Notícia não é tudo o que nos informa

“Se um cão morde um homem, não é notícia; se um homem morde um cão, é notícia.” A velha frase das redações resume uma ideia conhecida: o jornalismo se interessa pelo que foge do comum. O problema é que o comum também muda. Se o cão for um rottweiler e o ataque revelar um risco para outras pessoas, a mordida pode virar notícia — não apenas pela surpresa, mas pelas consequências e pelo interesse público.

Essa reflexão ganhou um novo impulso com uma edição da newsletter Cartograma, publicada por meus ex-colegas de redação e amigos Leonardo Stamillo e Leandro Mota, da Content.Co. Eles chamaram atenção para uma pesquisa do Instituto Reuters sobre como as pessoas definem notícia hoje. A partir dela, voltei a uma pergunta que parece simples: o que é notícia?

Durante muito tempo, jornalistas aprenderam a responder com critérios como novidade, relevância, proximidade, impacto e interesse público. Esses critérios continuam úteis. Mas hoje convivem com uma quantidade de informação que chega por todos os lados, em formatos variados e com fronteiras menos nítidas entre notícia, comentário, entretenimento e opinião.

Alain de Botton chamou atenção para essa relação de consumo. Em Notícias: Manual do usuário, título da edição brasileira, ele descreve uma sociedade que consulta o noticiário com frequência quase compulsiva. O livro não se limita a dizer que há notícias demais. Também questiona como elas nos afetam e o que esperamos encontrar quando buscamos saber o que acontece no mundo. Minha ressalva está na palavra: talvez estejamos viciados em informação — e nem toda informação seja notícia.

Uma pesquisa recente do Instituto Reuters ajuda a iluminar essa distinção. O estudo ouviu pessoas em seis países e identificou uma definição tradicional de notícia, associada a temas como política e economia, ao trabalho de jornalistas e especialistas e a veículos dedicados à informação. Mas encontrou também um grupo que mantém esse núcleo e amplia as fronteiras para incluir conteúdos sobre moda e videogames, criadores independentes, podcasts, vídeos curtos, comentários e sátira. No levantamento, 49% tinham uma definição centrada no núcleo tradicional; 26% combinavam esse núcleo com elementos mais novos. Apenas 4% se apoiavam predominantemente nos atributos expansivos.

A expansão, portanto, não significa que o público tenha deixado de reconhecer a notícia como relato de fatos verificáveis. Pelo contrário: a pesquisa encontrou amplo acordo em torno da precisão e da verificação. O que varia mais é a maneira de identificar uma notícia: quem a apresenta, onde aparece, sobre que assunto trata e por que aquilo importa para a vida coletiva ou pessoal de quem recebe a informação.

Também não dá para afirmar que as plataformas, por si só, tenham provocado essa mudança. O estudo encontrou definições mais amplas entre as pessoas que usam principalmente redes sociais, podcasts e chatbots para se informar. Mas, por ser uma pesquisa feita num único período, não permite saber o que veio primeiro: se o consumo nessas plataformas ampliou a ideia de notícia ou se pessoas com uma definição mais ampla passaram a preferi-las.

Para os jornalistas, o desafio é entender essa mudança sem confundir audiência com critério editorial. Um vídeo curto pode explicar um tema complexo. Um influenciador pode trazer à luz uma questão relevante. E um assunto ligado à cultura pop pode ter consequências públicas. O formato e o tema não determinam, sozinhos, se algo é jornalismo. É preciso perguntar se houve apuração, se os fatos foram verificados, se há contexto e se a informação ajuda o público a compreender o que está acontecendo.

A demanda por conteúdos mais leves, pessoais ou próximos do entretenimento merece atenção. Ela pode indicar novas formas de chegar às pessoas e de explicar temas importantes. Mas, se a busca por audiência apagar a diferença entre informar e apenas prender a atenção, o jornalismo perde parte de sua função. Nem toda informação precisa ser notícia, e nem tudo o que atrai o público se torna, por isso, de interesse público.

Talvez a pergunta mais produtiva não seja apenas “o que as pessoas chamam de notícia?”, mas também “que trabalho a notícia deve fazer para elas?”. Ampliar formatos e escutar o público pode aproximar o jornalismo de novas audiências. Preservar apuração, relevância e contexto é o que impede essa aproximação de transformar notícia em mero entretenimento.

Sua Marca Vai Ser Um Sucesso: lições que os 60 anos da Mônica ensinam às marcas

“A força das grandes marcas reside nisso, em encontrar aquilo que é mais essencial e humano e traduzir nas marcas”

Cecília Russo

Uma marca só alcança relevância e longevidade quando consegue se conectar profundamente com o público. A personagem Mônica, criada por Maurício de Sousa e que celebra 60 anos em 2024, é um exemplo emblemático disso. No quadro Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, Jaime Troiano e Cecília Russo destacaram como a figura de Mônica pode servir de lição para outras marcas.

“Uma marca forte é aquela que se conecta na vida das pessoas, gera identificação, e isso a Mônica tem de sobra”, afirmou Cecília Russo, enfatizando a habilidade da personagem em traduzir aspectos da alma humana. A identificação com os traços da Mônica, como sua força, determinação e vulnerabilidades, reflete nossa própria complexidade e diversidade. A Turma da Mônica, com seus personagens icônicos como Cebolinha, Cascão e Magali, simboliza diferentes aspectos da nossa personalidade — perfeitos e imperfeitos, fortes e fracos.

Para Cecília, o grande ensinamento da Mônica é que marcas precisam buscar emoções humanas genuínas. A personagem de Maurício de Sousa conseguiu isso ao longo das décadas, mantendo-se relevante ao tocar o que há de mais essencial nas relações humanas. Essa conexão emocional é o que mantém a Mônica presente na vida de gerações diferentes, desde crianças a adultos que cresceram com suas histórias.

Jaime Troiano destacou que a Mônica não apenas sobrevive ao tempo, mas gera “emoção, engajamento e relevância” por meio de um trabalho cuidadoso de construção de marca. Ele lembrou que a própria Mônica, filha de Maurício de Sousa e inspiração para a personagem, comentou recentemente que “não acreditava que existiam crianças como a Mônica até ter uma filha”. Esse reconhecimento da universalidade da personagem e sua capacidade de atravessar gerações é uma qualidade que toda marca deveria buscar.

A Marca do Sua Marca

A principal lição trazida no comentário é clara: marcas duradouras devem se conectar profundamente com as emoções humanas, buscando aquilo que é essencial e atemporal. A Mônica exemplifica isso ao ser uma marca que não apenas diverte, mas que também reflete as características mais fundamentais de quem somos. Como resumiu Cecília Russo, “a gente sempre precisa ir atrás de uma emoção humana forte e profunda”.

Ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, logo após às 7h50 da manhã, no Jornal da CBN. A apresentação é de Jaime Troiano e Cecília Russo. A sonorização e edição foram de Débora Gonçalves e Rafael Furugen.

Conte Sua História de São Paulo: escolas de datilografia e bondes de teto de linóleo, eu vi

Rubens Cano de Medeiros

Ouvinte CBN

Foto: Mílton Jung

Por volta de 1960. Tenho treze anos. Mas não lembro se São Paulo já dispunha de supermercados – ao menos o pioneiro Peg-Pag, na Vila Mariana. Perto do Cine Phenix. Não faltavam mercearias, empórios ou quitandas, onde – tal qual em padarias, bares e botecos – uma plaquinha alertava. “FIADO? Quando o Corinthians for campeão”. Durou até 1977, sabemos. Osvaldo Brandão tirou as plaquinhas, das paredes.

Num incerto dia – quase noitinha, lembro – subi a escada de cimento e granilito do sobradão, ainda hoje em pé. Dobrando a esquina toda, Domingos de Morais com Rodrigues Alves, grandão! À frente do então lindo Largo Dona Ana Rosa, que mantinha resquícios, ainda, de footing… Ali, um entroncamento de trilhos e fios. Dos bondes; uns iam até São Judas; outros, até Santo Amaro. Mais um: Vila Clementino.

Então, eis-me no amplo salão de grandes janelas, onde ouvíamos o “tec-tetec”, típico, dos teclados da Escola de Datilografia Rodrigues Alves. Quando, inédita vez, meus olhos e minhas mãos acercaram-se pertinho de uma máquina de escrever – se lembro, hein! Uma Olivetti, meio esverdeada.

Aluno do curso, eu me sentava rente à janela. Donde podia ver – não antes visto – os bondes, de cima, que passavam. Algo me intrigava. Do chão, mal se notava. Era um revestimento escuro que recobria o bonde, exteriormente; todo o “teto” que suportava a alavanca de contato. Que seria “aquilo”? Perguntava-me, a mim. Alguém explicou. Era linóleo. Imensa lona que impermeabilizava o teto de madeira, do bonde, ante a intempérie. Igual aos tetos dos carros de passageiros da Santos-a-Jundiaí. Que podíamos ver na Luz, das passarelas sobre as plataformas. Jornais antigos mostram que ônibus paulistanos, de até os anos 40, também traziam revestimento de linóleo – um charme que carrocerias metálicas dispensaram, obviamente.

Todos sabem. A datilografia, a das máquinas, morreu, não? De atestado emitido – ironicamente – pela própria causa-mortis: e-mail! Digitar, no computador, eu? Não morro de amores. Sempre adorei da-ti-lo…grafar! Tanto que – inviável, descabido e anacrônico, sei bem, mas…

Deparasse eu, num jornal, com um fantasmagórico anúncio… Exatamente assim: “PRECISA-SE DE DATILÓGRAFO”, ah… Precisa-se, é? Algum rascunho de escritorinho, de fundo de corredor? Uma portinha só, uma tosca escrivaninha – puxa vida! – com uma autêntica Remington-Rand? Caramba!

Ei! Eô, eô: me chama, que eu “vô”!

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Rubens Cano de Medeiros é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos, visite o meu blog ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.