Os efeitos colaterais da vacina

Essa imagem tem um atributo alt vazio; o nome do arquivo é 5e7c62a9-35d5-47f7-845e-1fbb82319862.jpg.640x360_q75_box-010720481258_crop_detail.jpg
Imagem Gov do Estado de SP

— “Que vacina estão aplicando?”

Foi a pergunta que mais ouvi nos cerca de 30 minutos em que esperei —- ao lado da minha esposa — a oportunidade para tomar a primeira dose da vacina contra a Covid-19. Vacinei em um posto avançado, criado pela prefeitura de São Paulo, em uma escola de classe alta, na zona Oeste da cidade. 

Assim que informados de que a vacina disponível era a fabricada pela AstraZeneca, que chegou ao Brasil em acordo com a Fiocruz, davam meia volta e seguiam em frente — provavelmente ao posto mais próximo, onde repetiram o ato. Desconfio que a reação seria a mesma se dissessem que era Coronavac. A vacina da moda entre os mais abastados é a da Pfizer —- seja porque acreditam que terá menos reação adversa que as demais, seja porque esperam que a aplicação de uma dose da fabricante americana sirva de visto para viagem ao exterior. 

Mesmo para quem fala de gestão de marcas todos os sábados pela manhã com a dupla de especialistas Jaime Troiano e Cecília Russo —- no Sua Marca Vai Ser Um Sucesso —, e sabe o quanto elas ditam nossos comportamentos, descobrir que vacina têm marcas e com força suficiente para adiarmos a proteção de nossa vida porque não têm a grife preferida na “loja”, me deixou embasbacado. Tive reação adversa maior a essa atitude do que pela marca da AstraZeneca que carrego no braço desde a quarta-feira, ao meio-dia.

Agimos como estivéssemos diante da escolha de uma roupa para vestir ou uma bolsa para comprar:”Chinesa? É falsificada, né!”; “essa inglesa aí não dá nem pra viajar”; “é a americana? meu sonho de consumo, os amigos vão morrer de inveja”. Selecionamos vacina como vinho na adega: “nunca soube que a uva chinesa faz bons vinhos”; “esse inglês, dizem, dá dor de cabeça”; “ouvi falar que o americano é incrível, quero dois!”.  

Quando a Janssen chegar —- aquela que ‘a gente vai estar recebendo dos Estados Unidos não sei quando” —, imagine a maratona em busca de postos que aplicarem a vacina: uma dose só, eficácia que chega a 95%, reações adversas mais intensas desconhecidas e, dizem, abre as portas para o paraíso (se não o paraíso, para os Estados Unidos). 

Faz parecer aquela disputa em festa de madames que põem as roupas de melhor marca, do estilista famoso, e levam no braço a bolsa de luxo pra desfilar na cara das amigas. 

A senhora chega com a sua clutch Lana Marks’Cleopatra de US$ 400 mil, acha que está abafando e de repente vem a frustração. A metida do condomínio entra com uma Birkin da Hermès (US$ 1,4 milhão) a tiracolo. Mas como alegria de rico também dura pouco, a vingança não tarda. A moça da cobertura entra pela porta conduzindo uma Mouawad 1001 Nights Diamond, comprada por imbatíveis US$ 3,8 milhões. Onde será que ela conseguiu?

Como vacina é assunto em tudo que é canto —- ainda bem —-,  fico curioso em ouvir o bate-papo no vestiário da academia entre os senhores marombados. “Tá vendo essa marquinha aqui ó, é Janssen”, diz o coroa de toalha na cintura. “A minha é Pfizer, gostou?”, arrisca o outro enquanto seca os dedos do pé. O gerente da multinacional que estava por ali, vestiu logo sua camisa Lacoste, aquela do jacaré, para ir embora antes que descobrissem, tadinho, que ele só encontrou a Coronavac. 

A saber: a vacinação ocorre por ordem de chegada das doses e não é possível escolher qual tomar. Recusar o imunizante e deixar passar o dia previsto da primeira dose é a abertura de mais uma janela de oportunidade para contrair e transmitir o vírus. É um desserviço à sociedade, porque para controlar a Covid-19 é preciso de alta cobertura vacinal e rapidamente, diminuindo a circulação do vírus e o risco de surgir variantes com maior poder de contaminação, além de conter o aumento da velocidade de pessoas doentes e mortas.

Ao amigo e amiga que usa como argumento a busca por vacinas consideradas mais eficazes, lembre de que do ponto de vista individual a proteção entre uma vacina e outra muda muito pouco.

Todas à disposição no Brasil nos protegem do risco de morrer e diminuem consideravelmente qualquer possibilidade de termos sintomas graves. A eficácia faz sentido aos gestores de saúde que planejam o número de pessoas que têm de ser vacinadas para alcançarmos a imunidade coletiva.

Quanto as reações adversas, algumas pessoas que foram vacinadas disseram ter tido febre, dor de cabeça, indisposição e dor no local onde foi feita a aplicação —- muito pouco para quem até então corria o risco de morrer por contrair a Covid-19. Outras, que estão por aí correndo atrás da vacina da moda, e desperdiçando a chance de se imunizar em troca de um luxo, consta que tiveram o sentimento de egoísmo acentuado nos últimos meses. E para isso não tem cura.

No meu caso, que fui vacinado com a AstraZeneca, porque fiquei na pequena fila que se formava no posto lá da escola, perto de casa, o único efeito colateral que tive até agora —- quase 24 horas depois da primeira dose —- foi uma alegria extrema de saber que estou mais protegido e, em um ato de cidadania, estou ajudando a proteger as pessoas que amo. Uma felicidade que contaminou a família, amigos próximos, colegas de trabalho e ouvintes da CBN, muitos dos quais vibraram quando contei no ar que a vacina acabara de ser aplicada. Que essa felicidade contamine a todos!

São Paulo sofre a Síndrome de Estocolmo

 

Por Carlos Magno Gibrail

Capa Folha SP

De “Uma terra mui sadia, fresca e de boas águas”, segundo os jesuítas, ao lema ufanista “São Paulo não pode parar”, da locomotiva que despontava antevendo a formação de uma das maiores metrópoles do mundo na década de 50, à atual acomodação da cidade, é um processo desconcertante e incoerente. Com a história e seus protagonistas.

O paulistano gasta 41 dias por ano dentro do engarrafamento de trânsito. É o resultado da pesquisa do IBOPE feita para o Movimento Nossa São Paulo. São 2h43min diários dentro de algum veículo.

Até aí nada de novo. A questão é que o homem que vive hoje em São Paulo, é mais acomodado com a situação caótica urbana do que os de Belo Horizonte, Rio e Porto Alegre. Pesquisa realizada pela fundação Dom Cabral do Núcleo de Estudo em Infra-estrutura e logística, constata que 61% dos paulistanos estão acomodados e conformados com a atual situação dos congestionamentos na cidade.

As soluções pouco lhe interessam. Um em cada dez usa transporte coletivo, cinco para um que dá carona, a quase totalidade abomina ferozmente a possibilidade do pedágio urbano e cinco para três que estão ficando em casa por causa dos congestionamentos.

É a síndrome de Estocolmo adaptada ao trânsito. O raptado passa para o lado do raptor. Pelo menos no sentido do encarceramento, do cerceamento da liberdade.

Dentro dos carros 30% escutam notícias, 27% ouvem músicas, 16% estudam, 11% trabalham e 10% olham o trânsito. Alguns até se formam.

Desconfio até que foi daí que a Marta Suplicy deve ter cunhado a famosa observação que aconselhou a “relaxar e gozar”. Se for para sublimar, que pelo menos haja satisfação sexual, mesmo que virtual.

E foi o que alguns dos pesquisados informaram, além do prazer estranho, mas explicável do isolamento social. O que para alguns psicólogos indica ruptura no tecido social.

A jornalista Samantha Lima na Folha de domingo, analisando a Pesquisa ressalta uma das falas de Paulo Resende, um dos autores: “Ouvi pessoas que se diziam satisfeitas ao constatarem que tinham no carro um tempo livre para fazerem outras coisas, enquanto estavam retidas. Elas não percebem”.
Civilidade falta de cidadania, alienação política, ignorância, miopia, egoísmo?

Essa situação só não é mais preocupante quanto ainda tivermos a natureza enviando 45 dias ininterruptos de chuva. Fato que de alguma maneira poderá contribuir, embora tardiamente, para estimular a reação dos cidadãos paulistanos contemporâneos. Tal qual a situação que a revista Veja bem lembrou, que alguns historiadores sustentam que não fosse um rigoroso inverno na França de 1789 e Maria Antonieta não teria sido decapitada.

A guilhotina contemporânea é o direito adquirido através dela inclusive. É o voto. Sem a síndrome de Estocolmo.

Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda e pelo que escreve às quartas no Blog do Mílton Jung não está nada acomodado

Ciúmes, inveja, egoísmo … quem não tem ?

 

Por Abigail Costa

Responda de primeira:
– Você já sentiu inveja de alguém?
– Ódio do chefe?
-Ciúmes do namorado?

Se a resposta for negativa, não se preocupe. Um dia você sentirá pelo menos um de uma dúzia desses sentimentos “pequenos”.

Pensando lá trás, quando carregava meu filho de poucos meses  no colo, e no bate papo entre nós (no qual só eu falava):
-De quem é esse bebê? É só da mamãe, não é?

O pobrezinho deveria pensar: Que mulher egoísta!  E o cara que saiu pra trabalhar? Também não sou do papai?

Mais tarde a bronca em cima do mesmo menino, agora não mais um bebê:
-Divide com o amiguinho!  Que coisa feia….. e por aí vai.

Quando a gente, bem mais crescida,  esbarra numa situação  que envolve sentimentos não declarados do bem, ficamos “oh !”. Como o ser humano pode ser assim ?

Enquanto falava com o meu bebê,  apesar do tom de brincadeira, o querer só pra mim estava desenhado. O que eu não sabia era que isso seria passado adiante, como sempre acontece.

Declaradamente, outro dia um amigo disse com todas as palavras que teve inveja de mim. Quem estava perto ou soube do acontecido corou. Eu compreendi. Que fique registrado, não tenho pretensões  de seguir carreira religiosa.

Apenas entendi o sentimento de alguém que gostaria de ter tido o que eu tenho.  De não ter investido na felicidade como uma moeda de troca, mas como uma grata previdência, antes e depois da aposentadoria.

Meu caro, já fui muito mais egoísta. Inveja, não, sempre senti vergonha dela.

Agora, ciúmes, será que tem na medida certa?
Por hora vou driblando o meu.

Abigail Costa é jornalista e sem esconder seus sentimentos (ou quase) escreve às quintas-feiras no Blog do Mílton Jung

O egoísmo do bem

Por Abigail Costa

Passamos boa parte da infância ouvindo frases do tipo:
– Não seja egoísta!  Deixe seu irmão pegar seu brinquedo!

Mais tarde,  outras frases com a mesma palavra soam mais duras:
– Que egoísta! só pensa nele.

E-GO-ÍS-MO = Apego excessivo a si mesmo(a).

E agora? Vai dizer que nunca ninguém  a aconselhou a pensar mais em você; a aprender a dizer não; a se cuidar primeiro,  depois os outros; e por aí vai.

A história é  que ouvimos de um jeito, mas a interpretação pode e deve ser outra. Se não fosse assim,  na escritura sagrada  não haveria entre outros mandamentos:
– Amarás o teu próximo, como a ti mesmo.

Essa é a minha parte preferida. Aquela que, sem remorso, levanto e volto pra cama com a sensação de dever cumprido. Cuidei de mim, antes de… Fiz isso por mim,  apesar de…. Me olhei primeiro.

Tem alguém no mundo que sabe mais de você, do que você mesma ?

Claro, estamos rodeados de gente adorável, mas falo de conhecimento íntimo, daquele de mim pra mim mesma.

Repare que quando nos tornamos egoísta, quando aprendemos a nos ver, o reflexo exterior é quase que imediato.

É como se uma luz, dessas de pisca-pisca, sinalizasse boas novas. As pessoas percebem que aconteceu algo.

A interpretação disso não é cada um por si e Deus pra todos. Não é dessa forma. É saber até onde se pode ir sem se machucar, e perceber até quando se pode ajudar sem faltar a si mesma.

Um egoísmo do bem. Sem prejuízos a terceiros.

No máximo, de vez em quando um estrago no cartão de crédito. No caso de querer  muito, mas muito,  agradar a si mesma !

Esta parte final  da conversa fica para uma outra quinta.

Até mais !

Abigail Costa é jornalista e, sem egoísmo, fala de si mesma para todos nós toda quinta-feira no Blog do Milton Jung