Onde estão nossas crianças?

 

Por Julio Tannus

 

Família de rua

 

Após passar por várias mães com crianças sentadas na calçada, desde bebês quase recém-nascidos até meninas e meninos de várias idades, no bairro de Higienópolis, em São Paulo, não resisti. Resolvi fazer uma pesquisa:

 

Perg: O que a sra. quer?
Resp: Uma ajudazinha

 

Perg. Para que a sra. quer uma ajudazinha?

 

Resp: Para dar de comer para meu/minha filho(a)
Resp: Para ter dinheiro para ir embora daqui
Resp: Para comprar um sapato para meu filho
Resp: Para comprar uma roupa para meu neném

 

Perg: Posso tirar uma foto?

 

Resp: Não
Resp: Não
Resp: Não
Resp: Não
Resp: Não
Resp: Não
Resp: Não

 

Até que finalmente consegui uma autorização, com a seguinte ressalva: “só pode tirar se não for sair na televisão”.

 

Perg: Onde a sra. mora?

 

Resp: Debaixo da ponte

 

Carlos Drummond de Andrade

Moravam debaixo da ponte. Oficialmente, não é lugar onde se more, porém eles moravam. Ninguém lhes cobrava aluguel, imposto predial, taxa de condomínio: a ponte é de todos, na parte de cima; de ninguém, na parte de baixo. Não pagavam conta de luz e gás, porque luz e gás não consumiam. Não reclamavam contra falta dágua, raramente observada por baixo de pontes. Problema de lixo não tinham; podia ser atirado em qualquer parte, embora não conviesse atirá-lo em parte alguma, se dele vinham muitas vezes o vestuário, o alimento, objetos de casa. Viviam debaixo da ponte, podiam dar esse endereço a amigos, recebê-los, fazê-los desfrutar comodidades internas da ponte.

 

À tarde surgiu precisamente um amigo que morava nem ele mesmo sabia onde, mas certamente morava: nem só a ponte é lugar de moradia para quem não dispõe de outro rancho. Há bancos confortáveis nos jardins, muito disputados; a calçada, um pouco menos propícia; a cavidade na pedra, o mato. Até o ar é uma casa, se soubermos habitá-lo, principalmente o ar da rua. O que morava não se sabe onde vinha visitar os de debaixo da ponte e trazer-lhes uma grande posta de carne.

 

Nem todos os dias se pega uma posta de carne. Não basta procurá-la; é preciso que ela exista, o que costuma acontecer dentro de certas limitações de espaço e de lei. Aquela vinha até eles, debaixo da ponte, e não estavam sonhando, sentiam a presença física da ponte, o amigo rindo diante deles, a posta bem pegável, comível. Fora encontrada no vazadouro, supermercado para quem sabe freqüentá-lo, e aqueles três o sabiam, de longa e olfativa ciência.

 

Comê-la crua ou sem tempero não teria o mesmo gosto. Um de debaixo da ponte saiu à caça de sal. E havia sal jogado a um canto de rua, dentro da lata. Também o sal existe sob determinadas regras, mas pode tornar-se acessível conforme as circunstâncias. E a lata foi trazida para debaixo da ponte.
Debaixo da ponte os três prepararam comida. Debaixo da ponte a comeram. Não sendo operação diária, cada um saboreava duas vezes: a carne e a sensação de raridade da carne. E iriam aproveitar o resto do dia dormindo (pois não há coisa melhor, depois de um prazer, do que o prazer complementar do esquecimento), quando começaram a sentir dores.

 

Dores que foram aumentando, mas podiam ser atribuídas ao espanto de alguma parte do organismo de cada um, vendo-se alimentado sem que lhe houvesse chegado notícia prévia de alimento. Dois morreram logo, o terceiro agoniza no hospital. Dizem uns que morreram da carne, dizem outros que do sal, pois era soda cáustica. Há duas vagas debaixo da ponte.

 

 


Julio Tannus é consultor em Estudos e Pesquisa Aplicada e co-autor do livro “Teoria e Prática da Pesquisa Aplicada” (Editora Elsevier). Às terças-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung

9 comentários sobre “Onde estão nossas crianças?

  1. Bom dia Julio,

    de toda maneira me preocupa os meninos na rua. Eles reproduzirão o modelo. Vão perpetuar a ponte e o costume da ponte, da rua, de pedir e do não. Por que não há Educação sem casa e escola e obrigatoriamente quando uma falha a outra falha logo em seguida.
    De toda maneira, me preocupa os meninos na rua.
    Drummond Sabia das coisas, sabia dos meninos. É justo que eles venham a saber de Drummond, não é?
    Abraço

  2. Bacana, Jilio, muito bacana. Na correria do dia a dia, cada um às voltas com seus problemas, é raro a gente ir além do olhar, se deter e parar para conversar, para enxergar e realmente ouvir o outro e seus problemas. Valeu!

  3. Caro Sérgio, concordo com suas palavras. Sem casa e sem escola não há como deixar de ser pedinte, o que é melhor do que ser traficante. Oxalá essas crianças viessem a saber de Drummond algum dia. Um abraço.

  4. Boa Noite Milton e aos Colegas Blogueiros.

    Milton infelizmente, na cidade de SP, sem contarmos com as crianças que literalmente já se encontram nas ruas, temos essas pessoas que muitas vezes são os próprios pais que fazem com que essa crianças alem de pedirem esmolas, fazem trabalhos forçados, vendem alimentos nos faróis e deixam seus estudos. E a essas, não restam outro caminho se não for o da bandidagem. É claro que nem todos que estão ali, vão virarem bandidos mas as chances são grandes.
    Na minha modesta opinião os pais que fizessem isso com os filhos deveriam ser presos ou tivessem algum tipo de punição e ai quem sabe eles não fariam esse tipo de safadeza.
    Por outro lado, o poder publico tem sua parcela de culpa. Vejo o caso do governo de SP. Enquanto muitos estados da federação desenvolvem politicas na tentativa de resgatarem seus jovens, ele constroem presídios e as febens da vida. Enquanto outros estados constroem escolas, ele fecha as escolas.
    E todos sabemos um país ou qualquer estado, só saem da estagnação através da educação.

    Abr,

    Sinval.

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