50 debates para o Brasil: educação sexual nas escolas divide opiniões sobre conteúdo e papel das famílias

O Brasil registra seis estupros de menores de 14 anos por hora e, ao mesmo tempo, enfrenta a controvérsia sobre até onde a escola deve ir ao abordar sexualidade com crianças e adolescentes. O tema foi discutido na série 50 Debates Para o Brasil, do Jornal da CBN, por Luciana Temer, advogada, professora de Direito Constitucional da PUC-SP e diretora-presidente do Instituto Liberta, e Guilherme Schelb, procurador da República em Brasília, mestre em Direito Constitucional e especialista em infância e educação.

A discussão não se resume a ensinar ou não ensinar educação sexual. Envolve definir o que deve ser abordado, em qual idade, por quem e com quais limites. Também coloca em debate como dividir essa responsabilidade entre escola, família, Estado e sociedade.

Guilherme Schelb defende que qualquer conteúdo deve partir da legislação e respeitar o estágio de desenvolvimento de crianças e adolescentes. Para ele, a escola pode abordar questões relacionadas à sexualidade, mas precisa estabelecer fronteiras claras para evitar a exposição precoce a conteúdos próprios da vida sexual adulta.

O ponto central é respeitar a integridade psicológica e sexual da criança”, afirmou. Schelb argumentou que crianças não devem ser tratadas como “adultos pequenos” e que os conteúdos precisam considerar a vulnerabilidade própria de cada faixa etária.

Luciana Temer prefere fazer uma distinção. Em vez de tratar todo o conteúdo sob o rótulo de educação sexual, defende prevenção da violência sexual para crianças e sexualidade saudável e responsável para adolescentes.

Ela sustentou a posição com dados sobre violência. Segundo Luciana, o Brasil dos estupros de menores de 14 anos registrados, 30% das vítimas têm até nove anos e 60% dos casos acontecem dentro da casa da vítima, praticados por familiares.

Se a criança não tem uma preparação na escola, é (preciso) falar sobre percepções e prevenções de violência. Isso é possível? É possível”, disse.

Para os adolescentes, Luciana citou outro dado: cerca de 30 bebês nascem por dia no Brasil de mães com até 14 anos. Também mencionou pesquisa do IBGE segundo a qual muitos jovens iniciam a vida sexual aos 13 ou 14 anos. Na avaliação dela, deixar de conversar sobre o assunto não impede que adolescentes tenham contato com a sexualidade; apenas aumenta o risco de que recebam informações inadequadas ou distorcidas.

Quem decide o que será ensinado

Um ponto de aproximação entre os debatedores apareceu na necessidade de estabelecer critérios para os conteúdos.

Schelb criticou a falta de padronização. “Cada um faz o que bem acha melhor”, afirmou, ao defender regras que estabeleçam o que pode ser abordado em cada idade. Para ele, as famílias também precisam participar desse processo e ser orientadas para conversar com os filhos.

Luciana também defendeu conteúdos adequados às diferentes fases do desenvolvimento. Citou como exemplo que, com crianças pequenas, a prevenção pode ocorrer por meio de atitudes protetivas, enquanto crianças maiores podem receber orientações sobre violência digital e adolescentes podem discutir responsabilidade e sexualidade.

O que nós não podemos mais é não fazer esta conversa”, afirmou. Para ela, a responsabilidade não deve ficar exclusivamente com a família nem exclusivamente com a escola. A Constituição estabelece que a proteção de crianças e adolescentes é dever compartilhado pela família, pela sociedade e pelo Estado.

A divergência, portanto, está menos na necessidade de proteger crianças e adolescentes e mais em como transformar essa proteção em conteúdo escolar. De um lado, há o receio de que a escola ultrapasse limites e exponha alunos precocemente a temas inadequados. Do outro, o argumento de que o silêncio também produz riscos, especialmente diante da violência sexual e do início da vida sexual na adolescência.

“50 Debates para o Brasil” tem a produção de Carlos Grecco e Leticia Valente. As entrevistas vão ao ar, de segunda a sexta, logo após às 8h30 da manhã, no Jornal da CBN.

50 debates para o Brasil: proibir redes sociais para menores protege crianças e adolescentes?

Crianças e adolescentes estão expostos a plataformas digitais projetadas para disputar sua atenção, estimular permanência e influenciar comportamentos. A discussão sobre proibir o acesso dos mais jovens às redes sociais foi tema da série 50 Debates para o Brasil, do Jornal da CBN, com a educadora e terapeuta Amanda Zanetti e Rafael Zanatta, diretor da Data Privacy Brasil.

Rafael argumentou que o Brasil já dispõe de um caminho diferente com o ECA Digital, legislação voltada à proteção de crianças e adolescentes no ambiente digital. Entre os pontos destacados por ele estão o combate ao design abusivo — recursos construídos para induzir comportamentos ou prolongar o uso das plataformas —, a verificação de idade, a supervisão dos pais e limites à exploração comercial dos mais jovens.

Para ele, a proibição pode produzir uma sensação de segurança sem resolver o problema. Jovens poderiam contornar as barreiras usando VPNs, que permitem mascarar a localização do usuário, ou documentos de parentes. “O banimento parece uma resposta boa, mas é uma resposta muito simples, muito pobre”, afirmou.

Amanda defendeu que é preciso diferenciar inclusão digital de acesso às redes sociais. Restringir determinadas plataformas, argumentou, não significa afastar crianças e adolescentes do mundo digital. Para ela, não se pode transferir apenas às famílias e aos jovens a responsabilidade de enfrentar ambientes desenvolvidos para capturar atenção e explorar a busca por aprovação social.

“Uma restrição mais forte, uma política que vem regulamentando isso é necessário para que a gente não deixe isso só na mão ali dos adolescentes e das famílias”, disse. Amanda lembrou que crianças e adolescentes ainda estão desenvolvendo a capacidade de autorregulação, o que aumenta a responsabilidade da sociedade e das empresas sobre os ambientes oferecidos a esse público.

O debate também avançou para uma questão anterior à proibição: o problema está no acesso ou na maneira como as plataformas funcionam?

Rafael sustentou que a prioridade deve estar no desenho das redes. Algoritmos de recomendação, feeds contínuos e outros mecanismos podem ser construídos para aumentar o tempo de permanência e estimular consumo. Para ele, responsabilizar as empresas por escolhas abusivas ataca diretamente esse modelo.

Amanda acrescentou outro elemento: educação digital. Para ela, famílias e escolas precisam preparar crianças desde cedo para compreender segurança, consentimento, proteção e os riscos do ambiente digital. Restringir o acesso, portanto, não elimina a necessidade de ensinar o jovem a lidar com essas plataformas quando tiver idade para utilizá-las.

As posições revelaram também uma área de convergência. Embora discordem sobre a necessidade de proibição, os dois debatedores defenderam maior responsabilidade das plataformas, proteção dos menores e educação para o uso do ambiente digital. A divergência principal está em até onde deve chegar a restrição e se o banimento é uma ferramenta necessária ou uma solução excessivamente simples para um problema mais complexo.

“50 Debates para o Brasil” tem a produção de Carlos Grecco e Leticia Valente. As entrevistas vão ao ar, de segunda a sexta, logo após às 8h30 da manhã, no Jornal da CBN.

Conte Sua História de São Paulo: a fuga de tico-tico pelas ruas da Vila Ema

Marcelo Ferro Cerqueira
Ouvinte da CBN

Foto de Esther Salguero on Pexels.com

Tico, tico, tico.

Meu triciclo segue pela rua Santa Elisa, no bairro de Vila Ema, zona leste. A rua me parece enorme; as pessoas, também. O portão da casa dos meus avós estava aberto, e por ali eu passei.

Meu bisavô Eugênio comprou aquele terreno com o suor do seu rosto e levantou aquelas paredes ao custo de alguns dedos perdidos no maquinário das antigas Indústrias Nadir Figueiredo, no bairro do Cambuci.

Sssssss… o vento bate no meu rosto. Sigo em direção à avenida que dá nome ao bairro. Tico, tico, tico. A mesma avenida pela qual meu avô José caminha todos os dias para trabalhar em outra indústria, uma metalúrgica. Uma polida aqui (tico, tico, tico). Outra polida acolá (tico, tico, tico lá). E as torneiras ficavam tão reluzentes quanto o sorriso do meu avô, uma das pessoas mais doces que já conheci.

Sigo no meu passeio de menino levado. Não tinha dois anos ainda, mas aparentemente queria ampliar meus horizontes. Ti-co, ti-co, ti-co. Diminuo a velocidade.

Tiiiico. Paro por um instante.

Do outro lado da avenida, havia uns homens de chapéu. Era início dos anos 1970, e aquelas pessoas me lembravam o vô José. Pareciam felizes. Talvez me ensinassem a fazer um novo aviãozinho de papel. Parecia promissor.

Ti… ti… ti… hesito. Carros de um lado e de outro da avenida.
Meu bisavô não está aqui. Nem meu avô. Nem meus pais. Talvez fosse melhor voltar. Mas, para isso, eu teria de enfrentar uma subida.

Não sinto vontade de chorar. Mas sei que, quando eu for encontrado, levarei umas palmadas. Vejo um trator na avenida e uma fila de carros atrás dele. O trânsito é interrompido nos dois sentidos. Reflexões de criança pequena…

Tico, tico, tico, tico. Ti, ti, ti… Co, co, co… Tiiicooo. Desço do triciclo e subo no meio-fio, do outro lado da rua. Completo a travessia. Logo vou falar com o homem que lembra meu avô. Ele me oferece uma bala Juquinha, e todos ali se perguntam onde estariam os pais daquele menino.

Minha permanência não é longa. Mas minutos são uma eternidade para uma criança. De repente, a vó Maria aparece, desmilinguida. Estou salvo, pensa ela. Estou encrencado, concluo eu.

Sou levado de volta entre as lágrimas da minha avó, o júbilo das pessoas que me acolheram e os meus pensamentos, que tentavam processar o que havia se passado. Tudo me parecia estranho. Eu provavelmente não esperava ter causado tanta comoção.

Essa é uma aventura que se passou com uma criança que aprendia a viver, sem se dar conta do esforço de seus pais, avós e bisavós para manter a família — o que se confunde com a história de tantos outros paulistanos.

Hoje, substituo o tico, tico, tico pelo vrum.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Marcelo F. Cerqueira é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é de Cláudio Antonio. Conte você também a sua história: envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Desde as 17 horas de vida

Por Christian Müller Jung

Foto de Tsvetoslav Hristov on Pexels.com

Ela se chamaria Marina. Na época, eu era fã da cantora de mesmo nome e tinha certeza de que esse seria o nome da minha filha. Bastou uma ida ao parque e ouvir uma mãe chamando sua pequena de Vitória para que eu e a Lúcia, imediatamente, optássemos pela troca. Estava definido: seria Vitória. Talvez a força do nome já premeditasse o que estava por vir.

Gestação normal, rompimento da bolsa, ida para o hospital. Não demoraram muitas horas após o nascimento para que surgissem os primeiros sintomas de que algo não ia bem. Nós, pais, não tínhamos a mínima ideia de que, daquele dia em diante, passaríamos a viver, a cada nova fase, uma nova descoberta.

Vitória apresentou um quadro de encefalite herpética. E não me perguntem como, porque isso ninguém consegue explicar. Aconteceu. Ficou em coma induzido e houve uma corrida dos médicos para barrar o que aquele vírus fazia, tentando preservar ao máximo o pequeno cérebro que estava pronto para se desenvolver.

Naquele tempo, não se falava em pais atípicos, filhos atípicos ou nos termos técnicos de hoje. Era um pequeno ser humano lutando com o que tinha para se manter vivo, sem saber o que aquele estrago inicial traria para o resto da vida.

De lá para cá, cada fase é uma nova adaptação. Há poucos dias, a levamos para consultar o neurologista — hoje ela está com 31 anos. E ela, na sua possibilidade de interação e necessidade de se comunicar, que nunca lhe faltou, disse para o médico: “Tu que me conhece desde criança…”.

“17 horas”. Sim, foi esse número que ele me trouxe à reflexão.

“Eu te conheço desde as tuas 17 horas de vida”. Foi quando ele foi chamado para tratar, na UTI pediátrica, aquele pequeno ser que precisava de alguém com visão profissional e desbravadora. Desde aquelas 17 horas, ele atuou diariamente, ministrando o que via como possibilidade e nos dando pequenas cápsulas de esperança em suas palavras.

Foi um caos em nossas vidas. Um caos na família. Dois meses em coma, e eu tendo de voltar para casa e olhar para o quarto onde tinha pintado cada detalhe. Tínhamos planejado o espaço necessário para ela ser uma criança feliz.

Desde essas “17 horas”, tivemos a oportunidade de conhecer um ser humano que surgiu entre tantos outros anjos em nossas vidas. Lembro-me como se fosse agora: após ser avisado pelo hospital sobre os custos de uma UTI pediátrica — e salvo pelo plano de saúde do Estado, o que é bom frisar —, perguntei a ele quanto custaria tudo o que ele tinha feito pela Vitória, já que no dia seguinte ela teria alta.

Ele desceu a escada rapidamente e disse para eu não me preocupar. Voltou-se e me disse: “Se tu soubesse o que representa para mim tratar uma criança e ter esse tipo de resultado… isso não tem preço”. Senti a mesma vontade de chorar que sinto agora, enquanto escrevo. Aliás, sempre que falo sobre aquele momento, não consigo terminar a história sem me emocionar.

Depois disso, foram muitas consultas, tratamentos, indicações e orientações. Uma gincana de possibilidades que se transformam de acordo com a idade e a necessidade.

Nessa história não há nada de “propaganda de margarina”, nada de mundo encantado ou de anjos que vieram do céu para nos ensinar algo de forma romântica. Somos nós, nossos problemas e algumas pessoas encantadoras, como o Dr. Rudimar Riesgo. Alguém que soube ser herói sem ter capa, psicólogo sem ter divã e ser humano acima de qualquer coisa.

Dr. Rudimar tornou-se um dos maiores especialistas em autismo do país e nos contou, com muita alegria, que está lançando o livro “Tratado sobre o Transtorno do Espectro Autista: Diagnóstico e Tratamento, em companhia com mais dois autores. Uma “bíblia” segundo ele me descreveu.

De lá para cá, passaram-se 31 anos. E Dr Rudimar continua tratando as tantas “vitórias” dele — e a Vitória, minha filha — com a mesma atenção e tranquilidade que nos transmite sempre que abre a porta do seu consultório.

Christian Müller Jung é o pai da Vitória — e, por hoje, é o que interessa.

Violência sexual contra crianças: a escola como espaço de proteção e a urgência de ouvir as vítimas

“Se a casa é o principal lugar de violação, a escola é o principal lugar de proteção.”

Os dados são duros e ajudam a dimensionar um problema que, muitas vezes, permanece escondido. A Pesquisa Nacional de Saúde Escolar 2024 aponta que 9% dos estudantes de 13 a 17 anos afirmaram já ter sido forçados ou ameaçados a ter relações sexuais, enquanto 18% relatam algum tipo de contato físico sem consentimento. O tema foi tratado em entrevista à CBN pela juíza Vanessa Cavalieri, titular da Vara da Infância e Juventude Infracional do Rio de Janeiro.

Logo no início da conversa, a magistrada deixa claro que o enfrentamento desse tipo de violência exige duas frentes de atuação: “a punição dos agressores e a prevenção”, afirma. Para ela, a resposta do Estado não pode se limitar à responsabilização posterior. O objetivo maior é evitar que o crime aconteça.

A violência que nasce dentro de casa

Um dos pontos mais sensíveis da entrevista é a origem da violência. Segundo a juíza, na maioria dos casos, o agressor não é um desconhecido. Ou são familiares ou são pessoas com quem a vítima tem um relacionamento de afeto.

Esse dado ajuda a entender por que o crime costuma permanecer oculto. O ambiente que deveria proteger é, muitas vezes, o mesmo em que a violência acontece. E isso dificulta a denúncia.

Diante desse cenário, a escola ganha um papel decisivo. Não apenas como espaço de aprendizagem, mas como lugar de escuta. Vanessa Cavalieri cita um exemplo concreto. Durante a pandemia, os registros de abuso sexual infantil diminuíram — não porque os casos tenham reduzido, mas porque as escolas estavam fechadas. “Essas crianças eram violadas e ninguém via, ninguém relatava, ninguém denunciava”, explica.

Para ela, o desafio está em preparar as instituições de ensino. “A escola precisa ter fluxos, precisa ter protocolos e que todos os funcionários saibam o que fazer.” Não apenas professores ou diretores, mas qualquer profissional que possa ser procurado por um aluno.

Escutar sem revitimizar

A entrevista também destaca a importância da escuta protegida, prevista em lei. Trata-se de um método que evita que a criança seja exposta novamente à violência ao relatar o ocorrido: “Existe uma metodologia para ouvir essa criança de forma que ela possa fazer um livre relato, sem ser manipulada e sem ser culpabilizada.” Essa escuta deve acontecer não só no sistema de justiça, mas também em escolas, hospitais e conselhos tutelares.

Outro ponto abordado pela juíza é a educação sexual, frequentemente cercada de desinformação. “Educação sexual não é ensinar prática sexual. É ensinar quais partes do corpo não devem ser tocadas e o que fazer diante de uma situação de abuso.”

Ela relata que, em visitas a escolas, é comum ouvir histórias de jovens que sofreram violência e não sabiam que aquilo era crime. Muitas meninas dizem que foram estupradas, mas não sabiam, porque não houve penetração: “.… e estupro é qualquer ato sexual sem consentimento.”

A palavra da vítima como prova

A magistrada também combate uma ideia recorrente: a de que só é possível denunciar com provas materiais. “A prova para apurar um abuso sexual é a palavra da vítima.” Ela explica que, por se tratar de um crime cometido sem testemunhas e muitas vezes sem marcas físicas, o relato da vítima tem peso central no processo judicial. “É muito frequente a gente condenar um estuprador só com a palavra da vítima.”

Um problema maior do que os números

Ao analisar os dados da pesquisa, Vanessa Cavalieri faz um alerta: a realidade pode ser ainda mais grave. Ela entende que exista uma subnotificação. Muitas vítimas não denunciam. Outras nem reconhecem o que viveram como violência.

A mensagem que fica após ouvir as palabras da juíza Vanessa Cavalieri é clara: enfrentar esse problema exige ação coordenada, informação e, sobretudo, disposição para ouvir. Porque muitas histórias ainda estão escondidas, esperando alguém disposto a escutar.

ECA Digital: o dilema entre a boa intenção e a ineficiência normativa

Por Beatriz Haikal

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O recente avanço, no Congresso Nacional, do Projeto de Lei nº 2.628/22, apelidado “ECA Digital”, é um marco na discussão sobre a proteção de menores na internet. Não há como negar a nobreza do objetivo: criar um ambiente online seguro para crianças e adolescentes é um imperativo de nossa era digital. No entanto, a boa intenção, sozinha, não é suficiente para fazer uma boa lei. Uma análise técnica do texto revela graves lacunas que, se sancionadas da forma como estão, podem criar mais problemas do que soluções.

O principal vício do projeto reside no excesso de abstrações. A forma como o PL foi construída revela um padrão preocupante: soluções simplistas e pouca atenção às realidades técnicas, operacionais e econômicas. Um exemplo flagrante é a introdução do conceito de “acesso provável” para determinar as obrigações das plataformas. Amplo e vago, este termo pode abarcar praticamente qualquer produto ou serviço digital que, ainda que não destinado a menores, possa eventualmente atrair sua atenção. Isso não cria proteção; cria um risco regulatório considerável, que pode resultar em insegurança jurídica, custos elevados de compliance e, em alguns casos, o afastamento de players internacionais do mercado brasileiro.

Outro ponto crítico é a proibição genérica de técnicas de perfilamento e análise de dados. Ao eliminar a possibilidade de usos positivos, o PL peca por excesso de zelo e compromete a inovação. No afã de proibir riscos potenciais, o legislador pode acabar inviabilizando mecanismos concretos de proteção que dependem justamente da tecnologia para identificar predadores, comportamentos de risco como cyberbullying e até mesmo casos de automutilação.

As exigências para redes sociais, como a vinculação de contas a responsáveis e a verificação de idade por “meios confiáveis”, carecem de parâmetros técnicos claros e de uma análise de proporcionalidade. Sem padrões mínimos definidos em regulamento, o risco é criar um mosaico de soluções improvisadas e potencialmente invasivas. O prazo de um ano para adaptação desconsidera a complexidade operacional de grandes plataformas e o impacto econômico devastador sobre pequenas e médias empresas.

O projeto atual, infelizmente, cai em uma contradição comum: a vontade de proteger grupos vulneráveis se converte em um texto normativo excessivamente rígido, pouco técnico e, no limite, contraproducente. O Congresso, mais uma vez, parece repetir o ciclo de normas bem-intencionadas, mas de difícil aplicação prática. Uma lei não pode ser refém de slogans legislativos; precisa enfrentar a complexidade do tema com rigor técnico e visão de futuro. Antes de virar lei, o ECA Digital precisa de amadurecimento, sob o risco de falhar em sua missão mais essencial que é proteger de verdade crianças e adolescentes.

Beatriz Haikal é sócia da área de Proteção de Dados & Inteligência Artificial do BBL Advogados.

Conte Sua História de São Paulo: joguei panela no Canindé

Por Antonio David Bravo

Ouvinte da CBN

 

 

Os meus contemporâneos se lembram. Na meninice, naquela época de antanho, sem iPod, iPad, iPhone e iCloud, tínhamos que ser criativos nas brincadeiras. Todo o nosso lazer acontecia na rua. Morei no Canindé, na Rua Madeira, número 160. Era a última casa da rua, que tinha 160 metros de extensão. Eram tantos os moleques que as turmas precisavam ser divididas em do começo; do meio e do fim. 

Futebol, corrida, briga e todo tipo de competição eram constantes entre as turmas. Quando não, nos juntávamos para competir e guerrear com as ruas vizinhas. Tínhamos na vizinhança o canil da PM, que ocupava uma área de 200 mil metros quadrados. Era só pular um muro de dois metros e meio de altura e todo aquele espaço era nosso. Apostávamos corrida em cima do muro. Não lembro de nenhum moleque ter quebrado um braço ou uma perna, apesar do muro ser todo torto.

 

No início da década de 50, o sistema de coleta de esgoto começou a ser implantado. Buracos foram abertos no meio da rua e as manilhas de diâmetro enorme foram a glória para a molecada: tínhamos trincheira, barro, esconderijos, enfim, tudo o que desejávamos para as nossas brincadeiras. 

 

Inventamos o Jogo da Panela, que era disputado entre dois e até cinco competidores. Tínhamos de fazer uma panela de barro com fundo do tamanho que a mão permitisse e com laterais de mais ou menos 8 centímetros de altura. A panela era jogada no chão com força e de cabeça para baixo. O impacto criava uma pressão interna e o fundo explodia. O buraco que se formava no fundo tinha que ser pago com um remendo feito pelo barro dos adversários. Ganhava quem conseguisse obter todo o barro do outro time. A turma do fim da Rua Madeira era sempre a campeã.  

 

Foi ali, no querido Canindé, entre lagoas e o rio Tietê, que, em 1956, a Portuguesa ergueu seu estádio, inicialmente apelidado de Ilha da Madeira. Lusa que completou 105 anos, em 14 de agosto. E, assim como a extensa maioria dois bairros na cidade de São Paulo, o meu Canindé também assumiu uma nova feição. 

Hoje, o bairro se ampliou e vem sofrendo uma notável mudança cultural imposta pela influência boliviana que transformou a região num centro de compras populares. Imigrantes vindos da América do Sul e da África alteram os contornos que no passado foram estabelecidos pelos tradicionais portugueses, italianos e árabes que ali fizeram a minha história.  E, consequentemente, a minha história de São Paulo. 

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Antonio David Bravo é personagem do Conte Sua Historia de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Tudo é muito coisa

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Reprodução do filme

“Eu sou aquela mulher
a quem o tempo muito ensinou.
Ensinou a amar a vida
e não desistir da luta,
recomeçar na derrota,
renunciar a palavras
e pensamentos negativos.
Acreditar nos valores humanos
e ser otimista”

Cora Coralina

O filme francês O fabuloso destino de Amélie Poulain (2001) conta a história de uma jovem sonhadora que dedica a vida a consertar pequenas dores de outras pessoas: devolve um brinquedo esquecido, junta casais ou espalha bilhetes anônimos para fazer alguém sorrir. Ela faz tanto pelos outros que, por um bom tempo, esquece de si mesma, deixando sua vida cheia de histórias alheias, mas vazia do próprio cuidado.

Assim como Amélie, muita gente acredita que precisa ser útil, boa e generosa ao extremo para garantir que será aceita, valorizada ou pertencente.

Evidentemente, esse não é um padrão que alguém escolhe ter de maneira consciente.

Em geral, a ideia de que ser amado está associado a ser útil nasce de experiências antigas, de situações nas quais a criança, cedo demais, entendeu que precisava fazer além do que podia para receber amor, atenção ou segurança.

Às vezes é o filho mais velho que, ainda pequeno, assume o cuidado de irmãos menores enquanto os pais trabalham, e aprende, sem se dar conta, que precisa ser “responsável” para ser elogiado ou notado; ou a criança que nota que os pais estão sobrecarregados, doentes ou emocionalmente ausentes, e então tenta não dar trabalho, engole a própria dor, faz tudo para ajudar em casa, acreditando que isso evita brigas e mantém a família unida. Em outros casos, é a criança que recebe afeto apenas quando tira boas notas, faz tudo “certinho”, ajuda em tudo e percebe que não há espaço para ser apenas criança, com erros e limites.

Assim, muito cedo, a mensagem se instala: “Eu só sou amado quando faço algo por alguém”.

E o que era apenas uma forma de sobreviver emocionalmente vira, na vida adulta, um padrão invisível, difícil de perceber, mas que faz a pessoa se doar além da conta, enquanto carrega, lá no fundo, a sensação de nunca ser suficiente.

Ser generoso, amoroso ou disponível não é um defeito. É algo valioso! O risco está em oferecer tudo sem critério. E quem já me conhece sabe que sempre digo: tudo é muita coisa!

Porque quando se faz demais, corre-se o risco de atrair quem só fica enquanto se beneficia. O resultado?  O que era afeto disponível vira recurso de utilidade.

Talvez dentro de você exista uma Amélie: doce, cuidadosa, disposta a juntar pedaços do mundo dos outros. Que bom! Mas, hoje, faça o compromisso de cuidar também do seu próprio mundo, de cuidar de você.

Quero lhe propor um desafio: Pense em alguém importante na sua vida e se pergunte: “Essa pessoa me procuraria se ela não precisasse de nada?”


Se a resposta for não, talvez seja hora de rever esse laço, não com amargura, mas com a leveza de quem entende que vínculos verdadeiros não funcionam como caixas eletrônicos, onde alguém passa, retira o que quer e vai embora. Relações autênticas são presenças vivas em vias de mão dupla.

Penso que o tempo nos ensina… Nos ensina a amar, a não desistir, a recomeçar, a acreditar nos valores humanos e ser otimista!

Há sempre um jeito de seguir sendo generoso, sem se sacrificar, mas com respeito, equilíbrio e limites.

Afinal, afeto saudável não se mede pelo quanto você faz pelos outros, mas pelo quanto você consegue permanecer inteiro depois de se doar.

Simone Domingues é psicóloga especialista em neuropsicologia, tem pós-doutorado em neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das fundadoras do canal @dezporcentomais, no YouTube. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung. 

Sua Marca Vai Ser Um Sucesso: além das telas?

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“A lição vale para marcas e para nós, pais e avós, que tenhamos equilíbrio para combinar o on e o offline, as brincadeiras de roda e as atividades na tela”. 

Cecília Russo

As marcas podem ajudar a afastar as crianças das telas? Considerando o que já conversamos, em comentários anteriores, sobre o papel social e pedagógico que as empresas exercem, assumir essa responsabilidade e promover um equilíbrio saudável entre o digital e o físico faz todo sentido. Esse foi o tema do Sua Marca Vai Ser Um Sucesso que foi ao ar no Dia das Crianças. No comentário, Jaime Troiano e Cecília Russo exploram como algumas marcas têm se destacado ao incentivar brincadeiras que fogem ao domínio das telas.

Cecília Russo destaca o exemplo de Omo, que, por meio da campanha “Se sujar faz bem”, promove o brincar ao ar livre e longe dos dispositivos. “Podem dizer que isso é pregar em causa própria”, comenta Cecília, “mas é uma pregação que faz um bom serviço à sociedade”. A marca, segundo ela, oferece sugestões de atividades fora das telas, incentivando pais e filhos a valorizarem o tempo juntos em atividades físicas e criativas.

Jaime Troiano, por sua vez, expressa preocupação com o uso excessivo das telas pelas crianças, mas pondera que o digital, quando usado com equilíbrio, pode coexistir com experiências tradicionais. Ele cita a Lego como um exemplo de marca que soube equilibrar o mundo físico e o digital. “Até a marca Lego, diga-se de passagem, admirável, se reinventou com base no digital, transportando seus bloquinhos também para outra esfera. Por sorte, ela manteve os pés nos dois lugares”, afirma Jaime.

A marca do Sua Marca

O comentário de Jaime Troiano e Cecília Russo destaca o compromisso social que as marcas devem ter com suas audiências, principalmente com as crianças. A mensagem principal do quadro é que o equilíbrio entre as telas e as brincadeiras ao ar livre é essencial, tanto para os pais quanto para as empresas que dialogam com esse público. Manter essa dualidade — entre o digital e o físico — pode ser a chave para conquistar e, ao mesmo tempo, proteger as futuras gerações.

Ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, logo após às 7h50 da manhã, no Jornal da CBN. A apresentação é de Jaime Troiano e Cecília Russo.

Quando a histórica curiosidade infantil se encontra com um jarro milenar

 Foto: Museu Hecht/Reprodução

Era um jarro de 3.500 anos, testemunha de uma era que só conhecemos pelos livros e pelas escavações arqueológicas. Descansava silencioso em sua vitrine, sem barreiras, como se a história o protegesse por si só. Até que um menino de cinco anos, com sua curiosidade desmedida e típica dessa idade, se aproximou do objeto. Talvez tenha imaginado que ali, dentro daquele recipiente milenar, se escondesse um segredo tão antigo quanto o próprio tempo.

Puxou o jarro, quem sabe desejando ouvir algum som misterioso ou ver um brilho dourado surgir de dentro. Mas a história é feita de imprevistos, e aquele som que ecoou pelas paredes do Museu Hecht, em Israel, foi o de uma quebra, uma colisão abrupta entre o passado e o presente. O jarro, que sobreviveu ao tempo, à erosão e às mãos de tantos povos, sucumbiu à curiosidade infantil.

O pai, ao ouvir o som do jarro se estilhaçando, correu. Calmamente, acalmou o filho, com a sabedoria que só os pais conhecem. Chamou um segurança e esperou as consequências que viessem. E o museu, como reagiu? Não acionou a polícia, não apontou dedos. Em vez disso, tratou o incidente como um acidente. Um erro sem culpa. Um descuido compreensível. Afinal, a história do jarro e a curiosidade de uma criança estavam, de certa forma, alinhadas. Ambos são, em sua essência, uma busca por entender o que veio antes.

Leia notícia no G1: Menina quebra jarro raro de 3.500 anos em museu de Isral

A decisão do museu de expor as peças sem barreiras, como se o passado pudesse ser tocado pelo presente, ressoa como um convite à conexão. Não se trata apenas de objetos antigos; são relíquias que nos fazem sentir, de alguma forma, parte de algo maior, algo que transcende as barreiras do tempo. O museu declarou que continuará com essa prática, permitindo que os visitantes apreciem de perto a magia dos artefatos, sem o filtro do vidro ou a distância das cordas de proteção.

O jarro será restaurado, as marcas da queda suavizadas pelas mãos habilidosas dos restauradores. E, quando voltar ao seu lugar de origem, trará consigo uma nova história. Não mais apenas a de uma peça que transportou vinho ou azeite em tempos bíblicos, mas a de um encontro com a curiosidade pura e simples de uma criança. E talvez seja essa a maior lição de todas: que a história, por mais distante que pareça, continua viva em cada um de nós, especialmente naqueles que ainda têm coragem de perguntar, de tocar, de descobrir.

Assim, o jarro voltará à sua vitrine. Um pouco mais frágil, talvez, mas carregando em suas rachaduras um lembrete silencioso de que o passado e o presente estão sempre a um toque de distância.