Reminiscências

 

Por Julio Tannus

 

Existem coisas que jamais se apagam de nossa memória. Permanecem vivas ao longo de toda nossa existência.

 


No Banco Escolar

 

Ah! Meus professores de ginásio. Na época estudávamos, além do nosso Português, os idiomas Inglês, Francês, Latim e Espanhol. Fumava-se na sala de aula. E o professor de Espanhol fumava metade do cigarro. Ao ser indagado pelos alunos o porquê, ele com os olhos lacrimejantes nos disse: “todo fim de semana minha mulher corta os cigarros ao meio para economizarmos dinheiro, e assim teremos dinheiro para volvermos a Espanha ao final do ano!”. E foi através dele que aprendemos a gostar de Miguel de Cervantes, Calderón de La Barca, Lope de Vega…

 

Um dos professores tinha a mania de, antes de sentar-se, utilizar a lista de presença como espanador para livrar o pó de giz deixado pelo professor anterior na mesa dos professores. Vira e mexe, alguns de nós espalhava rapé em pó na mesa. Resultado: “desculpem o espirro, acho que estou ficando resfriado!”.

 

O professor de Geografia, ao falar sobre os peixes da Amazônia, referiu-se ao Pirarucu. A classe pôs-se a sorrir. Irritado ele nos disse: “se vocês estão com coceira no xx, então enfiem o dedo no xx”.

 

Na volta das férias de final de ano, um colega apareceu de cabelo comprido. A reação foi geral: “mariquinha”, “virou mulherzinha”. O habitual na época era o corte chamado de “americano curto” – herança da Segunda Grande Guerra. No dia seguinte o dito cujo aparece com a cabeça raspada a navalha, as sobrancelhas raspadas e os cílios cortados!

 

Havia um monitor que percorria os corredores junto às salas de aula para zelar pela disciplina dos alunos. Um colega de classe, sentado junto a uma das janelas que dava para o corredor, ficou com um papel dobrado em uma das mãos. O monitor, ao ver o papel, de imediato recolheu o mesmo e entrou na sala de aula. Ao abrir o papel para ver o que estava escrito, se surpreendeu: “curioso hein!”.

 

No dia 11 de junho de 1958 a Seleção Brasileira de Futebol jogava contra a Inglaterra, na Copa do Mundo da Suécia. O jogo transcorreu durante um exame de Física – tínhamos exames de meio de ano. No bar da esquina, um rádio ligado em alto e bom som transmitia a difícil partida, que terminou em empate de 0x0. Da sala de aula ouvíamos atentos a transmissão. Até que, findo o jogo, nos demos conta que o exame de física também chegava ao fim. Resultado: a maioria de nós tirou nota zero!

 


Julio Tannus é consultor em Estudos e Pesquisa Aplicada e co-autor do livro “Teoria e Prática da Pesquisa Aplicada” (Editora Elsevier). Às terças-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung

As Depredações Escolares: lugar público, terra de ninguém

 


Por Julio Tannus

 

As depredações nas escolas públicas em nossa cidade não são de hoje, e também não é nosso privilégio.

 

Escola abandonada

 

No início da década de 80, no Governo Franco Montoro, e a pedido do então Governador de São Paulo, através de sua Secretaria de Educação, foi-se a campo para levantar o máximo de informações sobre essa questão. Falou-se com diretores de escola, educadores, alunos e todo o elenco participante desse espaço vital para a sociedade como um todo.

 

Desde então, vários problemas vem sendo levantados, e entre outros, relacionados à:

 

Vagas

 

A instabilidade e a incerteza quanto às vagas geram mal-estar no seio da população, que termina por imprimir sua revolta contra o prédio escolar. Qualquer tentativa de negociação para resolver a questão passa, necessariamente, pela ampliação do número de vagas oferecidas.

 

Local

 

As favelas e os bairros desfavorecidos fazem com que a escola seja um lugar privilegiado, pelo seu tamanho em relação aos barracos, pelo seu prédio mais bem equipado que as moradias populares e, principalmente, por representar o Estado e ser patrimônio público. Por precárias que sejam as instalações escolares contam com salas de aula e cadeiras para acolher um número importante de pessoas. Apesar da precariedade das instalações elétricas, elas existem e, mesmo não sendo um modelo apropriado, podem ser utilizadas. Enfim, a escola tem sanitários, água encanada e outros pequenos benefícios que os barracos dos moradores nem sempre possuem.

 

Diferenças Sociais

 

Escolas localizadas em áreas onde subsistem sociedades diferentes, umas mais pobres que outras, um mais desfavorecido que o outro – miseráveis e pobres. E aí se formam grupos ou “panelas”, gerando-se conflitos permanentes. E os conflitos entre grupos são fatores que contribuem para o surgimento da depredação escolar.

 

Manutenção

 

Qualquer dano no prédio escolar é estímulo para a promoção reprodutiva de depredações. Desta forma, os banheiros, as descargas, os azulejos, as torneiras, os vidros, e outros objetos danificados devem ser reparados o mais breve possível.

 

É dessa época a ideia de ocupar os prédios escolares nos fins de semana com várias atividades – esportes, cultura, lazer – a fim de se coibir tais depredações, que nesse período são mais agudas.
Várias outras iniciativas têm sido tomadas, entretanto, todas elas incapazes de solucionar o problema.

 

Dois textos cobrem de forma ampla o assunto:

 

Formas contemporâneas de negociação com a depredação
Hélio Iveson Passos Medrado

 

Iniciativas públicas de redução da violência escolar no brasil
Luiz Alberto Oliveira Gonçalves
Marilia Pontes Sposito

 

Julio Tannus é consultor em Estudos e Pesquisa Aplicada e co-autor do livro “Teoria e Prática da Pesquisa Aplicada” (Editora Elsevier). Às terças-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung

Futebol em rede e na rede

 

O mundo vive em rede muito antes do Twitter, Orkut e Facebook surgirem, mas a ideia da conexão e seu reflexo na sociedade atual ganharam ressonância neste século e têm sido referência para todas as relações que mantemos. O que se assistiu na final do Mundial de Clubes é um símbolo dos modelos de administração vigente nas corporações como demonstrou em dois gráficos Paulo Ganns, da Escola de Redes, que conheci pelo Twitter de Augusto de Franco. Os quadros mostram como Barcelona e Santos se comportam em campo e não é preciso muito esforço para entender qual o tipo de relacionamento é mais produtivo em nossas vidas:

Preocupações de pai

 

Por Milton Ferretti Jung

Assino embaixo de tudo o que o Mílton escreveu em sua Avalanche Tricolor depois do empate do último domingo, aquele malsinado Grêmio 2 x 2 Atlético GO. O texto, como já ocorreu várias vezes, me emocionou, mas não por ter driblado com maestria o que se viu em campo (ou seria o que não se viu?), nada agradável para nós, gremistas, mas pelas reminiscências nele contidas. Ainda há tempo de lê-las. Quem não fizer isso, perderá a mágica. Ou não é pura mágica trazer de volta ao nosso mundinho o seu padrinho de casamento Ênio Vargas de Andrade, meu inesquecível amigo e, na minha opinião, o melhor técnico de futebol dos muitos cujas carreiras acompanhei. Como os times de futebol, meu filho teve uma temporada infeliz nos estudos, o que lhe pareceu uma experiência trágica. Quem leu a Avalanche ficou sabendo que Ênio, tal qual deve ter feito muitas vezes com Renato Gaúcho, colocou a mão no ombro do menino, que não tinha coragem de contar para o seu pai que precisaria repetir o ano, aconselhando-o a encarar a bronca. Não lembro, creio, porém, que as “justificáveis reprimendas” não foram das mais azedas.

No tempo em que os meus filhos eram estudantes fui um pai um tanto ausente por culpa da profissão: narrador de futebol e outros esportes. Isso me ocupava, especialmente, quando era escalado para viajar. Recordo-me que fiquei 45 dias, certa vez, cobrindo a seleção brasileira. Por isso, não podia ser muito severo com eventuais notas ruins da menina e dos dois meninos. Acho que Greg e Lorenzo, os filhos do Mílton, não causam ao pai grande preocupação como estudantes. Prova disso, está na história que o responsável por este blog contou no mesmo dia em que produziu a Avalanche Tricolor: a alegria emocionada do Lorenzo ao ver seu esforço na segunda metade do ano pelo Conselho de Classe de sua escola. Esta permitiu ao pai satisfeito produzir esta frase no encerramento do seu texto (frase que gostaria fosse lida pelos jogadores do Grêmio): “O mérito da vitória não existe para aqueles que não lutaram por ela. Ele lutou e nós vibramos muito com isso. Não posso dizer o mesmo do meu time”. Nem eu, Mílton. Pior, porém, e preciso fazer isso à guiza de desabafo, é aturar os narradores de futebol televisivos. Todos entendem que têm de imitar os narradores das rádios. Se não fizerem isso, pensam, não passarão emoção aos telespectadores.Triste engano. Parecem acreditar piamente que somos todos deficientes visuais. Dizem tudo o que vemos. E ainda nos enchem com estatísticas que nada acrescentam. O pior é que os assinantes de PPV, com eu, necessitam pagar caro para ouvir obviedades.


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Conte Sua História de SP: Zuzu e Darwin

 

No Conte Sua História de São Paulo, Zuleide Oliveira Monteiro de Castro, nascida em 1948, na capital. Aos 12 anos conheceu o amor da sua vida. Eles quase dançaram juntos na festa junina da segunda série, mas alguém se intrometeu no romance, como ela contou ao Museu da Pessoa, em outubro de 2008:

Ouça o texto que foi ao ar no Conte Sua História de São Paulo, sonorizado pelo Cláudio Antonio

Fui da primeira turma da Escola Estadual Wolny de Carvalho Ramos, em 1958, quando da expansão do ensino no estado de São Paulo. O velho Wolny chamava-se Ginásio Estadual de Água Rasa e funcionava à noite no prédio do Grupo Escolar Professor Theodoro de Morais. Naquele tempo a escola era bem diferente. Embora mista, os meninos e as meninas não se comunicavam, ficavam segregados, meninas de um lado e meninos do outro de uma linha imaginária, mas muito respeitada, que dividia o pátio. Na sala de aula? Conversas? Nem pensar.

Com 12 anos eu já estava na segunda série do ginásio e estudava à noite! Havia um loirinho, lindo, de olhos azuis, na minha turma, que por sorte era mista. Eu o achava o máximo! Apesar de só olhar de longe e quase não ouvir a sua voz, pois era tímido e ficava absolutamente calado durante todas as aulas. A distribuição da sala de aula era assim: por ordem alfabética, quase duas fileiras de meninas. Eu lá, na última carteira de meninas, ao lado da Zilda. Atrás de nós sentava o Constantino e isso nos proporcionava a oportunidade de trocar umas palavrinhas e uns bilhetinhos com ele e seu parceiro. As carteiras, antigas, eram duplas.

Constantino, esperto como ele só, logo percebeu o meu interesse pelo Darwin, o loirinho de olhos azuis, e resolveu dar uma de cupido. Tentou marcar um encontro entre nós no Cine Vitória, lá na Álvaro Ramos, mas o cinema era um pouco longe da minha casa, o dinheiro era curto, e papai muito severo. Então, não deu certo.

Começou então a brincadeira. No início das aulas ele passava um bilhetinho: “O Darwin é casado”. No segundo, escrevia: “O Darwin é casado e tem um filho”. No terceiro: “O Darwin é casado e tem dois filhos”. E assim, sucessivamente. Ao final da quinta aula, o meu loirinho já tinha mais de 50 filhos, segundo as notícias do colega casamenteiro. Ríamos como só riem os adolescentes.

Mas, de repente… chega a grande oportunidade. A Professora Cida, de Português, prontificou-se em ensaiar a quadrilha para a Festa Junina. O Constantino seria o sanfoneiro, o que lhe deu um certo prestígio com a nossa mestra.

–- Professora, será que a Zuzu (esse era o meu apelido, como mascotinha da turma) poderia dançar com o Darwin?

Dona Cida, uma mocinha muito “pra frente”, topou na hora. Os ensaios eram aos sábados, no galpão, atrás da escola. Constantino no fole:

((Taratantan-tan-tan-tan. Taratantan-tan-tan-tan… Taratantan-tan-tan-tan, ra-ta-tan-tan-tan… ))
 
O baile na roça foi até o sol raiar… O loirinho, do alto de seu metro e sessenta, dançou o tempo todo calado, olhando por cima da minha cabecinha oca de menina. Não trocamos uma palavra sequer. Mas foi ótimo, não via a hora de chegar o próximo sábado para dançar com aquele garoto tão lindo!

No dia da festa eu estava uma maravilha, vestido estampado de florzinhas vermelhas, chapéu de palha com laço de fita, batom vermelho nos lábios e até uma pintinha feita com carvão na bochecha, para ficar bem catita. Ensaiei o dia inteiro o que iria falar para não perder a última chance de conversar com meu amado. Meus olhos brilhavam mais que a lua de inverno. Não é que a Lúcia, uma coleguinha bem mais velha e, portanto, bem mais alta, chegou na festa toda arrumadinha e sua mamãe foi pedir à professora Cida que ela participasse da quadrilha:

–- Sabe, professora, minha filha não veio aos ensaios porque ela me ajuda no salão. E a senhora sabe como é o movimento no fim de semana…

O pedido viera a calhar. Estava faltando uma dama para o terceiro par da fila, um garoto baixinho, que eu já nem lembro quem era, mas sei que era quase do meu tamanho. Foi quando aconteceu o pior: lá fui eu dançar com o nanico e a Lúcia saiu pelo terreiro nos braços do meu loirinho. Perdi a última oportunidade. Era junho, mas aquele namoro às antigas não conseguiu evoluir até o final do ano. O Darwin repetiu e eu fui para a terceira série.

Estamos em agosto de 2008, e enquanto digito este texto, o Darwin está dando mamadeira para uma das minhas netinhas gêmeas, de três meses. Ele é meu marido desde 1994. Como isso aconteceu? Isto é uma outra história de São Paulo. Ah, um detalhe: ele já não é tão alto assim ..

Conheça a segunda parte desta história aqui

O depoimento de Zuleide Oliveira Monteiro de Castro está no Museu da Pessoa. Você também pode contar mais um capítulo da sua cidade. Marque uma entrevista ou envie um texto para o site do Museu da Pessoa. Se quiser mande o texto para mim: milton@cbn.com.br, vou ficar bem feliz de conhecer a sua história.

Avalanche Tricolor: Mérito para quem luta

 

Grêmio 2 x 2 Atlético GO
Brasileiro – Olímpico Monumental

Foi um fim de semana especial. E antecipo que não me refiro ao futebol, sobre este falem os entendidos. Prefiro escrever de metas, sonhos e conquistas alcançados na sala de aula, onde não chegava a ser um aluno exemplar, mas deixei boa impressão, sem falsa modéstia, tendo tido participação na política e no esporte do colégio em que estudei boa parte de minha juventude, em Porto Alegre. Além de ter sido presidente do grêmio estudantil e jogado em algumas das equipes principais de basquete do Colégio Rosário, também construí excelentes amizades com professores que conseguiam entender minha personalidade. Minhas notas não eram suficientes para me colocar no topo da lista dos melhores alunos, no entanto me garantiam no ano seguinte – exceção à sétima série, do primeiro grau – rebatizado ensino fundamental -, quando tomei bomba e fui obrigado a repetir. Mesmo esta experiência trágica me proporcionou momentos importantes e situações que guardo na memória até hoje.

Quando o boletim recheado de notas vermelhas (nunca me dei bem com esta cor) chegou em casa o pai estava viajando para transmitir uma partida de futebol pela rádio, o que me deu tempo para em uma tentativa desesperada negociar com a mãe uma forma de impedir que ele soubesse do resultado. Evidentemente que ela não aceitou, nem haveria como evitar a situação, e me convenceu de que o melhor mesmo seria eu contar a ele o que havia acontecido. Sem coragem de encará-lo prorroguei ao máximo o momento da verdade e tenho dúvidas se teria conseguido não fosse a intervenção de meu padrinho e técnico Ênio Andrade, que na época treinava o Grêmio. Em uma jogada combinada com o pai que, lógico, estava inteirado do meu infortúnio, Seu Ênio me convidou a passear pelo pátio do Estádio Olímpico e com a mão sobre meus ombros fez algumas perguntas do cotidiano até chegar ao ponto crucial: o desempenho escolar. Em seguida, quis saber por que não tinha coragem de contar ao pai, afinal ele era meu companheiro e seria mais fácil enfrentar aquele momento de angústia. Ele e minha mãe tinham razão, assim que falei, o sofrimento foi amenizado apesar de ter ouvido justificáveis reprimendas.

Lembrei desta história, no fim de semana, depois que voltei da escola de meus filhos com o boletim deles em mãos. Ao mostrar a avaliação para o mais novo, recebi um comovido abraço seguido de lágrimas para as quais fiquei sem palavras. Me coube retribuir com um lento cafuné deixando o tempo passar e a emoção, também. Meu pequeno não chorava notas ruins nem a necessidade de realizar provas de recuperação, muito antes pelo contrário. Este havia sido um ano no qual teve pequenos tropeços, nada de anormal, e, talvez, não conseguisse passar por média pela primeira vez. Neste último trimestre, ele se dedicou muito, esteve mais atento e foi preciso nas lições de casa, além de ter mantido o bom hábito de participar das discussões na sala de aula. Em praticamente todas as matérias melhorou seu desempenho e teve seu esforço reconhecido pelos professores no Conselho de Classe. Chorou de alegria pela conquista alcançada em uma satisfação que me encheu de orgulho. Ele sai deste ano com mais uma lição aprendida e a certeza de que mereceu o prêmio recebido.

O mérito da vitória não existe para aqueles que não lutaram por ela. Ele lutou e nós vibramos muito com isso. Não posso dizer o mesmo do meu time.

Foto-ouvinte: Analfabetismo cidadão

 

Analfabetismo cidadão

“Apesar da simpatia do grafite, o descarte irregular de lixo ocorre naturalmente na calçada da Escola Estadual Professor Astrogildo Arruda, na Avenida Afonso Lopes Baião – Vila Jacuí, bairro de São Miguel Paulista, na zona leste de São Paulo”, escreveu Marcos Paulo Dias, colaborador do Blog do Mílton Jung. É o que dá não ir à escola, vira analfabeto cidadão.

Procura-se uma explicação

 

Desde às 8h45 de ontem quando entramos no ar com a notícia desta tragédia – e ainda não tínhamos a dimensão exata do acontecido – até agora cedo, estamos ouvindo especialistas, acadêmicos, cidadãos; gente da pedagogia, da psiquiatria, da segurança pública; doutores e professores; estamos numa busca sem-fim a resposta que explique o ataque na escola em Realengo.

Já se pensa em mais um funcionário na porta, alguém pedindo identificação – como se a demência estivesse no RG -, muro mais alto, porta de ferro, tranca e cadeado; alguns mais ansiosos e outros aproveitadores logo se anteciparão a enviar propostas pedindo detector de metal na entrada da sala de aula; vigia nos corredores; e mais uma parafernália mágica para reduzir a dor da nossa consciência.

São medidas que tomamos para não admitirmos o quanto somos pequenos diante deste fato; e quanto somos frágeis à bestialidade humana. Não sabemos nos prevenir; nem mesmo identificar com exatidão; e, às vezes, ainda bem que isto ocorre apenas às vezes, nos deparamos com situações como essa.

Na escola, com raridade. Mas essa se revela, também, dentro da família, contra os pais, os irmãos. Na rua, no trabalho. Em algum momento, o ser humano se revela. E a violência explode. Nos choca, choramos e queremos buscar uma resposta, uma explicação, uma justificativa por que não aceitamos esta condição.

Infelizmente, somos nada aqui. Temos de nos indignarmos, sem dúvida, mas admitir que o ser humano também é isso que assistimos nessa quinta-feira, no Rio de Janeiro. E agradecer porque dentre estes existe ainda muita gente boa, disposta a melhorar a vida, fazer pelos outros, se solidarizar e agir.

Seminário sobre creche tinha de tudo, menos mães

 

Pintura de criança

Por Devanir Amâncio
ONG Educa São Paulo

O seminário sobre o  crônico problema da falta de creches e Emeis na cidade de São Paulo, no sábado, 26 de março,  no Jardim Míriam, região de Cidade Ademar,  Zona Sul, estava repleto de assessores de políticos, funcionários e professores da Escola Estadual Yolanda Bernardini, onde aconteceu o evento.

Nada de importante foi anunciado pelas autoridades. Poucas cobranças e muitos aplausos para o ministro da Educação, Fernando Haddad, e o secretário municipal de Educação, Alexandre Schneider. Ambos afirmaram que dinheiro não falta para a educação.  

Dona Maria de Fátima saiu frustrada, mora na favela Elba, perto dali, tem duas crianças à espera de vagas -,  estava com um carrinho de mão na porta da escola,por volta das duas horas,  atrás de  cesta básica e informações sobre os benefícios sociais do Governo. Dona Fátima, não  entrou para os discursos, não permitiu  que fosse fotografada, mas deu uma dica importante :
 
“Tem uma creche fechada na Av. Dona Belmira Marin, no Grajaú, desde dezembro do ano passado, os filhos de uma amiga minha eram matriculados na escolinha, é uma creche muito grande, tem dois prédios bonitos… de um, já roubaram duas janelas …. fica em frente à escola do Estado Adelaide Rosa, uma escola pixada de cima em baixo. A creche com certeza tem alguma coisa a ver com a Prefeitura, porque era um entra sai de gente da Educação… É de lá que precisa tirar foto para saber o porque a creche está fechada …se todo mundo tá procurando e falando de creche. E pode anotar aí o meu endereço.” 

O advogado Manoel Del Rio , presidente da ONG Apoio – Associação de Auxílio Mútuo , justificou a sua ausência no seminário:

“Estou reunido com alguns voluntários, estudando a dívida da Prefeitura de São Paulo com o Governo Federal, dados que pegamos no Conselho Regional de Economia (CORECON – SP) . Estamos assustados ! O orçamento da Prefeitura para 2011 é de 36 bilhões de reais, a dívida é de 52 bilhões. A Prefeitura vai pagar só de juros neste ano 3 bilhões e mais 4 bilhões de parcelas da dívida. Queremos traduzir isso de forma simples para as comunidades. Pretendemos organizar um seminário nos próximos dias e trazer o Governo Federal para discutir o assunto. Não há outro caminho : é preciso renegociar a dívida de São Paulo. Os juros causam grandes estragos sociais à nossa Cidade… Se investisse um bilhão por ano dos juros da dívida na educação infantil, daria para suprir significativamente a carência de creches e Emeis, e com um pouco mais , fazer melhorias na escola pública, na rede de sáude e construir nova casas populares.”