Isto não é o caos, é uma vergonha

 

(Atualizado em 10.12, 16h04)

Jardim Romano alagados (Pétria Chaves)

Os Jardins São Martinho e Pantanal, no extremo leste de São Paulo, estão alagados desde segunda-feira à noite, quando se iniciou o temporal na capital paulista. Dois dias após a enchente a água ainda toma as ruas pobres do bairro, como mostram as imagens feitas pela repórter Pétria Chaves, do helicóptero da CBN, e Cátia Toffoletto.

Jardim Romano Pessoas Alagadas (Cátia Toffoletto)

A Subprefeitura de São Miguel Paulista que seria responsável por oferecer qualidade de vida aos moradores da região – oficialmente chamada de Jardim Romano – divulgou nota sem oferecer muita esperança a quem está no meio do problema (ou da água): “a Subprefeitura, juntamente com a Sabesp e o DAEE (Departamento de Águas e Energia Elétrica) estudam a possibilidade de desenvolver um projeto de engenharia para a região”. Enquanto estudam, as pessoas levam a vida do jeito que dá.

No CBN SP desta quinta-feira, o subprefeito de São Miguel Paulista falou sobre a situação enfrentada pelos moradores nesta região:

Ouça o que disse o subprefeito Milton Roberto Persoli

Tem que enxugar a água porque o Tietê está no limite

 

Reflexo da Cidade (Pétria Chaves)

Reflexo do que é São Paulo em imagem da repórter Pétria Chaves/CBN

 

A chuva foi muito forte – dizem o técnicos que despencou 100 mm de água -, mas a cidade já encarou com menos prejuízos temporais bem mais intensos, nos quais o número de pontos alagados ficou longe dos 98 registrados nesta terça (08.12). É o que mostra levantamento feito pelo UOL com base em dados oficiais (leia aqui).

Os mais de R$ 1,7 bilhão investidos que rebaixaram a calha do Tietê para permitir que a vazão do rio chegasse a 1.188 m3 por segundo de vazão não são mais suficientes para a quantidade de água despejada nele. Ou seja, o rio está mais raso do que deveria, pois a manutenção não é suficiente para a quantidade de resíduos que se acumula na calha do Tietê.

Para o professor do Departamento de Engenharia Hidráulica e Sanitária da Escola Politécnica Mário Thadeu Leme de Barros entrevistado no CBN SP a saída está em aumentar a capacidade de São Paulo “enxugar” a água da chuva. Uma das opções é investir nos parques lineares que preservariam as encostas dos córregos e riachos que desaguam no Tietê e reduziriam o volume de água despejado no rio.

Dos 23 previstos para serem entregues até 2012, segundo o Plano de Metas da Prefeitura, apenas um está concluído, no Jardim Esther, região do Butantã. Oito deveriam estar prontos neste mês de dezembro.

Haveria outras possibilidades como impedir a ocupação sem limite e sem ordem que se realiza historicamente na capital paulista, mas para tanto é preciso coragem política e restrição de privilégios. Hoje, São Paulo paga um preço muito alto pela falta de planejamento e o que a cidade sofreu nesta terça é reflexo de uma série de erros urbanísticos, muito mais do que o excesso de chuvas.

Nesta entrevista nós falamos também sobre a falha que ocorreu no bombeamento das águas do rio Pinheiros que tornou a situação do Tietê ainda mais crítica.

Ouça a entrevista do professor do Departamento de Engenharia Hidráulica e sanitária da Escola Politécnica Mário Thadeu Leme de Barros

Nesta quarta, também conversamos com um economista para entender o tamanho do prejuízo calculado pela cidade em virtude dos transtornos provocados pelas enchentes.

Ouça a entrevista de Heron do Carmo, professor da FEA-USP, sobre o Custo São Paulo

As imagens da enchente em São Paulo

 

Moto alagada na Tietê (Cátia Toffoletto)

O motoqueiro tentou cruzar a pista da Marginal Tietê alagada e não teve sucesso. Assim como ele, milhares de paulistanos sofreram nesta manhã devido as enchentes provocadas pelo transbordamento do rio Tietê. Todos os investimentos feitos para rebaixar a calha do rio desde 2002 até aqui não foram suficientes para a quantidade de chuva que se iniciou às sete da noite de segunda-feira. Para as autoridades, é muita água e nenhuma cidade seria capaz de resolver este problema. O dinheiro aplicado amenizou a situação, poderia ter sido muito pior e bla-bla-bla. Para o cidadão, resta enfrentar o que você vê nesta sequência de fotos produzidas pelos repórteres da CBN e por ouvintes-internautas.

Caminhão e motorista 'afogados' na Tietê (Cátia Toffoletto)

Caminhão e motorista ‘afogados’ na Marginal Tietê, na ponte das Bandeirais. O motorista saiu da cidade de Salto e seguia para Guarulhos, mas já estava há mais cinco horas parado no local.

Deslizamento em Sapopemba 3

Uma pessoa morreu em deslizamento de terra no parque Santa Madalena, em Sapopemba, zona leste de São Paulo. Veja mais imagens da capital e região metropolitana.

Alagamento na Presidente Wilson (Cátia Toffoletto)Alagamento na Mooca (Cátia Toffoletto)Desabamento em SapopembaRua Estados Unidos alagadaAlagamento em Mairipora (Rodrigo Amaral)Rua Havre próximo da Casa Verde (Pétria Chaves)Alagamento em São Paulo 1 (Cátia Toffoletto)Deslizamento em Sapopemba

São Paulo testa asfalto anti-enchente

 

A cidade de São Paulo começou os testes com um asfalto que absorve a água da chuva e pode ajudar a combater as enchentes na cidade. Engenheiros que acompanham o trabalho afirmam que o piso usa material poroso e teria capacidade de “enxugar” até 1 litro de água em 26 segundos. Ao CBN SP, porém, o superintendente da Secretaria de Infraestrutura Urbana e Obras da prefeitura Pedro Algodoal foi mais cauteloso. Não falou em número e apresentou algumas dificuldades para implantação do projeto.

O novo tipo de pavimento precisará, também, de um solo permeável para absorver a água sob o risco dela se acumular no asfalto. O exemplo que Algodoal usou para explicar o problema: o gramado absorve a água, mas dependendo a quantidade de chuva e qualidade da drenagem logo o alagamento se forma. Portanto, não bastará usar o piso é preciso mudar o solo, também.

O asfalto anti-enchente é mais caro, custaria em torno de R$ 230 por m2 contra os R$ 195 gastos com o asfalto comum usado na cidade. Será necessário, também, adaptar as usinas da prefeitura e melhorar – e melhorar muito – a qualidade do serviço de pavimento. O projeto avaliado em R$ 400 mil, desenvolvido pela Fundação Centro Tecnológico de Hidráulica, somente terá resolvidos mais concretos no ano que vem.

Secretária Dilma diz que lixo provocou enchente

 

Sujeira e entulho no portão do piscinão do Jd. Alto da Boa Vista, em Mauá

Sujeira e entulho no portão do piscinão do Jd. Alto da Boa Vista, em Mauá

A Secretária do Estado de São Paulo de Saneamento e Energia Dilma Pena deixou claro que o lixo foi um dos motivos que causaram as enchentes da semana passada, na região da Marginal Tietê, na capital paulista. Em entrevista ao CBN SP, ela destacou, ainda, que a quantidade de chuva e o local onde ocorreu são fatores que devem ser levados em consideração na análise sobre o transtorno na cidade.

Dilma Pena disse que o plano de macrodrenagem que pode reduzir o impacto dos temporais da região metropolitana tem prazo de cinco anos para sua conclusão e a construção de piscinões está entre as ações que fazem parte desta estratégia. Ela disse que o Estado teve de assumir a função de limpeza dos piscinões pois as prefeituras não realizavam este trabalho e prejudicavam a retenção das águas da chuva.

Acima, um dos piscinões da região metropolitana, em Mauá, em foto enviada pelo ouvinte-internauta José Luiz Zago.

Ouça a entrevista da secretária Dilma Pena ao CBN SP

Canto da Cátia: O prefeito e o entulho

 

Entulho na cidade 2

Pela primeira vez desde o temporal que causou mortes e prejuízos à cidade, na terça-feira, o prefeito de São Paulo Gilberto Kassab admitiu falhas da administração dele no combate as enchentes. Ao dizer que a chuva forte foi fora de época, lembrou que a população não tomou as medidas que costuma adotar no período do verão e foi pega de surpresa. Foi aí que ele lembrou de dizer: “a prefeitura, também”. Fora este momento de mea culpa, o resto foi se defender e atacar os outros, principalmente o governo de Marta Suplicy que o antecedeu, repetindo estratégia de comunicação assumida no início da crise.

Hoje, acompanhado do super-secretário Alexandre de Morais, foi à Vila Prudente e visitou terreno da Sabesp usado, ilegalmente, para despejo de entulho. Disse que vai exigir da empresa do Governo do Estado o controle sobre o local e dos subprefeitos o mapeamento das áreas em que entulhos são jogados, conhecidos por “pontos viciados”.

Curioso é que o subprefeito do Butantã, Regis Oliveira, por e-mail, me informou que as subprefeituras já tem este mapeamento, mas, infelizmente, “enxugam gelo”, pois tiram o lixo e o entulho volta ao local.

Ouça trecho da entrevista com o prefeito Gilberto Kassab (DEM)

Ouça a segunda parte com o prefeito Gilberto Kassab (DEM)

Assista aqui ao vídeo feito pela repórter Cátia Toffoletto, no terreno da Sabesp, onde o entulho é despejado,na Vila Prudente.

Contra enchente, processe a prefeitura

 

Chuva na Paulista

Entrar com ação contra a prefeitura de São Paulo para ser ressarcido pelos prejuízos provocados pela enchente desta terça-feira é uma das sugestões do professor titular de direito administrativo da PUC-SP e ex-secretário do município na administração Mário Covas, Adilson Dalari. É preciso provar que os prejuízos foram causados por falta de atuação do município. Apesar desta dificuldade, o advogado conta que um cliente dele já teve sucesso nesta iniciativa ao mostrar que a administração municipal não teria feito os investimentos necessários na região.

Adilson Dalari disse que prejuízos no carro devido a buracos nas ruas da cidade também poderiam motivar uma ação contra o poder público.

Ouça a entrevista do professor titular de direito da PUC-SP, Adilson Dalari

Nova Marginal e a enchente na cidade

Rua alagada em SP

A construção das novas pistas da Marginal Tietê vai provocar mais alagamentos na cidade de São Paulo na opinião do engenheiro da Politécnica Roberto Massaru Watanabe, ouvido pelo CBN SP. Especializado em hidráulica fluvial, ele entende que a enchente ocorrida nesta terça, 09.09, na capital é resultado de políticas públicas que permitiram a impermeabilização do ambiente urbano. Plantar mais árvores e rever o projeto da Marginal seriam caminhos para conter o problema provocado pelas chuvas na cidade.

A entrevista com o professor Watanabe provocou uma série de comentários enviados por e-mail ao CBN SP de ouvintes-internautas concordando com a opinião dele. Publicado duas dessas mensagens:

“Ouvi a sua entrevista com engenheiro especialista em hidráulica. Na verdade, ele só veio, confirmar o que realmente, vai acontecer com marginal Tiête em virtude dessa obra que o governador juntamente com o prefeito esta fazendo. O pior de tudo isso, é que ninguém faz nada, exceto a população dos que já estão ferrados fazem algum protesto por que o resto, fazem vista grossa” José Sinval Rocha da Silva

“Que beleza a clareza de respostas e de exposição de idéias deste sr, não? E ele não está em Harvard, Sorbonne, ou qq outra faculdade do exterior. Suas pesquisas são financiadas por nossa sociedade, ele trabalha na universidade do município, é quadro nosso. Já ouvi várias vezes os pesquisadores da USP defendendo idéias semelhantes, tanto que já aprendi, vc tb. Pq nossos administradores não conseguem aprender? Talvez devessem contratar fonoaudiólogos para ajudá-los com seus problemas de aprendizado. Será que eles sofrem de TDA (Transtorno de deficit de atenção)??” Cristiane Caldeira

Ouça a entrevista com o professor e engenheiro Roberto Watanabe e dê a sua opinião, também.