Nathan Fernandes no caminho do gol em foto de Everton Silveira | Grêmio FBPA
Começamos a partida desta noite de sábado em busca de boas notícias. Havia uma certa agonia do torcedor na arquibancada – e no meu sofá de casa, também. Primeiro porque entramos em campo precisando de um bom resultado para manter a liderança da competição, perdida parcialmente no meio da tarde.
Pior ainda era saber que iríamos ao jogo sem o principal jogador neste começo de temporada. Soteldo, recém-chegado e já admirado pelo torcedor, foi o primeiro grande revés do ano. Não bastava a falta de notícias sobre reforços para posições essenciais, ainda tivemos de amargar essa perda, por grave lesão, por ao menos todo Campeonato Gaúcho.
O paradoxo é que diante do que assistimos em Santa Cruz, o alento surgiu exatamente na posição do baixinho.
Nathan Fernandes que vem sendo aproveitado aos poucos saiu como titular e pelo lado esquerdo. Depois de algumas tentativas de ataque frustradas, tivemos a parada técnica devido ao forte calor. E Nathan parece ter entendido o recado que veio da resenha ao lado do gramado. Na primeira bola que lhe chegou, foi vertical, usou da velocidade para escapar da marcação e do talento para conduzir a bola. Bateu de fora da área e longe do alcance do goleiro. Marcou o primeiro gol dele no Gaúcho e o segundo como profissional do Grêmio.
No segundo tempo, Nathan foi substituído por Lucas Besozzi, o garoto argentino que chegou no ano passado e teve seu potencial limitado pela timidez. Desta vez, porém, atreveu-se a driblar. Atrevimento recompensando. Fez ótimas jogadas, deixou o marcador para trás em todas suas tentativas, driblou com categoria, meteu a bola no meio das pernas do adversário, cruzou para seus companheiros e protagonizou um chute que só não teve nota 10 porque o goleiro fez excelente intervenção.
Nathan Fernandes, às vésperas de completar 19 anos, e Lucas Besozzi, recém completados 21, foram as duas boas notícias do Grêmio. Suficientes para nos manter como líderes do Campeonato Gaúcho.
Era bem cedo ainda quando uma mensagem em rede social me fez o coração apertar. Era o perfil do Grêmio, no Instagram, celebrando o aniversário de Ênio Andrade. Lembrar dele é sempre um instante de alegria tanto quanto de saudades. Seu Ênio foi campeão como jogador e um dos técnicos mais vencedores do futebol brasileiro. No particular, foi das pessoas mais influentes na minha adolescência. Falei dessa minha admiração e respeito em Avalanche de 2014:
A experiência mais gratificante que tive com um técnico de futebol foi com Ênio Andrade quando, pela primeira vez, treinou o Grêmio, em 1975. Anos difíceis aqueles, nos quais o título gaúcho era quase uma utopia e sequer tínhamos direito de sonhar com o Brasil ou o Mundo, apesar de já estar escrito pelo destino que haveríamos de conquistá-los. Foi, por sinal, o próprio Ênio quem abriu caminho para essas vitórias quando voltou a ser nosso treinador nos anos de 1980, mas este foi outro momento da nossa vida como torcedor.
Seu Ênio, como sempre respeitosamente o chamei, foi muito mais do que o técnico do meu time de coração. Adotei-o como padrinho pelo carinho que sempre teve comigo desde que fui apresentado a ele por meu pai, Milton Ferretti Jung, que você, caro e raro leitor, conhece muito bem.
Além de acompanhar a todos os treinos do Grêmio ao lado do gramado, tinha o privilégio de assistir às conversas que eles travavam ao fim dos trabalhos em uma mesa que lhes era reservada na cozinha do bar que funcionava dentro do estádio Olímpico.
Aprendi muito sobre futebol naqueles tempos e não apenas sobre estratégias em campo, mas do jogo de tramoias e injustiças que se desenrola na maioria das vezes distante dos olhos do torcedor.
Convidado por ele, me travesti de gandula para funcionar como “pombo-correio” do técnico que, na época, não podia sair da casamata, como era chamado o banco de reservas. Seu Ênio me passava as instruções e eu corria até atrás do gol gremista para transmiti-las ao goleiro Picasso. Inúmeras vezes, percebia que a orientação tinha um sentido e jogávamos a bola para o outro.
O aprendizado mais importante se deu no campo pessoal: foi ele o responsável por me convencer de que eu seria muito mais honesto se procurasse meu pai para contar-lhe que havia rodado de ano na escola, notícia que eu relutava em anunciar, apesar de todos na família já saberem.
Honestidade, amizade, correção, companheirismo, criatividade, inteligência, e bom humor. Alguns dos muitos valores que Seu Ênio dividiu com todos que tivemos o privilégio de conviver com ele. Alguém que sempre fará falta ao futebol, ao Grêmio e ao meu coração.
Na noite em que o Grêmio venceu e assumiu a liderança do Campeonato Gaúcho, mesmo tendo sofrido muito mais do que deveria, em sua casa, dedico esta Avalanche a Seu Ênio, um treinador e um ser humano que deveria ser referência a todos que vestem a nossa camisa.
Soteldo é destaque em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA
No dia em que escrevo esta Avalanche é feriado em São Paulo. 25 de Janeiro é a data de fundação da cidade que completa 470 anos. Vivi aqui meus últimos 33 anos e agradeço sempre pelas oportunidades que recebi. Sinto-me paulistano e digo isso sem nenhum demérito à cidade em que nasci. Porto Alegre é parte crucial de minha história. Nela tenho os registros da infância e da adolescência, as marcas do início da carreira, parte da família e, claro, o clube do coração. Foi lá que o meu “gremismo” foi forjado. É do Grêmio, aliás, que falo neste espaço como bem sabe o caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche.
Ontem, dia 24 de Janeiro, foi dia de muita festa para o torcedor gremista. À noite, reencontrou-se com o time na Arena, pela primeira vez nesta temporada. Depois do revés na estreia do Campeonato Gaúcho, jogando fora, o Grêmio se impôs e goleou seu adversário em casa. Quem mas se divertiu foi o venezuelano Soteldo que, a persistirem os sintomas, tende a ser o ponto forte da equipe. Driblou como poucas vezes vimos, fez a festa com a bola no pé para desespero de seus marcadores, deu assistência para o gol que abriu a goleada e marcou pela primeira vez com a nossa camisa.
Agustin Marchesín, goleiro argentino contratado este ano, também fez boa estreia, apesar de o lance do pênalti, mal sinalizado pelo árbitro, ter sido motivado por uma falha dele. Foi seguro em todas as demais oportunidades em que o adversário ameaçou nosso gol e demonstrou personalidade forte para comandar o setor defensivo que precisa evoluir muito neste ano de 2024. Aliás, no que se refere à defesa, que alegria ver Geromel e Kannemann lado a lado mais uma vez.
Nessa quarta-feira, havia gremistas com motivos ainda mais especial para festejar. O paraguaio Mathias Villasanti, um dos melhores volantes em atividade no futebol brasileiro, completou 27 anos com mais uma atuação segura. 24 de Janeiro também é aniversário do uruguaio Luis Suárez, que pelo que fez em um ano com a camisa tricolor será nosso eterno craque.
Aliás, os astros merecem ser investigados porque todas as vezes que se alinharam nesta data nos ofereceram grandes nomes. Foi o que fizeram, por exemplo, em 1945, quando lá na pequena Brochier, interior do Rio Grande do Sul, nascia Loivo Ivan Johann, que anos depois se consagraria como o “Coração de Leão” pela forma valente e impetuosa com que jogava com a camisa 11 do Grêmio. Ponta esquerda raiz, com chute forte e ídolo de todos nós torcedores, Loivo completou ontem 79 anos de vida muito bem vivida.
O aniversário de Loivo, ontem, me levou a escrever texto em que compartilhei a experiência que o craque me proporcionou quando eu ainda era um guri de calção curto e camisa tricolor esturricada: o dia em que entrei de mãos dadas com ele no gramado do Olímpico. O relato que, com outras palavras, havia sido contado nesta Avalanche publiquei em grupo de WhatsApp no qual gremistas ilustres participam, dentre eles o próprio Loivo.
Foi então que a minha festa particular se iniciou: o celular tocou e do outro lado era o craque a falar e a agradecer pela história que contei. Imagine a emoção deste escrevinhador que teve de controlar a batida do coração, a lágrima no rosto e a voz que fraquejava. O jornalista voltou a ser o guri do Olímpico, comemorou o feito com a mesma alegria infantil daqueles tempos e com o desejo de abrir a janela do apartamento e gritar: “Gol, gol, gol, gooool de Loivo, o Coração de Leão!”.
O 27 de julho olímpico foi cruel para duas das maiores atletas da atualidade. A poucos metros de distância, a ginasta americana Simone Biles, 24 anos, e a tenista japonesa Naomi Osaka, 23 anos, vivenciaram momentos de profunda tristeza e abatimento, no centro olímpico de Ariake, em Tóquio.
A número 1 do mundo, na arena de ginástica artística, fez sua pior apresentação desde que surgiu no cenário internacional, desistiu das provas por equipe e teve de se contentar com a medalha de prata, após os Estados Unidos serem superados pelas russas. Nas quadras ao lado, a número 2 do tênis foi desclassificada nas oitavas de final pela tcheca Marketa Vondrousova, frustrando a expectativa dos japoneses de verem sua maior tenista conquistar a medalha de ouro.
Depois de afastada da equipe por ‘problemas médicos’, sem que mais detalhes fossem informados, a própria Simone Biles revelou aos jornalistas sua fragilidade psicológica para a disputa, mesmo sendo o maior nome da ginástica americana de todos os tempos —- e, talvez, exatamente por ser o maior nome da ginástica americana de todos os tempos:
“Assim que eu piso no tatame, sou só eu e a minha cabeça, lidando com demônios. Tenho que fazer o que é certo para mim e me concentrar na minha saúde mental e não prejudicar minha saúde e meu bem-estar. Há vida além da ginástica”.
Ao ouvir Biles, lembrei do que havia dito, em maio deste ano, Naomi Osaka, ao desistir de continuar disputando o Torneio de Roland Garros, pois não queria mais participar das entrevistas coletivas, compromisso que todos os atletas são obrigados a cumprir quando aceitam as regras do jogo. Ela alegou que as perguntas feitas pelos jornalistas causavam um impacto adverso em seu bem-estar mental —- resultado de depressão que surgiu, em 2018.
“Naomi abandonou o torneio não porque estava fugindo de enfrentar os perigos ou ameaças, mas, possivelmente, porque percebeu a necessidade de se afastar de situações tóxicas, impostas, que exigiam dela algo que naquele momento não poderia ou não queria realizar. Percebeu que precisava se afastar como um sinal de cuidado consigo. De preservação de sua saúde mental”
Hoje, ela estava apática em quadra, descreveram os jornalistas. É preciso um pouco mais de apuro e sensibilidade para entender se os problemas psicológicos influenciaram no desempenho de Naomi. O certo é que com sua apatia, se despediu dos Jogos muito antes do que esperavam dela.
De Naomi sempre estão esperando mais. Não por acaso, foi a escolhida pelos japoneses para acender a tocha olímpica, na cerimônia de abertura,— protagonizando uma cena que talvez explique muito do que ela e os maiores talentos do esporte carregam consigo a cada degrau que sobem na carreira. Por mais que o mundo estivsse ao lado dela, admirando-a naquele momento, Naomi teve de subir sozinha as escadas em direção à tocha. Levando ao alto a esperança de várias nações que enxergam nas Olimpíadas a redenção diante da tragédia desta pandemia. Pelo peso da responsabilidade, pela cultura oriental ou pela forma como encara suas obrigações, não havia um sorriso genuíno na jovem atleta.
“É claro que sempre jogo pelo Japão. Mas definitivamente sinto que houve muita pressão sobre mim desta vez. Acho que talvez seja porque nunca joguei antes as Olimpíadas”, disse a tenista após sua desclassificação.
Na voz angustiada e no jogo apático de Naomi; na revelação dolorida e no desempenho pífio de Simone; nas cenas de antes e de agora; o que mais me chocou foi perceber que por maiores, mais admiradas e respeitadas que sejam as pessoas; por mais ‘grand salms’ e medalhas de ouro que tenham conquistado; por mais próximos que estejam do que entendemos serem os semideuses; nada é suficiente se não houver o diabo da felicidade. E encontrá-la, saber cultivá-la é a grande conquista que nós seres humanos precisamos alcançar. Naomi não consegue. Simone não consegue. E nesta ausência destes astros e estrelas, nunca como antes me senti tão integrante desta mesma constelação.
A tenista Naomi Osaka foi punida com uma multa de 15 mil dólares por não ter participado da coletiva de imprensa após ter vencido a primeira rodada, na estreia do torneio de Roland Garros. Para a surpresa de todos, Naomi desistiu de participar do torneio e divulgou que sofre de depressão, desde 2018, apresentando crises de ansiedade antes de conceder entrevistas. O fato ocorreu no fim de maio, em 2021, e a sinceridade da tenista número 2 do mundo, provoca debates sobre a saúde mental dos atletas até agora.
Diferentemente do medo ou ansiedade adaptativa, aquela que a maioria das pessoas experimenta numa entrevista de emprego ou num primeiro encontro amoroso, o transtorno de ansiedade é caracterizado por medo e ansiedade excessivos, desproporcionais e persistentes, causando sofrimento ou prejuízos no funcionamento social, profissional ou em áreas importantes da vida da pessoa.
No transtorno de ansiedade ou fobia social, o indivíduo é mais temeroso, evitando interações ou situações sociais nas quais exista a possibilidade de ser avaliado, como encontrar pessoas que não sejam familiares ou falar em público. Nessas situações, a pessoa teme agir de maneira que evidencie seus sintomas, como ruborizar, tremer ou tropeçar nas palavras, o que poderia gerar um julgamento ou avaliação negativa por parte das outras pessoas.
Evitar intencionalmente essas condições, o que chamamos de esquiva, em geral, reduz momentaneamente o nível do medo ou da ansiedade. Por outro lado, essa evitação irá reforçar a ideia de risco ou ameaça, fortalecendo também a crença de incapacidade para enfrentar e superar tais circunstâncias.
Será que dizer NÃO para situações que possam causar prejuízos à saúde mental seria um sinônimo de esquiva ou evitação?
Infelizmente, muitas pessoas não conseguem ou não podem assumir as próprias dificuldades, fragilidades ou vulnerabilidades.
O que as pessoas pensariam?
Como reagiriam ao saber que uma pessoa que obtém tantas vitórias, que é competente ou talentosa no que realiza, sofre de um transtorno mental?
“Ansiedade? Depressão? Coisa de quem não tem o que fazer ou quer chamar a atenção”
O preconceito e os estereótipos nos conduzem a julgamentos rápidos e conclusivos. Multas, punições, expulsões… Foram essas as soluções inicialmente pensadas para o caso da tenista. Naomi abandonou o torneio não porque estava fugindo de enfrentar os perigos ou ameaças, mas, possivelmente, porque percebeu a necessidade de se afastar de situações tóxicas, impostas, que exigiam dela algo que naquele momento não poderia ou não queria realizar. Percebeu que precisava se afastar como um sinal de cuidado consigo. De preservação de sua saúde mental.
Recuar não é fácil, mas, por vezes, necessário; não como fuga, mas como saída para que o sofrimento seja notado. Envolve limite e autocuidado, além do cuidado com o sofrimento de outras pessoas que passam por situações semelhantes.
Em saúde mental, por vezes é necessário que alguém traga à tona as suas dificuldades para que as pessoas despertem e se solidarizem com todos os que passam por situação semelhante.
Após o desabafo de Naomi Osaka sobre a sua saúde mental e sua repercussão, a organização dos torneios Grand Slam mudou seu discurso e lhe ofereceu apoio e assistência, mencionando a possibilidade de mudança nas regras, a fim de melhorar a qualidade de vida dos atletas.
Naomi, você não fugiu dos seus temores!
Ao escancará-los, sinalizou que os transtornos mentais não são exclusivos de fracos e derrotados, fazem parte da vida humana, da vida de qualquer pessoa. Se esquivar nem sempre é a melhor saída, mas pode ser o caminho que nos permita um recomeço.
Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Youtube. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung
“Mar calmo, não faz um bom surfista. Eu acredito que pra vida, se você entender isso, você pode levar para tudo. Não desistir. Nunca! Nunca desistir! É entender que você tem de continuar, tem de batalhar, estar aberta às críticas”
Natália Pirro, API
Com dois anos de empresa e 29 de vida, Natália Pirro foi apresentada a um desafio assustador, especialmente se considerarmos o momento econômico e social que o Brasil enfrentava, em 2015: assumir o posto mais importante do grupo, no país, e provar que o negócio era viável em um prazo de apenas seis meses. Sim, a empresa lá fora não acreditava muito que a coisa pudesse vingar por aqui. Natália provou o contrário. Seis anos depois, ela comanda as operações da empresa americana API na América Latina, responsável por todos os negócios da companhia na região, cerca de R$ 35 milhões, como contou em entrevista do Mundo Corporativo, da CBN.
“Eu não me sentia preparada 100%. Ainda bem. Porque eu não teria chegado onde cheguei. Tive de aprender, conversar e escutar para chegar onde cheguei. Eu não estava preparada, mas tinha muita vontade de fazer …”
A coragem para enfrentar as dificuldades, Natália encontrou na educação e no esporte. Desde a adolescência, pratica surfe; quando morou nos Estados Unidos, esquiou; e, sempre disposta a ir além, também fez triatlo. Hoje, faz parte de um grupo de 15 mulheres, muitas executivas, que viaja pelo mundo em busca de boas ondas: o Girls Surfing Experience, coordenado por Suelen Naraísa, bicampeão brasileira.
“Todo o esporte desenvolve você como pessoa. O que faz um cicilista acordar às cinco da manhã para pedalar no frio: é o propósito. É entender que aquilo vai lhe trazer algo bom”.
Formada em administração e finanças e especializada na área de controladoria, Natália teve de buscar novos conhecimentos para administrar a empresa formada basicamente por engenheiros. Hoje, tem cinco pós-graduação e parar de estudar não está nos seus planos. Desenvolver-se nas mais diversas áreas faz parte das metas que a empresa negocia com ela, um hábito que levou aos funcionários da API na América Latina:
“Em janeiro de todo ano, sento com meu RH, com cada time, com cada gestor e para cada um colocamos algo a desenvolver. No ano passado, os nossos engenheiros, acostumados com máquinas e cálculos, tiveram de realizar cursos especializados em experiência do consumidor”.
A API é uma das principais empresas de medição e calibração de equipamentos do mundo, com atuação nos diversos setores da indústria: aeroespacial, automotivo, de defesa, energia e manufatura, por exemplo. Áreas em que homens sempre predominaram, o que se transformou em outro desafio, especialmente por Natália ser tão jovem:
“É um meio masculino, mais sênior e de pessoas que não são muito abertas. E eu tive de ter muita certeza de onde eu queria chegar. Entender que a aquela crítica que recebia não era 100%. Tive de saber absorver da melhor maneira possível. Os questionamento foram visto como incentivo”.
Não apenas soube se impor diante desse cenário como ajudou a mudá-lo. Hoje, a equipe comandada por Natália tem 35 pessoas e muitas são mulheres, o que, segundo ela, é uma das marcas que diferencia a API quando participa de eventos do setor. Por isso, não teve dúvida em responder a pergunta feita por uma das ouvintes do Mundo Corporativo que queria entender sobre as oportunidades na área de medição e calibração de equipamentos. Para Natália, as mulheres podem investir na carreira de engenharia e pensar no setor:
“As empresas cada vez mais precisam evitar erros e acidentes de trabalho. Esse é um mercado imensurável … Antigamente, todas as empresas e industrias esperavam ter o problema para corrigir. Entendeu-se que isso era muito caro. A manutenção preventiva evita esse gasto. Esse vai ser o futuro.”
O ano de 2020 foi difícil em diversos sentidos. Com a economia em baixa e a necessidade de adaptação às restrições sanitárias, exercitar a resiliência, foi essencial para chegar às melhorias registradas no primeiro trimestre deste ano: a empresa vendeu, na região, 49% do realizado em todo o ano passado. E mais uma vez, as viagens que havia realizado com as colegas do surfe, que foram canceladas por motivos óbvios, foram úteis:
“A pandemia está bem difícil. Então a resiliência e a adaptação, que eu aprendi no surfe, para enfrentar todas as condições, estão acontecendo todos os dias. Eu trabalho em uma empresa americana e o dólar cai 30 centavos em um dia. Como você explica para as pessoas? Como manter a segurança dos funcionários? Faço reuniões semanais. Tento manter um contato mais próximo para oferecer alguma segurança, para termos um resultado melhor. Se eles não estão trabalhando bem, a empresa não vai ter resultado”.
Assim como acontece na busca pelas melhores ondas, Natália ensina que nem sempre no mundo do trabalho se terá as melhores condições ou o profissional vai acordar bem para trabalhar ou todos os stakholder estarão pensando da mesma maneira. O importante é ter consciência do resultado que você pretende alcançar. Para os jovens e profissionais que estão iniciando carreira, Natália recomenda:
“Nunca desista porque alguém falou algo para você. Nunca desista porque talvez não seja o mercado apropriado. Não! Se você tem um sonho e você quer algo lá na frente. Tenha certeza disso e não desista”
O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às 11 horas, no canal do Youtube, no Facebook e no site da CBN. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN, e aos domingos, às 10 da noite. Está disponível também em podcast. Colaboraram com o Mundo Corporativo: Izabela Ares, Bruno Teixeira, Débora Gonçalves e Rafael Furugen.
Os que tiveram o privilégio de ouvir transmissões de futebol na época de ouro do rádio gaúcho têm na memória o grito que marcava a entrada do time do Grêmio no estádio Olímpico. ‘Aí vem o Grêmio!!!’ — com direito ao alongamento de todas as vogais e tom de voz firme —- era a senha do repórter de campo João Carlos Belmonte para a explosão de alegria do torcedor que recepcionava seus jogadores aos gritos e sob foguetório. Ele ficava com microfone da Rádio Guaíba em punho ao lado da escadaria que dava acesso ao gramado e a medida que os jogadores se posicionavam em fila, citava nome a nome, e a cada nome o coração batia mais forte no nosso peito.
O ritual se repetia no Beira Rio com o time da casa —- e dizem as más línguas com uma pitada maior de alegria, reveladora; eu não concordo. Mas como esse espaço tem suas exclusividades, vou me ater a emoção que Belmonte provocava na nossa torcida. Era mágico. Transgressor. Porque seu olhar e palavras devassavam o escurinho do túnel, quase sagrado, tantos eram os ídolos que se reuniam a espera da batalha. Belmonte descrevia a movimentação dos jogadores, a conversa ao pé da orelha e os gritos motivacionais, tudo hoje naturalizado pelas câmeras de televisão e pelo insípido cerimonial de entrada em campo.
Quando Belmonte fazia do rádio magia, eu era guri de manga curta, ouvinte e gremista encantado pelas palavras dele.
Vibrava no cimento do Olímpico acompanhando a festa comandada pelo repórter de rádio que mexia duplamente com a minha imaginação. Por torcedor que era e por jornalista que sonhava ser. Transformei-me repórter de campo anos à frente. Anos luz distante do talento de Belmonte e outras feras que fizeram o rádio gaúcho ser dos melhores do Brasil. Ele e a mulher Ligia —- recentemente falecida — eram amigos dos meus pais e faziam parte de um círculo de casais, ligados ao jornalismo, que saíam quase toda semana para jantar. Isso me gerou alguma intimidade com o Belmonte e com muita gente boa do meio. E colaborou para minha escolha de carreira.
Essa ‘coleção’ conta, em cada capítulo e livro, um pouco do que se fez no radiojornalismo e esportivo brasileiro, através da história de seus protagonistas —- dois deles dedicados à narração, Milton, o pai, e o Pedrinho; dois à reportagem e ao comentário esportivo, Lauro e Belmonte. Deve ser preservada porque traz a memória de um rádio que, mesmo permanecendo forte, já foi mais influente na opinião pública. Hoje, é inimaginável a cena de um repórter de campo regendo um coro de milhares de torcedores no ‘parabéns à você’ em homenagem ao jogador aniversariante com quem conversa ao microfone. Belmonte era capaz.
É interessante saber como eram as jornadas internacionais em uma época pré-internet, a dificuldade de deslocamento, o improviso das estruturas e a qualidade com que se conseguia levar os fatos aos ouvintes, Em “Fala, Belmonte!” vale uma dedicação especial à cobertura do título Mundial do Grêmio, em 1983. Sim, Belmonte viveu intensamente aqueles momentos:
“Dias após o Grêmio conquistar a Libertadores de 1983, fui enviado ao Japão. Missão: desbravar Tóquio e remeter matérias à Rádio Guaíba e Correio do Povo, gravar um programa de uma hora para a TV2 Guaíba. Além disso, havia a missão ‘secreta’ de contratar linha 24 horas, disponível antes e depois do jogo final, conectando o nosso hotel e o estádio com a emissora em Porto Alegre”
Belmonte viveu e vive aqueles momentos, mesmo que aposentado. Conversei com ele dia desses para agradecer pelo envio do livro, oportunidade em que relembramos algumas passagens que teve com o pai. E na qual percebi que mantém uma das marcas de sua personalidade. Amigos mais próximos dirão que é a avareza — fama desmentida pelo próprio Caco Belmonte, no texto de introdução. Belmonte, para mim, além de referência jornalística, sempre foi um cara bem humorado. Alegre com o que fazia. E disposto a deixar seus ouvintes ainda mais felizes — como ficávamos lá no Olímpico, todas as vezes que ele anunciava: “aí vem o Grêmio !!!”
PS: sei que o caro e raro leitor desta Avalanche entenderá minha disposição de escrever sobre João Carlos Belmonte em lugar de ocupar este espaço, como sempre faço, com mais uma goleada gremista no exterior. A partida da noite de ontem era fava contada, apesar de ter me divertido muito em ver os guris brincando com a bola em campo. E o que importa mesmo nesta semana, vai acontecer domingo, em mais um Gre-Nal. Pena que o Belmonte não estará na beira do gramado para chamar a torcida ao delírio.
Foi no 10 de outubro de 1954 que nasci em uma maternidade na Lapa, de um casal apaixonado, unidos pelo destino, —- um do interior do estado e outro de Santa Catarina. Primogênita de seis lembro-me de ouvir falar na Rua Major Sertório, que deve ter sido um lugar importante para meus pais. Após a segunda filha, meu pai nos levou a todos para Piracicaba.
Voltamos à capital em uma desesperada necessidade. São Paulo acolheu algumas das minhas irmãs, quando minha mãe se viu obrigada a nos deixar sob os cuidados de uma parente, abençoada, da Congregação das Irmãs Paulinas, hoje Santa Paulina, na Av. Nazareth. Uma foi para creche no Jabaquara. Eu fui para Ourinhos, com dois anos e meio; e outra para Avaré. Crescemos todas fortes e voltamos para Piracicaba.
Em 1972, fui convidada a jogar basquete por São Bernardo. Quando então começou minha andança na capital.
Conheci o ginásio na Vila Mariana, fiquei alojada no Baby Barioni, sempre que convocada para as seleções paulista e brasileira. Joguei pelo Brasil no ginásio do Ibirapuera, esse que agora querem destruir. Fiz corrida de revezamento no autódromo de Interlagos.
Veterana passei por São Paulo jogando e dirigido equipes de várias cidades . A cada vinda para cá, destinos desconhecidos me aguardavam. Por Santo André fui até o SESI A.E.Carvalho, em Artur Alvim; e mesmo não sendo corintiana, me emocionei a primeira vez que vi a Arena de perto.
Nem só de esporte foram feitos os meus caminhos. Na Paulista, linda, visitei a Livraria Cultura, a Casa das Rosas. No Teatro Alfa, assisti a Billy Elliot; no Credicard Hall, Carmina Burana; no Revista, Ópera do Malandro; no Teatro Municipal, deslumbrante, O Cavaleiro da Rosa, nos transportando a outras épocas e nos fazendo sonhar com um mundo melhor, sem medos e com muito amor.
Márcia Perecin é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva o seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite meu blog miltonjung.com.br e assine o podcast do Conte Sua História de São Paulo.
“Eu acredito muito no potencial do ser humano. Eu já fui transformado alguma vezes. Mas você precisa ter alguém junto para te ajudar em alguma situação. E nesse caso é o grande treinador, o grande coach”, José Salibi Neto
O algoritmo é uma sequência de instruções bem definidas. Mas nas relações humanas, regras e procedimentos não são perfeitamente definidos. Então, para fazer esse algoritmo rodar com resultados satisfatórios é essencial a figura do coach ou do treinador que tem de adaptar esse sistema a quem ele treina, ter engenhosidade para conectar essas duas pontas — algoritmo e esportista — e converter problemas maiores em partes menores e mais simples de resolver.
Essa é a ideia central do trabalho desenvolvido por José Salibi Neto, ex-tenista, cofundador da HSM e dos maiores especialistas em gestão no país, e Adriana Salles Gomes, admiradora de esportes, especialmente dos cavalos de corrida, jornalista e craque em economia e negócios. Juntos, escreveram o livro‘O algoritmo da vitória” (Planeta Estratégia), após cinco anos de muita pesquisa, leitura e entrevistas com alguns dos melhores técnicos esportivos do mundo.
José Salibi Neto falou do resultado deste projeto e de como aplicá-lo na gestão de negócios, no programa Mundo Corporativo, da CBN. E falou com o mesmo entusiasmo da época em que, jovem e estudante na Universidade da Carolina do Sul, entrava em quadra com o sonho de ascender ao topo do ranking mundial. Na época nem tudo saiu como ele planejava, por isso teve se transformar algumas vezes —- como destacado na frase que abre este texto. O esporte, no entanto, virou lição e metáfora para a sua carreira:
“O CEO na verdade é o técnico do time dele, ele é o grande coach. Tem que colocar os jogadores certos nas posições certas. Desenvolver a cultura do time. Fazer o treinamento. Analisar cada um dos seus comandados para ver quais são os seus pontos fortes e os seus pontos fracos. Então, esses grandes treinadores, eles são muito cuidadosos nisso porque eles não podem errar”
Um líder de excelência é capaz potencializar os talentos que têm em seu time. Foi o que fez Larri Passos com Gustavo Kuerten, um jovem de grande talento mas que tinha sua vida marcada por uma série de intempéries que poderiam tirá-lo completamente do foco da carreira vitoriosa que construiu.
“O caso mais dramático foi o caso do Guga, porque ele tinha tudo para dar errado, perdeu o pai em uma quadra de tênis, aos nove anos, a mãe era assistente social, o irmão necessidade de ajuda constantes devido a problemas de saúde e ele vivia em uma cidade sem tradição no esporte”.
Para se entender o algoritmo da vitória explorado por técnicos de grande sucesso nos mais diversos esportes, José Salibi e Adriana o dividiram em oito etapas:
Encantar — aqui contam os critérios para recrutar talentos, desenvolver atletas, criar neles autônoma e amor pelo que fazem
Kaizen mental — é preciso balancear foco e relaxamento, e trabalhar tanto mente como corpo: “no mundo empresarial ninguém se importa com isso”
Time escalador — é necessário montar um time com pessoas complementares, em talento, em personalidade, em experiência e em energia; e saber construir confiança e controlar o ego
Código de Comunicação —- palavras, imagens e gestos são códigos que precisam ser criados com seus atletas; entender qual o momento adequado para transmitir a mensagem: “às vezes você mata o talento na maneira de se comunicar”
Estrategizar — o técnico precisa pensar estrategicamente, planejaras diversas etapas, priorizar resultados e competições ao longo da temporada, identificar alternativas
Ambiente de crescimento —- tem de alternar estabilidade e mudança para que os atletas aprendam e cresçam; pensar em processos, relacionamentos, estruturas etc
Aprendizado — o algoritmo dos técnicos precisam ser constantemente atualizados
Algoritmo —- é preciso criar o próprio algoritmo, etapa por etapa, e saber rodá-lo no ‘hardware’ que é onde entrar o dono da equipe e os dirigentes que precisam estar alinhados, acima de tudo, culturalmente.
O algoritmo da vitória virou uma metodologia que pode ser aplicar a qualquer empresa e a qualquer técnica, de acordo com José Salibi Neto:
“No mundo empresarial tem de desenvolver essa mentalidade de coach. O Jorge Paulo Lemann faz isso muito bem. Veja quantos líderes ele conseguiu desenvolver. Ele se considera muito mais um diretor de recursos humanos do que CEO. Se você não desenvolver as pessoas, você não tem resultado”
O Mundo Corporativo pode ser assistido às quartas-feiras, às 11 da manhã, no site da CBN, no canal do YouTube e no Facebook. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal. da CBN; aos domingos, às dez da noite; e pode ser ouvido a qualquer momento em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Juliana Prado, Bruno Teixeira, Rafael Furugen e Priscila Gubiotti.
De uma crônica que jamais havia ouvido, de gritos de gols inesquecíveis, de narrações que contam a história da humanidade e de histórias que foram contadas na minha intimidade —- o programa Arquivo Guaíba, que foi ao no sábado, dia 31 de outubro, me fez reviver as mais diversas passagens do pai pelo rádio brasileiro —- foram 60 anos dedicados e respeitando o microfone, dos quais quatro na rádio Canoas e os demais 56 na Guaíba.
A homenagem se deu pela passagem do aniversário de Milton Ferretti Jung que completaria 85 anos, no dia 29 de outubro. Como você sabe, caro e raro leitor deste blog, o pai morreu no ano passado, no dia 28 de julho. Assim, aproveito a generosidade de Luis Magno e da equipe de profissionais da rádio Guaíba que relembraram alguns dos momentos da carreira dele para reproduzir o programa aqui entre nós,, nesta segunda-feira, dia 2 de novembro, dia que dedicamos aos mortos que permanecem na nossa memória.
Antes de clicar no arquivo para ouvir o programa, me permita dizer muito obrigado aos profissionais que se dedicaram a fazer esta homenagem e aos ouvintes que sempre se referem ao pai com muito respeito e carinho:
O programa apresentado pelo jornalista Luis Magno foi criado em maio deste ano e explora o rico arquivo de áudio que a rádio Guaíba ainda preserva no prédio da rua Caldas Junior, centro de Porto Alegre. Vai ao ar aos sábados à noite, tem produção de Pedro Alt, edição de Davis Rodrigues, com José Moacir Bittencourt responsável pelos arquivos.