Avalanche Tricolor: a esperança do torcedor que ignora a realidade

Mirassol 2×1 Grêmio
Brasileiro – Campos Maia, Mirassol (SP)

Brasileirão - Mirassol x Grêmio - 17/07/2026
Carlos Vinícius marca o único gol do Grêmio. Foto: Rapha Marques / Grêmio FBPA

Os quatro melhores jogadores do Grêmio no primeiro semestre deste ano foram Viery, Arthur, Gabriel Mec e Carlos Vinícius.

Viery já está na Itália, onde defenderá a Fiorentina na temporada europeia que começa agora. Em troca, o Grêmio arrecadará R$ 108 milhões — a terceira maior venda de um zagueiro brasileiro da história. Na noite desta sexta-feira, em Mirassol, Luis Castro precisou recorrer a Kannemann que, infelizmente, já não consegue entregar o futebol que o transformou em um dos grandes ídolos da torcida gremista.

Arthur havia retornado para realizar o sonho de vestir novamente a camisa tricolor. O contrato de empréstimo com a Juventus terminou em junho. O volante aceitava abrir mão de valores que tinha a receber do clube italiano para permanecer no Brasil, mas pedia um contrato de cerca de R$ 100 milhões por três temporadas. O Grêmio preferiu não seguir adiante. Desde então, o time não encontrou quem cumpra a função de conduzir a bola e organizar, ainda que minimamente, o meio de campo. Hoje, vimos o retorno de Villasanti ao time titular, depois de quase 11 meses afastado por lesão.

Gabriel Mec estreou na equipe principal no ano passado e conquistou espaço entre os titulares nesta temporada. Disputou 30 partidas, marcou três gols e deu duas assistências. O Shakhtar Donetsk, da Ucrânia, quer contratá-lo por R$ 70 milhões. O jogador ainda não aceitou a proposta porque o país segue em guerra com a Rússia. Em conversa com jornalistas nesta semana, a direção gremista admitiu que o meia deseja sair. Pela atuação desta noite, ficou a impressão de que ele já começou a partir.

Carlos Vinícius é quem faz os gols do Grêmio. Contra o Mirassol, marcou o décimo dele neste Campeonato Brasileiro. Ainda assim, não atingiu as metas que garantiriam a renovação automática de seu contrato: ser convocado para a Copa do Mundo e participar de 70% dos jogos da equipe. A direção afirma que só pretende renovar se o atacante aceitar o teto salarial estabelecido pelo clube. Sim, pode piorar!

Olhando para esse cenário, fica difícil entender de onde surgiu a minha confiança de que o Grêmio voltaria da pausa da Copa do Mundo jogando um futebol minimamente competitivo. A resposta talvez seja simples: a esperança do torcedor costuma ignorar aquilo que a realidade escancara. Enquanto o elenco perdia seus principais jogadores — ou já convivia com a perspectiva de perdê-los —, eu insistia em acreditar que o time sairia mais forte. Não era análise. Era apenas a velha e conhecida alucinação que acompanha quem torce.

Avalanche na Copa: Sempre acreditei. Como todo torcedor.

Brasil 2×1 Japão
Copa do Mundo – Houston, EUA

Allez Brasil!
Foto: Breno Beck no Flickr

Era cedinho e a turma da padaria já palpitava no microfone da CBN. Na voz do povo, os gols da vitória sairiam dos pés de Vini Jr., Neymar e Endrick. O primeiro é compreensível: virou o craque desta seleção. Já os outros dois dependeriam das substituições de Ancelotti — se é que entrariam em campo. Mas ninguém estava preocupado com esses detalhes. A voz do povo não perde tempo com pormenores. Se o repórter perguntasse por Casemiro, seria vaiado. Se sugerisse Martinelli, ouviria um sonoro: “Quem?”

Torcer é retorcer a lógica do futebol. É acreditar que o salvador da pátria está sempre no banco de reservas. É procurar um culpado antes mesmo do apito final. É ter certeza de que o técnico errou — sobretudo quando ele acerta.

Na arquibancada ou diante da televisão, excomungamos o atacante que perdeu um gol, aposentamos o zagueiro que falhou e condenamos o goleiro que levou um chute indefensável. Ora, se está no gol, que defenda.

Também nos sentimos no direito de julgar todas as decisões do treinador. Se repete a escalação, faltou coragem. Se muda o time, faltou convicção. Se mexe bem durante a partida, a conclusão é inevitável: escalou mal.

O primeiro tempo da seleção parecia confirmar cada uma dessas teorias. O Brasil sofria com a marcação japonesa, circulava pouco a bola e dava espaços na defesa.

Fora Ancelotti! Tira esse Casemiro. O homem se arrasta em campo, erra passes, chega atrasado, leva cartão amarelo e nem faz a falta para impedir o chute que termina em gol. E essa saída de bola do Danilo? Não é ele o homem de confiança do técnico? Vai confiando…

Chega o intervalo e descobrimos que Endrick só entrará porque Paquetá está machucado. Casemiro continuará em campo, mesmo amarelado. E o Neymar? Vai passar a Copa inteira como peça de decoração no banco? Para que levou esse cara?

Eu já começava a aceitar que tinha sido condenado a torcer por times ruins em 2026.

Mentira.

Bastava a bola chegar aos pés de Vinicius Júnior para a esperança reaparecer. Eu voltava a acreditar no futebol arte, no Brasil das grandes Copas, no Hexa. Torcer nos concede esse privilégio: acreditar e desacreditar em questão de segundos; idolatrar e condenar o mesmo jogador no intervalo de uma jogada; cometer injustiças e revogá-las antes mesmo do replay.

Quando muitos de nós já imaginávamos como seria triste assistir ao restante da Copa sem o Brasil — enquanto o sempre simpático Everaldo Marques resgatava estatísticas da última eliminação brasileira antes das oitavas de final — o roteiro resolveu nos desmoralizar.

Gabriel Magalhães levantou a bola na área. Casemiro, justamente Casemiro, apareceu para cabecear e empatar o jogo.

O vilão virou herói.

Calem-se! Deixem o homem trabalhar. Ancelotti sabe exatamente o que faz.

Só havia uma dúvida.

Por que Martinelli? Por que não Neymar? Será que o treinador não ouviu os gritos da torcida? A gente tem de virar esse jogo, mister!

Pois foi Martinelli quem recebeu o passe de Bruno Guimarães dentro da área e marcou o gol da classificação.

Nunca critiquei.

Ou melhor: critiquei, sim. E voltaria a criticar amanhã, se fosse preciso. Porque torcedor não muda de opinião. Apenas troca de certeza.

Hoje, por exemplo, tenho absoluta convicção de que o Brasil vai rumo ao Hexa.

Avalanche Tricolor na Copa: vitória em ritmo de São João foi comandada por Vinícius Jr

Escócia 0x3 Brasil
Copa do Mundo – Miami, EUA

Allez Brasil!
Foto de Breno Peck no Flickr

No Brasil, a disputa pelo título de maior São João do mundo mobiliza duas cidades: Campina Grande, na Paraíba, e Caruaru, em Pernambuco. As duas estendem a festa para além do calendário, multiplicam atrações e competem pelo carinho dos brasileiros. Nesta noite de 24 de junho, porém, imagino que paraibanos e pernambucanos concordariam em pelo menos uma eleição. O melhor jogador do Brasil hoje atende pelo nome de Vinícius Júnior.

Enquanto quadrilhas ocupavam arraiais e fogueiras iluminavam o país, Vinícius iluminava Miami. Desde a estreia, havia sido o principal protagonista da seleção brasileira. Participou das melhores jogadas, marcou um gol em cada uma das duas primerias partidas da fase de grupos e, diante da Escócia, foi além: balançou as redes duas vezes. Só não saiu com um hat-trick porque o árbitro anulou equivocadamente um terceiro gol. Quase todo lance de perigo passou por seus pés.

Era exatamente isso que se esperava do atacante do Real Madrid antes da Copa do Mundo. Assim como Messi liderou a Argentina, Mbappé conduz a França e Cristiano Ronaldo continua sendo a principal referência de Portugal, Vinícius assumiu o papel de protagonista da seleção brasileira. Dos grandes jogadores se espera liderança. E foi isso que ele entregou. Com sua atuação — e não apenas por causa dela — o Brasil encerra a fase de grupos na primeira colocação e transmite ao torcedor uma confiança que ainda parecia distante há poucas semanas.

Matheus Cunha também deixou sua marca. Fez o terceiro gol brasileiro e chegou ao terceiro na competição. Depois de começar a Copa fora da equipe titular, conquistou espaço e se firmou como centroavante em um setor onde a concorrência é intensa.

A vantagem construída com relativa tranquilidade permitiu que Carlo Ancelotti promovesse mudanças no segundo tempo e atendesse a dois desejos da torcida: rever Neymar em campo e acompanhar mais alguns minutos de Endrick.

O camisa 10 do Santos, recuperado de mais um período afastado por lesão, atuou cerca de quinze minutos. Movimentou-se bem, distribuiu passes, cobrou escanteios e finalizou uma vez. Para quem até poucos dias era dúvida para a Copa, sua participação oferece mais uma alternativa ao treinador. Resta saber se Ancelotti pretende utilizá-lo por períodos maiores quando os desafios forem mais exigentes.

Antes mesmo de conhecer o adversário da próxima fase, o técnico italiano terá trabalho. A defesa brasileira voltou a apresentar momentos de desorganização que passaram sem maiores consequências diante da Escócia. Em confrontos eliminatórios, erros desse tipo costumam cobrar um preço mais alto.

Daqui para frente, a Copa não admite tropeços. Cada partida será definitiva. Ainda assim, o torcedor brasileiro tem motivos para aproveitar o São João com mais tranquilidade. Seja em Campina Grande, em Caruaru ou na quermesse da escola do bairro, a fogueira pode continuar acesa. Pelo menos por enquanto, o futebol da seleção também.

Avalanche Tricolor na Copa: o gol que faltou

Brasil 3×0 Haiti
Copa do Mundo – Filadélfia, EUA

Allez Brasil!
Foto de Breno Peck no Flickr

Faltou um gol.

Não para o Brasil vencer. Não para o Brasil se classificar. Faltou um gol para melhorar meu desempenho no bolão da firma.

Apostei em quatro a zero sobre o Haiti. Parecia um palpite razoável diante da fragilidade do adversário. A Seleção fez quase tudo o que eu esperava. Ficou devendo apenas o quarto gol.

Alguns manuais de jornalismo consideram goleada qualquer vitória por três gols de diferença. No meu manual privado de torcedor, goleada começa no quarto gol. Por isso, assisti aos minutos finais da partida com uma esperança diferente da maioria dos brasileiros. Não buscava a confirmação da vitória. Procurava aquele golzinho extra que me renderia pontos preciosos na classificação do bolão.

O curioso é que o gol que me faltou pode acabar fazendo falta também ao Brasil.

A disputa pela liderança do grupo deverá ser travada com Marrocos na última rodada. Enquanto enfrentaremos a Escócia, os marroquinos terão pela frente justamente o Haiti. Dadas as circunstâncias, os africanos parecem ter uma oportunidade mais favorável para ampliar o saldo de gols e garantir a primeira colocação da chave.

Mesmo sem o quarto gol, a vitória merece ser celebrada.

O Brasil apresentou um primeiro tempo de boa qualidade e confirmou uma impressão deixada na estreia: Vinicius Junior é, até aqui, o principal jogador da equipe. Marcou seu segundo gol na competição, participou diretamente dos outros dois e mostrou ser o atleta mais capaz de mudar o rumo de uma partida por iniciativa própria. Em uma Copa do Mundo, isso costuma fazer diferença.

Matheus Cunha também cumpriu o que se espera de um centroavante. Fez dois gols. No primeiro, aproveitou o rebote diante do goleiro. No segundo, movimentou-se bem para receber o passe e concluir com precisão. Nada de extraordinário. Apenas aquilo que todo torcedor deseja de quem veste a camisa 9.

A equipe de Carlo Ancelotti mostrou mais mobilidade do meio para a frente e pareceu mais leve do que na estreia. Houve ainda espaço para atender a um desejo da torcida. Endrick entrou no segundo tempo e chegou a balançar as redes. O impedimento impediu que o lance entrasse para a estatística, mas não diminuiu a expectativa em torno do jovem atacante.

Na verdade, não foi apenas o Brasil que me deixou esperando um gol a mais. Marrocos venceu a Escócia por apenas um a zero. Paraguai e Estados Unidos também triunfaram sem colaborar com meus prognósticos. Bastava um golzinho adicional aqui, outro ali, e eu teria gabaritado a rodada.

Apesar disso, não tenho do que reclamar. Pela primeira vez acertei todos os vencedores. Não é exatamente um feito destinado aos livros de história dos bolões, mas já representa algum avanço para quem começou a Copa colecionando tropeços.

Assim como a Seleção Brasileira.

E, quem sabe, tanto eu quanto o Brasil estejamos guardando nossos melhores resultados para os jogos decisivos.

Avalanche na Copa: nem o Brasil salvou meu bolão

Brasil 1 x 1 Marrocos
Copa do Mundo — New Jersey/New York, EUA

Allez Brasil!
Foto: Breno Peck/Flickr

A parada da Copa me deixou com saudades desta Avalanche, espaço em que divido com o caro — e cada vez mais raro — leitor alegrias e angústias provocadas pelo meu time. Sem o Grêmio em campo desde o fim de maio, não via a hora de o Mundial de Seleções começar. Copa do Mundo é sempre um grande evento. Até mesmo esta, em que a FIFA ampliou o número de participantes, prejudicando a competitividade, e Donald Trump se esforça para estragar a festa.

Confesso que comecei mal nos palpites. Minha participação no bolão que criamos lá na rádio é pífia — consegue ser mais sofrível do que o desempenho do Grêmio na primeira parte da temporada. Próximo do encerramento do terceiro dia de jogos, alcancei míseros 20 pontos de 150 possíveis.

Antes de me zoar pelo aproveitamento irrisório, saiba que a culpa não é minha. Minhas apostas eram muito boas, calçadas na lógica e sustentadas pelo histórico de cada seleção. Que responsabilidade tenho eu se os protagonistas não entregam o que deles se espera?

Veja o caso do Catar. Chegou à Copa predestinado a ser goleado no Grupo B. Não apenas resistiu à pressão da Suíça, que chutou 27 vezes, dez delas no gol, como ainda surpreendeu os astros europeus ao empatar a partida nos minutos finais. E a Coreia? Em vez de se contentar com uma derrota simples — que me garantiria 25 pontos —, virou o jogo sobre a Tchéquia. Sem contar o Paraguai, seleção que sempre foi aguerrida, vendia caro suas derrotas, tinha uma defesa firme e uma marcação no limite da violência permitida. Levou quatro gols dos Estados Unidos.

Eu havia apostado em uma vitória brasileira. Palpite enviesado, é lógico. É difícil registrar um placar desfavorável para o Brasil. O coração fala mais alto. Fui de 2 a 1, considerando que Marrocos era o adversário mais forte da chave e vinha se destacando positivamente — atual campeão mundial sub-20 e quarto colocado na Copa de 2022.

Levar um gol de contra-ataque, com os dois zagueiros sendo surpreendidos pela velocidade do atacante adversário aos 21 minutos do primeiro tempo, não me espantou. Estava na conta. E, convenhamos, os marroquinos dominavam a partida até aquele momento. Mal conseguíamos organizar um ataque, errávamos passes na saída de bola e o risco era iminente. Apesar disso, bastaria uma virada, como a Coreia havia conseguido diante da Tchéquia. Por que o Brasil não seria capaz?

O empate não demorou a chegar, especialmente pelo talento de Vini Jr., que desde o início era o principal jogador brasileiro. Era Vini e mais dez. Ou seria Vini e menos dez? Aos 32 minutos, em um dos raros momentos em que a seleção conseguiu trocar passes com qualidade, ele recebeu a bola, driblou um marcador, deixou outro para trás e estufou a rede. Era o empate abrindo caminho para a virada e para a confirmação do meu bolão.

Ledo engano. Mesmo com Marrocos reduzindo o ritmo, seguia sendo a seleção mais organizada em campo. O Brasil até aumentou a intensidade, mas a dificuldade para articular jogadas, trocar passes com precisão e demonstrar força ofensiva impediu a virada.

Para piorar, à medida que assistia ao Brasil de Ancelotti e àquele latifúndio sem dono no meio de campo, relâmpagos iluminavam minha mente e me faziam imaginar a utilidade que teria um jogador com a qualidade de Arthur, do Grêmio. Como pode o Brasil, essa máquina de exportar jogadores, não ter alguém capaz de segurar a bola, cadenciar o ritmo conforme a partida exige e distribuir o jogo de maneira organizada e produtiva?

Cheguei a delirar em alguns momentos. Imaginei Pavón ocupando a ala direita, diante da ineficiência dos laterais utilizados por Ancelotti. E até Carlos Vinícius dentro da área para aproveitar alguma bola alçada sobre os zagueiros adversários.

Sim, eu sei. Essas alucinações talvez expliquem por que meus palpites no bolão têm sido um desastre. Mas, se a seleção tivesse jogado um pouquinho melhor, provavelmente essas ideias malucas nem teriam passado pela minha cabeça.

Que Ancelotti tenha mais sorte do que eu — ou mais critério — nas próximas escalações.

Sua Marca Vai Ser Um Sucesso: a Copa do Mundo virou uma disputa entre marcas globais

Copa do Mundo – Dia 6 · 02/12/2022 · Catar
Foto: Mídia NINJA no Flickr

A Copa do Mundo movimenta bilhões de dólares antes mesmo do apito inicial. E esta foi a razão da resenha que tive com Jaime Troiano e Cecília Russo às vésperas da estreia que será em 11 de julho, no Sua Marca Vai Ser Um Sucesso. Nosso bate bola analisou como empresas, seleções, jogadores e até países disputam atenção, prestígio e relevância durante o torneio.

Jaime e Cecilia chamaram atenção para o fato de que a competição esportiva deixou há muito tempo de ser apenas futebol. A Copa se transformou em uma vitrine global para marcas que tentam fortalecer reputação, ampliar mercado e criar vínculos emocionais com consumidores. 

Segundo Jaime Troiano, os números ajudam a dimensionar essa disputa. “O investimento corporativo global para a Copa do Mundo é de aproximadamente U$ 3 bilhões. Isso apenas em patrocínios diretos com a FIFA.”

Ele destacou que o valor total movimentado por publicidade, direitos de transmissão e promoções ultrapassa os U$ 11 bilhões. Entre patrocinadores oficiais aparecem marcas como Adidas, Coca-Cola, Visa, Lenovo e Hyundai. Já na seleção brasileira, empresas de setores variados tentam aproveitar a conexão emocional do futebol com o público, como bancos, aplicativos, companhias aéreas, montadoras e empresas de tecnologia.

Para Jaime, a Copa funciona como “uma grande passarela das marcas”. A expressão ajuda a entender como o evento se tornou um espaço de exposição permanente. Não entram em campo apenas seleções. Entram também empresas, jogadores, treinadores e países tentando fortalecer suas próprias imagens.

Esse movimento ajuda a explicar por que técnicos, atletas e até sedes do torneio passaram a ser tratados como ativos de marca. “Hoje em dia, até técnico é uma marca”, observou Cecília Russo, citando o caso de Carlo Ancelotti e sua presença em campanhas publicitárias.

O comentário também abordou um ponto importante do marketing esportivo: nem toda marca consegue estabelecer uma conexão legítima com o evento. Algumas empresas já fazem parte naturalmente desse território, como fabricantes de material esportivo. Outras precisam construir essa relação de maneira coerente para não parecerem oportunistas.

Cecília usou o iFood como exemplo dessa tentativa de associação. A lógica é simples: jogos de futebol aumentam pedidos de comida e bebida por delivery. Ainda assim, ela ponderou que o sucesso da estratégia dependerá da forma como a marca atuará durante o torneio. “Nós vamos depender dessa atuação para ver o quanto ela cria essa sinergia e o quanto ela é vista como legítima.”

Outro aspecto levantado pelos comentaristas foi a disputa simbólica entre os países-sede. Pela primeira vez, a Copa será realizada em três países: Estados Unidos, Canadá e México. Mais do que resolver questões logísticas, cada um deles tentará aproveitar a visibilidade global para fortalecer sua imagem internacional.

Cecília acredita que Canadá e México podem ser os países que mais ganhem em percepção de marca. “Uma coisa importante na imagem de uma marca é quando ela revela aspectos positivos que os consumidores ainda não tinham a chance de conhecer”, afirmou.

Antes do apito final, Jaime Troiano resumiu a principal provocação da conversa. “Quem gosta de estudar marcas tem que aproveitar a Copa como um grande laboratório.”

A observação faz sentido. Poucos eventos no mundo reúnem, ao mesmo tempo, atenção global, emoção coletiva, disputa comercial e construção de reputação como a Copa do Mundo.

A marca do Sua Marca

A Copa do Mundo mostra que visibilidade sozinha não basta. Marcas que conseguem criar conexões coerentes com o público tendem a sair fortalecidas. As que apenas tentam aparecer correm o risco de serem esquecidas quando termina o campeonato.

Ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, logo após às 7h50 da manhã, no Jornal da CBN. A apresentação é de Jaime Troiano e Cecília Russo.

Avalanche Tricolor: sucesso, Luís Castro!

Grêmio 1×3 Corinthians
Brasileiro — Arena do Grêmio, Porto Alegre (RS)

Brasileirão - Grêmio x Santos - 23/05/2026
Luís Castro em foto de Lucas Uebel/Grêmio FPBA

Fui privilegiado ao conviver com técnicos renomados. Essa experiência foi possível porque meu pai sempre foi muito respeitado pelos treinadores, especialmente pelos que trabalharam no Grêmio. Ao lado dele, assistia aos treinos no campo suplementar ou no gramado do Olímpico. Naquela época isso ainda era possível e oferecia aos cronistas esportivos argumentos mais consistentes para suas análises. Hoje, com quase tudo escondido atrás de portões fechados, é difícil saber se a escolha por determinado jogador se dá por teimosia, convicção ou merecimento.

Ao fim dos treinamentos e depois das entrevistas concedidas ali mesmo, à beira do campo, gente da estatura de Ênio Andrade, Telê Santana, Valdir Espinosa e Cláudio Duarte permanecia na resenha com meu pai. Com Seu Ênio, a conversa frequentemente avançava para a cozinha de um dos bares instalados no Largo dos Campeões. Era lá que eles se sentavam para tomar whisky e falar da vida — geralmente da vida do Grêmio. A mim cabia um copo de refrigerante e o privilégio de observar aquela cena rara e privada.

Ouvir as inconfidências dos treinadores me ensinou cedo que muitas das histórias que movem um clube jamais chegam ao conhecimento do torcedor. Por isso, nossa visão costuma ser parcial. Talvez, se houvesse mais transparência, não idolatrássemos alguns jogadores que em público se comportam de uma forma, mas nos bastidores agem de outra. Entenderíamos por que aquele craque em quem depositamos tantas esperanças fica no banco. Ou por que o técnico prefere um jogador limitado tecnicamente para reforçar a marcação no meio-campo em vez do talentoso garoto da base.

Shakespeare escreveu, em Hamlet, que “há mais coisas entre o céu e a terra do que pode imaginar nossa vã filosofia”. Arrisco uma adaptação para o futebol: há mais coisas entre o vestiário e o gramado do que pode imaginar nossa vã idolatria. A torcida enxerga os noventa minutos. O jogo, muitas vezes, começa muito antes do apito inicial.

Talvez essa vivência ainda na adolescência explique o respeito que desenvolvi pelos treinadores e o cuidado que procuro ter antes de apontá-los como culpados diante dos primeiros sinais de desorganização em campo. Nem sempre os onze que entram jogando são os preferidos do técnico. Muitas vezes são apenas os onze possíveis dentro das circunstâncias que ele enfrenta. Às vezes, fica no banco justamente o jogador que todos nós julgamos capaz de mudar a partida, mas que o treinador sabe não reunir condições físicas, emocionais ou táticas para suportar aquele desafio.

Vi muitos técnicos serem vaiados e chamados de burros pelas arquibancadas para depois darem a volta por cima. Considero um desrespeito ao profissional, mas também reconheço que a paixão que move o futebol raramente convive com a serenidade. O mesmo torcedor que hoje protesta será o primeiro a aplaudir quando os resultados aparecerem e os títulos chegarem.

Talvez por carregar esse olhar mais cauteloso sobre os treinadores, também seja do tipo de torcedor que reacende a esperança ao menor sinal de recuperação. Há duas Avalanches escrevi sobre minha confiança no processo de reconstrução que o Grêmio parecia iniciar. Bastaram duas vitórias contra adversários tão frágeis quanto nós para me conceder o direito à ilusão.

O Grêmio, porém, desperdiçou a oportunidade de terminar em primeiro lugar em seu grupo na Sul-Americana e terá de disputar duas partidas extras quando a temporada for retomada. Neste sábado, diante de mais de 40 mil torcedores na Arena, sofreu uma derrota de virada para o Corinthians e corre o risco de passar a pausa da Copa do Mundo instalado naquela zona que você sabe qual é — escrevo antes da partida do Vasco.

Dito isso, fica aqui meu desejo de que Luís Castro tenha sucesso nos seus próximos desafios. Onde quer que eles estejam.

Avalanche Tricolor: uma noite em família

Grêmio 2×2 Montevideo City Torque
Sul-Americana – Arena do Grêmio

Sul-Americana - Grêmio x Montevideo City Torque - 26/05/2026
Mec comemora o primeiro gol do Grêmio Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Hoje era aniversário da sogra. E, ao contrário do senso comum, sogra a gente respeita, sim. Especialmente quando a festa é de 89 anos. Depois de tudo que ela já enfrentou na vida, estava ali, ao lado da família, feliz e celebrando. O olhar sempre lacrimejando de emoção brilhava — sinal da luz que faz questão de manter acesa por muitos anos mais. Vê-la à mesa, cercada pelas filhas, netos e genros, traz esperança de que caminhamos para uma vida longa.

Em meio aos brindes regados a vinho, aos porpetones de entrada e à massa servida como prato principal, encontrei espaço para desviar o olhar até a televisão, onde o Grêmio seguia sua saga em busca da reconstrução. Os passes errados na defesa, a marcação frouxa pelas laterais, as lesões logo cedo e a ausência de dois de seus principais jogadores no meio-campo cobraram um preço alto no primeiro tempo.

Na volta do vestiário, já com Arthur e Gabriel Mec, o time rendeu muito mais. Ficou mais ofensivo e chegou ao empate duas vezes — insuficiente para as pretensões desta reta final antes da Copa do Mundo. A intenção era garantir a classificação em primeiro lugar e evitar os jogos de playoff na Sul-Americana. Não conseguimos. Consola o fato de seguirmos vivos na competição, assim como na Copa do Brasil.

O resultado desta noite aumentará a pressão para a partida de sábado pelo Brasileiro, quando teremos a obrigação de entrar em campo com os onze melhores que estiverem à disposição — sem direito a poupar nem economizar esforços.

Se antes um empate em casa era tratado com certa parcimônia, agora haverá cobrança pelos três pontos. Uma vitória será importante para aliviar a pressão nas arquibancadas e nas redes (antis)sociais. Também dará mais tranquilidade para os trabalhos durante a parada da Copa do Mundo e para a retomada da temporada, em julho.

Confesso que o tropeço desta noite não me afetou como em outros tempos. Talvez porque eu confie na possibilidade de um Grêmio melhor no segundo semestre. Talvez porque a maturidade ensine a relativizar derrotas e empates. Ou talvez porque, diante de uma mesa cercada de afeto, celebrando 89 anos de vida, o futebol tenha sido colocado no lugar que lhe cabe: importante, apaixonante, mas incapaz de superar a grandeza de uma noite em família.

Avalanche Tricolor: eu acredito no Grêmio de Luís Castro

Grêmio 3×2 Santos
Brasileiro – Arena do Grêmio, Porto Alegre RS

Brasileirão - Grêmio x Santos - 23/05/2026
Luís Castro comanda a equipe na vitória de hoje. Foto: Lucas Uebel/Grêmio FBPA

O Grêmio tinha uma missão neste mês que antecede a Copa do Mundo: vencer os quatro jogos que restavam na Sul-Americana e no Brasileiro. Depois da conquista no meio da semana, cumpriu mais uma etapa dessa jornada na noite de sábado. Mesmo com as dificuldades que têm marcado este período de reconstrução, conseguiu se recuperar duas vezes da desvantagem no placar e virar o jogo — feito raro em 2026. A última vez que isso havia acontecido foi em fevereiro.

Independentemente da performance do time, dos tropeços e das pisadas na bola, lutamos pelos três pontos. E como temos lutado! Para mim, essa foi a maior mudança que Luís Castro conseguiu provocar no elenco: mais do que as variações na escalação e na formação tática, percebe-se uma equipe disposta a vencer de qualquer jeito. Há entrega total de cada jogador, apesar das limitações técnicas.

Se a redenção de Pavón marcou a vitória na Sul-Americana, hoje foi a vez de Tetê, que entrou no segundo tempo. Nosso atacante pela direita aproveitou bem o passe recebido na entrada da área, driblou e chutou com precisão para fazer o gol da vitória. A comemoração com os companheiros expressou essa união entre os jogadores que faz diferença dentro de campo.

Pavón, aliás, fez mais uma excelente partida. E não apenas pelas assistências. Foi dele o passe para dois dos três gols do Grêmio. Participativo, intenso e disposto a buscar o jogo o tempo todo, vive talvez seu melhor momento desde que chegou ao clube.

Assistimos ainda a Carlos Vinícius voltar a marcar. E duas vezes. Na primeira, de cabeça, aproveitando cruzamento de Amuzu. Na segunda, fugindo da marcação para receber a bola, dominar com o pé esquerdo e concluir nas redes. O “pastor” é um centroavante muito especial porque não se limita a fazer gols — o que, convenhamos, já seria suficiente. Incomoda os defensores o tempo todo, passa o jogo na resenha, tira os zagueiros do sério e exerce uma liderança importante para o time.

Uma menção especial ao retorno de Arthur, que estava lesionado havia algumas semanas. Saiu do banco e entrou no intervalo. O Grêmio é outra equipe quando a bola passa pelos pés dele. Não importa a pressão que sofra, é capaz de controlar o jogo e encontrar companheiros mais bem posicionados, fugindo do passe “lugar-comum”, aquele que pouco acrescenta à dinâmica da partida. Todas as vezes que sofre uma falta, fico arrepiado ao pensar que possa ter sofrido uma lesão capaz de tirá-lo da próxima partida.

(Será que a FIFA não pode criar uma norma proibindo que os adversários façam falta em Arthur?)

Devaneio à parte, a vitória descomprime a pressão sobre o técnico e sua difícil tarefa de reconstrução do time. As vitórias até a parada para a Copa oferecerão a tranquilidade que Luís Castro precisa para recompor a equipe.

Hoje, por exemplo, ele já pôde trazer Villasanti para o banco de reservas. Em breve, nosso volante paraguaio estará em campo, e poderemos ver como será sua atuação ao lado de Arthur. Na retomada da temporada, Marlon deve voltar para a lateral esquerda. Na zaga, a esperança é que os titulares estejam recuperados fisicamente e que o sistema defensivo ganhe mais consistência, especialmente porque os jovens que vêm ocupando essas posições ainda precisam amadurecer.

Posso parecer otimista demais diante do conjunto da obra até aqui. Talvez seja. Mas é esse sentimento que precisamos recuperar para a retomada da temporada assim que a Copa do Mundo terminar. As vitórias de agora — e só faltam duas — podem ser decisivas para o restante da temporada gremista.

Diga o que disserem, eu acredito no Grêmio – e no trabalho de Luís Castro.

Avalanche Tricolor: Pavón é um exemplo a ser seguido

Grêmio 2×0 Palestino
Sul-Americana — Arena do Grêmio, Porto Alegre (RS)

Conmebol Sul-Americana - Grêmio x Palestino-CHI - 20/05/2026
Pavón foi o destaque do jogo. Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Até a Copa, havia quatro jogos a vencer. O primeiro foi superado nesta noite. Com os três pontos conquistados, decidiremos em casa, na semana que vem, o primeiro lugar do Grupo F da Sul-Americana. Se persistirem os sintomas, o Grêmio está prestes a cumprir mais uma meta da temporada. A primeira, vale lembrar, foi a reconquista do Campeonato Gaúcho.

Para um time ainda em construção, apesar das dificuldades enfrentadas e das fragilidades já expostas, alcançar objetivos iniciais traz algum respiro ao treinador e à comissão técnica. E o que Luis Castro mais precisa neste momento é tranquilidade para ajustar a equipe. A parada para a Copa será ideal para esse trabalho.

O Grêmio desta noite mostrou alguns dos méritos que podem levá-lo a uma performance melhor no pós-Copa. Jogadores jovens, como Viery, Luis Eduardo e Pedro Gabriel; talentos como Gabriel Mec e Amuzu; atacantes com fome de gol, como Braithwaite e Carlos Vinícius; além de um goleiro gigante: Weverton.

Nada, porém, foi mais importante nesta partida do que a atuação de Pavón. Com todas as restrições que o torcedor já teve em relação a ele, jamais se poderia criticá-lo por falta de entrega. Poucos jogadores se dedicam tanto quanto o argentino. Aceitou recuar para a lateral e, diante da falta de alternativas, acabou se firmando na posição. As dificuldades técnicas de posicionamento foram compensadas pela disposição na marcação.

Hoje, Pavón foi decisivo na vitória. No primeiro tempo, partiu dele o chute que provocou o rebote do goleiro e permitiu a conclusão de Braithwaite para as redes. O segundo gol foi praticamente todo obra do argentino. Um chutaço de fora da área, com uma precisão que há muito tempo ele não alcançava. Foi seu primeiro gol desde 11 de fevereiro de 2025 — comemorado com todo merecimento.

Ver jogadores como Pavón terem o esforço recompensado sempre me provoca uma alegria particular. Serve também como exemplo aos colegas. Mostra que o torcedor sabe respeitar quem demonstra vontade de melhorar, mesmo quando o melhor ainda não aparece por completo.

Para nos deixar ainda mais satisfeitos, tivemos o privilégio de assistir a um lance que relembrou os velhos e inesquecíveis tempos de Kannemann. Nosso zagueiro, já em fase de despedida, salvou um gol em cima da linha e repetiu uma cena que o consagrou ao lado de Geromel — resultado do esforço típico de quem jamais desiste.

E, no fim das contas, é isso que o torcedor quer enxergar no seu time. Ver, em cada jogada, nas bolas divididas, na marcação, na arrancada para o ataque, na tentativa de drible ou no chute a gol, jogadores comprometidos em fazer o melhor possível com as condições que têm — enquanto trabalham para alcançar condições ainda melhores.