Brasileirão teima em não entrar na moda

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

 

Essa gente que dirige o futebol é realmente coerente. Quando se trata de organização, métodos, processos e tecnologia, são todos do passado. Envelhecidos até na idade, o que neste caso é um problema, porque ao seu envelhecimento cresce simultaneamente o envilecimento. Ao mesmo tempo, quando a oportunidade de altos investimentos se apresenta, como no caso de novos estádios, surge uma surpreendente modernidade celebrada por unanimidade entre o futebol e a política. O início do campeonato brasileiro de futebol e a pesquisa com os atuais jogadores de futebol ilustram estas coerências tão incoerentes dessa tribo de “velhos” que manda no futebol.

 

Aficionado do futebol e partícipe da moda, a comparação entre estes setores me é inevitável. Em qualquer parte do mundo, o mundo da moda celebra o lançamento das coleções, mais do que o sucesso final delas, como o momento supremo desta atividade que exalta antes de tudo a criatividade e o talento. No futebol brasileiro isto não faz sentido. Muito pelo contrário, só se festeja no final e se ignora o lançamento. Por insegurança, ou pura ignorância, não sabemos. O mais provável é que ambos expliquem o que foi feito até então. Ainda mais porque este ano agregou-se o espírito de “vira-latas”. A cúpula da CBF e seus convidados abandonaram a primeira rodada do Brasileirão para assistir à final da Liga dos Campeões da Europa em Londres. Colonialismo puro!

 

Esta mesma CBF, auxiliada pela FIFA, ignorou o estádio do Morumbi para abertura da COPA. É justamente o estádio que, em recente pesquisa com os jogadores, é apontado como o preferido pelos atletas. Esta é a outra face da coerência pela modernidade de todos estes dirigentes. De clubes, de federações e de confederações. Tudo pelo maior gasto. Onde surgem números inexplicáveis, como os 350 milhões privados gastos na arena do Grêmio comparados aos 800 milhões públicos previstos para o estádio do Corinthians. E a arena gaúcha é bem maior que a corintiana.

 

Em plena época da espetacularização, o grande espetáculo do Brasileirão 2013 foi coerente a estas incoerências. O único ganhador fora da primeira rodada deu 44 passes errados, e foi impedido de levar a sua torcida por falha do mandante, que levou a própria para se auto digladiar. Enquanto no novo Mané Garrincha o também novo recorde de renda passava distante do subserviente Santos, que de R$ 7 milhões ficara com R$ 800 mil.

 

O nosso futebol está numa fria, mas parece que Nero vem aí.

 

Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Mílton Jung, às quartas-feiras.

Garrincha, a FIFA e o revisionismo

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

 

O jogador Pato no “Bem, Amigos” ao ser indagado por Galvão Bueno se tinha visto o filme de Pelé respondeu negativamente. Romário também já demonstrou ignorar a história de alguns craques que fizeram a história do futebol. Se não, a história do próprio futebol. Donde se conclui, que se jogadores esclarecidos como Romário e Pato desconhecem referências do esporte que praticam a maioria também deve se ater à própria atualidade.

 

Esta fragilidade de conhecimento que desperdiça a sinergia e esvazia o protagonismo, leva inclusive a parca representatividade destes profissionais, que ficam à mercê das empresas que os contratam, que são os clubes de futebol. Estes, por sua vez, também se entregam às federações estaduais, federais e mundial. Diferença gritante com os tenistas, profissionais mais preparados, que mandam em sua modalidade.

 

A FIFA, portanto, entidade soberana do esporte, que é hoje o mais popular do mundo, controla as federações, os clubes e os jogadores. Além de se sobrepor aos países em seus eventos, obrigando-os a se enquadrar em suas regras, que sabemos são norteadas ao máximo resultado pecuniário. Doa a quem doer.

 

É um poder inigualável este que a FIFA exerce, pois enquanto as grandes marcas mundiais de serviços e produtos têm limites éticos no trato com clientes e funcionários, a FIFA começa a ultrapassá-los. E, uma das mais recentes vítimas, quem diria, é Garrincha. Personalidade de destaque nos anais da FIFA. A biografia de Garrincha no site da FIFA é absolutamente verdadeira, totalmente elogiosa, e descompassada da justificativa da entidade máxima do futebol, ao desautorizar o nome “Estádio de Brasília Mané Garrincha”, alegando que “Mané Garrincha” não tem a internacionalidade que as arenas precisam.

 

No site da FIFA, Garrincha está na relação dos 15 maiores jogadores de todos os tempos, e é visto como:

 

“Chaplin do futebol”
“O pequeno pássaro que voou no Brasil”
“O anjo de pernas tortas”
“Imprevisível, mágico, indefinível e explosivo”
“Um dos maiores jogadores a vestir a camisa canarinho”
“De que planeta ele é?”

 

Ora, que os tempos mudaram, e que a meta é o acordo com empresas cujas marcas paguem para estampar chuteiras, meias, calções, camisas e até estádios já se sabia. O inusitado é o revisionismo, típico dos regimes totalitários.

 

Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Mílton Jung, às quartas-feiras.

Grêmio dá show de campo, mas ninguém dá bola

 


Por Carlos Magno Gibrail

 

Arena do Grêmio

 

Tostão em sua coluna na Folha lembra que Chico Buarque escreveu que os europeus eram os donos do campo, e os brasileiros, da bola. Hoje há controvérsias.

 

Enquanto os maiores espaços da mídia esportiva em geral estão sendo ocupados pelo mundial de clubes, focando particularmente o Corinthians, ontem, dois eventos deveriam ter dividido as atenções. Deveriam, mas não dividiram.

 

No ginásio do Ibirapuera, depois de longos anos, os maiores tenistas da atualidade exibiram-se em torneio que leva o nome de Roger Federer, o melhor de todos os tempos. Evento que só não teve a chancela de primeiro mundo porque evidenciou o terceiro mundo de nossa infraestrutura, quando dez mil pessoas que pagaram mil reais o ingresso tiveram que amargar um estádio sem ar condicionado num dia de temperatura escaldante.
Já em Porto Alegre, o Grêmio patrocinou um espetáculo com perfeição absoluta. Indubitavelmente o fato mais importante do fim de semana esportivo. Além do que um feito e tanto sob o aspecto da gestão do futebol, tão tímida e poluída pelos clubes brasileiros em geral.

 

O Grêmio Futebol Porto Alegrense, simplesmente construiu um estádio para 60 000 pessoas, dentro do rigoroso padrão FIFA, a um custo total de 540 milhões de reais. Com 61% de recursos da iniciativa privada e 39% de financiamento do BNDES.

 

Ao compararmos com outros estádios da COPA 14, vamos verificar que o Grêmio conseguiu cumprir uma promessa não cumprida pela CBF quando assumiu a COPA 14, ao se comprometer em empreender com a iniciativa privada e não utilizar recursos públicos. Fato que fica visível na comparação com o Itaquerão. Estádio para 48 000 pessoas com extensão para a abertura de 20 000 lugares, perfazendo o total de 68 000 assentos. No estádio corinthiano o valor estimado é de 890 milhões de reais. 60% do investimento será público e 40% de financiamento do BNDES. A prefeitura de São Paulo doará 420 milhões e o governo do Estado 70 milhões.

 

Duas perguntas deveriam estar pressionando os dirigentes e os políticos:

 

Como se explica o custo da Arena do Grêmio?

 

Por que a Arena do Grêmio não receberá jogos da COPA 14?

 

Plagiando Chico, podemos dizer que o Grêmio é o dono do campo, mas a bola está com a CBF. Em todos os sentidos.

 

Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos, e escreve no Blog do Mílton Jung

A Avalanche definitiva

 

 

Voltei para casa. Mesmo morando há 21 anos em São Paulo, lá ainda é a minha casa. Minha infância, minha adolescência e o início da vida adulta foram vividos por lá. Fui brincar no pátio como fazia quando criança. Vi o campinho de futebol, encostado na rua Dr Aurélio Py, onde joguei bola muitos anos, nos tempos em que, como zagueiro e lateral esquerdo, exercitava a arte de chutar canelas. Havia muitos carros estacionados sobre ele, mas o areião, no qual rasguei joelhos e cotovelos, ainda se destaca em toda sua extensão. Do outro lado, vi a quadra na qual joguei basquete, passei frio e escorreguei na água da chuva que ultrapassava o telhado que despencou durante um vendaval. No meio do caminho enxerguei a sacada, onde meus craques apareciam de vez em quando, abanavam e, com o polegar, davam sinais de confiança. Foi meu pai quem lembrou das piscinas que ladeavam a avenida Carlos Barbosa, as quais frequentava carregado pelas mãos da minha mãe, no verão gaúcho. Os guris com quem fiz amizade não encontrei. Devo ter passado por eles, mas a idade escondeu seus traços de criança e não os reconheci. Havia outros ao meu lado. O Christian, meu irmão, o Fernando, meu sobrinho, e o Lorenzo, meu filho mais novo, que não escondia a alegria de estar compartilhando comigo as brincadeiras de criança naquele imenso pátio que se transformou o Olímpico Monumental.

 

No último dia de vivência no estádio, cenário de parte da minha vida, chorei de forma contida, não pela despedida, mas ao ouvir, mais uma vez, o radinho de pilha transmitir a voz de meu pai que, Milton Ferretti Jung, que por 15 longos minutos, narrou os lances do Gre-Nal. Antes do jogo, havia sido tocante ouvir as declarações dos craques do passado que desfilaram no gramado do Olímpico. Gente como Gaspar, Jardel, Danrley, Mazaropi, Iura e Loivo, meu eterno Coração de Leão. Nada se comparou, porém, a transmissão feita pelo meu craque da locução esportiva. Perfeccionista, jura que os óculos impróprios para a distância atrapalharam e preferia ter dado ritmo mais acelerado ao jogo. Só ele tinha esta preocupação. O que nós, seus fãs e ouvintes, queríamos era relembrar, agradecer por todas as emoções narradas. Tirar foto ao lado dele, assim como dezenas fizeram questão na caminhada até a cabine da rádio Guaíba. Voltar no tempo.

 

O Gre-Nal desse domingo, que só descrevo ao fim desta segunda-feira pela necessidade de retomar o fôlego, sufocado pelas sensações que vivi, era coadjuvante num cenário tão grandioso. A falta do futebol bem jogado, a carência de habilidade para furar bloqueios defensivos, a predominância da violência, o descontrole dos comandantes e a incompetência do árbitro pouco nos importaram. Esperávamos o fim da partida ansiosos para dar adeus ao velho estádio. E o fizemos com uma Avalanche definitiva, que extrapolou os limites da Geral, torcida que trouxe este movimento sincronizado para as arquibancadas. Era a última vez, oficialmente, que comemoraríamos nossos feitos, ao lado de filhos, sobrinhos, irmãos, pais e amigos no pátio da minha casa. No Olímpico Monumental.

E o menino descobriu um templo

 

Por Silvio Bressan
Jornalista e gremista

 

 

Havia muita cor e barulho naquela noite de dezembro de 1971, quando o menino assustado entrou pela primeira vez no Estádio Olímpico. Grêmio e Coritiba disputavam um jogo do Campeonato Brasileiro, mas para uma criança que só via futebol pela TV, em preto e branco, o que mais chamava a atenção era a imensidão daquele espaço, o verde da grama, o colorido dos uniformes e os sons da torcida. Os dois gols do ponteiro-direito Flecha me iniciaram na profissão de fé pela camisa 7, a mesma que já havia sido honrada por Tesourinha e Babá e ainda seria consagrada por Tarciso e Renato. Graças ao Olímpico, futebol para mim tornava-se uma coisa real, palpável, com cor, cheiro, barulho e a minha saga de gremista ganhava um palco, um verdadeiro templo para celebrar algumas de minhas maiores decepções e alegrias até hoje.

 

E já lá se vão mais de 40 anos de emoções variadas, mas sempre intensas… Logo no segundo jogo (Grêmio 1 x 1 Cruzeiro, em 1972), o espanto pelo soco de Everaldo no juiz José Faville Neto. Depois, a reverência de ver, pela primeira e última vez, o gênio Pelé naquele histórico gramado (Grêmio 1 x 0 Santos, em 1974). Na mesma época, um inusitado 0 x 3 contra um desconhecido time de Encantado virar 3 x 3 para o delírio da multidão (por outro lado, nos anos 80, também houve um 4 x 1 conta o Santo André que virou 4 x 4 para a frustração geral).

 

Eram tempos difíceis, anos de chumbo para a democracia e a torcida gremista, com derrotas em Gre-Nais e um jejum de oito anos sem títulos. O adolescente tímido, porém, como toda a nação tricolor, não desistia. Mesmo quando a bravura de um Chamaco, Cacau, Tarciso e Iúra não era suficiente para vencer o tradicional rival, lá estava ele na geral, almofada numa mão e rádio na outra, acreditando que um dia a sorte mudaria. E mudou tão de repente que quase ninguém acreditou. Na verdade, levou apenas 14 segundos até que Iúra, agora melhor acompanhado, abrisse o placar naquele Gre-Nal de agosto de 1977. O Grêmio deu a saída de bola e, sem que o adversário tocasse na bola, já estava vencendo.

 

Tínhamos, enfim, um time confiável, onde a bravura de Tarciso e Iúra agora era lapidada pela categoria de Tadeu Ricci, André e Éder. Naquele ano foram sete Gre-Nais e o Grêmio venceu cinco, três deles no Olímpico, com direito à duas goleadas. E chegamos ao dia mais importante, até então, para a história daquele adolescente no Estádio Olímpico. O Gre-Nal de 25 de setembro teve de tudo: pênalti perdido por Tarciso, gol do André, contusão do mesmo André na comemoração e um final tumultuado pela invasão da torcida e briga no gramado. O mais importante, porém, para aquele rapaz, era que finalmente seu time era campeão, em cima do seu principal adversário, e no seu grande palco. Não havia nada mais a desejar. Como reza uma de nossas mais famosas faixas, “Nada pode ser maior”.

 

Saindo da adolescência, ainda vieram o título de 1979, também no Olímpico, e a escalada nacional e mundial, a partir de 1981, com a conquista do campeonato brasileiro, até o título da Libertadores, em 1983, o maior feito da história do Olímpico. Na década de 80, aliás, fomos brindados por uma seqüência memoráveis de vitórias em Gre-Nais e títulos no nosso maior templo: de 85 a 90 quase todas as decisões foram clássicos vencidos pelo Grêmio no Olímpico. Em 89, já na vida adulta, pude testemunhar o título da primeira Copa do Brasil, em 1989, um sábado à tarde, em cima do Sport. Um ano depois, já morando em São Paulo, tive a felicidade de assistir a um 4 x 0 no Gre-Nal decisivo do campeonato. Não sabia porque pretendia voltar, mas aquele foi meu último título no Olímpico.

 

De lá para cá, como morador de São Paulo, voltei esporadicamente ao velho templo, com vitórias e derrota. A cada viagem à cidade natal, mesmo quando não havia jogo, o compromisso obrigatório era dar uma passada no Olímpico, visitar a loja e sentar nas arquibancadas, mirando o gramado. Queria aproveitar cada instante naquele velho concreto oval e rememorar as cenas mais marcantes dessas quatro décadas: as brigas e o “senta e levanta” dos Gre-Nais; a enorme buzina que ficava no meio da geral e nos ensurdecia cada vez que era acionada; ao lado do alarme sonoro, a tradicional faixa “Com o Grêmio onde o Grêmio estiver”, sempre estendida e guarnecida por fiéis escudeiros; os corneteiros da social, sempre mais exigentes e pouco pacientes com o time; o pânico que se instalava na torcida quando o limitado Vilson ajeitava a bola na intermediária e todos gritavam “Não chuta, Vilson, não chuta!”; as imprecações contra o indefectível cotovelo do zagueiro Figueroa; o cheiro misturado de cigarro e cerveja; no verão, o picolé que já chegava líquido; no inverno, o café quente demais e o amendoim que era só casca e farelo; no final, os jornais queimados pela arquibancada e a volta a pé pela Azenha entupida de gente, rádio colado no ouvido e o passo apressado para não perder o último ônibus, lá na Avenida Ipiranga. No retorno à São Paulo, ficava sempre uma ponta de nostalgia até o próximo encontro com o Olímpico, que era sempre eletrônico. Numa volta à minha infância, antes do primeiro jogo, o Olímpico passou a ser uma imagem constante na minha TV.

 

Em outubro deste ano, resolvi me despedi do glorioso casarão. Convidei meus irmãos, residentes ainda em Porto Alegre, e alguns amigos daquelas jornadas, que hoje moram em Santa Catarina, para reviver parte da nossa adolescência e juventude. E lá fomos para a última aventura no templo azul. Como mascote da turma, um menino de 13 anos, filho de um amigo, com a camisa tricolor e a uma alegria incontida. Era seu segundo jogo no Olímpico e fiquei imaginando se sua empolgação era a mesma daquele menino no início da década de 70. Fomos para trás do gol do ginásio, à esquerda das cabines de rádio, ali exatamente onde estávamos há 35 anos, vendo André Catimba vencer Benitez e fazer história. Dali também vibramos com o gol do zagueiro Werley, no empate de 1 x 1 com o Santos. Não havia mais Pelé e Neymar não brilhou, até foi expulso. Mas tudo isso foi muito menos importante do que ver a emoção do menino, que, como outras gerações desde 1954, era renovada a cada quarta e domingo naquele verdadeiro santuário.

 

Tenho orgulho de ter vivido, no Olímpico, 20 de seus quase 60 anos de história memorável. Foi ali que o menino, adolescente e adulto forjou sua identidade de gremista, temperada nas vitórias e derrotas, como toda a grande paixão. É esse sentimento que levarei para a Arena e essa é a maior homenagem que posso prestar ao antigo estádio e legar às novas gerações que surgirão no moderno templo. Ainda que o antigo casarão não esteja mais lá, a alma e o coração de todos os gremistas das últimas seis décadas lá estarão. Imortal mesmo é a lembrança que não se apaga e o velho Olímpico de tantas cores, barulhos, frustrações e glórias continuará com sua chama acesa na memória de milhões de torcedores.

 

Da inauguração à despedida do estádio Olímpico

 

Por Milton Ferretti Jung

 

 

Conheci quando criança – nem me lembro que idade tinha – a primeira praça de futebol do Grêmio: o Estádio da Baixada ou, se preferirem os mais velhos, o Fortim da Baixada, situado na Rua Dona Laura, no bairro Moinhos de Vento. Meus amigos e eu, deixamos Higienópolis, onde morávamos, caminhando até a Baixada. Era um domingo e pretendíamos dar um jeito de entrar no Estádio. Queríamos ver o Grêmio jogar. O máximo que conseguimos foi espiar a partida por uma fresta. Eu, pelo menos, não voltei mais a ver o Grêmio atuar naquele local, cujo pavilhão de madeira foi cedido ao Força e Luz, dono do Estádio da Timbaúva, em troca do zagueiro Airton, de saudosa memória para os gremistas.

 

Minha carreira radiofônica começou em 1954,na Rádio Canoas, um pequena emissora, por coincidência, no mesmo ano em que o Presidente tricolor, Saturnino Vanzelotti via realizar-se o seu sonho de dar ao seu Clube um moderno Estádio, o Olímpico Esse, mais tarde, foi ampliado por outro dirigente: o Dr.Hélio Dourado. Uma das minhas primeiras tarefas, na Canoas, foi a de fazer a cobertura jornalística da inauguração do Estádio Olímpico. Há quem imagine que eu tivesse narrado o Gre-Nal, que havia sido o jogo escolhido para a festa inaugural, de má memória para o Grêmio. Eu era solteiro e ainda morava no bairro de Higienópolis. Casei e nos mudamos para bem bem perto do Olímpico, onde o Christian, meu caçula,ainda reside, isto é, na Rua Saldanha Marinho. O Mílton Jr., que jogou na escolinha de futebol do Grêmio e depois, passou 12 anos no basquete gremista, atuando do time infantil ao adulto, hoje âncora do Jornal da CBN, em São Paulo, no blog dele, sempre que o Grêmio joga, não deixa de escrever a “Avalanche Tricolor”. Nessa, não faz muito, lembrou, que considerava o pátio do Olímpico, uma extensão do quintal da nossa casa.

 

Neste domingo, Mílton e Lorenzo, um dos meus netos, mais Christian e Fernando, o filho dele, ambos que seguem morando na Saldanha Marinho, vão tentar acostumar-se a viver longe do novo e moderníssimo estádio gremista: a fabulosa Arena. Ficamos com dois corações, um deles triste, com a despedida do passado; o outro, alegre com o a praça de esportes do presente, que se inicia daqui a alguns dias.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Avalanche Tricolor: um abraço monumental

 

Flamengo 1 x 1 Grêmio
Brasileiro – Engenhão (RJ)

 

Abraço ao Olimpico from Fuca79 on Vimeo.

 

Acabo de assistir a mais um capítulo de FDP, seriado da HBO que tem um juiz de futebol no centro da trama, e mais uma vez o Grêmio é lembrado no roteiro de José Roberto Torero. Dia desses apareceu nossa torcida em sua avalanche e hoje um dos alunos, ao ser perguntado para que time torcia, disse que era gremista, único clube fora do eixo Rio-São Paulo a ser citado na sala de aula. As referências ao Imortal Tricolor apenas reproduzem na tela a percepção que temos do Grêmio na vida real, e a mobilização desse sábado, em Porto Alegre, confirma nosso sentimento. Na comemoração dos 109 anos, reunimos cerca de 25 mil torcedores, de acordo com informações do site Gremio.net, para dar um abraço no Olímpico Monumental, estádio do qual nos despediremos este ano. E o abraço foi muito além das expectativas, pois para um dia sem futebol no gramado, nossa torcida mostrou sua força ao comparecer em número que é mais do que o dobro da média de pessoas que têm visto os jogos do Campeonato Brasileiro. Não pude estar lá, mas a família esteve bem representada pelo Christian, Vitória e Fernando que fizeram questão de compartilhar conosco o vídeo acima.

 

Antes do seriado da HBO, assisti ao Grêmio enfrentar o Flamengo e empatar partida na qual tínhamos todas as oportunidades para vencer e encostar nos líderes, preparando o bote final à liderança. Fizemos um golaço após troca de passe que deixou clara a qualidade técnica de alguns de nossos jogadores e nosso potencial. E deixamos de fazer muito mais porque, às vezes, tenho a impressão de que falta uma fagulha para acender a alma de cada um dos que estão em campo. Aquela chama que o torcedor é capaz de provocar quando invade o Olímpico Monumental. Também não quero ficar aqui cobrando de uma equipe que tem se mantido em posição privilegiada nesta competição há muitas e muitas rodadas. Mesmo porque – e já escrevi sobre isso na edição anterior da Avalanche – temos de ter muita paciência para darmos o passo (ou seria o passe?) na hora certa, atingirmos o topo na rodada final, no jogo que marcará a real despedida do nosso estádio, na Azenha, quando, então, daremos um abraço monumental, um abraço campeão.

Aristóteles, Platão, Juvenal e o Itaquerão

 

Por Carlos Magno Gibrail

Que a democracia nasceu na Grécia todos sabem, embora muitos desconheçam que Aristóteles e Platão eram contra o regime do povo. Aristocratas, assim como Juvenal. Os intelectuais gregos não conseguiram barrar a democracia. Juvenal conseguiu.

Juvenal Juvêncio, presidente do São Paulo, clube originalmente democrata, encabeçou o retrocesso político. Aumentou o mandato enquanto presidente e usufruiu da própria mudança para se manter no poder durante três períodos então aumentados, alegando que o novo estatuto zerava o passado. A partir daí o enredo é similar a todas as ditaduras. Embora convencional por estar inserido no futebol. Atividade apaixonante, mas eivada de instituições autocráticas, com frios cartolas e vivida no momento de Copa do Mundo.

Juvenal após destratar o maior cliente tenta o confronto com Ricardo Teixeira e se dá mal. Fica sem Andrés Sanches, o cliente maltratado, sem a Globo, sem a FIFA e acreditando em Kassab e Lula.

A FIFA, que já sinalizara seguir o COI na preferência pelos BRICS quando fez a China, emergente poderosa, gastar fortunas , deixava claro o indício da estratégia de exigir os mais altos investimentos nos eventos a serem realizados. A Rússia na preparação para a Copa 2018 já faz os maiores gastos da história em preparativos. O estádio Luzhniki de Moscou, de acordo com o Estadão de domingo, cinco estrelas pela UEFA, terá que investir 2 bilhões de reais para atender a FIFA.

Juvenal somava aos desafetos o estádio do Morumbi, um entrave nas pretensões da FIFA e da classe política, ávidas por maciços gastos públicos. Restava apenas o trunfo da cidade de São Paulo, única capaz de receber a abertura. Eis que o “inculto”, mas certamente experiente Andrés Sanches, já habilitado nas lides com os russos e Kia, e, evidentemente apadrinhado pelo “iletrado” Lula, equacionam o Itaquerão. De graça para o Corinthians, o inimigo numero 1 do Juvenal.

Aristóteles e Platão, embora aristocratas, deram à humanidade seus conhecimentos. Juvenal perdeu a chance de fincar a bandeira da democracia nesta aristocracia do futebol. O esporte mais popular do mundo.

Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda e, às quartas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung