Subprefeitura da Sé e mais 3 não limpam bueiros

 

Ao menos quatro subprefeituras de São Paulo não realizaram nenhum dos serviços de limpeza de bueiro programados para os dias 14, 15, 16 e 17 de fevereiro. De acordo com os dados publicados pela prefeitura na internet, o pior desempenho é o da Subprefeitura da Sé que atende área que sofreu sérios alagamentos nesta semana. Havia 58 ordens de serviço mas nenhum bueiro foi limpo no prazo estabelecido.

A limpeza também não foi feita pelas subprefeituras de Itaquera, zona leste, Pirituba, norte, e Capela do Socorro, sul, para as quais havia 105 solicitações e onde há bairros atingidos por enchentes. Em mais sete subprefeituras, no máximo a metade das ordens de serviço foi realizada. A capital tem 31 subprefeituras.

Nesta quinta-feira, o prefeito de São Paulo Gilberto Kassab (DEM) insistiu na tese de que a administração municipal está realizando os trabalhos de combate as enchentes com qualidade e transparência. Lembrou que agora a população pode acompanhar como está sendo feita a limpeza de bueiros pela internet no serviço “Zelando Pela Cidade” disponível no portal da prefeitura.

No post anterior você tem publicada a entrevista do prefeito feita pela repórter Cátia Toffoletto que registrou imagem de um fiscal da CET desobstruindo bocas de lobo da avenida Eusébio Matoso, na zona oeste, onde ponto de alagamento prejudicava o trânsito pela manhã. Não há no portal da prefeitura nenhuma informação de que o serviço tenha sido realizado naquele trecho da avenida. Aliás, a solicitação para limpeza de bueiro feita pela prefeitura à empresa terceirizada mais próxima do local – na esquina da Rebouças com a Capitão Rosa – não havia sido atendida até 17 de fevereiro, apesar de o prazo ter se encerrado três dias antes.

Pouco adianta a prefeitura alardear que os dados estão disponíves na internet se a limpeza de bueiro não é realizada. Não é preciso acessar o computador para saber disto, basta tentar sair pela cidade em dia de chuva.

Agora o outro lado
(publicado em 19.02, às 20h)

Resposta da Coordenadoria das Subprefeituras de São Paulo:

“Nesta fase de testes, os técnicos das Subprefeituras ainda estão se adaptando à nova ferramenta, o que pode gerar atraso na alimentação das informações sobre os serviços executados. Em tempo, a Subprefeitura Sé informa que todos os serviços de limpeza de bocas-de-lobo programados foram executados”

O aquecimento global e a chuva de hoje no Roda Viva

 

Carlos Nobre do Inpe no Roda Viva

O Roda Viva é daqueles programas que o entrevistado não consegue dizer tudo que pensa, os entrevistadores não conseguem perguntar tudo que querem e o telespectador não ouve tudo que precisa. Mas todos querem participar, o público, inclusive. Nesta segunda, ao entrevistar o pesquisador do INPE Carlos Nobre, das maiores autoridades sobre clima no País, a sensação não foi diferente, tanto que a conversa seguia em frente no intervalo do programa. E não parou ao fim.

Nobre olhou de mais para o aquecimento global, e demonstrou confiança nos dados que tem servido de base para as previsões de impacto com as mudanças climáticas. Entende que se há erros – e estes tem sido usados para desacreditar os estudos apresentados – são poucos e justificáveis. Para ele, grupos econômicos que tem interesses contrariados estão por trás das críticas. Parte da indústria de petróleo, citada pelo Heródoto Barbeiro, estaria neste grupo.

“A ciência é neutra” tentou explicar. E os cientistas ? Respondeu-me voltando o olhar para o alto do estúdio, hábito que manteve durante a hora e meia de entrevista. Parecia querer encontrar no céu a resposta para as coisas da terra. Não chega a ser surpresa, foi decifrando estes códigos que ele e os colegas pesquisadores chegaram a conclusões trágicas para o futuro do planeta se nada for feito. Acredita que os cientistas tem convicções e usam de dados concretos para convencer o mundo. Ou seja, não mentem. Mas podem cometer erros.

Na outra oportunidade que tive de perguntar, tentei olhar o impacto do nosso comportamento no ambiente urbano. Afinal, o Roda Viva abriu com um proposta registrada em vídeo: descobrir se a enchente em São Paulo ou a nevasca na Europa são efeitos do aquecimento global alardeado pelos cientistas. Sim e não, disse Nobre.

Fiquei com a impressão de que não. O que temos é resultado de hábitos que desrespeitam a lógica da natureza: ocupação desordenada, devastação de áreas verdes, impermeabilização do solo e falta de gerenciamento urbano. Não fomos capazes, ainda, de preparar a cidade para novos parâmetros, como o volume maior de chuva em relação há 50 anos. Nem de crer no que mostram os mapas meteorológicos.

O risco de esgotamento das represas em São Paulo foi anunciado em setembro pelo Inpe, a Sabesp fez simulações de controle de vazão, mas na hora H segurou o que pode e tenta até hoje convencer os municípios alagados de que a culpa não é dela . É da chuva, de Deus ….

Adaptação foi tema de outra questão que me permiti fazer em meio a tanta gente especialista no assunto: Washington Novaes, Martha San Juan França e José Carlos Cafundó. Queria saber o que isto significa de maneira prática. Resumo do que disse Nobre: investir até onde a engenharia permite, implantar plano de macrodrenagem com novos parâmetros e remover famílias de áreas de risco.

Em determinado momento da conversa, levado pelo próprio entrevistado, o olhar se voltou para o campo, apesar de boa parte da população brasileira – e mundial – ser urbana. E no instante mais bem humorado e não menos sério do Roda, o cartunista Caruso desenhou um boi temendo por seu destino e soltando pum. A flatulência e os arrotos dele e seus parentes emitem 50% mais gases de efeito estufa do que todo setor de transportes.

Foi o gancho que precisava para ao menos chamar atenção do cidadão sentado no sofá diante da televisão que aquela altura deveria estar imaginando: por que deixar meu carro em casa se o boi é que faz a m ….. no campo ? As ações não são isoladas, a mudança de hábito deve ocorrer na cidade e na fazenda, as medidas precisam ser adotadas pelo indivíduo, sim, mas também pela iniciativa privada e o poder público.

Estamos todos neste mesmo barco que pode afundar daqui 50, 100 anos por causa do aquecimento global como insistem os cientistas – ao menos boa parte deles – ou emborcar amanhã mesmo com uma chuvarada que faz despencar nossas casas e vidas.

Veja mais imagens do programa no álbum da Tv Cultura no Flickr e detalhes no programa no site da emissora.

Foto-ouvinte: Vidas derrubadas

 

Aqui São Miguel 220

Operários jogam ao chão um das últimas paredes da “Viela dos Peixes, no Jardim Patanal, bairro alagado desde dezembro na zona leste de São Paulo. Gilberto Travesso, do Blog Notinhas de São Miguel, diz que cerca de 60 famílias foram removidas e casas, demolidas. Todas moravam praticamente dentro do “velhor Rio Tietê”, em área de preservação ambiental.

A lamentar, digo eu, o fato de muitas das crianças que tiveram de sair de suas casas estarem sem vaga nas escolas da região para onde foram transferidas.

Canto da Cátia: Sala de aula

 

Volta às aulas no JD Helena

A caminho da escola, os alunos do CEU Três Pontes tem à disposição um rico material pedagógico. Lama, móveis destruídos e imóveis alagados alertam para os riscos ambientais que a ação do homem gera. Ensinam que nossa forma de consumo, a maneira como exploramos a terra ou mesmo a falta de respeito das autoridades com populações mais pobres deixam suas marcas no ambiente urbano. Da geografia à história, da ciência à biologia, boa parte das matérias que estudam na sala de aula tem capítulos relacionados ao cenário fotografado pela Cátia Toffoletto, na rua Capachós, onde fica o CEU.


Ouça a reportagem de Cátia Toffoletto sobre a volta às aulas nos bairros atingidos pelas enchentes, na zona leste de São Paulo

Pode parecer irônico, mas a prefeitura teve de construir uma ponte para que os alunos consigam entrar no CEU Três Pontes.

Foto-ouvinte: Mais um dia de São Paulo

 

São Paulo enfrenta um de seus piores momentos. Todo dia o morador sai de casa com a incerteza da volta. Não sabe se o metrô vai parar; se o ônibus estará esperando por ele; se o carro não vai se afogar no primeiro túnel que surgir. Sabe que vai chover e torce para que isto ocorra do outro lado da cidade, distante de onde se encontra. As nuvens ficam escuras no céu e o medo toma conta de quem vive na capital. São minutos, horas de chuva que despenca sobre a cidade se dó, punindo nossos abusos e a maneira como resolvemos explorar o ambiente urbano. Após o drama que ganha destaque na capa do jornal, no noticiário do rádio e nas imagens da televisão, que mobiliza os internautas nas redes sociais e ganha espaço privilegiado nos portais de internet, surge uma imagem surpreendente. Um arco-íris a anunciar que um novo dia surgirá. Um sol que começa a infernizar a vida do paulistano logo cedo, anunciando que logo mais tudo aquilo que atormentou o cidadão pode voltar.

Com a colaboração de repórteres da rádio CBN e ouvintes-internautas, todos estes momentos estão registrados em imagens que integram o álbum digital do CBN SP. Assista, comente e participe enviando mais imagens da nossa cidade.

“Linha de ônibus” para os alagados de São Paulo

 

Ônibus para enchente

Longe de me meter em área que nosso companheiro Ádamo Bazani é craque, mas é evidente que o ônibus da direita parece mais apropriado para transportar passageiros pelas ruas de São Paulo do que o da esquerda que está sendo usado para levar os moradores dos jardins Pantanal e Romano para casa. No humor sarcástico do pessoal que vive na região, a prefeitura assim que providenciar a compra dos modelos mais modernos vai implantar o bilhete-úmido, e o governo do Estado já teria autorizado a criação do Pedágio Aquático.

(a foto do bote resgatando moradores foi enviada pelo ouvinte-internauta Robson Simphronio e está publicada no Blog Notinhas de São Miguel)

A cidade de Kassab está no caminho certo

 

“Estamos no caminho certo”. Faça chuva ou faça temporal, o discurso do prefeito Gilberto Kassab (DEM) não muda. Nesta manhã, quando o sol ainda raiava sobre os paulistanos, ele foi entrevistado no CBN São Paulo, após a assessoria de comunicação dele ter sugerido a conversa para que esclarecesse os pontos polêmicos sobre a mudança no horário de funcionamento das feiras livres de São Paulo. Confesso que logo imaginei que Kassab iria anunciar um recuo na decisão, pois havia ouvido reclamações de feirantes e consumidores no fim de semana. Ao contrário, reafirmou que está correto na medida adotada e a população apenas precisava se acostumar a uma mudança de hábito.

Quanto às reclamações prefeito ? Não teria havido. Foram os repórteres que não entenderam a “sugestão” de uma senhora que trabalha em feira livre e ele respeita muito. “Lembro até o nome dela”.

Se o tema é feira livre, se é sujeira na rua, se é buraco no asfalto, não importa. A resposta é sempre a mesma.
Capa Época SP fevereiroParece estar convicto de que todas as medidas foram tomadas e o drama das famílias encharcadas que aparecem na televisão no fim da tarde é coisa de outro mundo – assim como as reclamações registradas pelos repórteres. Aliás, esta é outra estratégia do prefeito, repetida à exaustão na entrevista ao CBN SP: avaliar o trabalho da imprensa. Esta reportagem não está precisa, “mas eu respeito muito”. Aquela outra confundiu os números, “mas eu respeito muito”. E tem a terceira que Kassab também respeita muito e destaca para mostrar a exatidão das políticas que está implantando, apesar de todos os problemas provocados nas gestões anteriores, lógico.

Foi o que fez ao comentar a reportagem da Folha de São Paulo, publicada semana passada, sobre a coleta seletiva do lixo. A pauta era clara: as empresas Loga e Ecourbis não estariam cumprindo o serviço previsto em contrato, moradores chegaram a dizer que o caminhão não passava na rua há algumas semanas. Para o prefeito, a reportagem era o sinal de que o serviço de coleta seletiva estava melhor na gestão dele. “Não entendi, prefeito”, falei de bate-pronto. Ele me explicou, afinal “me respeita muito”. E prometeu enviar os números (talvez assim, eu consiga entender melhor).

A entrevista completa você acompanha no portal da rádio CBN que agora tem uma página que fala apenas de São Paulo. Clique neste link, ouça a opinião do prefeito e dê sua opinião.

Este comportamento do prefeito Gilberto Kassab diante dos problemas da cidade foi destaque na reportagem de capa da revista Época São Paulo com a manchete “Uma cidade que só Kassab não enxerga”. Cercado por números negativos, incluindo os de sua popularidade em queda, o prefeito aparece sorrindo em fotos feitas na época da eleição, em 2008.

Coração de repórter, lágrima de gente

 

Carla Vilhena chora no Pantanal

O drama das famílias que moram no Jardim Romano, zona leste de São Paulo, emocionou a jornalista Carla Vilhena da TV Globo. Não suportando ouvir o relato da moradora que está há mais de um mês com sua casa cheia de água e corre o risco de perder a moradia, a apresentadora do SPTV não se conteve e chorou muito, conforme registro feito por Gilberto Travesso, do Blog Notinhas de São Miguel. Bom saber que ainda há quem se sensibilize com as dificuldades do cidadão abandonado pelo poder público.

Mensagem que recebi da colega de profissão Carlo Vilhena (publicado em 04.02.2010 às 22:13)

“Uma vez ouvi de um jornalista:
– Carla, estou deixando a reportagem, porque perdi a capacidade de me emocionar.
Fiquei chocada. Ao mesmo tempo em que ele era sincero, parecia sofrer com sua própria falta de sentimento.
Graças a Deus, vinte e cinco anos depois do meu início de carreira no Jornalismo, ainda sinto. E muito.
O drama de cada um daqueles moradores me toca fundo no coração, principalmente depois que tive meus filhos.
Hoje compreendo o sentimento de um pai, de uma mãe, que não podem dar uma vida melhor à família.
Me sinto mais próxima de todos aqueles seres humanos que estão ali, abandonados por tudo e por todos.
É muita humilhação ter que passar por isso, dia após dia, mês após mês.
Sinto muito não poder fazer mais por essas pessoas. Mas o pouco que posso, vou continuar fazendo.
Obrigada pelo apoio e pelo carinho.

Carla Vilhena”

São Paulo, ouça Cláudio Abramo

 

Por Carlos Magno Gibrail

Trânsito parado na no Cebolão SP (Foto Pétria Chaves)

“Um grande jornal se conhece nos grandes momentos” foi a frase lembrada domingo por Clóvis Rossi, dita por Cláudio Abramo expoente do jornalismo do “Estado de São Paulo” e da “Folha de São Paulo”. É assim em todas as organizações. Mas, para isso é preciso entender que se está diante de um grande momento, que exige ampla colaboração. Técnica, Social, Econômica, da Comunicação, dos Habitantes e Política.

E, é agora que se necessita cobrar de cada uma dessas áreas o que não foi feito, o que foi mal feito e o que terá que ser feito.

A Técnica deixa muito a desejar enquanto soluções de ampliação das marginais são propostas e executadas. Estão colocando 2bilhões de reais. E, esqueceram da demanda reprimida. O ideal será considerar um movimento de reconstrução, como se faz após catástrofes, com equipes técnicas especializadas em emergências, com grupos de especialistas. Um órgão de SOS imediato.

A Social é uma das mais graves, pois permite a favelização em áreas de risco e/ou de mananciais.

A Econômica é não colocar capital em obras como o Túnel da Marta ou as pistas da Marginal.

A Comunicação governamental com publicidade das Administrações Públicas precisa ser reduzida ou eliminada. A Comunicação por parte da mídia é pouco contundente tendo em vista a situação do caos que vivemos. É bem verdade que a continuidade de fatos graves pode banalizá-los. É hora da mídia se apoiar em conhecimentos técnicos para poder arguir os políticos. Além disso, nos espaços abertos para as campanhas, os jornalistas precisariam evitar que se descambe por aspectos pessoais. É necessário ter mais informação para fazer perguntas técnicas.

Os Habitantes moradores precisam cuidar muito mais do seu espaço. As calçadas de SP estão ficando impermeáveis, os lixos não tem o cuidado necessário, os bueiros recebem todo o tipo de dejetos. Os moradores organizados, Movimento Defenda São Paulo, Movimento Nossa São Paulo, tem realizado ações efetivas e eficientes, mas agora é hora de dar um grito de alerta. Os habitantes empresários, por exemplo, fábricas poluentes e construtoras dispostas a vender a alma ao demônio e, às vezes não entregar, precisam ser controlados. Os empresários de prestação de serviços, poderiam seguir o exemplo de Ricardo Semler, com horários alternativos e escritórios descentralizados, uma estratégia que pode aumentar a produtividade. À classe média em particular uma frase de Gilberto Dimenstein, em entrevista à Folha de São Paulo sobre o pedágio urbano: “Eu colocaria amanhã. Limita os carros na rua e arruma dinheiro para o transporte público. Cedo ou tarde será preciso brigar com a classe média” .

A Política é a mais difícil, embora com processo idêntico, ou seja, o interesse individual e eleitoreiro muitas vezes predomina. Entretanto, agora é preciso deixar de agir burocraticamente e administrar vaidades e soberba. Clóvis Rossi opina: “Nesses grandes momentos, tristes, mas grandes, não é exatamente o comportamento que se espera de quem se supõe que vai disputar uma eleição presidencial esgrimindo o bordão de gerente – e competente”.

Será que todos em São Paulo não percebem que emergência não é apenas para bombardeios, terremotos, furacões? Cidade alagada é também uma catástrofe. SOCORRO!

Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda e escreve às quartas no Blog do Mílton Jung.