Boa notícia não dá audiência

 


Por Carlos Magno Gibrail

O Brasil conquistou seis medalhas de ouro, três de prata, duas de bronze e dez certificados de excelência no maior torneio de educação profissional e tecnológica do mundo. Ocorrido em Londres no mês de outubro. Tirou o segundo lugar, ficando na frente do Japão, da Suíça e demais países desenvolvidos. Atrás apenas da Coreia do Sul.

Esta notícia não foi estampada com o merecido destaque em nenhuma das mídias, que, coincidentemente, abrem as primeiras páginas para alardear os rankings de educação que tem colocado nosso país em constrangedoras posições.

A mesma imprensa que brada a necessidade do ensino técnico, não abriu espaço para informar que a dupla gaúcha Christian Alessi e Maicon Pasin, do Centro Tecnológico de Mecatrônica, do SENAI, em Caxias do Sul, ganhou o ouro em mecatrônica e foi o destaque da equipe brasileira, vice-campeã do 41º Worldskills, que reuniu 944 competidores de 51 países e receberam mais de 200 mil visitantes. Assim como deixou de informar que Willian Grassiote do SENAI de Taguatinga é o melhor profissional do mundo em mecânica de refrigeração. Jecivaldo de Oliveira é excelência na aplicação de revestimento em cerâmica, após três anos treinando dia após dia, sem feriado, sem fim de semana no SENAI DF. Guilherme Augusto Franco de Souza do SENAI Mooca SP, é ouro em desenho mecânico em CAD. Gabriel D’Espíndula do SENAI Paraná é o melhor do mundo em eletrônica industrial. Natã Barbosa é ouro em web design pelo SENAI de Joinville. Também de Joinville Leandro Duarte e André Peripolli programaram um robô móvel e ganharam certificado de excelência. Do SENAI do Rio, Rodrigo Ferreira da Silva, filho de segurança de joalheria, é o melhor do mundo na ocupação de joalheria.

À falta de informação temos o oposto quando, por exemplo, na CBN, ao lado de qualificados comentários de Lucia Hipólito, Miriam Leitão, Max Gehringer, Arnaldo Jabor, etc. comandados por Mílton Jung, há a intromissão de um repórter anunciando acidente fatal de algum anônimo no trânsito paulista. Como se a má-noticia, mesmo que sem pedigree, tenha que comparecer no cardápio jornalístico.

Há, entretanto uma boa notícia, pois a tecnologia através da pressão dos dois bilhões de internautas ou dos cinco bilhões de proprietários de celular no evoluído mundo atual, abrirá definitivamente a customização da editoria. Ou seja, vamos selecionar a pauta de interesse. Por segmento, e individualmente.

Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda e escreve, às quartas, no Blog do Mílton Jung

O CNE deve ser um órgão de Estado!?

 

Por Nelson Valente

O CNE – Conselho Nacional de Educação deve ser um órgão de Estado. Por exemplo, quando o CNE vota um parecer de credenciamento da abertura de uma faculdade, o documento vem do MEC, já analisado pelas secretarias.

No CNE, é discutido e preparados o parecer e enviados para homologação. Chegando ao gabinete do ministro, pensa que vai mesmo ao ministro para análise e homologação? Não vai não!

O mesmo parecer é mandado de volta para a análise das secretarias, que já haviam recebido antes o processo, e depois o encaminham para a secretaria jurídica.

O MEC ouve a burocracia, que não é qualificada para isso como são os conselheiros, para só então homologar ou enterrar, pelo silêncio, o parecer.
Qualquer parecer do CNE morre num escaninho da burocracia, se assim se desejar. Nesse sentido, o CNE é refém da burocracia do MEC, que se manifesta duas vezes sobre cada assunto avaliado pelo CNE, antes de ir ao CNE e depois de voltar do CNE. Isto faz sentido? Claro que não, e claro que sim.

Claro que não, se pensarmos na existência legal de um verdadeiro CNE. Claro que sim, se pensarmos no predomínio burocrático sobre o estratégico e na incompreensível dificuldade que todo ministro tem com órgãos eventualmente autônomos em seus ministérios.

É claro que uma das ambições que o CNE abriga é a de ter um Estatuto aprovado por decreto presidencial, que regulamentasse a lei que o cria. Muitos conselhos da órbita federal têm seu estatuto aprovado por decreto do Presidente da República, e certamente não seria demais pedir que o CNE tivesse seu estatuto também desta forma.

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Prefiro meus professores de português

 

São Paulo - Museu da Língua Portuguesa

Por Milton Ferretti Jung

Desculpem-me os leitores dessas mal traçadas linhas, mas vou voltar ao tema da última quinta-feira: o livro distribuído pelo Ministério de Educação e Cultura que provocou polêmica de âmbito nacional. Seus defensores usaram sofismas para defender a sua publicação. A opinião de Ernani Pimentel, que escreveu Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, por exemplo, diz que “muitos educadores acham que falar certo é falar rebuscado”.

Tive vários – e ótimos – professores de português. Considero-me um sujeito de sorte. Os meus mestres jamais me passaram tal idéia, pois nunca exigiram que eu, nas redações que prescreviam, usasse rebuscamentos lingüísticos. Um deles, meu saudoso Professor Marques, no Colégio Anchieta, nos mandou fazer uma “carta aos pais”. Ele costumava escalar um aluno para ler a redação diante dos colegas. Tocou para mim a leitura da “carta aos pais”. Eu havia visto no dicionário uma palavra que muito me agradara. E resolvi usá-la bem no início do texto: “Meus pais, escrevo-lhes esta ignóbil cartinha…” Até hoje fico corado quando lembro a gafe. O meu caro Professor não nos ensinava a rebuscar a linguagem utilizada em nossas redações. Repito: nenhum dos meus mestres de português (seria por coincidência apenas? )queria que rebuscássemos a linguagem. O que espero dos professores da língua chamada por Olavo Bilac de “Ultima flor do Lácio, inculta e bela…”,é que não caiam em sofismas e tratem de dar o melhor de si para ensiná-la aos seus alunos.

Na defesa do português não se pode, entretanto, cometer exageros como o praticado pelo Deputado gaúcho Raul Carrion, autor de projeto visando a barrar o uso de palavras ou expressões estrangeiras, felizmente vetado parcialmente por Tarso Genro, Governador do Rio Grande do Sul. Prestem atenção, por favor, ao texto do Artigo 1º (que, pelo menos, deveria ter sido escrito em bom português, e não foi): “Institui a obrigatoriedade da tradução de expressões ou palavras estrangeiras para a língua portuguesa, em todo o documento, material informativo, propaganda, publicidade ou meio de comunicação por meio da palavra escrita sempre que houver em nosso idioma palavra ou expressão equivalente”.

Vá lá que as emissoras de televisão, por exemplo, não precisariam usar para denominar seus informativos a palavra “news”, porque pareça, talvez, mais charmosa dos que “novas”. É aceitável, por outro lado, que em documentos oficiais (parte vetada pelo Governador) não sejam utilizadas as tais palavras ou expressões estrangeiras que tanto horror causam (ou causaram) ao autor do projeto. Aliás, este está satisfeito com o veto parcial porque “o governador do Estado deu importância ao tema e avaliou que ele merece uma legislação. Foi uma vitória – eu diria que, de Pirro – que enriqueceu o debate na nossa população”.

De minha parte, queria ver como seria regulamentada a lei da proibição de palavras e expressões estrangeiras. Transformaria o Rio Grande amado, sem dúvida, em alvo de chacotas dos outros estados. Existe uma verdade imutável: a virtude está no meio. Nenhum projeto pode mudá-la.


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

A imagem deste post é do álbum digital no Flickr de Ronaldo Lima Junior

Professora pede respeito e vira hit no Twitter

 

A professora Amanda Gurgel da rede pública de ensino do Rio Grande do Norte pediu a palavra durante audiência pública, no dia 10 de maio, que discutia a situação da educação no Estado e ganhou a internet. Durante oito minutos falou sobre as dificuldades enfrentadas pelos professores na sala de aula, diante de deputados da Comissão de Educação e da secretária de Educação Betânia Carvalho. Resultado: o vídeo foi parar no You Tube e se transformou em destaque nas citações do Twitter.

O sucesso talvez se justifique pela maneira sincera e expressiva do seu pronunciamento, raridade nos dias de hoje.

Falar errado não está certo

 

Por Milton Ferretti Jung

Quem é Machado de Assis?

Estamos, em âmbito nacional, diante de uma aberração: 485 mil estudantes dos ensinos Fundamental e Médio receberam um livro dito didático, que defende erros de português, algo surpreendente, pelo menos para mim, vindo de quem vem, isto é, do Ministério da Educação. Já em nível estadual, o deputado gaúcho Raul Carrion criou projeto, aprovado pela Assembléia Legislativa do meu Rio Grande do Sul, que prevê a proibição do uso de estrangeirismos na denominação de estabelecimentos comerciais, centros de compras, etc. O Governador Tarso Genro vetou parcialmente o tal projeto. Com isto, este voltará para a Assembléia e, talvez, os nobres deputados se deem conta, então, da asneira que fizeram ao o aprovar.

As iniciativas do MEC e de Carrion têm, alegadamente, propósitos semelhantes: aquele quer estimular a formação de cidadãos que usem a língua com flexibilidade, porque a escrita, segundo o Ministério, deve ser o espelho da fala… O parlamentar do meu estado pretende defender a nossa língua da invasão de termos estrangeiros, como se isso fosse viável num mundo cada vez mais globalizado.

Quanto ao livro polêmico, na minha opinião, se trata de mais um atentado ao tão maltratado português. Não bastasse a precariedade do seu ensino em todos os níveis de escolarização, há quem entenda, como se percebe, que falar errado está certo. Ou não? É evidente que há diferenças entre o que se escreve e o que se fala. Quem ensina o português, porém, tem obrigação de explicar que, quando é escrita, a língua precisa obedecer regras rígidas. Nisto não há como tergiversar. Fecho com o Professor Sérgio Nogueira. Conforme ele, a publição do MEC é um absurdo. “Trata-se de um incentivo ao desvio da norma. Existem variações na nossa língua. Só que todos terem de aceitar é uma outra história”.

O diabo é que se o Governador gaúcho vetou o projeto de Carrion, o mesmo não faz o Ministério da Educação e Cultura com o livro que defende erros de português.


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)


A imagem que ilustra este post é do álbum digital de Joanna Maciel

De Harvard à USP, uma lição

 

Por Carlos Magno Gibrail

Os principais meios de comunicação do país noticiam os rankings das melhores universidades do mundo, onde chama à atenção a distante posição da nossa melhor universidade.

Embora 8ª Economia do mundo, o Brasil aparece na lista norte americana da “Times Higher Education”, cujos critérios principais consideram as verbas para pesquisa e inovação, com a 232ª posição da USP e a 248ª da Unicamp.

No ranking da empresa inglesa “QS World University Rankings” que leva em conta a opinião da academia e o mercado, a USP aparece como a 253ª e a Unicamp como a 292ª, enquanto que na lista do “Instituto de Educação Superior de Xangai”, cujo principal indicador é a produção científica, a USP está entre o 100º e o 150º lugar, e a Unicamp entre o 200º e o 300º.

Harvard é o destaque, e só não aparece em primeiro na avaliação inglesa, onde ocupa o segundo lugar.

Mesmo levando em conta possíveis desvios de critérios, corporativismos, nacionalismos ou demais juízos de valor, há uma similaridade nestes rankings que endossa as avaliações.

Qual a razão da distância entre a economia e a educação nacional?

Sob o aspecto numérico é considerável a diferença de idade de Harvard (1636) e da USP (1934), são 298 anos. Também é significativo o 3,1% investido em educação superior nos Estados Unidos sobre um PIB de 14 trilhões de dólares contra menos de 1% num PIB de 2 trilhões de dólares no Brasil .

Não bastasse isso, temos ainda as considerações de ordem sócio-econômica e cultural, como bem lembra o Prof. Nelson Barrizzelli (FEA USP), atribuindo à elite brasileira uma propensão extrativista não construtivista. Sempre foi mais fácil extrair do que construir quer do solo, da natureza ou dos seres humanos.

De outro lado a excelência do produto universitário passa também pela qualidade da matéria prima, que são os alunos, e longe está daquela condição aprovada por Peter Drucker quando atendeu ao pedido de Harvard para lecionar seu primeiro curso de mestrado. Aceitou somente após receber a lista com a qualificação dos alunos e verificar que poderia aprender com eles.

Mas, como que para demonstrar a excelência, ainda que não no topo, mas com disposição de chegar lá, a USP reagiu e ontem, extensa matéria na Folha apresenta mudanças que priorizarão a qualidade e atualidade do ensino objetivando melhoria de qualidade e atualidade dos cursos.

A restrição à expansão no primeiro momento será inevitável, pois como bem colocou o jornalista Hélio Schwartsman:

“Gostemos ou não, incorporar mais estudantes significa aceitar alunos com pior desempenho, o que resulta em queda de qualidade. O problema é menos a USP e mais a educação básica, incapaz de preparar para o mercado global universitário”.

É a freada que certamente preparará a acelerada futura.

Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda e escreve no Blog do Mílton Jung

Debate reúne diretores das 6 melhores escolas do Enem

 

A educação é o tema que mais preocupa o eleitor paulista. Pesquisa do Ibope havia constatado esta realidade e, enquanto converso com os candidatos ao Governo de São Paulo, fica evidente o interesse pelo tema nas mensagens enviadas pelos ouvintes-internautas. Lamento apenas que todo o debate esteja voltado para a progressão continuada que se transformou em bode expiatório para o maus resultados obtidos pelas escolas públicas.

Hoje à noite, terei oportunidade de enxergar outra realidade. Estarei mediando debate promovido pela Época São Paulo que vai reunir os diretores dos seis colégios paulistanos com melhor desempenho no Enem2010. O encontro é uma das etapas de reportagem produzida pela revista com o tema “Em busca da escola perfeita” e será aberto ao público que poderá participar ao vivo ou por e-mail. Estarão no encontro os diretores do Vértice, Objetivo, Móbile, Santa Cruz, Bandeirantes e Instituto Federal de SP.

A Época SP pretende ajudar os pais na definição de critérios para a escolha da escola mais apropriada para a educação de seus filhos. Assim, “o debate passará por temas que têm a ver com a construção de um ensino médio ideal: infraestrutura, laboratórios, educação humanística, valor de mensalidade, carga horária, ambiente escolar, convivência com o diferente, tendência a priorizar exclusivamente a preparação para o vestibular, entre outros”, como explica o editor Camilo Vannuchi.

O debate será hoje, às sete da noite, na sede da Editora Globo (Av. jaguaré, 1485). Para quem pretende assistir ao encontro a inscrição pode ser feita no e-mail rsvpeventos@edglobo.com.br. Para perguntas, use o e-mail cvannuchi@edglobo.com.br e coloque a palavra “Debate” no campo do assunto.

Doutorado: sem preconceitos

 

Por Carlos Magno Gibrail

Galeria do Flickr de Marco Gomes

“O doutorando brasileiro está cada vez mais interessado em Machado de Assis e menos em relatividade”. Roberto Mioto, jornalista da Folha em artigo na seção Ciências, reflete com esta frase o corporativismo
existente nos cientistas. Setor no qual não deveria se alojar
sentimento tão distante da realidade do conhecimento. Afinal de contas
a separação entre as ciências atende apenas ao aspecto didático, pois
a interdependência é inequívoca.

Se o novo levantamento do governo sugere que a expansão da pós –
graduação é puxada, em primeiro lugar, pelo aumento de doutores nas
ciências humanas, e não nas ciências exatas e biológicas, o problema
está nestas.

Na matéria de Roberto Mioto temos que o Ministério da Ciência e
Tecnologia através do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos realizou a pesquisa coordenada por Eduardo Viotti, que aponta uma queda entre 1996 e 2008 nos doutores em exatas de 16,1% para 10,6%. Especificamente nas engenharias houve queda menor de 13,7% para 11,4%, a mesma ocorrida nas biológicas.

Seguindo a linha de Mioto, Viotti extrapola: “É difícil criar doutorados em áreas de ciências exatas, da Terra e engenharias. Eles exigem laboratórios, não são cursos que precisam apenas de cuspe e giz”.

A fala de Viotti indica mesmo que o pessoal de exatas deve realmente
se preocupar com as ciências humanas, inclusive para melhor entendê-
las e aplicá-las. Ao mesmo tempo explica: “Nos últimos 20 anos o país
não cresceu muito, não havia muito emprego ou interesse nas áreas de
engenharia ou ciências da Terra. Direito, economia e administração,
por exemplo, eram as áreas onde havia mais possibilidade de os
doutores se empregarem”.

De qualquer forma a situação é positiva, pois enquanto o número de
doutores e mestres tem subido de forma geral, há medidas de incentivo
ao crescimento de pesquisas nas áreas das exatas. Carlos Aragão
presidente do CNPq – Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – ressalta que tem apoiado a formação de engenheiros e
cientistas facilitando o acesso a bolsas para corrigir as distorções.

Embora no contexto mundial a relação entre a população e o número de
doutores no Brasil seja de 1,4 doutores por mil habitantes, e nos
Estados Unidos seja de 8,4 e na Alemanha seja de 15,4, a participação
nacional na produção científica colocou-nos em 13º lugar em 2008 à
frente da Holanda 14º e da Rússia 15º, ao mesmo tempo em que subimos do 20º em 2000.

Recado maior aos corporativistas das exatas pode ser extraído do
Financial Times no artigo de Tyler Brulé : “Marca Brasil está
preparada para ação: suas empresas de energia podem ser o motor, mas são os elementos soft ( música,moda,hospitalidade,design) que tornarão o Brasil mais sedutor e sensual do que Rússia, Índia e China”.

Precisamos ou não de doutores e mestres em música, moda, hospitalidade e design?

Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda e escreve às
quartas no Blog do Mílton Jung


Conheça a galeria de fotos de Marco Gomes, no Flickr

A educação que todos e cada um querem

 

Por Fernanda Campagnucci
Observatório da Educação – Ação Educativa

Era uma quinta-feira à noite. O trânsito e o metrô lotados de sempre fizeram com que as pessoas fossem chegando aos poucos no auditório da Universidade São Judas, na Mooca.

À medida que chegavam, recebiam um crachá colorido, de acordo com o segmento da sociedade que representavam – profissionais da educação, mães ou pais, estudantes, jovens, fóruns e movimentos, gestores, iniciativa privada ou, simplesmente, cidadãos. Pela primeira vez, todos estavam reunidos ali para discutir propostas para a educação da região e da cidade.

A reunião na Mooca era uma das 31 plenárias que aconteceram em todas as subprefeituras durante o mês de maio para construir um plano de educação para a cidade de São Paulo. O processo, inédito, reuniu mais de 5.500 pessoas nessa etapa. Antes disso, as atividades já haviam se multiplicado por mais de 2 mil escolas municipais.

As 270 pessoas encheram o auditório. Num canto, uma professora traduzia, em libras, a leitura do regimento para os alunos surdos ali presentes. Reclamou – com razão – da falta do intérprete, que não chegara. Essa, aliás, foi uma das propostas defendidas pela professora: que todas as escolas, assim como todas as repartições públicas, tenham um intérprete de libras para atender às pessoas surdas.

Como nas outras plenárias, trinta pessoas podiam subir ao púlpito para ler e defender suas propostas. Os militantes da educação especial e inclusiva, assim como os profissionais de creches conveniadas, eram maioria. Mas houve também quem falasse na valorização dos professores; quem enfatizasse a necessidade de transparência nos conselhos e o acesso à informação; quem reclamasse pela melhoria da infra-estrutura nas escolas infantis e pelo aumento do financiamento da educação; pela implementação da lei que determina o ensino da história e cultura africanas…

Pessoas mais ou menos inflamadas em seus discursos eram mais ou menos aplaudidas. Uns com mais experiência para falar em público – já atuam em sindicatos – outros tímidos, como o estudante que subiu para dizer que a educação de jovens e adultos precisa de livros didáticos.

Tinham dois minutos cada para convencer as pessoas a votarem em suas propostas – que seriam, então, consideradas prioritárias na região e levadas à próxima etapa, a Conferência Municipal de Educação. Mesmo assim, todos – todos, mesmo – poderiam escrever propostas em um formulário, que serão consideradas para a Conferência também.

Uma professora perguntava à outra como deveria acontecer a votação. “É a primeira vez que participo de um negócio assim”, disse. “Eu não quero votar só em duas, acho todas importantes”, dizia uma outra em voz alta. “A contagem de votos está errada, tem que contar de novo”, gritava um outro, enquanto as pessoas ainda estavam com suas mãos levantadas. Aos poucos, foram sendo votadas e aplaudidas as propostas da Mooca.

No final da plenária, foram eleitos os delegados de cada segmento que, junto com 2.500 pessoas, construirão o documento final nos dias 18, 19 e 20, durante a Conferência. Mesmo que este último seja um dia de jogo do Brasil na Copa – que se votem as propostas até às 13 horas, então!

O desafio agora é da Comissão Organizadora do plano – sistematizar todas as propostas recebidas não só nas plenárias das subprefeituras, mas as plenárias livres e encontros temáticos puxados por grupos de toda sorte (sobre cultura e educação, avaliação, financiamento, educação inclusiva e mesmo uma plenária de crianças, etc etc etc).

E o processo, claro, não acaba por aí. Depois de finalizado o documento, a Secretaria Municipal de Educação deve encaminhá-lo à Câmara dos Vereadores. Ali, devem ocorrer audiências públicas em diversas comissões. Os cidadãos, que participaram ou não ativamente da construção do texto, têm a chance mais uma vez de monitorar e influenciar a ação de seus representantes na Câmara.

E que venha nosso primeiro plano de educação construído de forma participativa!

Conte Sua História de São Paulo: Vivendo e aprendendo

 

Entrevista_03

Desde os três anos de idade, o baiano Manoel Messias (de camisa azul na foto) vive em São Paulo onde chegou com a família para um tratamento de saúde. Reconhece a capital como um espaço para aprender, pois para ele esta cidade “é uma lição de vida”. Formou-se por aqui, criou seus filhos e entende que o solo paulistano tem “o cheiro do crescimento, trabalho, amor e amizade”.

Ouça aqui o depoimento de Manoel Messias gravado pelo Museu da Pessoa durante o programa de 456 anos de São Paulo, promovido pelo CBN SP, no Pátio do Colégio.

Você também pode participar do Conte Sua História de São Paulo. Agende seu depoimento ao Museu da Pessoa pelo telefone 011 2144-7150 ou pelo site www.museudapessoa.net