Assédio escolar ou intimilhação

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Escrevi na semana passada sobre o “bullying”. Essa palavra da língua inglesa não encontrou tradução no português. Podem dizer que,se fico brabo ao ouvi-la,é problema meu. Perguntava-me se seria apenas eu que não consigo aceitar pacificamente o fato de o termo estrangeiro haver invadido o nosso idioma sem dó nem piedade e ser aceito,em especial,pela mídia,que o vem espalhando impunemente pelo Brasil. Já incorporamos várias palavras. Creio que “bullying” seja uma das mais recentes. Lembro-me de outra que não procede do inglês,mas do alemão. Trata-se de “blitz. Essa chega ao cúmulo de ser usada também no plural e obedecendo fielmente à regra da língua estrangeiros enfiados como espantalhos no português.

 

Volto,porém,ao “bullying”. Encontrei no Google,mais exatamente, no Ciberdúvidas da Língua Portuguesa,uma proposta de tradução do termo que contesto,mas não simpatizei com ela:intimilhação.É a soma de intimidar e humilhar,que permitiria que se usasse as palavras correlatas,isto é,intimilhado, intimilhar e intimilhante. Os franceses,no entanto,têm uma tradução da qual gosto mais,embora necessite de duas palavras:”harcèlement scolaire”,ou seja,”assédio escolar”. Não seria uma saída mais digna para a tradução de “bullying”,ao invés de permanecermos com o termo inglês”?

 

Seja lá como for agora,no meu tempo de colégio – e foram muitos os educandários que frequentei – não me recordo de sofrer assédio escolar ou de ver colegas sendo humilhados. No máximo ocorriam discussões e briguinhas sem maiores consequências. Hoje em dia,lamentavelmente,por mais que se combata o assédio escolar, esse se faz presente. A propósito,a prefeita de São José,cidade catarinense,tema do texto que postei na semana passada,continuará ainda disposta a pagar cirurgias corretivas de crianças da escola municipal,nascidas com orelhas de abano,visando a evitar que sofram assédio escolar? Espero que não tenha se deixado influenciar pelas psicólogas de plantão.

Prefeitura quer combater bullying pagando cirurgia para orelha de abano

 

Por Milton Ferretti Jung

 

O jornal Zero Hora,em reportagem divulgada no dia 13 de março,refere-se a uma controvérsia provocada por decisão da prefeitura de São José,cidade catarinense:a de custear operações plásticas em crianças que sofrem deboche porque possuem o que,popularmente,é chamado de orelhas de abano. Adeliana Dal Pont,prefeita do município e autora da ideia,afirma que a ortoplastia – esse é o nome da cirurgia destinada a corrigir o que não chega a ser um defeito congênito,mas talvez crie problemas para o desenvolvimento escolar de crianças sensíveis aos debochadores existentes,especialmente,em colégios que não lidem com o necessário rigor visando a evitar tal tipo de abusos.A opinião contrária à da prefeita Adeliana,ouvida pelo jornal gaúcho,psicóloga Carolina Lisboa,professora da PUC,especialista no tema,do alto de sua sabedoria,afirma que a cirurgia não acaba com o “bulling” . Escrevo essa palavra inglesa,me desculpem,com reservas,talvez porque, no meu tempo, os termos estrangeiros eram grafados com aspas e,hoje,inúmeros deles são tratados como coisa nossa. Aliás,fico mais danado com a maneira híbrida adotada pela maioria da mídia para postar o nome de uma das principais cidades dos Estados Unidos: “Nova York”. Por que não Nova Iorque ou New York. Mas o meu assunto neste texto é o que prefiro chamar de deboche.

 

Retorno a ele por achar necessário opinar sobre a controvérsia causada pela prefeita de São José. Tenho lá minhas dúvidas a respeito,também,do que pensa outra especialista na questão.Débora Dalbosco Dell´Aglio,professora do Instituto de Psicologia da UFRGS,entende que o procedimento não combate de maneira efetiva a agressão e,pelo contrário,chama muita atenção para essa espécie de situação.

 

Acho que é bem mais fácil pagar a cirurgia de crianças com orelhas de abano,que sofram nas mãos dos debochados,do que os dicionaristas brasileiros descobrirem um substituto para “bulling”(do inglês Bulli + valentão). Essa,vá lá,refere-se a todas as formas de atitudes agressivas,verbais ou físicas,intencionais ou repetitivas,que ocorrem sem motivação evidente e são exercidas por um ou mais indivíduos,causando dor e angústias,com o objetivo de intimidar ou agredir outra pessoas incapazes de se defender. Eu cheguei a imaginar que “bulling” viesse de “Bull” (touro,em inglês),eis que,em geral,os seus contumazes praticantes são mais fortes do que as suas vítimas.

 

Os videogamens e a influência sobre as crianças e adolescentes

 

 

O comentarista de tecnologia Ethevaldo Siqueira, do Mundo Digital, levou para o Jornal da CBN a discussão sobre a influência dos jogos eletrônicos para os adolescentes. O tema é extremamente atual a medida que em muitas casas ainda assistimos ao drama dos pais na tentativa de controlar o uso da tecnologia por entender que os excessos podem causar prejuízos, danos no desenvolvimento psicológico e perdas no desempenho escolar. Ethevaldo disse que o tema divide os educadores em quatro grupos: os radicais que são totalmente contra os games; os liberais que recomendam o acompanhamento dos pais; os que condenam os jogos violentos; e os que só aceitam os educativos.

 

Provocado pelo comentarista, contei minha experiência com os dois adolescentes de casa, ambos apaixonados pela internet e pelos videogames. Quando eram pequenos, jogávamos juntos; agora que cresceram, têm interesses próprios e o tempo em que compartilhamos os games diminuiu (mesmo porque passei a tomar surras históricas). Uma coisa não mudou: mantivemos o mesmo ambiente para acessarmos computadores e games. Uma mesa redonda no início, agora horizontal, onde estão nossos computadores, equipamentos que usamos para trabalhar, estudar e nos divertir. Eles fazem lição, conversam com os colegas pelo Skype, trocam mensagens e conhecimento. Também assistem aos seriados, graças a conta no Netflix, e aos seus Youtubers preferidos, onde encontram informação relevante. Jogam bastante em games que, atualmente, são capazes de atrair audiência maior do que boa parte dos jogos de futebol dos campeonatos estaduais aqui no Brasil. Ao lado deles, faço meu trabalho, escrevo textos (como agora), atendo a demandas de jornais e revistas, respondo e-mails, planejo o Jornal da CBN com o apoio dos produtores do programa e organizo minha vida. Em meio a tudo isso, conversamos muito.

 

Considero-me um liberal, pois sequer imponho tempo de uso dos videogames. Nunca precisei disso. Eles sempre foram capazes de perceber quando exageravam e cumpriram perfeitamente suas obrigações. Importante registrar que o desempenho escolar de ambos é exemplar. Pode ser que isto aconteça porque sou um pai de sorte, ou melhor, somos pais de sorte, afinal minha mulher tem tudo a ver com a educação que eles receberam. Creio, porém, que esse privilégio também está ligado ao diálogo que mantivemos durante todos esses anos, sem esconder nossos pensamentos sobre os diferentes comportamentos diante do computador. e da vida. Afinal, jamais pensamos em delegar para a televisão, para os games, para os amigos ou mesmo para a escola a formação que sempre desejamos para ambos. Provavelmente cometemos alguns erros nessa jornada, mas assumimos nossa responsabilidade.

 

Se há um erro que percebo em parte das famílias é a ideia de que a educação de nossos filhos tem de ser terceirizada. É comum ouvirmos pedidos para se encher a grade curricular com temas que poderiam ser muito bem resolvidos em casa: ética, religião, direitos humanos, cidadania, respeito ao meio ambiente, entre outros. São assuntos importantes, sem dúvida, e devem ser debatidos de forma interdisciplinar na escola, mas, principalmente, devem ser exercitados em casa, o que somente vai ocorrer se os pais estiverem presentes. Sei que a maioria de nós tem obrigações profissionais que nos impede de acompanhar os filhos 24 horas. Mas não é isso que se deve buscar, mesmo porque seria impossível. Precisamos valorizar o tempo em que estamos com eles e aproveitar para reforçar os laços de confiança que os fará procurá-lo sempre que surgirem dilemas. E muitos dilemas vão surgir na vida desses adolescentes.

 

Fiquei bastante satisfeito ao perceber que não estou sozinho nesse pensamento, pois a maior parte das mensagens que chegou à minha caixa de correio eletrônico, na rádio CBN, foi de pais que concordam com a ideia de que os videogames não são a fonte de todos os males que descaminham os jovens. Pais que entendem que a responsabilidade deles é muito maior na formação das crianças.

 

Ouça aqui o comentário do Ethevaldo Siqueira que motivou este artigo:

 

O que vai acontecer com Paulinha?

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

 

Se perguntar para Patrícia Kogut da Globo, provavelmente dirá que ela terá que enfrentar sérios conflitos emocionais entre Paloma e Ninho, pais naturais, contra Bruno seu pai “verdadeiro”, mas terá um final feliz.

 

Se perguntar para a ministra Kátia Arruda do TST – Tribunal Superior do Trabalho provavelmente ouvirá que o trabalho na TV pode acarretar mudanças no comportamento de Klara Castanho, a menina de 12 anos que interpreta Paulinha. E o final feliz não estará garantido.

 

Ao assistir aos recentes capítulos de Amor à Vida e observando a interpretação de Klara Castanho como Paulinha, admiramos o desempenho teatral apresentado. Mais ainda ao assistir à entrevista que a premiada atriz mirim deu sobre a forte cena da descoberta da paternidade, quando foi aos prantos sem truques.

 

A questão é que este trabalho realizado de forma tão profissional e madura, não escapa à indagação sobre o reflexo à formação de uma criança. Ainda mais que o trabalho infantil é proibido para menores de 16 anos.

 

O problema é que há caminhos legais que permitem esta exposição de crianças. Principalmente baseadas no preconceito, pois a glamorização da atividade artística e principalmente televisiva endossa esta atividade, mesmo para menores de até seis anos de idade. Enquanto outros trabalhos menos “nobres” e mais braçais são demonizados.

 

No tênis, por exemplo, a formação de tenistas de ponta oriundos da atividade infantil de pegadores de bola, foi interrompida ao cumprir a lei do trabalho do menor. Maneco Fernandes, Givaldo Barbosa, Julio Goes, Edvaldo Oliveira e Julio Silva, meninos pobres, e campeões, não mais existirão. Os potenciais pegadores de bola de hoje terão que ingressar como aprendizes e somente dos 14 aos 16 anos, idades que os Givaldos já eram bons de bola.

 

Enquanto isso, Paulinha, que já foi Rafaela, a primeira menina vilã da TV brasileira, deverá enfrentar cenas mais dramáticas, com doença grave e sem cabelo.

 

Esperemos que Walcyr Carrasco amoleça um pouco a trama para Paulinha, antes que se repita o ocorrido com Rafaela, quando a Promotoria interveio.

 

É bem verdade que depois disso, Klara ganhou o Prêmio de Melhor Atriz Mirim de 2010 e Contrato de dois anos com a TV Globo.

 


Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Milton Jung, às quartas-feiras.

Menores: acorda Brasil!

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

Crianças de rua

 

Ontem, Mílton Jung reforçou seu artigo de sexta, que pedia isenção e reflexão sobre a criminalidade de menores. Registrou os dados de Sonia Racy publicados no Estado de domingo, colhidos na Fundação Casa, informando que 3.600 internos de um total de 9.000, foram para lá em função do tráfico de drogas. Crime que encontra o despreparo do estado em 70% dos municípios paulistas, pois apenas 30% tem estrutura para lidar com as drogas.

 

Ainda ontem, a Folha em seu editorial “A rua vence a escola” publicou que pesquisa do Datapopular registrava que 44% dos professores do estado tinham recebido agressões físicas ou verbais, além de 84% saberem da violência nas escolas, das quais 42% originadas pelas drogas.

 

Na capital paulista, pesquisa publicada na semana passada indica que a maior preocupação do paulistano é o receio das drogas.

 

Atendendo a sugestão do artigo do Mílton procurei abastecer-me da necessária isenção sabendo das barreiras do juízo de valor, e refletindo dentro das minhas possibilidades, cheguei à conclusão que precisamos de atualização. De um lado, o jovem contemporâneo não pode ser visto dentro do perfil comportamental de antigamente. O amadurecimento é evidente, e a evolução da espécie já não é tabu, de forma que tratar o adolescente de 16 a 18 anos como criança, é no mínimo imprudente. De outro lado, o aparato estatal precisa estar equipado para atuar no mundo de hoje, considerando o universo do bem e do mal que cerca a juventude atual.

 

Acredito, portanto, que antes de refazer a antiga e certamente ultrapassada legislação do menor, precisamos definir a verdadeira idade dos adolescentes diante das prerrogativas e responsabilidades que deverão arcar. Sob este aspecto visualizo a necessária técnica da segmentação das faixas etárias, abrindo uma moderna escala especifica para cada grupo.

 

Ao Estado deverá caber a tarefa de se preparar com o conhecimento e habilidade necessária para enfrentar o desafio de administrar e controlar as causas antes dos efeitos, do mundo das drogas e afins, que ora estão atingindo a juventude.

 

Se a precipitação em torno da maioridade penal é contraindicada, a aceleração do processo de análise é essencial.

 

Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Mílton Jung, às quartas-feiras.

O que eu penso sobre a maioridade penal

Texto escrito, originalmente, para o Blog Adote São Paulo, da revista Época São Paulo

 

el arma homicida

 

Antes de começar a ler este texto, saiba que ainda me dói lembrar que, há um ano, minha casa foi ocupada por oito pessoas armadas, dentre elas jovens e adolescentes, que ameaçaram meu filhos e minha família. Portanto, mesmo que você discorde de cada palavra aqui escrita, e aceitarei isto com naturalidade pois compreendo as emoções e razões que nos movem quando falamos de segurança pública, não desperdice nosso tempo desejando que eu e meus familiares sejamos vítimas de violência cometida por menores de idade. É o tipo de pensamento que desmerece a crítica, enfraquece os argumentos e o torna tão desumano quanto os bandidos que precisamos combater.

 

O envolvimento de jovens com menos de 18 anos em casos de violência, como assaltos e assassinatos, tem provocado comoção na sociedade. Levantamento feito em oito Estados brasileiros mostra que, em 2012, aumentou o número de apreensão de crianças e adolescentes. Ano passado, 18% das pessoas capturadas pela polícia eram menores de idade; em 2011, este percentual era de 17%.

 

Muitas pessoas defendem a redução da maioridade penal como forma de combater esta violência. A ideia é defendida por autoridades policiais e governamentais, também.

 

O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, diante do aumento dos casos de violência registrados no Estado que comanda, cometidos por jovens e adultos, apresentou proposta, ao Congresso Nacional, que prevê mudança no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). A proposta de Alckmin sugere que se o menor cometer crime hediondo, o juiz poderá determinar que o infrator fique internado até 8 anos, em vez de 3 anos, como previsto atualmente; ao completar 18 anos, este infrator terá de ir para um regime especial, ficando afastado daqueles infratores com até 17 anos; defende, também, aumento de pena para adultos que usarem menores nos crimes. O governador diz que não é a favor da redução da idade penal.

 

Ao contrário do que se propaga, a legislação brasileira prevê punição a jovens envolvidos em crimes, seguindo recomendações internacionais e leis em vigor em outros países. Segundo o Unicef, de 54 países analisados, a maioria adota a idade de responsabilidade penal absoluta aos 18 anos de idade, como no Brasil. E têm legislação específica de responsabilidade penal juvenil para crianças a partir de 12, 13 ou 14 anos. No caso brasileiro, esta responsabilidade começa aos 12 anos, idade a partir da qual, a criança que tenha cometido alguma infração pode ser internada em entidades coma Fundação Casa, em São Paulo.

 

Apesar do destaque que o envolvimento de menores em crimes tem tido na imprensa, e da reação de governos e parte da sociedade, as estatísticas mostram, claramente, que menos de 1% dos assassinatos no Brasil são cometidos por menores. Ou seja, são os adultos os responsáveis pela maior parte dos assassinatos no País. Em contrapartida, o Mapa da Violência mostra que de cada três mortos por arma de fogo, dois estão na faixa dos 15 a 29 anos. Os jovens representam 67,1% dos mortos por armas de fogo. Ou seja, são mais vítimas do que algozes.

 

Importante perceber que o aumento nos últimos anos da entrada de adolescentes no mundo do crime está relacionado ao envolvimento com o tráfico de drogas.

 

Reduzir a maioridade penal para 14 ou 16 anos, conforme propostas discutidas no Congresso Nacional, não vai reduzir os índices de violência. Servirá apenas para dar uma resposta à comoção popular. Haja vista, que mesmo com as leis em vigor para maiores de idade, os crimes não estão diminuindo.

 

Causas que precisam ser atacadas para reduzir o envolvimento de jovens em crimes e, principalmente, conter a violência no País: combater o tráfico de drogas; melhorar o trabalho de polícia preventiva; tornar mais eficiente a investigação policial para identificar os criminosos. No caso específico para os jovens: melhorar o sistema de proteção social nas áreas mais carentes; melhorar a qualidade dos ensino médio e fundamental; criar programas públicos para atedimento de menores, tanto em situação de risco como os envolvidos em crimes; capacitar e qualificar profissionais que realizam as ações socioeducativas aos menores internados, melhorando os índices de ressocialização e reduzindo os casos de reincidência.

Conte Sua História de SP: o mundo está aqui

 

Por Esmeralda Marcato
Ouvinte-internauta

 

Ouça o texto que foi ao ar na CBN, sonorizado pelo Cláudio Antonio

 

Ah! falar ou escrever sobre a cidade de São Paulo, é muito fácil, porque vivi momentos mágicos, como ver todas as noites o céu estrelados com trilhões de estrelas brilhantes que iluminavam toda a cidade. Havia festas nos clubes; cinemas em todos os bairros; as ruas eram enfeitadas para comemoramos as festas juninas, o Carnaval, o Natal; enfim, as amizades eram as mais ricas e cristalinas. As crianças brincavam o dia inteiro na rua, tinham toda a liberdade e corriam alegremente. Brincavam de mãe da lata, bolinha de gude, bola de meia, pega-pega, pique, esconde e esconde, perna de pau, pipas. E à noite as crianças se encontravam para conversar e trocar ideias, e rir muito com piadas e histórias que inventavam.

 

Com o tempo tudo isso mudou. O céu perdeu suas estrelas, as crianças, a magia de brincar, as ruas ficaram desertas, os cinemas fecharam, os clubes não existem mais, os enfeites das ruas desapareceram no tempo e no espaço, as amizades são muito superficiais, nada dura. Que pena! O progresso veio e eliminou toda a beleza e a riqueza desta gigante e majestosa cidade de São Paulo. Mas continuo admirando-a e a amando a cada segundo, porque “Ela” é única, e sendo assim, posso declarar o meu eterno amor, o meu carinho à toda a população. Porque “Ela” abraça e recebe todas as pessoas do Brasil, da America Latina, Europa, Ásia, o mundo inteiro está representado nesta grande cidade. Parabéns São Paulo. Milhões de felicidades para você. E que cada pessoa possa renascer um pouco desta linda e bela magia que foi São Paulo, principalmente no tocante as amizades e a união das famílias. Conto com todos vocês. Amem essa cidade com a alma e o coração, diariamente.

 

Esmeralda Marcato é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade. Escreva para milton@cbn.com.br. Ou agende uma entrevisa, em áudio e vídeo, no Museu da Pessoa. Para ouvir outras histórias de São Paulo vá no blog, o Blog do Mílton Jung

A alma das marcas: Gallery, São Paulo, 1982

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

A Cidade de São Paulo, das décadas de 60 a 80, seguindo uma tendência das grandes metrópoles do mundo, possuiu locais de entretenimento bastante sofisticados e exclusivos, onde a elite paulistana pode desfilar e desfrutar de boa música, shows refinados e gastronomia requintada.

 

Neste concorrido mercado, o Gallery se destacou. Predominou nos anos 1980 de forma absoluta com seus salões que serviram para namoros, casamentos e para o marketing de produtos e eventos de luxo. Foi neste contexto que, dirigindo a marca de moda infantil Caramelo, e tendo filhos ainda pequenos, percebi que também as crianças não estavam alheias ao prestígio do Gallery. Afinal era o lugar que os pais eram sócios, mas elas não podiam ir. Oportunidade e tanta para divulgar a marca dentro do segmento desejado.

 

Convidamos então os filhos dos sócios através do Jornal do Gallery, com uma chamada feita pela Angélica. Naquela época a sensação das passarelas infantis e Top Model da marca Caramelo:

 

 

Bem, o evento ficou como marco da marca Caramelo. Além de provar que as marcas realmente têm alma, pois Caramelo e Gallery já não tem mais corpo, mas a alma permanece. Se duvidar, pergunte a quem as conheceu.

 

Visite o álbum de fotos e veja se você reconhece algumas das personalidades que eram e são destaque da sociedade paulista. Vale a pena ampliar as imagens, clicando no canto inferior à direita, para aproveitar a festa:

 

 

Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Mílton Jung, às quartas-feiras

A cartinha para o Papai Noel

 

Havia uma fila enorme e paciente que se estendia pelo corredor do shopping. Tinha pais entusiasmados e crianças embrulhadas para presente. Algumas exageradamente embrulhadas com roupas estranhas, enquanto outras pareciam mais divertidas. Um quarteto de irmãos se apresentou de pijama para a foto com o Papai Noel, em comportamento que achei bastante original. A maioria estava com o que costumava chamar lá na minha terra de domingueira, aquela roupa que os pais só deixavam usar para visitar os avós ou ir à Igreja nos domingos. Apesar de a maioria dos frequentadores do mall da cidade de Danbury, no estado americano de Connecticut, ter como maior atração as compras de Natal, o Papai Noel ainda merece seu destaque. Mesmo que com o imaginário ocupado por zumbis e hobbits, parte das crianças despende tempo para escrever uma cartinha ao velhinho de barba branca que, com muito jeito, disfarça uma leitura cuidadosa nos pedidos entregues em mãos. A cena dos escrivinhadores infantis transcende o tempo e a tecnologia,  e ainda emociona. Você já escreveu a sua ?

 

Onde estão nossas crianças?

 

Por Julio Tannus

 

Família de rua

 

Após passar por várias mães com crianças sentadas na calçada, desde bebês quase recém-nascidos até meninas e meninos de várias idades, no bairro de Higienópolis, em São Paulo, não resisti. Resolvi fazer uma pesquisa:

 

Perg: O que a sra. quer?
Resp: Uma ajudazinha

 

Perg. Para que a sra. quer uma ajudazinha?

 

Resp: Para dar de comer para meu/minha filho(a)
Resp: Para ter dinheiro para ir embora daqui
Resp: Para comprar um sapato para meu filho
Resp: Para comprar uma roupa para meu neném

 

Perg: Posso tirar uma foto?

 

Resp: Não
Resp: Não
Resp: Não
Resp: Não
Resp: Não
Resp: Não
Resp: Não

 

Até que finalmente consegui uma autorização, com a seguinte ressalva: “só pode tirar se não for sair na televisão”.

 

Perg: Onde a sra. mora?

 

Resp: Debaixo da ponte

 

Carlos Drummond de Andrade

Moravam debaixo da ponte. Oficialmente, não é lugar onde se more, porém eles moravam. Ninguém lhes cobrava aluguel, imposto predial, taxa de condomínio: a ponte é de todos, na parte de cima; de ninguém, na parte de baixo. Não pagavam conta de luz e gás, porque luz e gás não consumiam. Não reclamavam contra falta dágua, raramente observada por baixo de pontes. Problema de lixo não tinham; podia ser atirado em qualquer parte, embora não conviesse atirá-lo em parte alguma, se dele vinham muitas vezes o vestuário, o alimento, objetos de casa. Viviam debaixo da ponte, podiam dar esse endereço a amigos, recebê-los, fazê-los desfrutar comodidades internas da ponte.

 

À tarde surgiu precisamente um amigo que morava nem ele mesmo sabia onde, mas certamente morava: nem só a ponte é lugar de moradia para quem não dispõe de outro rancho. Há bancos confortáveis nos jardins, muito disputados; a calçada, um pouco menos propícia; a cavidade na pedra, o mato. Até o ar é uma casa, se soubermos habitá-lo, principalmente o ar da rua. O que morava não se sabe onde vinha visitar os de debaixo da ponte e trazer-lhes uma grande posta de carne.

 

Nem todos os dias se pega uma posta de carne. Não basta procurá-la; é preciso que ela exista, o que costuma acontecer dentro de certas limitações de espaço e de lei. Aquela vinha até eles, debaixo da ponte, e não estavam sonhando, sentiam a presença física da ponte, o amigo rindo diante deles, a posta bem pegável, comível. Fora encontrada no vazadouro, supermercado para quem sabe freqüentá-lo, e aqueles três o sabiam, de longa e olfativa ciência.

 

Comê-la crua ou sem tempero não teria o mesmo gosto. Um de debaixo da ponte saiu à caça de sal. E havia sal jogado a um canto de rua, dentro da lata. Também o sal existe sob determinadas regras, mas pode tornar-se acessível conforme as circunstâncias. E a lata foi trazida para debaixo da ponte.
Debaixo da ponte os três prepararam comida. Debaixo da ponte a comeram. Não sendo operação diária, cada um saboreava duas vezes: a carne e a sensação de raridade da carne. E iriam aproveitar o resto do dia dormindo (pois não há coisa melhor, depois de um prazer, do que o prazer complementar do esquecimento), quando começaram a sentir dores.

 

Dores que foram aumentando, mas podiam ser atribuídas ao espanto de alguma parte do organismo de cada um, vendo-se alimentado sem que lhe houvesse chegado notícia prévia de alimento. Dois morreram logo, o terceiro agoniza no hospital. Dizem uns que morreram da carne, dizem outros que do sal, pois era soda cáustica. Há duas vagas debaixo da ponte.

 

 


Julio Tannus é consultor em Estudos e Pesquisa Aplicada e co-autor do livro “Teoria e Prática da Pesquisa Aplicada” (Editora Elsevier). Às terças-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung