Avalanche Tricolor: salvo pelo sonho de criança que realizei há 20 anos, em São Paulo

Sport 1×0 Grêmio

Brasileiro – Ilha do Retiro, Recife PE

A conversa corria solta e animada com os estudantes de Jornalismo e da Administração, da UNISATC, de Criciúma, quando a partida desta noite já havia se iniciado. O papo virtual tinha jornalismo e comunicação como temas predominantes. Às boas perguntas que ouvi, me esforcei para dar respostas que atendessem o interesse da turma. Estrategicamente, deixei uma tela extra, ao lado do computador, com a bola rolando na Ilha do Retiro. 

Foi de revesgueio que assisti àquela cobrança de falta que resultaria no único gol da partida — e deles, não nosso. Porque nós, até onde consegui ver, só forjamos jogadas mas não soubemos concluí-las com o mínimo de precisão. Diante das dificuldades para fazer a bola chegar ao alvo, já começava a imaginar onde encontraria inspiração para esta Avalanche que teimo escrever mesmo quando o time não faz por merecer.

Salvo pelo gongo. Ops, salvo por uma pergunta. Se não me falha a memória foi o Marcelo, um dos estudantes. Ou teria sido o Heitor? Perdão, guris. Sei que fui provocado a falar da minha passagem pelo futebol, como repórter, apresentador e narrador de TV.

Isso moveu com minha memória afetiva e me fez lembrar que, há exatos 20 anos, eu havia realizado o maior sonho, ou um dos maiores, que um torcedor pode sonhar com seu time: narrei o título de campeão da Copa do Brasil, de 2001, do Grêmio. O tetracampeonato!

Trabalhava na RedeTV, que havia recebido da TV Globo o direito de transmitir as partidas da Copa do Brasil daquele ano. A convite de Juca Kfouri fui testar o que considerávamos ser um novo formato na narração esportiva da televisão — até então contaminada pelo modelo das transmissões de rádio. Era para ser uma locução mais pausada, focada em informar o nome dos jogadores e alguma outra circunstância que se desenvolvia em campo ou fora dele. Sem gritaria, sem animação de torcida e valorizando o silêncio, sempre que possível. Acreditávamos que a riqueza das imagens e do som ambiente seriam suficientes para acompanhar o telespectador. Acho que já falei com você, caro e  cada vez mais raro leitor deste blog, desta experiência.

Naquele ano, o Grêmio, sob o comando de Tite, fez uma campanha incrível na competição e se candidatou à final contra o Corinthians,  de Vanderlei Luxemburgo, considerado pela crônica esportiva o favorito. No primeiro jogo, os paulistas saíram com dois gols de vantagem, em pleno estádio Olímpico. Mas o Grêmio encontrou forças para empatar e chegar vivo à decisão em São Paulo.

Fui privilegiado e escalado a transmitir a final, tendo Juca Kfouri, Jorge Kajuru e Oswaldo de Oliveira ao meu lado como comentaristas. As cabines de transmissão, no Morumbi, sacudiam com a animação do torcedor corintiano que tomou conta de praticamente todo o estádio. Apenas uma pequena parcela das arquibancadas foi reservada aos gremistas. 

Antes de os jogadores subirem as escadas que davam acesso ao gramado, Tite reuniu o elenco e fez apenas um pedido: “vão lá e divirtam-se!”. Algo sobrenatural deve ter acontecido, porque mesmo estando distante deles, foi como se eu tivesse recebido aquela mesma mensagem e decidido que me divertiria com o microfone em mãos. Vencemos por 3 a 1 e, por mais que o profissionalismo exigisse equilíbrio, vibrei a cada gol do meu Grêmio, revivendo os tempos em que narrava futebol entorno da mesa de botão quando meu time sempre vencia. 

Lembrar daquela tarde de domingo, no Morumbi, e assistir às imagens dos gols que marcamos foi estimulante nesta noite e uma ótima desculpa para eu não perder tempo com o mal e desorganizado futebol que estamos jogando.

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