São Paulo sofre a Síndrome de Estocolmo

 

Por Carlos Magno Gibrail

Capa Folha SP

De “Uma terra mui sadia, fresca e de boas águas”, segundo os jesuítas, ao lema ufanista “São Paulo não pode parar”, da locomotiva que despontava antevendo a formação de uma das maiores metrópoles do mundo na década de 50, à atual acomodação da cidade, é um processo desconcertante e incoerente. Com a história e seus protagonistas.

O paulistano gasta 41 dias por ano dentro do engarrafamento de trânsito. É o resultado da pesquisa do IBOPE feita para o Movimento Nossa São Paulo. São 2h43min diários dentro de algum veículo.

Até aí nada de novo. A questão é que o homem que vive hoje em São Paulo, é mais acomodado com a situação caótica urbana do que os de Belo Horizonte, Rio e Porto Alegre. Pesquisa realizada pela fundação Dom Cabral do Núcleo de Estudo em Infra-estrutura e logística, constata que 61% dos paulistanos estão acomodados e conformados com a atual situação dos congestionamentos na cidade.

As soluções pouco lhe interessam. Um em cada dez usa transporte coletivo, cinco para um que dá carona, a quase totalidade abomina ferozmente a possibilidade do pedágio urbano e cinco para três que estão ficando em casa por causa dos congestionamentos.

É a síndrome de Estocolmo adaptada ao trânsito. O raptado passa para o lado do raptor. Pelo menos no sentido do encarceramento, do cerceamento da liberdade.

Dentro dos carros 30% escutam notícias, 27% ouvem músicas, 16% estudam, 11% trabalham e 10% olham o trânsito. Alguns até se formam.

Desconfio até que foi daí que a Marta Suplicy deve ter cunhado a famosa observação que aconselhou a “relaxar e gozar”. Se for para sublimar, que pelo menos haja satisfação sexual, mesmo que virtual.

E foi o que alguns dos pesquisados informaram, além do prazer estranho, mas explicável do isolamento social. O que para alguns psicólogos indica ruptura no tecido social.

A jornalista Samantha Lima na Folha de domingo, analisando a Pesquisa ressalta uma das falas de Paulo Resende, um dos autores: “Ouvi pessoas que se diziam satisfeitas ao constatarem que tinham no carro um tempo livre para fazerem outras coisas, enquanto estavam retidas. Elas não percebem”.
Civilidade falta de cidadania, alienação política, ignorância, miopia, egoísmo?

Essa situação só não é mais preocupante quanto ainda tivermos a natureza enviando 45 dias ininterruptos de chuva. Fato que de alguma maneira poderá contribuir, embora tardiamente, para estimular a reação dos cidadãos paulistanos contemporâneos. Tal qual a situação que a revista Veja bem lembrou, que alguns historiadores sustentam que não fosse um rigoroso inverno na França de 1789 e Maria Antonieta não teria sido decapitada.

A guilhotina contemporânea é o direito adquirido através dela inclusive. É o voto. Sem a síndrome de Estocolmo.

Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda e pelo que escreve às quartas no Blog do Mílton Jung não está nada acomodado

19 comentários sobre “São Paulo sofre a Síndrome de Estocolmo

  1. Pois é, Milton!

    É quando a gente se acomoda, deixando de exercer a cidadania, que se abre mão do bem estar e da qualidade de vida, dando espaço para espertalhões e oportunistas ditarem os rumos da cidade!

  2. Washington, é incrível esta acomodação, que me parece mais egoismo do que qualquer outra hipótese.
    Cada uma pensando sómente em si. Cidadãos, políticos,empresários e principalmente incorporadores e construtoras.
    A revista VEJA lembra que a questão climática já acionou, mais do que fatos sociais e politicos, grandes mudanças .
    Quem sabe não teremos surpresas nas próximas eleições?
    Os partidos ainda defendem as doações diretas para os próprios. E ainda argumentam que se não for assim haverá caixa 2.
    É muita cara de pau.

  3. Milton,
    Acredite: eu ainda há poucos dias comentei aqui em casa que o nosso conformismo frente a situações adversas deveria ter uma explicação antropológica e histórica.
    Lendo Raízes do Brasil de Sérgio B de Holanda ve-se a exposição desse ‘homem cordial’ (cordial = emotivo, que vem do coração e não da razão) como marca característica do brasileiro. Mas essa emoção não se traduz no bem-comum, mas no bem próprio, individual e que, antes de mais nada adapta regras (o jeitinho) para burlar as convenções e ritos sociais. E, acima de tudo, aceita os conflitos e não questiona.
    O importante é resolver o meu lado!
    Então, não vamos ver uma comoção coletiva, uma greve de motoristas de carros de passeio em meio ao caos do trãnsito de São Paulo.
    Vamos cada um pensar no caminho mais curto, naquela faixa de ônibus ou acostamento…

  4. Carlos

    E o caos, o descaso, a baderna geral, tomou conta da cidade de São Paulo!
    O paulistano acabou realmente se acomodando e passou a viver literalmente confinado, não somente presos no transito, e sim em outros locais.
    Em vinte anos, se antes disso a qualidade de vida do paulistano já não era satisfatoria, digna, podemos considerar que atualmente despencou, deixou de exisitr.
    Culpa do povo que não soube e não sabe votar, que acredita em tudo e em todas as promessas politicas pré eleitoreiras.
    Sendo que o politico está mais interesado em quem os sustente sem precisarem trabalhar pelo povo, estão interessados somente em agradar e mimar os grandes lobbys que dirigem a cidade, o mercado imobiliario, construtorias, incorporadoras, etc.
    Muitos politicos adorariam se elegerem, ter algum cargo politico em São Paulo, porque ainda São paulo e a cidade de São Paulo são as mecas para politicos.
    Tanto é que policos de outros estados a todo custo tentam candidatar-se em alguma coisa em São Paulo.
    Muitos politicos que ficaram afastados da politica por alguma razão ou motivo, reingressaram totalmente alheios aos problemas da cidade e do estado, totalmente desconhecedores do dia a dia.
    Cada aventureiro que chega e chegou para administrar a cidade e o Estado faz o que quer e o que bem entende.
    E assim sucessivamente.
    Só podia dar no que deu
    O estado de São Paulo e a cidade de São Paulo em menos de vinte anos, acabou virando uma verdadeira colcha de retalhos.
    Situação e estado irreversível de acordo com famosos, cientistas, urbanistas e pela propria população.

  5. Infelizmente, quando a sociedade se acomoda, os problemas criam raízes. O trânsito, o transporte, o lixo, etc, são problemas que aafetam diretamente a sociedade e só a partir dela, da população, é que deve vir a solução. Não haverá governantes de bom coração que por iniciativa prórpia darão uma solução, ou pelo menos um encaminhamento aos problemas. As autoridades, de forma pacífica e legal, devem ser impoortunadas. Agora, gostaria que São Paulo tivesse a síndrome da ESTOCOLMO DE HOJE, fazendo claro um trocadilho irônico. Hoje Estocolmo é aconsiderada uma cidade “verde”, ambientalmente correta, com o trânsito organizado, porque dá prioridade a um transporte público de qualidade. Aliás, além de confortáveis, os ônibus suecos são ambientalmente corretos. Boa parte da frota é movida a Etanol, bem menos poluente e baruelhento e por ironia 80 por cento dessde Etanol dos ônibus de Estocolmo, são produzidos no Brasil. Abraços e belo artigo. Adamo

  6. Carlos Magno,

    Penso que é dentro de um carro que o egoísmo humano (ou será paulistano?) é exacerbado. É uma sensação de “isso que vocês estão vendo é meu!” ou “é véio mas tá pago”. É num carro que eu desfilo o meu status porque não consigo exibir o meu apartamento nem pendurar no pescoço a minha TV de 60 polegadas com a penúltima tecnologia (a última tecnologia acabou de sair faz 1 minuto).
    Então ali dentro daquele espaço só meu fico todo pimpão, sem me incomodar com o que acontece em volta. E já que é meu por que não ficar 41 dias dentro dele?
    E a partir desse egoísmo é que decorre essa falta de cidadania, civilidade…

    Gostei da metáfora da guilhotina.

    Abs

    Roberto

  7. M Cecilia Lopes, hoje as manifestações ficaram facilitadas pela midia eletrônica interativa. Ainda assim não se identifica uma reação à altura dos problemas.
    Trânsito, segurança, sustentabilidade, são temas que certamente mereceriam maior preocupação de todos.
    Estamos pagando um preço alto por esta falta de cidadania.
    Ainda bem que há pessoas como você que se manifesta. Esperamos que a nova geração seja mais participativa.

  8. Carlos Magno,

    Lendo a pesquisa e mais algumas coisas que não é preciso comentar….estamos realmente num beco sem saída. É lamentavel e vergonhosa esta situação, mas cabe a nós cidadãos tomar uma atitude e mudar esse verdadeiro caos que se tornou nossa cidade.
    Um abraço.

  9. olá! gostaria de saber como posso acessar a pesquisa. Sou professora e trabalho com o tema Violência e a pesquisa muito me interessou!

  10. Carlos,

    Confesso que sou o tipo de pessoa que, só não anda de carro quando o trajeto é +/- 5km, pois assim vou a pé. Me sinto mal em transporte público não pelos veículos, e sim, pela falta de educação e asseio das pessoas.

    Tudo é uma questão de educação: Enquanto dermos como primeiro presente para nossos garotos carrinhos miniaturas e premiarmos os publicitários que usam frases semelhantes a BRASILEIRO TEM PAIXÃO POR CARRO, isso só vai piorar. Além de governos de peito que, trabalhem para que o transporte público seja a melhor opção, educar as próximas gerações com este pensamento é primordial; caso contrário, serão como eu e muitos que, reclama sistematicamente, mas não larga o conforto de seu possante.

  11. Patricia Jacob, você já deu a solução e o exemplo.
    Tomar atitudes e dar o exemplo, como essa interação com este site e blog.
    Vamos à luta.
    E a luta é de idéias, de palavras, vamos digitar, vamos encher as caixas de e-mails dos caras de pau. Dinheiro na meia, rezas, panetones, apoio de entidades de fachada, etc.

  12. Isaura Isoldi de Mello Castanho e Oliveira, você pode assessar o site da Fundação Dom Cabral e solicitar a pesquisa. Ela ainda não está no site.
    Pode também entrar em contato com a jornalista Samantha Lima da Folha de São Paulo, ou com um dos pesquisadores o Paulo Resende do Núcleo de estudo em infra estrutura e logistica da Fundação Dom Cabral.

  13. Esta notícia vale a pena ler :

    “Na contramão de São Paulo, projeto nos EUA reverte rios à condição natural” – Portal G1
    Enquanto o governo de São Paulo amplia as pistas da Marginal do Tietê, nos Estados Unidos um projeto vai na direção contrária: tenta reverter rios do país ao estado original. O objetivo, segundo os organizadores, não é apenas a preservação ambiental, mas também o bem estar da população. Rios preservados são fontes de água limpa e causam menos enchentes. O projeto “Rios Sustentáveis” é uma iniciativa da organização The Nature Conservancy em parceria com o Corpo de Engenheiros dos Estados Unidos.

  14. Beto, o Adamo Bazani citou a solução de Estocolmo. Transporte coletivo de qualidade.
    Como ainda não somos uma Suécia, bem que poderiamos usar a hierarquia e apresentar em determinados trajetos pequenos onibus com ar condicionado, acoplados a áreas de estacionamentos. Os bolsões em pontos estratégicos.
    Não esquecer nunca do imediato pedágio urbano. Que quase todos odeiam.
    Entretanto, depois da prisão do governador, talvez se tenha dado um primeiro passo para algumas mudanças.

  15. Sou Fotógrafo e não político, mas sou politizado. Muito bom o texto, reflete de fato as características dos paulistano e do paulista de modo geral. Só que o autor busca uma frase da Marta para poder de alguma forma citá-la de modo negativo esquecendo citar que essa mesma cidade e estado já está nas mãos do Serra e sua trupe há 20 anos, no caso do estado e os problemas que inclui o pedágio mais caro do mundo, comparado a renda per capita.

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