Mantega no País das Maravilhas

 

Por Frederico Mesnik

Certa vez, nos tempos em que ainda era permitido, voltei em um vôo da Varig dentro da cabine do piloto. Perguntei de tudo, mas o que me chamou a atenção foi a aparente sensação de descontração entre os pilotos. Falavam de tudo, menos do vôo. De vez em quando, pelo canto do olho monitoravam algum instrumento, mas nada que justificasse algum ajuste. “Estamos em piloto automático”, justificou o comandante. “Voamos em céu de brigadeiro, sem nuvens carregadas à frente e nosso próximo check-point está a 2.000 milhas”, complementou o co-piloto que percebera minha inquietação sob o oceano a 33 mil pés em total escuridão.

O fato é que nesta situação o avião voa tranquilamente em piloto-automático, mas é durante uma turbulência, uma mudança de rota, ou a necessidade de alguma manobra que o piloto mostra seu talento; do futebol ao painel de controle em milissegundos dos fatos às decisões na fração necessária para colocar a aeronave de volta ao prumo.

Durante anos surfamos as ondas da prosperidade, dos ventos a favor, do céu de brigadeiro, e o Brasil decolou no piloto automático. Vieram as nuvens bem carregadas de 2008 com rajadas fortes, fechamos os flaps e subimos à altitude para novo cruzeiro. E agora, precisamos aterrissar de forma suave, com combustível baixo, pouca visibilidade e ventos que empurram a aeronave rumo ao chão. Porém, o piloto ainda age como se pilotasse um planador.

Nos meus mais de 20 anos de mercado financeiro, não me lembro de um momento tão delicado, com tantas situações interligadas prestes a estourar. Sinto-me como o Mário Bros® na primeira versão do Donkey Kong® em que o gorila frenético, atira do topo de um prédio, barris em direção ao pobre encanador que luta com veemência para desviar das ameaças rumo ao cume e salvar sua princesa.

O mundo, na nossa analogia, o valente Mário, luta para crescer e conquistar um crescimento sustentável de longo prazo. Porém, a cada minuto surgem novos barris e nosso gorila não hesita em atirá-los, com intuito de desaprumar a economia global da expansão. Do problema da impagável dívida soberana dos países periféricos do bloco europeu, dos levantes no Oriente Médio, terremoto no Japão, desemprego nos países desenvolvidos e inflação à alta incessante dos produtos agrícolas, o mundo vai caminhando para desviar com destreza das ameaças ao seu crescimento.

E o governo brasileiro, parte deste imbróglio, vai tocando seu dia a dia, em clara negação dos riscos inflacionários, com medidas isoladas sem efeito, desafiando o mercado e afugentando investidores estrangeiros. Como se houvesse certa esperança de que no final, tudo dá certo, de que Deus nasceu aqui. Enquanto isso, os índices de inflação vão rompendo o teto da meta estabelecida pelo Banco Central e o governo, assiste nas arquibancadas a confiança do consumidor, esvaindo-se.

O jogo é o mesmo, mas o nível de dificuldade é muito maior com mais barris para acertar a cabeça do bravo Mário. Porém, independentemente do barril, cada um individualmente tem o poder de descarrilar o mundo da sua rota de recuperação de crescimento da pior crise financeira desde a Grande Depressão.

O mundo está em um momento complicado e os mercados refletem esta falta de visibilidade. A inflação corre solta e nossos líderes globais vão tomando medidas isoladas, sem coordenação alguma num mundo globalizado e interligado, em que um ato do lado de lá afeta o lado de cá, quase sempre de forma instantânea. Pelo jeito algum barril ainda vai acertar nosso pobre Mário antes que ele adquira a destreza para enfrentar os obstáculos à frente e salvar sua princesa amada.

Por aqui, o governo já disse que não cumpre a meta em 2011, mas sim em 2012. O ponto não é o número em si, mas a perda de credibilidade num momento de tantas dúvidas.

Credibilidade traz investimentos de longo prazo e consumo. Um aumento substancial das expectativas inflacionárias afugenta tanto o capital de longo prazo como o consumidor, ambos os alicerces essenciais para nosso crescimento. Infelizmente, parece que a economia brasileira vai piorar antes de voltar ao seu prumo. A incoerência matemática de querer controlar a valorização do real ao mesmo tempo em que se tenta domar a inflação por meio do aumento de juros, mostra a falta de coordenação e excesso de confiança que rege nossa Fazenda e Banco Central.

Fica difícil ser um otimista num mundo tão conturbado em que os preços dos alimentos e da principal fonte de energia estão em patamares elevados e sem perspectiva de alívio num horizonte visível. O cenário é delicado e precisamos ser muito seletivos nos nossos investimentos. Não há como ficar imune às volatilidades inerentes da falta de visibilidade.

Nos dias de hoje vamos gerir como pregam os textos clássicos do Tai Chi Chuan:

Vencer o movimento através da quietude (Yi Jing Zhi Dong)
Vencer a dureza através da suavidade (Yi Rou Ke Gang)
Vencer o rápido através do lento (Yi Man Sheng Kuai)

E com isso, vamos colher os frutos da paciência e da perseverança naquilo que conhecemos e acreditamos. O dinheiro sempre persegue os bons investimentos e sabemos que conforme nossas empresas forem divulgando seus resultados vamos nos beneficiar. Há liquidez abundante de capitais no mundo e o Brasil tem grandes oportunidades.

Isso, se o governo não atrapalhar.

Frederico Mesnik é gestor de recursos, mestre em Administração de Empresas pela London Business School, especialização em Finanças pela Universidade de Chigago, GSB, e escreve no Blog do Mílton Jung

Política acima da inflação

 

Por Carlos Magno Gibrail

Dim Dim!

A inflação é hoje o prato do dia, para a mídia e para os agentes econômicos. Também pudera, ameaça toda a economia brasileira que vem fortalecida desde 1994, quando se estabeleceu as regras que controlaram a emissão de moeda.

E a ameaça vem mais pelos dirigentes do que pelos agentes, na medida em que os aumentos de impostos e os gastos do governo não foram controlados.

As chances de evitar a inflação de forma correta não são fáceis, pois os governos buscam objetivos pessoais, usando aumento de impostos e de gastos, enquanto os meios de comunicação, ou por interesses também pessoais ou por falta de competência técnica, não conseguem fortes e efetivas sugestões para a solução.

É um cenário que repete sistematicamente a questão do aumento da taxa de juros, opção preferida pelos governos nestes 16 anos, que como sabemos é o mesmo que dar remédio para baixar a febre sem buscar a causa, dado os resultados obtidos.

Clovis Rossi, na FOLHA de domingo, comenta que em maio de 2003 resumiu estudo do FMI enviado pelo leitor Jacques Dezelin, onde mostra que em 1.323 casos de 119 países entre 1982/98 a inflação caiu com ou sem aumento da taxa de juros em 62% dos 476 casos examinados. Em apenas 50% de 398 situações a inflação caiu após o aumento de juros.

E Rossi arremata: “conto tudo isso para dizer que não há ciência nas críticas ao BC por ter aumentado 0,25% a taxa de juros, em vez do 0,50% exigido pelos mercados. Ninguém pode decretar o efeito que terá o 0,25% ou que teria o 0,50%”.

Expondo estes fatos ao Professor Economista Nelson Barrizzelli, FEA USP, e solicitando análise e sugestões, ouvi:

“Com uma dívida pública já acima de 1,75 trilhões de reais, e crescendo diariamente, uma taxa de juros de 12% ao ano atrativo ao capital estrangeiro, um constante aumento do gasto de custeio para cobrir despesas, a solução não é o aumento da taxa de juros, mais atrativa do que empreender. Afinal 12% ao ano sem risco, superam a aventura de ser empresário”.

“Só o aumento na taxa Selic da semana passada (0,25%) acarretará este ano despesas adicionais de juros de R$ 4,37 bilhões, número nada desprezível para um país onde educação, saúde pública e infra-estrutura estão sucateadas. Aumentar os juros para conter a inflação gerada por um governo perdulário que gasta desbragadamente com o custeio de uma máquina pública emperrada e ineficiente, é o mesmo que receitar analgésico para curar o câncer. A dor pode ser menor por pouco tempo, mas a doença acaba matando o paciente”.

“A solução é o governo respeitar a base da teoria econômica não aumentando impostos e gastar o que se arrecada. Para controlar a execução é necessária uma imprensa sem necessidade de concessão governamental e sem medo de ferir ou perder fontes de informações. É preciso também discernir de economistas notáveis que estejam envolvidos no sistema, como manipuladores ou como operadores”.

Rossi e Barrizzelli colocam uma luz necessária no momento econômico nacional, neste momento em que vimos presenciando muitas críticas e poucas soluções.

Bom sinal, que jornalistas econômicos e economistas políticos poderiam fortalecer.


Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda e escreve, às quartas-feiras, no Blog do Mílton Jung


A imagem deste post é do álbum digital de Carlos Eduardo, no Flickr

Existe Moda Brasileira?

 

Por Carlos Magno Gibrail

Álbum de figurinhas da moda brasileira

“Sim, a Moda Brasileira é aquela produzida no Brasil”.

Resposta dada por Alexandre Herchcovitch, um dos estilistas brasileiros com prestígio internacional num seminário há alguns anos.

A intenção da pergunta era evidentemente provocativa, no sentindo de questionar a importância dos criadores nacionais no âmbito global.

De lá até cá, o avanço dos estilistas e das marcas nacionais, que não foi pouco, não mudou a assertiva da resposta de Alexandre.

Sob o aspecto da criação de moda é inquietante, mas evidente que a ascensão mundial dos estilistas está ligada ao poder econômico do país de origem. Assim foi com os japoneses, que deslumbraram Paris na década de 80 com uma nova perspectiva, orientada pelas formas geométricas e linhas do tecido, contraponto ao ocidente, obsessivo em mostrar o corpo. Ainda nos anos 70, Kenzo foi o primeiro a abrir espaço em Paris, e na década seguinte surgiram Yohji Yamamoto, Issey Miyake e Rei Kawakubo (Comme dês Garçons).

De outro lado, as engrenagens do sistema econômico da moda não têm permitido ao Brasil desempenho equivalente ao da economia nacional. Menos pela existência de organizações e marcas competentes, que já são relevantes e mais pelas condições do comércio internacional, com youan desvalorizado e impostos nacionais excessivos.

É uma situação tão mais preocupante quanto se adentra aos reais benefícios do setor de confecção, altamente intensivo de mão de obra propiciando até mesmo trabalho domiciliar com inegável e invejável função social, ao mesmo tempo em que apresenta baixo investimento na criação de postos de trabalho.

O amadurecimento do SPFW e demais eventos de moda certamente contribuirão para as mudanças necessárias ao setor. O espaço aberto para a discussão da Moda precisa ser mantido para evitar que os chineses venham buscar aqui “negócios da China”.

Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda e escreve às quartas-feiras no Blog do Mílton Jung

NB: Nas imagens da esquerda para a direita, de cima para baixo: Pedro Lourenço, Denner, Amir Slama, Walter Rodrigues, Glória Coelho, Alexandre Herchcovitch e Clodovil

Ganhos privados em lugares públicos

 

Por Carlos Magno Gibrail

O rendimento mensal médio no emprego público é hoje de R$ 2.494,00, enquanto no privado é de R$ 1.323,00, uma diferença de 188%.

Lula herdou de FHC 156% e manteve, aproximadamente, esta diferença entre público e privado no primeiro mandato, mas a partir de 2006 acentuou o “gap” chegando até os 188% de hoje.

Estes dados obtidos do IBGE e do Ministério do Planejamento balizaram os jornalistas Gustavo Patu e Pedro Soares em reportagem na Folha, onde chamam a atenção pela acentuada tendência do aumento salarial e do crescimento de contingente no setor público.

Ao mesmo tempo, o jornalista Fernando Dantas no Estado informa que a terceirização de mão de obra cresceu 85% de 2006 a 2009 de acordo com o TCU.

Estes crescimentos de gastos foram sustentados pelo desempenho econômico que manteve a gestão Lula dentro da Lei de Responsabilidade Fiscal, pois o PIB brasileiro , 8º do mundo, avaliza gastos e crescimento.

E gera dispersões e distorções, pois de um lado tal posição da atividade econômica deveria possibilitar remuneração do trabalho privado maior do que a pública. De outro lado, o serviço público poderia ter dado mostras de melhoria, na medida em que oferecendo rendimentos maiores teria maior capacidade e eficiência administrativa.

É por isso que apenas na economia somos 8º do mundo, pois em educação, saúde, habitação, transportes e demais indicadores como IDH, GINI, etc estamos distantes das boas posições.

É por isso também, que é de espantar que diante de desafios tão instigantes, política e políticos fiquem com assuntos privados (aborto, Deus, reajustes corporativos) em funções públicas.


Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda e escreve, às quartas, no Blog do Mílton Jung

A imagem deste post é do álbum digital de Mateus Waechter no Flickr

Desemprego ganha Nobel

 

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Por Carlos Magno Gibrail


À sabedoria da natureza, que demonstra em seus sistemas que a cura do mal pode ser feita pelo próprio mal, alia-se agora o Prêmio Nobel de Economia.

O Modelo DMP de Peter Diamond do MIT, de Dale Mortensen da Northwestern University e de Christopher Pissarides da London School of Economics, desenvolveu a teoria econômica que apontou a flexibilização do mercado de trabalho para estimular e melhorar a geração de empregos. Isto é, facilitar as demissões irá facilitar as admissões, principalmente se o desemprego não for estimulado com auxílios duradouros.

É um prato e tanto para ser saboreado por Dilma e Serra neste momento de obscurantismo em que o debate presidencial está se encaminhando.
Um pouco amargo talvez para o senador republicano Richard Shelby que impediu a nomeação de Peter Diamond para o FED Federal Reserve, feita por Obama.

O presidente americano certamente buscou Diamond para um dos sete postos do conselho de diretores do Fed e de seu Comitê Federal, que define as taxas básicas de juros, influenciando a atividade econômica e a inflação, porque já sabia o que o economista Paulo Krugman escreveu em sua coluna no The New York Times sobre o trabalho de Diamond: “Trabalho fundamental sobre todo o tema da relação entre o desemprego e a taxa de emprego”.

Uma das conclusões dos premiados do Nobel, é que o mercado de trabalho não funciona como o de produtos, pois oferta e procura não atuam como no caso clássico. Não se encontram na mesma velocidade e com os mesmos custos. Não se amolda também da mesma forma, pois os trabalhadores não estão dispostos a baixar salários na mesma medida que os produtos. Além disso, a mão de obra está sujeita a desmotivação e quando se reemprega pode não desempenhar o suficiente para preencher a necessidade da função.

Na Europa, John Van Reenen, chefe de Pissarides na London School, relata que “ele demonstrou que as regulações do mercado de trabalho, as barreiras ao ingresso no mercado de novas empresas de serviços, as políticas fiscais e previdenciárias afetam as disparidades do emprego em todo o mundo”.
Pissarides defendeu normas mais flexíveis a serem implantadas na Europa e ganhou. Mas não levou, pois segundo Van Reenen: “Essas normas se baseiam nos princípios econômicos corretos, mas que as maiores barreiras à sua implementação decorrem da ausência de vontade política”.

O jornalista econômico Philip Inman do The Guardian reproduzido no Estadão de ontem, discorda: “Esses princípios econômicos “corretos” foram abandonados porque afetam os eleitores comuns”.

A observação importante para os BRICS é que ficam mais fáceis mudanças em início de desenvolvimento do que com estruturas antigas estabelecidas. É uma área em que temos chance de ficar em melhor posição que Rússia, Índia e China. Ou vamos continuar discutindo crenças e normas religiosas?

Obs. A Dinamarca (veja artigo de 17/12/08) comprova a possibilidade da flexibilização.

Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda e escreve às quartas no Blog do Mílton Jung

Imagem de Timothy Vogel do álbum digigital no Flickr

“Em lugar de estádio, zerar creches”, diz Nossa São Paulo

 

O paulistano está consciente de que a cidade não pode entrar em uma aventura para sediar jogos e abertura da Copa 2014. A opinião é do coordenador geral do Movimento Nossa São Paulo, empresário Oded Grajew, que considera este comportamento um avanço importante da sociedade. Ele lembra que fosse há alguns anos estaríamos defendendo o Mundial a qualquer custo.

Para realizar quatro ou cinco jogos que se faça no Morumbi reformado, comentou. Sugere que em lugar de se colocar dinheiro público na construção de estádios, a prefeitura invista, por exemplo, nas metas com as quais se comprometeu através da criação da Agenda 2012.

“Em lugar de estádio, melhor zerar creches”, citou ao lembrar a promessa da prefeitura de atender 100% das crianças de até 3 anos cadastradas para vagas em creches municipais, até o fim da atual administração. Estariam faltando 40 mil vagas ainda.

Quanto aos investimentos que a capital paulista poderia obter em função da Copa, Oded Grajew entende que a cidade não teria prejuízos. Para ele, o dinheiro a ser aplicado em obras de infra-estrutura terá de vir independentemente dos eventos que São Paulo sediar. Ampliação de aeroportos, sistema de transporte melhor, crescimento dos serviços de saneamento e extensão das redes de comunicação são fundamentais para o desenvolvimento da cidade.

Vuvuzela não cala decepção de trabalhador africano

 

Trabalhador na África do Sul

O estádio Moses Mabhida, em Durban, reuniu na noite de domingo duas verdades desta Copa da África do Sul: o espetáculo do futebol e o escândalo da desigualdade social. Os milionários jogadores da Alemanha já haviam deixado os vestiários de volta para a concentração, após a goleada por 4 a 0 contra a Austrália, quando estourou o confronto entre policiais e centenas de trabalhadores que prestam serviço no local.

Os funcionários protestavam contra o pagamento que consideram insuficiente para a função que realizam. Reclamavam terem recebido ofertas de salário que chegariam a R 1,500 mas não levaram mais de R 190. Em bom português: em vez de R$ 350 por dia, ganharam R$ 45.

Poucos dias antes do início dos jogos, o analista do jornal sul-africano Business Report Terry Bell alertava que os sindicatos e trabalhadores não identificam nenhum favorecimento para os movimentos sociais vindos da Copa e da Fifa. Enquanto a organizadora dos jogos garantia o maior lucro possível para si, eximia-se de qualquer responsabilidade em relação aos direitos trabalhistas advindos de contratações relacionadas a Copa.

Um dos líderes de sindicato que reúne trabalhadores de empresas de energia elétrica Lesiba Seshoka acusou a concessionária de emperrar as negociações por aumento salarial com o objetivo de jogar a opinião pública contra os funcionários, pois estes, supostamente, estariam interessados em prejudicar a realização da competição. “Não podemos adiar a fome para os nossos filhos”, comentou em um jornal que eu lia na praça procurada por milhares de turistas na hora do almoço, em Cidade do Cabo.

Aqui mesmo, em conversas com funcionários, nas áreas de prestação de serviço, é possível identificar outros motivos para a indignação. Muitas das vagas criadas para atendimento do público durante a Copa foram ocupadas por trabalhadores que chegaram dos demais países do continente. Calcula-se que 30% delas estão servindo a pessoas que se deslocaram desde Angola, Gana, Moçambique, entre outros.

Boa parte dos empregos que surgiram na onda dos jogos é temporária e informal. Ou seja, desaparecerá assim que o capitão da seleção vencedora levantar o caneco.

Nem o entusiasmo das vuvuzelas menos ainda a violência do gás lacrimogênio e das balas de borracha – jogados sobre os trabalhadores que participaram do protesto de domingo – serão suficientes para encobrir a frustração desta gente que acreditou no “espetáculo” do futebol.

Aposentados e renegados

 

Por Carlos Magno Gibrail

Da intrínseca cultura brasileira reverenciamos a juventude e renegamos a idade. A começar pela própria. A aposentadoria não poderia encontrar destino melhor do que aquele que vimos ontem, vemos hoje, e certamente, veremos amanhã se não se fizer algo para mudar.

Se as pessoas fossem tomadas como produtos, fato não recomendável, o ciclo de vida provavelmente teria tratamento técnico melhor do que o dos aposentados pelo INSS. O Boston Consulting Group de Harvard estabeleceu quatro etapas dentro do Ciclo de Vida de produtos: Introdução, Crescimento, Maturidade e Declínio. Também chamadas de Criança Prodígio, Estrela, Vaca Leiteira e Abacaxi. A ciência é prolongar a Maturidade alongando a chegada ao Declínio ou, até mesmo, descartando-o e criando diversificações.Este inevitável ciclo, como o da vida das pessoas, exige acompanhamento permanente para adaptação às mudanças do mercado, aqui considerado como meio ambiente.

Matriz_BCG

Entretanto, não é o que tem sido aplicado à vida profissional dos cidadãos brasileiros. Embora, há décadas os aposentados ocupem um proeminente espaço na agenda política nacional.

Collor e FHC postaram medidas a favor da Previdência e, aparentemente, em detrimento dos trabalhadores. Direção que Lula também tomará, quando anuncia veto ao projeto aprovado pela Câmara e que foi votado ontem no Senado. Reajuste acima de 6,14% e fim do fator previdenciário.

O balizamento essencialmente político que tem sido dado aos aposentados tem levado de um lado a uma posição homogênea de quem está no poder e, de outro a um afastamento da técnica, da demografia e principalmente da sociologia.

Há nove meses observávamos que:

“Dos 26,5 milhões de brasileiros aposentados 8,5 milhões ganham acima de um salário mínimo. Não possuem mais força competitiva no mercado de trabalho, que os rejeita. Não recebem reajustes compatíveis na pensão devida pelo Estado, que os discrimina. E são taxados no valor que recebem de aposentadoria pelo Sistema Tributário, que os assalta. Ainda assim são acusados de ameaçar o INSS, como se fossem os responsáveis pela incapacidade atuarial de Governos passados e pela frieza contábil do Governo presente”.

(leia o artigo completo, publicado em 01/07/2009)

Na sexta, o deputado Flavio Dino saiu em defesa dos 8,5 milhões em artigo que elege como justiça social o aumento de 7,7% aprovado pela Câmara e baseado em 80% do PIB de 2008. Acresce ainda que o PIB de 2010 deva crescer pelo menos 6%.

Ontem, o editorial da Folha endossou a posição do economista Fabio Giambiagi, que, há 20 anos, defende mudanças nas regras da Previdência Social propondo equilíbrio contábil e alertando contra as bases numéricas em momentos de economia positiva. A “Bomba demográfica” que intitula o artigo é provavelmente inspirada no livro de Giambiagi: “Demografia, a ameaça invisível”.

Este cenário conturbado fica ainda mais nebuloso quando se introduz a recente opinião dos candidatos Dilma e Serra. Dilma propõe intervenções especificas e momentânea. Serra endossa o que Lula decidir. Ora, Lula já avisou que veta aumentos acima de 6,14%, e a retirada do fator previdenciário. E, assim como nunca neste país, é hora de o jornalismo consciente entrar neste quadro eleitoral e pressionar a posição dos candidatos sem tangenciar para também não renegar os 8,5 milhões de aposentados.

Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda e escreve às quartas no Blog do Mílton Jung

De Grécia

 

Por Maria Lucia Solla

Ouça Da Grécia na voz e sonorizado pela autora

Da galeria de Érato_79 no Flickr

O jornal Zero Hora trazido de Porto Alegre pelo meu fiho Luiz Fernando estampa na capa: “Brasil socorre Grécia com US$ 286 milhões”.

Não sei o que significa essa quantia para você; para mim é dinheiro que não acaba mais, e me faz curiosa. Quero saber que tipo de socorro é esse e leio a matéria.

Pelo que entendi, o FMI – Fundo Monetário Internacional correu a cestinha por alguns países que já foram socorridos antes, e que portanto não podem nem fingir que estão rezando, olhos semicerrados em fervorosa prece, nem que não viram a cestinha passar.

Ainda pelo que pude entender, se todo mundo não participar dessa vaquinha, a vaca vai pro brejo, no mundo todo.

Queria ser uma mosquinha para ver o que acontece nesses bastidores. Ou melhor, não queria não. Já vi gente morrer de overdose muito menor e menos letal.

Mas voltando ao socorro, o negócio foi quebrar o porquinho e meter a mão no bolso.

Agora, se você ingenuamente credita no que eu acreditava, pode mudar o canal, pode desviar a atenção porque mesmo esse socorro compulsório vem com vantagem embutida no pacote. Os países que emprestam na verdade estão investindo. Tipo agiota ou gerson: sempre leva vantagem.

Ainda confessando minha ignorância do tema, vejo o FMI como um Banco Big Brother planetário, que pega cá dá lá, e vice-versa, e leva o seu.

Esses milhões, que no caso são duzentos e oitenta e seis, saíram da nossa reserva internacional. Vou parar por aqui porque não conseguiria nem explicar para um neto meu o que é reserva internacional. Seria um fiasco. Não sou boa para números. Finanças, então…

Aprendi ainda, lendo a matéria, que eu tenho, tu tens, ele tem, nós temos US$ 249 bilhões na reserva internacional e o Brasil vai investir, quero dizer socorrer a Grécia com parcos US$ 286 milhões.

Se você se pergunta o que é que deu em mim para me meter a falar do que eu não entendo – e nem quero entender – eu explico: Não foi a transação financeira que me chamou a atenção.

O caso é que eu amo a Grécia.

Tenho uma ligação incrível com a terra, a cozinha, a música, o idioma, a gente. Pedras, vulcão, mares azuis como o céu de primavera, carneiros assados, batatas ao forno, tudo regado abundantemente com azeite da absoluta melhor qualidade e com limão siciliano. Terra das buzúquias e do mussaká. Da dança, de tragédia e de alegria. Alegria que nasce dali: da tragédia. Quando a tragédia atinge seu ponto máximo é que a gente encontra o chão – o fundo do poço – e consegue dar impulso para de novo respirar.

Com os gregos não é diferente: de tanto treinar, século após século, após século, esse mecanismo se automatizou.

na Grécia a arte faz parte do dia a dia
há tragédia na dança
e dança na tragédia
ali tudo é criação
comida música beleza história e dança
em qualquer situação

Numa casa grega com certeza, se come em volta do fogão, do lado, na frente ou atrás dele, dependendo da arquitetura da cozinha. Muda a cozinha, muda o endereço, e a festa em volta da mesa e do fogão é a mesma.

Enfim, o que vai acontecer com a Grécia?

Não sei. Só sei que muitos gregos que conheci trabalham para o governo. São funcionários públicos; ele ou ela, ou ele e ela e toda a família. O governo paga regiamente e oferece inúmeras vantagens como a de servir a pátria em Nova Iorque ou São Paulo, ganhando em euros mais moradia garantida e viagens de férias para a mãe pátria, duas vezes ao ano.

Syntagma

Eu poderia falar ainda da tristeza de voltar a Atenas e ver o centro, a praça Syntagma modernizada.

O berço do mundo virou cama-box!

E agora vou ouvir um pouco de música grega e sonhar que tudo vai bem, obrigada.

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza curso de comunicação e expressão. Aos domingos, escreve no Blog do Mílton Jung

Como as encarroçadoras de ônibus andam no País

 

Roberto Ferreira, da Fabus, há mais de 30 anos, relembra das lutas de empresários e funcionários para o desenvolvimento do setor de carrocerias, no Brasil. Na primeira parte desta nova série de reportagens, o “Ponto de Ônibus” mostra como o segmento enfrentou o período da inflação.

CARROCERIAS SOBRE CHASSI DE CAMINHAO

Por Adamo Bazani

O fechamento de uma empresa e a onda de demissão e incerteza são dos maiores sofrimentos para o trabalhador. Não se resume a números em uma estatística de desemprego, são famílias, sonhos e projetos ameaçados – um carro a ser comprado, uma casa ou um tratamento médico que caem por terra.

Quem assistiu de perto este cenário, por muitas vezes, foi Roberto Ferreira, diretor executivo da Fabus, Associação Nacional dos Fabricantes de Ônibus, entidade que reúne as principais encarroçadoras do país. Há 33 anos na função de executivo da entidade, Roberto diz que a indústria de ônibus se desenvolveu muito e vive condição favorável, atualmente. Nem sempre foi assim, ressalta.

“Sou enfático em dizer que a indústria de encarroçamento de ônibus no Brasil é uma grande vencedora, contribuiu com o desenvolvimento do País e, mesmo que a duras penas, soube superar os momentos econômico e social mais difíceis, no s anos de 1980 e 1990”

Nascido no Bosque da Saúde, zona sul da capital paulistao, Roberto Ferreira, de 65 anos, mudou-se para Santo André, no ABC Paulista, quando era criança. Seu primeiro contato com os transportes foi entre os anos de 1966 e 1968, quando administrava com o pai, Olegário Ferreira, uma distribuidora de bebidas na região:

“Eu cuidava da parte administrativa na distribuidora, e meu pai com um velho caminhão vendia as bebidas. Tirando a área central do ABC, as demais ruaseram de barro e cascalho. Quando chovia era um Deus nos acuda. Meu pai atolava com o caminhão e eu tinha de providenciar o resgate. Na época, para trabalhar com transporte, não bastava apenas dirigir. Tinha de entender de mecânica. E eu via meu pai trabalhando, consertando o velho caminhão. Lembro-me, por exemplo, da dificuldade que era, principalmente nos dias depois de chuva forte, a subida da Rua Gamboa para a Juazeiro, no Paraíso, em Santo André. Quantas vezes o caminhão do meu pai atolava neste lugar”.

Na distribuidora de bebidas, Roberto conheceu as dificuldades no transporte e desenvolveu experiência para gerenciar empresas:

“Peguei o tino para gerenciar e dirigir um negócio de uma tal maneira que quando vendemos a distribuidora, ela valia três vezes mais que na época quando entramos no negócio”.

Na década de 1970, Roberto Ferreira continuava no ramo de transportes. Desta vez, como gerente da Expresso Santa Catarina, em Blumenau, uma empresa de transporte de carga seca. Querendo voltar para São Paulo, ele descobre uma vaga para diretor executivo da Fabus.

“Quando cheguei na sede da entidade, na Rua Guaiaúna, na Penha, fui entrevistado por um mestre em transportes: o senhor José Massa, na época presidente da entidade e que, entre 1945 e 1946, fundou a Caio – Companhia Americana Industrial de ônibus -, homem visionário, um dos pioneiros da fase profissional de fabricação de carrocerias no Brasil”.

Em 16 de fevereiro de 1977, ele assume o cargo de diretor da Fabus. Mal sabia que anos depois, por causa da conjuntura econômica, além de problemas específicos no setor, enfrentaria um dos maiores desafios de sua carreira.

“No início, pensava que era mais tranquilo que o gerenciamento da transportadora. Quanto estive à frente da Expresso Santa Catarina, eram problemas como caminhão quebrado, frete não entregue na hora, discussões por causa do preço das entregas, e na Fabus, todas as associadas entregavam seus balanços direitinho e relatavam as necessidades do setor, para entrarmos em contato com montadoras, fornecedores e poder público. Mas, as coisas logo depois não foram tão tranquilas assim”.
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