele menino que eu era a magia de penetrar naquela sala já com as luzes da platéia apagada e dar de cara com toda a riqueza da música indiana, assim, sem prévio aviso.
Todas essas emoções estavam ali, guardadas. E foram despertadas de leve, por aquela caminhada entre bancários, automóveis, ruas e avenidas, como dizia a canção. Uma caminhada exterior, mas que me revelou de novo a mim mesmo, lembrança, sentimento, riso e canção, e uma imensa vontade de renascer.

 

Conheça o Blog de Frank de Oliveira, autor deste texto.

Conte Sua História de São Paulo: Brincadeira de criança

 

Geraldo GarducciNo Conte Sua Historia de São Paulo, o paulistano Geraldo Garducci Junior fala de momentos importantes e engraçados da sua infância. Nascido em 1961, morou na então distante região de AE Carvalho, zona leste da capital, onde fazendas ainda eram mantidas por imigrantes enquanto a vida urbana se aproximava. Foi lá que seu Geraldo, o pai, e dona Odília criaram o garoto, em uma casa, ao lado da sede do Esporte Clube Urca. Aliás, o bairro era rico de agremiações, onde o garoto se divertia com os amigos.

Ouça o depoimento de Geraldo Garducci Junior, ao Museu da Pessoa, que foi ao ar no CBN SP

Seja também um personagem do Conte Sua História de São Paulo. Agende uma entrevista pelo telefone 2144-7150 ou pelo site do Museu da Pessoa.

Conte Sua História de SP: O rio Tietê é lindo!

 

Ana Helena Puccetti nasceu em 1962 na cidade de São Paulo. Ela é psicóloga e por muito tempo dedicou-se também ao remo. Ela contou ao Museu da Pessoa, em novembro de 2009, a emoção de deslizar pelo rio Tietê, um paraíso dos remadores de épocas passadas. Seu relato foi escrito “em homenagem ao senhor Arlindo Donato, que durante toda a sua vida preservou a memória do remo e do rio Tietê”. O texto de Ana foi ao ar no Conte Sua História de São Paulo:



Meu nome é Ana Helena Puccetti. Sou remadora desde 1984. Aprendi a remar com o Sr. 
Arlindo Donato. Ele foi técnico do Clube Esperia e tinha, ao lado do “barco-escola” no clube, um galpão que era um verdadeiro museu da história do remo em São Paulo. Além de guardar as últimas “catraias”, que antigamente circulavam pra lá e pra cá nos passeios de domingo pelo rio, guardava fotos da época em que a piscina do clube era um cercada das águas do Tietê. Ele fazia questão de mostrar para seus alunos o arquivo pessoal que guardava, para que a história do remo e do rio não fossem parar no lixo, de onde tirou muitas das fotos preciosas que preservou e estão hoje no Arquivo Histórico do Clube Esperia.



Em 1999, eu era diretora de remo do Esperia e, para celebrar o centenário do clube, resolvemos realizar uma regata no rio Tietê. Remar no rio Tietê, bem embaixo da Ponte das Bandeiras. Fazia quase trinta anos que os remadores haviam abandonado o Tietê. Rio que fez nascer os mais importantes clubes da cidade às suas margens.

Foi uma ousadia remar no rio Tietê. Foi necessário construir um pontão de 
embarque e desembarque embaixo da Ponte das Bandeiras. O DAEE limpou as margens, a Sabesp levou um caminhão pipa para que tivéssemos água para dar um banho emergencial em alguém e nos barcos, a CET teve que interromper o trânsito na pista da esquerda da via expressa da marginal para que os barcos pudessem chegar às margens do rio. A prefeitura interrompeu o trânsito numa pista da Ponte das Bandeiras para que ninguém do público que assistia à regata fosse atropelado. Os bombeiros, vestidos com roupas especiais, acompanharam todas as provas dentro de um barco inflável, uma draga foi colocada atravessada no leito do rio para evitar que grandes quantidades de lixo que viessem boiando e atingissem algum barco. E tudo isso para colocar seis barcos a remo na água.

Até os anos 70 as regatas eram disputadas nesse mesmo lugar, o rio vivia cheio de gente e barcos, o Tietê não estava isolado…

Graças a Deus deu tudo certo! Fizemos uma regata festiva. A maioria dos participantes eram ex-remadores do rio Tietê, senhores de 70 a 80 anos que tinham treinado e competido naquelas águas e depois de 30, 40 anos estavam de volta ao rio. A ponte ficou cheia de parentes, muitos netinhos que olhavam e aplaudiam aqueles senhores, vovôs, dentro das águas do Tietê fazendo o tempo voltar por algumas horas.



Quando chegou minha vez de remar, eu sentei no barco tipo canoe e saí remando e sorrindo. Olhei para as barrancas e para os aguapés que passavam boiando por mim e 
pensei no Rio e em suas histórias. Era um sonho de remadora se realizando e me senti feliz!

Eu me imagino remando no Tietê sempre que passo pela Marginal e atualmente também quando abro a janela do meu quarto. Hoje moro na casa que era da minha avó Helena em Santana de Parnaíba e, da janela do meu quarto, vejo o Rio Tietê e suas 
espumas.

Cada dia ele passa de um jeito, porque a Usina Hidrelétrica muda a vazão das águas de acordo com as necessidades das cidades que o margeiam. 

Tenho o privilégio de morar ao lado do Tietê. Tirando a sujeira que é toda nossa, não dele, o rio Tietê é lindo!

Você também pode participar do Conte Sua História de São Paulo, enviando seu texto ou gravando seu depoimento no Museu da Pessoa. Agende uma entrevista pelo telefone 2144-7150

Conte Sua História: A rua das Camélias

 

Vladimir Bosio nasceu em 1968 em Santo Ângelo, no Rio Grande do Sul. Mas passou parte de sua infância na rua das Camélias, na cidade de São Paulo. Um lugar inesquecível, descrito por ele com poesia em história enviada pela internet ao Conte Sua História de São Paulo, através do site do Museu da Pessoa, em janeiro de 2010:

Ouça a história de Vlademir Bosio sonorizada por Cláudio Antônio

Era ali que eu morava, são dali as primeiras lembranças da minha vida, as primeiras imagens registradas na minha memória. A subida íngreme e cansativa. A descida afoita e alegre. A casa na esquina, de calçada vermelha, de muro baixo. Os anos eram os 1970 e eu não tinha mais do que sete, os acinzentados anos militares, com televisão preto e branco, como branca e preta era a fumaça que subia do Joelma.

Lá embaixo havia um rio, hoje eu sei que é uma avenida. Algumas pessoas tinham que descer para pegar o ônibus, e eu as observava da janela tentando entender por que os braços também se movimentam se, na verdade, a gente caminha com as pernas. Eu e minha mãe tínhamos que subir para eu ir à escola. Meu pai, acho, voltava do trabalho descendo. O sobe e desce da rua das Camélias era calmo e podia ser pela rua ou pela calçada, sem problemas. Tinha feira ali por perto, eu sei disso porque havia senhoras carregando carrinhos, tinha padaria lá para cima, pois as pessoas desciam com sacolas de papel pardo com pão cheiroso.

Interessante, mas não havia carros, pelo menos eu não me lembro deles, mas sim das crianças riscando amarelinha no asfalto, sem medo e sem ninguém gritando “vem pra dentro”. Mas se não havia carros, as casas tinham garagens, eu sei disso porque todos os meninos jogavam bola nas suas garagens, gol a gol, mas não podia dar “bicuda”. Dentro da minha casa, na rua das Camélias, tinha um tamborzinho que segurava a janela aberta, no quarto, que era no segundo andar. Na verdade, não lembro do tambor, mas lembro do meu dedo achatado pela janela quando esta caiu em cima dele. Alguém me disse que não era para tirar ele dali, mas será que alguém disse que não era para deixar o brinquedo ali, que a criança iria querer pegar? Não importa, o dedo sarou e a lembrança ficou.

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Conte Sua História de SP: ‘Perigos’ da cidade

 

Mario Messaggi Junior nasceu no Rio de Janeiro em 1962, mas passou a infância em São Paulo. Na cidade, ele precisava ficar distante dos grandes perigos da cidade: um carro que poderia aparecer e os ventanistas. Ele falou sobre todos esses perigos ao Conte Sua História de São Paulo em texto enviado pela internet ao Museu da Pessoa. em janeiro de 2010:
 

Ouça a história de Mário Messaggi Júnior sonorizada por Cláudio Antonio

Nasci no Rio de Janeiro e vim para São Paulo com quatro anos de idade, em 1966. Guardo flashes da viagem de trem do Rio a São Paulo. Chegamos à noite, chovia, o tamanho do trem me impressionou.

Fomos morar no bairro de Vila Mariana, numa casa térrea bem mal cuidada pelos antigos inquilinos, na Rua Sabóia de Medeiros. Depois da escola, o almoço, a lição de casa e a ordem de minha mãe: “Vá brincar lá fora, nada de ficar grudado na TV”. Imagino que as mães dos outros meninos diziam o mesmo, porque a rua se transformava num enorme parque de diversões, com carrinhos de rolemã descendo a Joaquim Libânio, bicicletas de todas as cores, velotróis fazendo ratatá, guerra de mamona e futebol na ladeira. O gol era demarcado por camisetas, pedras ou latas.

Os pais achavam perigoso brincar com carrinhos de rolemã, porque sempre podia aparecer um carro. Isso mesmo, podia: as ruas em volta de minha casa eram movimentadas, mas mesmo assim os carros ainda não as dominavam, dava tempo de avisar os amigos. “Olha lá um carro!”

O fluxo era de um carro a cada meia hora. As histórias de crianças que entravam por debaixo de caminhões com seus rolemãs eram contadas sempre pelos pais, com uma entonação dramática, como um aviso sinistro. Nem eu e nem meus amigos presenciamos algo assim.

As oficinas mecânicas estavam acostumadas com moleques que iam pedir rolemãs velhos para montar seus carrinhos, que ganhavam pedaços de pneu como freio, ripa de madeira pregada atrás do assento, fazendo o encosto, e pinturas coloridas das mais variadas. Muitos moleques queriam ser chofer de caminhão quando crescessem, talvez por essa razão os rolemãs tivessem frases escritas com tinta a óleo.

Outra preocupação dos pais eram os “ventanistas”, ladrões que entravam nas casas e roubavam roupas do varal. As pessoas achavam o cúmulo alguém roubar roupas no varal, era um absurdo, um escândalo. Para evitar os ventanistas, bastava fechar a porta, nem era preciso trancar. Eles não ousavam abrir. Bons ladrões!

Cinco e meia, seis da tarde, a criançada voltava para casa em bando, para tomar banho, jantar, assistir uma hora de TV e ir para a cama.

Você também pode participar do Conte Sua História de São Paulo, enviando seu texto ou gravando seu depoimento no Museu da Pessoa. Agende uma entrevista pelo telefone 2144-7150.

Conte Sua História de SP: Saudades de Santo Amaro

 

Agenor Borba Junior nasceu em 1939 no bairro de Santo Amaro, em São Paulo. Em texto enviado para o Conte Sua História de São Paulo, através do Museu da Pessoa, em março de 2010, ele fala de momentos inesquecíveis da vida passada no bairro.

Ouça a história de Agenor Borba Junior sonorizada por Cláudio Antônio

Eu, Agenor Borba Junior, conhecido por todos como Nonô, gostaria de contar algumas passagens da minha infância em Santo Amaro, lugar onde nasci, em 1939.
Tinha eu mais ou menos 7 anos de idade, meus pais me levavam para ver a festa do Divino, no Largo 13 de Maio. Era uma festa muito bonita, com muitas barracas e muita gente que vinha dos povoados vizinhos.

No mês de junho tinha muitas festas nas casas, erguiam o mastro em homenagem a Santo Antônio, São João e São Pedro, tinha fogueira, soltavam balões e muitos fogos, era muito alegre. Cheguei até ver carros de boi trazendo lenha para o meu vizinho.

Estudei no grupo escolar Paulo Eiró, onde fiz até o 4º ano do primário. Aos 12 anos de idade já comecei a ter meus amigos, como dizia antigamente “minha turma”.

E que turma! Na rua Anchieta, esquina com a rua Santo Antônio, onde eu nasci, tinha muitas árvores dos dois lados da rua. Nós subíamos nas árvores esperando a boiada passar e, quando estava no meio da boiada, com um galho da árvore nós espantávamos os bois, até que um ou dois bois se assustavam e saíam correndo pelas ruas. O boiadeiro ia logo atrás do boi fujão, laçava e amarrava as patas até que um caminhão viesse buscar, às vezes, no dia seguinte.

Aí era a parte mais gostosa da brincadeira: passando algumas horas, lá estávamos nós para desatar as amarras das patas do boi, ele levantava e saía correndo pelas ruas, chegava até o Largo 13 de Maio assustando a todos. Era a farra do boi.

Na avenida João Dias, próximo ao Mercado Velho, existia uma chácara de verduras, onde entrei correndo para pegar um balão que estava caindo. Estava olhando para cima quando caí num poço com água, me molhando todo, levando um baita susto.

Em Santo Amaro tinha dois cinemas: São Francisco e Cine Mar. Todos os domingos nós íamos assistir a matinê. Quando terminava o filme, eu e meus amigos íamos para a Rua Direita passear e ver a banda de música tocar no coreto do jardim. Esse era o nosso domingo…

Na avenida João Dias morava o famoso escultor e escritor Julio Guerra, que na época estava fazendo no quintal de sua casa a estátua do Borba Gato.
Por eu ser de uma família tradicional de Santo Amaro e o Julio Guerra ser muito amigo de meus pais, ele me deu um quadro do Mercado Velho de Santo Amaro pintado por ele em 1928, que guardo com muito carinho.

O bonde que vinha da Praça João Mendes até o Largo do Socorro era nossa diversão. Na porta de trás do bonde ficava uma pessoa para abrir e fechar a porta, quando essa pessoa faltava, era eu que estava lá, abrindo e fechando a porta. Às vezes, antes de o bonde parar, eu abria a porta, o bonde dava um tranco e um estouro. Levava uma bronca do motorneiro.

Todos os anos saíam de Santo Amaro duas romarias a Pirapora, com muitos cavaleiros, charretes e ônibus. Uma era do Cinerino, que tinha um armazém. Na calçada, havia uma argola no chão para amarrar os cavalos dos donos que vinham fazer compras.
A outra romaria era do Vereador José Oliveira de Almeida Diniz, conhecido na época como Zé da Farmácia, pai do Zezito, grande amigo meu. Nós íamos amansar os cavalos que vinham das olarias para levar na romaria, isso era no Varjão onde hoje é a Marginal do Rio Pinheiros.

Dos 13 aos 14 anos formamos um time de futebol num pequeno campinho da rua Anchieta, e demos o nome de Anchieta. Tinha bons jogadores, mas quem se destacava mais eram Irineu, Maloquinha e o Rivelino, que na época começou a jogar no Banespa Futebol de Salão.

Saí com eles várias vezes, no carro do Rivelino, um fusquinha, para ver o “Palmeirinha” jogar, um grande time na época, onde jogavam bons jogadores, inclusive José Maria Marim, que foi Governador de São Paulo.

Você também pode participar do Conte Sua História de São Paulo, enviando seu texto ou gravando seu depoimento no Museu da Pessoa. Agende uma entrevista pelo telefone 2144-7150.

Conte Sua História: Carnaval da Vila Esperança

 

CBN SPNos próximos dias, estarei pagando uma dívida com o Conte Sua História de São Paulo e seus protagonistas. Com as férias, deixei de publicar no blog vários dos capítulos que foram ao ar nas edições de sábado, do CBN SP. Por isso, caro e raro leitor deste espaço, você terá a oportunidade de acompanhar, a partir de hoje, textos de ouvintes-internautas, lidos por mim e sonorizados pelo Cláudio Antônio.

Estas histórias foram enviadas por escrito para o site do Museu da Pessoa, nosso parceiro desde o início do ano. Você também pode participar deste projeto gravando o seu depoimento em áudio e vídeo na sede do Museu. Para isso, agende uma entrevista pelo telefone 2144-7150 e conte sua história de São Paulo.

O Carnaval da Vila Esperança

Ana Maria dos Santos nasceu em 1956 em São Paulo. Quando criança, não conheceu seu pais. E uma série de coincidências curiosas a levaram a acreditar que finalmente havia revelado esse segredo. Ela contou sua históira ao Museu da Pessoa em janeiro de 2010:



Ouça a história de Ana Maria dos Santos sonorizada por Cláudio Antônio

Quando nasci, isso a mais de 50 anos, minha mãe estava sem condições e encontrou uma mulher muito bondosa para me criar. Essa senhora morava, então, na Rua Maria Carlota, na Vila Esperança. Essa rua ainda não havia sido asfaltada e, na época que asfaltaram, virou a alegria da molecada e a tristeza das mães, com surras e tudo, pois o danado do piche grudava em nós e em nossas roupas, dava o maior trabalho para tirar. Isso quando saía.



A filha da minha mãe de criação me batizou, era a minha madrinha muito querida, e de vez em quando eu falava que queria ter um pai. Às vezes, elas me arrumavam um (acho que era um parente distante do interior) e lembro que recebemos a visita da comadre que elas tanto falavam. Foi quando ela me contou que era a minha mãe verdadeira e que eu tinha de recebê-la (pensava que o nome dela era Rosa Maria?!).



A partir daí comecei a me esconder quando ela vinha me visitar. Eu simplesmente sumia. Até dentro de um cesto de vime enorme eu me escondia, tanto era o pavor que ela me levasse embora. Porém, aos meus sete anos ela teve que me levar para estudar num internato em Pinheiros. Aos onze anos, fugi com mais duas meninas, por causa dos maus tratos desse colégio de freiras, correndo a pé pela rua Cardeal Arcoverde, de Pinheiros até o Pacaembu. Foi tragicômico, pois a família que deu garantias que nos abrigaria, e era também o único lugar mais perto que eu sabia como ir, era do diretor da instituição.



Tudo isso para tentar voltar para minha Vila Esperança. Era fevereiro e eu queria também matar a saudade do meu querido e velho carnaval da infância, que subia pela Rua Evans e descia pela Rua Maria Carlota: as matinês, a batalha de confetes, eu tinha de ir.



Como naquela época eu não tinha muita aproximidade física, afetiva, com minha mãe verdadeira e estava muita revoltada por causa da ida pro colégio interno, apesar dos esforços dela para fazer algo por mim, quase não conversavámos. Sabia muito pouco sobre ela, somente que trabalhava demais como empregada doméstica. Um dia, mexendo em seus documentos, li que seu nome era Maria Rosa!? Aí eu, muito infantil, quando escutei a música, marchinha de carnaval do Adoniran Barbosa, “Vila Esperança” – “Foi lá que conheci Maria Rosa, meu primeiro amor/Primeira Rosa, primeira esperança, primeiro carnaval, primeiro amor, criança”.



Criança!? Pensei: sou eu!! Pensei comigo: “Desvendei a segredo da minha mãe!” Que ilusão de mente fértil! Só dando risada mesmo. Mas a Esperança, o carnaval, ainda moram bem profundamente nesta velha criança. Por outro lado, até hoje não consigo cantar essa música inteira até o fim sem conter o choro. Nos últimos anos de vida da minha mãe, conseguimos restaurar muita coisa, principalmente a compreensão.

Conte Sua História: Lição no Largo São Francisco

 

FT_Cássia Navas

De um bairro para o outro da cidade, Cássia Navas Alves de Castro foi construindo histórias e relações. Nasceu no Bixiga, viveu no Brás, no Tucuruvi, no Jardim São Paulo e no Alto da Lapa, entre tantos lugares para os quais a família se mudou. Esteve na Espanha, também, de onde voltou apenas com parte do nome para estranhamento dos pais.

Cássia Navas estudou toda sua vida em escola pública, foi a única dos cinco irmãos que ainda teve esta oportunidade. Apesar de ter seguido caminho diferente do pai, advogado renomado, começou a vida universitária no Largo São Francisco, em 1977, época em que o embate político deixava marcas muito duras. É sobre este período que ela fala no Conte Sua História de São Paulo, resultado de um longo depoimento gravado pelo Museu da Pessoa:

Ouça o trecho do depoimento de Cássia Navas, sonorizado por Cláudio Antônio

Você pode participar, também, enviando texto ou marcando uma entrevista pelo telefone 2144-7150 ou no site do Museu da Pessoa.

Conte Sua História de São paulo: Uma voz e tanto

 

pc_ma_hv229_rt03- Adilson Pereira Lobo

Foi no caminho para o Hospital das Clínicas, a bordo do bonde, que Adilson Pereira Lobo encontrou sua primeira plateia. Menino ainda, adorava cantar “Lampião de Gás”, de Inezita Barroso, e chamava atenção do motorneiro e dos passageiros. A viagem era em virtude do tratamento que teve de se submeter para tratar a paralisia infantil, em um esforço recompensado pela evolução que teve apesar da restrição para caminhar. Boa parte desta trajetória foi acompanhado pela mãe, “uma guerreira” como descreve no depoimento gravado pelo Museu da Pessoa para o Conte Sua História de São Paulo. Ela teve de cuidar dele sozinha, desde os quatro anos de idade, pois o pai havia morrido.

Nascido no bairro do Belenzinho, hoje mora em Guarulhos, mas foi em São Paulo que desenvolveu suas habilidades. É mestre em linguística, professor de inglês, faz dublagem e tem a música como hobby – e você poderá conferir na gravação que foi ao ar no CBN São Paulo o talento que conserva.

Ouça o depoimento de Adilson Pereira Lobo, no Conte Sua História de São Paulo, sonorizado pelo Cláudio Antônio

Você pode participar, também, do Conte Sua História de São Paulo. Marque uma entrevista pelo telefone 2144-7150 ou no site do Museu da Pessoa.