Palavras do presidente têm efeito mais letal sobre a vida humana do que videogames

 

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Cena de CSGO (gamerview.com.br)

 

Donald Trump adora um videogame. Especialmente se for para transformá-lo em bode expiatório. Sem nunca ter saído do palanque, segue com seu discurso de ódio, ataca minorias e desrespeita o contraditório. Nos atos e nas omissões, incentiva o culto às armas e critica o uso de jogos eletrônicos, como voltou a fazer nesta semana após deparar com mais dois ataques a tiros, que levaram a morte 31 pessoas, no Texas e em Ohio. Para Trump, “os videogames desumanizam as pessoas” e são parte da culpa dos tiroteios em massa.

 

O discurso de Trump está décadas atrasado. Essa discussão já foi superada, ao menos do ponto de vista da ciência. Mas como estamos vivendo uma era de ascensão dos obscurantistas —- o Brasil que o diga —-, a retórica contra os games volta a todo instante. Foi assim em março deste ano quando ficamos chocados com o assassinato de estudantes em uma escola, em Suzano, Grande São Paulo.

 

Pedro Doria, em Vida Digital, no Jornal da CBN, terça-feira, falou do assunto em seu comentário. Lembrou que a relação entre atos de violência e videogame data dos anos de 1990 com o surgimento de jogos do modelo “first-person shooter” ou “tiro em primeira pessoa” —- em que o jogador controla um personagem pelo cenário, carregando armas e lançadores de projéteis. Dois ícones desse tipo de jogo foram o Wolfenstein 3D, criado em 1992, e o Doom, em 1993 .

 

Para entender porque se começou a refletir sobre o risco desses videogames é preciso lembrar que os anos de 1990 terminaram com a primeira grande tragédia em escola. Foi o massacre que matou 12 alunos e um professor na Columbine High School, em Columbine, no estado americano do Colorado, em abril de 1999.

 

 

O debate na época foi importante como outros tantos são essenciais atualmente, afinal ainda precisamos entender muito da relação humana com os avanços tecnológicos. E a cultura do videogame já se estabelecia especialmente entre os mais jovens, no fim do século passado. No entanto, desde lá, inúmeros estudos já derrubaram a tese que se mantém na cabeça ultrapassada de gente como Trump —- e como tem gente que pensa como ele!

 

Em seu comentário, Pedro Doria lembra de dois estudos que mostram, primeiro, que jovens envolvidos em tiroteios em massa costumam estar 20% menos envolvidos com videogames do que a média das pessoas da mesma faixa etária. Ou seja, seus filhos ou suas filhas devem jogar muito mais videogame do que esses assassinos —- nem por isso são agressivos ou revelam desejo de matar o próximo.

 

Em outra pesquisa, identificou-se que os níveis de emoção, adrenalina e agressividade aumentam enquanto a pessoa está jogando —- aspectos que não permanecem por muito tempo após o jogo ser desligado. De outro lado, identificou-se que o foco total na cena durante o jogo reduz as capacidades de planejamento e organização necessárias para a realização de ataques em massa. Ou seja, nem a turma sai da frente do game disposta a matar o primeiro que aparecer nem com disposição para preparar um ataque mais tarde.

 

Pesquisadores da Alemanha, foram além e, em 2017, publicaram a primeira investigação dos efeitos de longo prazo da violência nos videogames sobre a agressividade. Os pesquisados jogaram o GTA, que está na categoria dos violentos, o The Sims 3, considerado não-violento, ou simplesmente não jogaram nada, durante dois meses —- e quem jogou, jogou por muito tempo seguido. As evidências são amplamente contrárias a tese de Donald Trump.

“Em conjunto, os resultados do presente estudo mostram que uma extensa intervenção no jogo ao longo de 2 meses não revelou quaisquer alterações específicas na agressão, empatia, competências interpessoais, impulsividade, depressão, ansiedade ou funções de controle executivo; nem em comparação com um grupo de controle ativo que jogou um videogame não violento nem com um grupo de controle passivo”

Se quiser conferir, o estudo está publicado na revista Nature

 

Trump ajudaria muito o debate contra a violência se começasse a medir o peso de suas palavras, que têm efeito mais letal sobre a vida humana do que videogames.

 

Em maio, após demonizar imigrantes ilegais e chamá-los de “bandidos” e “animais”, perguntou à plateia que o assistia em comício, na Flórida: “Como você para essas pessoas? Você não pode”. Alguém na multidão, gritou: “Atire neles”.  Trump  sorriu enquanto o público aplaudia esse absurdo. Por isso não surpreende que manifestos racistas publicados na internet, como o feito por Patrick Crusius, um dos responsáveis pelo massacre de El Paso, usem retórica semelhante a do presidente.

 

 

Mundo Corporativo: Olga Curado diz como o fenômeno Trump pode ajudar você a cuidar melhor da sua imagem

 

 

Donald Trump criou uma mensagem emocional para um grande público que não era ouvido e, principalmente, transmitiu autenticidade em seu discurso para vencer as eleições presidenciais dos Estados Unidos. A avaliação é de Olga Curado, consultora de comunicação, em entrevista ao jornalista Mílton Jung, no programa Mundo Corporativo, da rádio CBN. Além de analisar o modelo de comunicação do presidente eleito americano, Curado fala das estratégias necessárias para preservarmos nossa imagem e construirmos reputação em um cenário de forte exposição pública e influenciado pelas redes sociais.

 

Olga Curado é autora do livro “A imagem revelada – do que é feito e como construir o nosso patrimônio mais valioso”.

 

O Mundo Corporativo é apresentado ao vivo, às quartas-feiras, no site da CBN e na página da CBN no Facebook. O programa é reproduzido aos sábados, no Jornal da CBN. Colaboram com o Mundo Corporativo: Juliana Causin, Rafael Furugen e Débora Gonçalves.

A retórica de Donald Trump: exagerada, colorida e fácil, até uma criança entende

 

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Era muito cedo ainda quando analistas tentavam explicar a vitória de Donald Trump na corrida presidencial dos Estados Unidos. Dos muitos aspectos que ouvi nas entrevistas que rodaram na CBN ou circularam por outros meios e tive acesso, quero me ater a um que considero fundamental: a comunicação.

 

Há três meses, o cientista político e especialista em comunicação Martin Medhurst, da Baylor University, no Texas, já havia analisado a retórica do novo presidente americano, repetindo estudo que realiza há mais de 40 anos: “sua linguagem é muito colorida, é fácil ouvi-lo” – isso não significa, reforço eu, que tenhamos que gostar do que ele diz, mesmo porque Trump não fala para mim ou para você. Fala para o americano mediano, medíocre. E aqui não vai crítica, apenas uma constatação.

 

Trump não usa sintaxe ou pontuação regular, prefere frases curtas e vocabulário mais restrito: “até mesmo uma criança pode entender”, lembra Medhurst.

 

Passa portanto no teste da linguagem simples, desenvolvido pelo jornalista Todd Bishop do The New York Times, sobre o qual trato no livro “Comunicar para liderar” (Editora Contexto,2015), co-escrito com a fonoaudióloga Leny Kyrillos.

 

Para avaliar a qualidade do discurso, Bishop criou quatro índices:

 

  1. Índice de palavras duras – é assim considerada qualquer palavra que tiver mais de três sílabas, ou seja, todas as polissílabas. São difíceis de articular e exigem atenção muito maior do ouvinte. Quanto menos palavras duras você usar na sua fala, melhor.

  2. Índice de frases curtas – o cérebro é preguiçoso e só entende aquilo que pode assimilar rapidamente. Frases com orações subordinas, apostos e muitas conjunções só funcionam na escrita. Quanto mais curtas forem as frases mais fácil de se fazer entender.

  3. Índice de densidade léxica – indica a facilidade ou dificuldade em ler um texto.

  4. Índice de legibilidade – sugere a quantidade de anos de escolaridade que um leitor teoricamente requer para compreender o discurso.

Trump é useiro e vezeiro em utilizar essa estratégia: repete slogans como letras de música pop, martela o ouvido das pessoas até impregnar na mente delas algumas expressões como “construir paredes” e “fazer a América grande novamente”, ensina Medhurst.

 

Usa a hipérbole como estratégia de guerra. Exagera nos exemplos e grifa ideias com ênfase suficiente para entorpecer sua mente, fala de maneira dramática, sem medo de errar. Aliás, o erro é proposital. “Um pouco de hipérbole nunca dói”, escreveu no livro “A arte da negociação”, publicado aqui no Brasil pela Campus, em 1987.

 

Seus exageros ultrapassam qualquer limite da responsabilidade, pois é capaz de despejar palavras e suspeitas contra seus adversários sem perdão: por exemplo, disse que Obama poderia ser o fundador do ISIS, e colocou em dúvida a origem americana do atual presidente.

 

Acusação e difamação que, cuidadosamente, vem seguidas de expressões como “não sei bem se é isso”, “talvez”, “quem sabe” ou “é o que costumam dizer” – lembra muito aquele seu amigo que compartilha posts com denúncia, mas tenta se defender escrevendo que “não sei se é verdade, mas ….”.

 

A propósito, como comunicação é tema que há muito é estudado pelos americanos, foi de um analista ouvido pela americana CNN, na madrugada dessa quarta-feira, e lembrado por Dan Stulbach, no nossa bate-papo no Hora de Experiente, do Jornal da CBN, o paralelo traçado entre três presidentes dos Estados Unidos:

 

“JFK entendeu como ninguém a retórica da televisão, Obama a da internet e Trump a das redes sociais”.

 

Tem razão, Trump sabe como poucos fazer o discurso que “faz acontecer” nas redes: é polêmico, usa frases de efeito, cria vilões, transforma-se em vilão, agride se necessário; apaga tudo e começa de novo, como se nada tivesse dito.

 

O discurso da vitória, que ouvimos logo cedo, assim que se iniciava o Jornal da CBN, já revelava um personagem diferente do que conhecemos na campanha eleitoral. Trump falou com respeito de Hillary e chamou os Estados Unidos a se unirem, novamente. Fez o papel conciliador. Talvez já se preparando para sua nova versão: a de presidente dos Estados Unidos.

 

Diante das incertezas, fiquemos com uma frase do próprio Trump escrita no livro “Arte da Negociação”:

 

“Sempre entro num negócio esperando pelo pior. Se você espera pelo pior, o melhor virá por si mesmo”.