O futebol não quer você no estádio adversário

 

Gremio x Palmeiras

Torcida do Grêmio no Pacaembu, em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

Em um momento em que o futebol brasileiro tem conseguido mobilizar uma quantidade significativa de torcedores para os estádios —- e os “calculistas” podem me confirmar se a média de público tem aumentado, neste ano —- quero conversar com você, caro e raro leitor deste blog, sobre a dificuldade para se assistir aos jogos no estádio do adversário.

 

(ops: antes de seguir em frente, acabo de receber a confirmação do meu colega Paulo Vinícius Coelho: o público tem aumentado, a média está em 20.700 torcedores, a maior em 36 anos)

 

Nasci e fiz minha infância e adolescência quase dentro de um estádio de futebol. O quintal da casa em que morei, em Porto Alegre, era o Olímpico Monumental. Assistir aos jogos pelo interior do Rio Grande do Sul também não era um problema pois tinha o privilégio de chegar aos estádios na companhia da equipe de esportes da Rádio Guaíba, estivesse ou não com o meu pai. Os portões se abriam e na pior das hipóteses eu arrumava um lugarzinho na cabine da emissora.

 

Nos clássicos que eram disputados no Beira Rio a logística era parecida graças ao carinho com que a diretoria do Grêmio sempre concedeu ao meu pai. Assim, era fácil encontrar um diretor gremista que me acolhia e  me levava junto com o staff para o estádio adversário.

 

As coisas começaram a ficar mais complicadas aqui em São Paulo. Os primeiros jogos em que me arrisquei foi no Canindé, em época na qual a Portuguesa estava sempre disposta a pregar suas peças —- bons tempos aqueles, não é Luisinho! Foi lá, porém, que tive minha primeira decepção. Pois insisti em levar um dos meus filhos. A desorganização na fila do ingresso, a forma agressiva com que os cambistas nos abordavam e a violência de uma das organizadas fez com que ele me pedisse para nunca mais convidá-lo para aquele selvageria.

 

Tivemos algumas experiências, também, no Parque Antártica e no Morumbi —- nada muito convidativo, mesmo que os resultados em campo tenham sido positivos para o meu Grêmio. Aliás, antes mesmo de os meus meninos serem gremistas, fui ao Morumbi com eles para ver o São Paulo em campo e os maus-tratos foram tais que acabamos sentados nas cadeiras reservadas ao time adversário, que estavam completamente vazias.

 

Transformei-me em torcedor de televisão, especialmente depois do surgimento do paga-pra-ver. É mais fácil, mais seguro e mais confortável — mesmo que nada se comparece com o prazer de você pular na arquibancada, gritar até a voz se perder e comemorar abraçado a alguém do seu lado que você jamais viu na vida e jamais verá de novo, mas se identifica com você pela cor da sua camisa.

 

Nesta semana, muitos amigos não acreditaram que eu não assistiria ao Grêmio na Libertadores, no estádio do Pacaembu, em São Paulo.

 

Pense comigo: o trajeto até o estádio tem de ser feito de forma clandestina, porque se um louco qualquer identificá-lo com a camisa contrária, você corre o risco de ser agredido. Estacionar seu carro nas proximidades do estádio é uma façanha (e um achaque). O espaço destinado ao torcedor adversário é sempre o pior possível. Distante e em um canto qualquer, cercado de seguranças por todos os lados, oferecendo a sensação de que você é um terrorista prestes a explodir uma bomba. Ao fim da partida, você se transforma em refém, pois só pode deixar o local quando a polícia entender que está tudo em ordem do lado de fora. Ou seja, para um jogo que começa às nove e meia da noite, como foi o caso desse, você só vai voltar para a casa por volta de uma hora da manhã —- inviável para quem como eu acorda às quatro da matina.

 

Entenda, não estou aqui desmerecendo o sistema de segurança necessário para manter a ordem e os bons costumes em um estádio de futebol. Sei que a estupidez humana exige alguns limites. Mas chamo atenção para a necessidade de o torcedor adversário —- e aqui em São Paulo sempre sou o adversário —- também ser mais bem respeitado nos estádios de futebol.

 

Hoje, pensei em me organizar com a família e assistir ao Grêmio no sábado pela manhã, no Morumbi. O horário é ótimo —- mesmo que ainda me cause uma estranheza —- e o local é próximo de casa. Além de ver meu time, mesmo com os reservas em campo, ainda terei a oportunidade de acompanhar, ao vivo, a atuação de Daniel Alves, um dos maiores nomes do futebol mundial. Sim, eu gosto de ver craques jogando, apesar deles estarem do outro lado.

 

Aí surge a primeira decepção: na busca de ingresso, a informação que descubro é que a torcida visitante pode comprá-lo, mas “somente no dia da partida, na bilheteria 05 do portão 15”. Não fosse o fato de ser um dos mais caros, R$ 80,00, você tem de ficar sentado na arquibancada superior, a mais distante do gramado e sem direito a cobertura — torça para não chover no dia nem ter de enfrentar um sol escaldante.

 

Com todas as possibilidade de os ingressos serem vendidos on-line, difícil entender o motivo de oferecer como único serviço ao torcedor adversário a bilheteria e no dia da partida — o que nos leva a crer que haverá filas enormes e a possibilidade de entrar quando a bola já estiver rolando. Só uma coisa justifica essa atitude: convidar o torcedor adversário a ficar em casa e diante da televisão.

 

 

 

Conte Sua História de São Paulo – 464 anos: não era comum menina no estádio

 

Por Dalva Rodrigues

 

 

Uma das primeiras paixões na cidade foi o futebol. Desde menininha, ouvia meu pai contar histórias do time da empresa na qual trabalhava; das encrencas  e brigas que arrumavam. Dos jogadores viajando na carroceria do caminhão até o campo do adversário.

 


Já casado e com seus dois filhos, papai jogou e dirigiu o Anchieta Futebol Clube, time de várzea da Vila Liviero, onde morávamos. Domingo na periferia era  dia de futebol, de alegria, de almoços caprichados, e de sacos cheios de uniformes sujos, uniformes que minha mãe e minha avó lavavam e reclamavam.

 


Naqueles tempos não me interessava realmente pelo esporte. Achava estranho aquele jogo só de homens correndo atrás da pelota, mas fazia parte da vida de meu pai e eu observava esse gosto com carinho,  sempre atenta aos causos que contava.

 

Em 1974, já com 12 anos, apaixonei-me pelo Palmeiras, apesar de meu pai ser são-paulino. Não era comum mulheres em estádios nem mesmo meninas jogarem futebol. Mesmo assim sonhava ser goleira. E treinava para isso. Queria ser como o arqueiro Leão, um de meus ídolos na época junto com Ademir da Guia.

 


Lia tudo sobre futebol: A Gazeta Esportiva; o Almanaque do Zé Carioca para aprender as regras do jogo; dormia com o radinho de pilha ouvindo programas esportivos. Aprendi tudo sobre o esporte e passei a entender porque ele era uma paixão.

 

Nunca esquecerei meu primeiro passeio a um estádio de futebol.

 

Foi em um clássico: Palmeiras x São Paulo, no Morumbi, o Cícero Pompeu de Toledo. Perturbei muito meu pai para convencê-lo a me levar pois aquilo não era coisa de meninas.

 

Enfim, chegou o grande dia: era um domingo, pegamos o ônibus até o centro, caminhamos até o Vale do Anhangabau – onde filas imensas de ônibus esperavam os torcedores para os levarem até perto do estádio. O resto do caminho era feito a pé.

 


Descemos depois de uma bagunça saudável dentro do ônibus, sem sinal de violência ou palavrões. Esses eram guardados para o juiz e bandeirinhas. 

 

A multidão descia a avenida larga que não me recordo o nome… Meu coração que já batia forte acelerava ao ver o estádio enorme lá embaixo, crescendo cada vez mais a cada passada. Sentia-me como uma ave em um bando a cruzar os céus para chegar ao seu destino, livre e juntas.

 


Meu pai, como muitos torcedores, levava um rádio de pilha nas mãos. No caminho, ouvíamos Fiori Gigliotti, que apresentava o programa Cantinho da Saudade. A música ao fundo era Bailarina Solitária… Até hoje essa música me remete aquele pequeno trajeto cheio de emoções no coração de uma menina que veria pela primeira vez seu time jogar.

 


E a emoção continuou lá dentro. O medo do balanço do estádio que vibrava com os pulos da torcida na hora do gol. Água, cachorro quente, picolé de limão e amendoim com casca eram as opções, embora minha mãe tivesse preparado um lanchinho tipo piquenique para nós… Coisa de mãe, que na época me causou vergonha durante a revista para entrar no estádio, mas na hora que a fome apertou, agradeci.

 


Vi meu Palmeiras vencer por  2×1 o glorioso São Paulo do meu pai que ficou muito bravo quando eu o abraçava de alegria na hora dos gols do meu verdão.

 

Nesse dia, tive o privilégio de assistir a duas feras em campo, Ademir da Guia e Pedro Rocha. Eles não rolavam a bola, eles bailavam com ela pelo gramado verdinho rumo ao ataque, como namorados nos bailes de outrora conduziam as damas. Sublime!

 


E veio o apito final, a comemoração dos vencedores na casa do rival e a vontade de ficar ali, eternizar aquela sensação enorme de alegria.

 

Realizara meu sonho.

 


Calmamente fomos deixando as arquibancadas para trás, a fumaça e cheiro de churrasco das barraquinhas nos perseguindo.. Ao som dos passos apressados, fizemos o caminho de volta pela cidade semi-adormecida. Cada um rumo ao seu destino. Amanhã  cedinho seria mais um dia de trabalho na cidade.

 


Naquela noite nem dormi direito. Que domingo feliz! Cada detalhe se repetia em minha mente insistentemente. Guardei para sempre em minha memória aqueles momentos junto ao meu pai que já se foi, guardei com ternura e sinceridade no meu cantinho da saudade, como dizia o saudoso Fiori Giglioti.

 

Dalva Rodrigues é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é de Cláudio Antonio. Venha comemorar os 464 anos da nossa cidade: escreva a sua história para milton@cbn.com.br.

Avalanche Tricolor: sem exagero!

 

Cruzeiro 0x2 Grêmio
Gaúcho – Vieirão – Gravataí

 

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Miller e Ramiro marcaram os gols, foto de LUCASUEBEL/GrêmioFBPA

 

 

 

É exagerado este futebol, não?

 

O acanhado estádio da cidade de Gravataí, com direito a estacionamento logo atrás do gol e arquibancadas expostas ao sol intenso do verão gaúcho, tem, oficialmente, oito mil lugares. Dizem os registros que foi inaugurado em 2008 e batizado Antonio Vieira Ramos, um dos fundadores do Cerâmica, que alugou o local para o Cruzeiro, ex-Porto Alegre, levar suas partidas enquanto  espera a entrega do seu estádio próprio.

 

O fato de o estádio ser enxuto e ter dependências simples não impede de o pessoal da cidade chamá-lo de Vieirão. Soa quase como uma brincadeira entre amigos. Aliás, como fazíamos nos tempos de guri quando convidávamos os colegas para uma pelada no “Areião” ou no “Aterrão”, que nada mais era do que um pedaço de terra pura, com uma sequência de buracos a serem driblados a cada ataque e goleiras sinalizadas com pedaços de pau que, em todos os jogos, tínhamos de cravar novamente, porque um espírito de porco fazia questão de arrancá-los nos dias sem jogos.

 

O uso do aumentativo se disseminou com narradores esportivos que exageram na dose para compensar a baixa qualidade do espetáculo que transmitem pelo rádio e TV. Por exemplo, em toda minha vida vivida no Rio Grande do Sul e isso significa até 1990, só lembro de a competição estadual que disputávamos ser chamada por seu nome próprio: Campeonato Gaúcho. Hoje, quando sua importância é restrita, tem menos clubes e tempo de duração menor, é Gauchão.

 

Nada mais contraditório, porém, do que o apelido dado aos goleiros de futebol. Independentemente do tamanho do frango que engolem ou das falhas que cometem, todos invariavelmente são chamados de “goleirão”. Às vezes com ironia, mas na maior parte das vezes por mania.

 

Não vou entrar aqui em outro dos exageros comuns que cometemos ao falarmos de futebol que é o de transformar em craque qualquer um capaz de dar um drible a mais no adversário. Pode ser um passe de letra, uma pedalada sem sequência ou uma assistência que permita que o colega bote a bola para dentro, tudo isso já é suficiente para cutucarmos o amigo sentado ao lado na arquibancada: “bom de bola esse guri, bate um bolão que só vendo, heim!”.

 

Dito isso e colocando de lado os exageros, vamos a partida deste Sábado de Carnaval.

 

A vitória de 2 a 0, mesmo que não tenha tido desempenho capaz de agradar Renato, e é bom que seja assim mesmo, me marcou pelo desempenho de alguns de nossos jogadores:

 

Marcelo Grohe e suas defesas no primeiro tempo, especialmente a do pênalti, que convertido causaria um estrago tremendo, mais uma vez mostrou que é uma baita goleiro.

 

Miller com sua movimentação no meio de campo, distribuição de jogo e um golaço de fora da área quando o time não estava jogando lá essas coisas, deixou mais uma vez claro que é um baita jogador.

 

Ramiro com mais um gol na estatística, batendo de primeira a bola cruzada por Lincoln, tem se revelado um baita cara.

 

Tudo bem, não foi um jogão, mas podemos dizer que Grohe foi um goleirão, Ramiro bateu um bolão e Miller merece o título de o craque do jogo disputado no Vierão. Sem exagero!

Avalanche Tricolor: persistir na caminhada e resistir aos erros que são de todos

 

Palmeiras 2 x 1 Grêmio
Campeoanto Brasileiro – Pacaembu

 

Tenho saudades do estádio do Grêmio, não tenho saudades de qualquer outro estádio. Assistir ao futebol nas arquibancadas há algum tempo tornou-se martírio para o torcedor, especialmente na casa do adversário. Somos desrespeitados na fila da bilheteria, na qual o bilheteiro fica escondido atrás de grades. Somos desrespeitados na fila da catraca que costuma não funcionar como deveria e somente roda na mão do porteiro. Antes de entrar ainda somos expostos a revista policial, o que sempre me dá a sensação de que sou suspeito de algum crime que ainda não cometi.

 

Lá dentro, o rigor da segurança é esquecido. Jamais espere que a cadeira com o número de seu bilhete esteja livre, porque os assentos são liberados assim que os portões se abrem. E aí de você que reclame com o segurança que tem alguém sentado no lugar errado. Não posso fazer nada, diz sem pudor. Banheiros, lanchonete e informação decentes são raros. Está tudo errado no estádio, a começar pelo próprio estádio.

 

Os erros não param no parágrafo anterior. Tem ainda os do juiz anunciado como sendo padrão Fifa, mas que erra como erram os da várzea com a vantagem que não corre os mesmos riscos destes. Enxerga o jogo parcialmente, permite a provocação e pune a vítima. Desequilibra os nervos e a disputa. É impreciso na marcação e desigual na punição. Na noite deste sábado, ao ser ludibriado pelo adversário proporcionou a mudança no placar e prejudicou nossa subida na tabela de classificação em momento decisivo do campeonato. Pior, alguns de seus erros terão reflexo na próxima partida, pela suspensão de jogadores importantes.

 

Se o estádio tem seus erros e o juiz, também, não podemos nos eximir daqueles que são de nossa responsabilidade. Alguns cometidos pela falta de entrosamento de quem entra, especialmente no meio da área onde vínhamos mantendo constância invejável; outros que são apenas repetição do que já assistimos em partidas anteriores. Temos de ter paciência e capacidade para enfrentar adversários complicados tanto quanto para suportar os erros do árbitro. Nosso desejo incansável pela vitória e esforço para atender aos pedidos do técnico têm de ser controlado, não podem nos levar a excessos que nos prejudiquem. Entendo a obsessão pela vaga na Libertadores que nos guia; não podemos, porém, perder o norte desta caminhada que nos trouxe até aqui. Assim temos de persistir e resistir à provocação do adversário, ao erros dos juízes e aos nossos, também.

 

E gol da Chapecoense!

Conte Sua História de SP: Itaquera, a capital do mundo

 

Por Daniel Sena Serafim
Ouvinte da rádio CBN

 

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Lembro-me como se fosse hoje, eu e minha família residíamos no bairro de Artur Alvim, em 1989 ainda criança por volta dos 7 anos caminhava de mãos dadas com minha mãe à beira da Av. Radial Leste próximo ao metrô Corinthians – Itaquera. Ela fanática por futebol, apontou para uma planície cheia de morros e mata irregular dizendo: “Olha filho, aqui um dia será construído o estádio do Corinthians, imagine como ficará grande e bonito”.
Ainda criança, tentava imaginar como seria este lugar, quando o estádio fosse construído, pequeno, porém com a imaginação fértil de uma criança imaginava um castelo, grande e bonito onde os jogos seriam realizados. Mas como a infância em uma periferia reserva particularidades adversas e estatísticas, logo tive que abandonar a imaginação e interagir com a realidade. Aos 13 anos já começaria a trabalhar e a estudar, mas o gosto pelo esporte e o afeto pelo local onde morava continuaram, como também uma espécie de lenda urbana, ouvida e reproduzida pelos populares que insistiam em dizer: “É lá em Itaquera, do lado do metrô que vai ser construído o estádio”.

 

A mídia especulava e alimentava este imaginário ao passar das décadas, eu continuava a me lembrar do que minha mãe havia dito a mim quando criança. Entre tantos encontros e desencontros da realidade de uma periferia, um belo dia, leio no jornal sobre a candidatura do Brasil para sede da Copa do Mundo de Futebol da FIFA de 2014 e a possibilidade da construção de um estádio em Itaquera para o Sport Clube Corinthians Paulista, sendo o palco do jogo de abertura da Copa do Mundo e me pergunto com um sorriso travado no canto na boca: “Será?”.

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Conte Sua História de SP: levei meu pai pela primeira vez ao estádio

 

Por Clarindo Oliveira

 

 

Ouça aqui a história do ouvinte Clarindo Oliveira que foi ao ar no Conte Sua História de São Paulo

 

Como tantos outros meninos, lá pelos meus 7 ou 8 anos, escolhi o time que iria torcer pelo resto da minha vida. Por influência do meu pai e do meu irmão, decidi ser palmeirense. Decisão fácil. No começo dos anos 70, o time era fantástico! Era a famosa Academia. O Verdão ganhava tudo: Campeonato Paulista, Brasileiro, torneios internacionais. Enquanto isso, o nosso rival amargava quase 20 anos sem nenhum título.

 

Minha estreia como torcedor num estádio foi em 1977 no Morumbi. Era um torneio chamado Taça Governador de São Paulo. Foram dois jogos numa noite só: “Ex-Time da Marginal sem número” versus “Time da Vila” e Palmeiras versus Atlético de Madrid. Nosso time tinha Leão, Jorge Mendonça, Edu. E Ademir da Guia, é claro. Muitos diziam que ele era lento, ultrapassado. Pura dor de cotovelo. Ele estava sempre onde precisava estar. Seus passes eram precisos. Dava ritmo ao time. Um verdadeiro maestro! Do time espanhol, eu só conhecia um “tal” de Luís Pereira. O placar foi 1 x 1 e depois perdemos nos pênaltis. Na rodada seguinte, os espanhóis se sagraram campeões.

 

Além de admirar o Divino, muita coisa me encantava. A começar pelo fato de que 3 grandes torcidas dividiam pacificamente o mesmo espaço num Morumbi lotado. Todos sentados lado a lado. Diziam que havia mais de 100.000 pessoas naquela noite. Num dado momento, começou um coro lá do outro lado do estádio e eu aderi na hora: “Ôôôôôôô, Ôôôôôôô”. Dizem que a torcida “daquele time” trouxe um leitão pintado de verde e o lançou arquibancada abaixo. Isso eu não vi mas, na verdade, o coro era “Porcoooo, Porcoooo”!

 

Mal sabia que eu e toda a nação alviverde seríamos atormentados por aquele apelido por muitos anos… Até que, num lance de mestre, a nossa torcida decidiu adotar o simpático animal como um de seus mascotes.

 

Passemos a Janeiro de 2007. Meu pai, já com mais de 80 anos, passou o fim de semana comigo. Ao levá-lo para casa, ele me disse que não estava reconhecendo o caminho de volta. Foi quando parei na Avenida Sumaré e peguei sua camisa do Palmeiras e disse: “Pai, estamos indo ao Parque Antarctica para ver um jogo”.

 

Ele, que nunca havia entrado um estádio, balbuciou umas poucas palavras, dizendo que já estava velho e que o joelho não aguentaria subir as arquibancadas. Que nada! Ele cantou, xingou e vibrou muito quando o Verdão de Marcos, Edmundo e Valdivia marcou o único gol da partida contra o Santo André.

 

Guardo aquele domingo com muito carinho no coração. Pelos poucos anos que ainda esteve conosco, meu pai sempre falava com muito orgulho que seu filho o levou para assistir uma partida de futebol. Eu via em seus olhos a alegria de um sonho realizado. Tenho certeza que ele via nos meus o sentimento de missão cumprida.

 

Clarindo Oliveira foi o personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é de Cláudio Antonio. Participe deste programa enviando textos para mundocorporativo@cbn.com.br ou agende entrevista em áudio e vídeo no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.com.

Fora da Área: quem diria, o Itaquerão virou Arena na Copa

 

 

Vestido para a Copa, a Arena Corinthians deixa de ser Itaquerão. É a primeira impressão que se tem com a proximidade do estádio que foi desenhado com arquitetura diferente da que estamos acostumados. Os velhos campos de futebol e as novas arenas têm, em sua maioria, linhas arredondadas com arquibancadas, cadeiras e camarotes sobrepostos em várias circunferências. À distância, desde o estacionamento onde o ônibus fretado nos deixou, a arena, que visito no dia em que Uruguai e Inglaterra se enfrentaram pela segunda rodada do grupo D do Mundial, lembra um ginásio poliesportivo muito grande. Há os que brincam dizendo que se parece com uma impressora caseira. A medida que nos aproximamos, entendemos melhor a estrutura entregue poucas semanas antes do início do Mundial e que causou tanta polêmica seja pela necessidade, seja pelo custo, seja pelas mortes (aliás, não encontrei nenhuma referência a estes que perderam a vida durante a obra). O material usado é de primeira linha e o telão na área externa, que dá as boas-vindas aos torcedores se destaca pela tecnologia. Os métodos e processos implantados são marcas da construção que quase não percebemos mas que que se tornam fundamentais para oferecer qualidade e modernidade ao ambiente. Já ouvi falar do ar condicionado que deixa a grama na temperatura ideal e a manterá em condições para não se errar um só passe – como brincou há algum tempo o ex-atacante Ronaldo. Disseram-me, ainda, que os vestiários são excepcionais com área suficiente para pequeno campo de treinamento, o que dará mais conforto e eficiência ao aquecimento pré-jogo.

 

Sob a direção da Fifa, impressiona mesmo a quantidade de funcionários e voluntários e a forma como se esforçam para melhor atender ao público. Talvez por ter cara de gringo ou devido ao vermelho britânico do casaco que vesti para enfrentar o frio da quinta-feira passada, em São Paulo, muitos arriscaram palavras em inglês enquanto outros preferiram a mímica em lugar do diálogo. Todos, porém, eram bastante solícitos e se não eram capazes de dar uma resposta logo procuravam alguém que resolveria a dúvida do visitante. Mesmo aqueles com cara de segurança sabiam ser simpático e talvez por isso são chamados internacionalmente de “steward” palavra que em inglês pode ser traduzida também como mordomo, o que de certa maneira mostra mudança de conceito em relação aos brutamontes de terno e gravata pretas que geram medo em lugar de respeito na maioria dos eventos. O sorriso no rosto não é suficiente, porém, para fazer as filas do banheiro e dos bares andarem mais rápido do que os ponteiros do meu relógio que mostravam faltar mais de 30 minutos para entrada das seleções no gramado quando encarei a primeira delas. Banheiro em estádio é quase tudo igual diante do comportamento dos torcedores mais entusiasmados que gritam, riem e dizem bobagens típicas de homens em bando. O da Arena Corinthians ao menos é bonito e, aparentemente, limpo. Espero que resista assim quando ocupado apenas pelas nossas torcidas. As atendentes da lanchonete, assim como a maioria dos funcionários, oferecem simpatia na falta da maioria dos produtos que aparece na tabela de preços. Cerveja, refrigerante e água têm de sobra. Tudo feito e tudo servido, nesta ordem, volto para minha cadeira já com a bola rolando. Entrada das seleções, hinos entoados e apito inicial ficam para a próxima.

 

Assistir ao jogo em estádios construídos com a concepção de arena é um privilégio que havia tido há quatro anos quando fui ao Green Point, na Cidade do Cabo, uma das cidades-sede da Copa do Mundo na África do Sul. A sensação foi muito parecida pois a arquitetura coloca o torcedor próximo do campo, independentemente do lugar que você sentar. “É imagem Full-HD”, brincou meu companheiro de torcida. Bem verdade que as arquibancadas provisórias, que serão retiradas assim que a Copa se encerrar, além de quebrar a harmonia visual, não parecem oferecer o mesmo conforto dos demais espaços. Ficaram muito altas, distantes e sem cobertura. Devia fazer frio demais lá em cima, porque próximo do gramado a temperatura já era suficientemente baixa. Os dois telões são muito úteis e consultados a qualquer lance pelos torcedores. É uma pena que para restringir a pressão sobre o árbitro os momentos mais polêmicos são censurados pela Fifa, diferentemente do que acontece na televisão. Já a imagem revelando os torcedores faz a festa de todos os presentes. Outro destaque na Arena da Copa é a mistura de brasileiros, uruguaios e ingleses que nos dá a ideia de civilidade, sempre ausente nos jogos locais. Havia setores dominados pelos azuis e dominados pelos vermelhos, mas o colorido das arquibancadas sinaliza que a convivência é possível na Copa. Temo que isto jamais se repita após o Mundial. A experiência se completou pelo acesso que tive ao centro de imprensa e ao salão das entrevistas coletivas, no qual desfilei por escadas e portas largas com piso de mármore. A acessibilidade me chamou atenção e a facilidade com que os torcedores entram e saem das arquibancadas, também. O estádio se esvazia rapidamente e com segurança. Demorado é o caminho de volta para casa, devido a enorme distância de Itaquera ao centro de São Paulo, sem falar de outros bairros nas zonas Sul e Oeste da capital paulista.

 

Assim que a Copa passar, o Corinthians retoma o local e boa parte da estrutura de atendimento será desfeita, tanto quanto as arquibancadas provisórias. Muitas obras precisarão ser concluídas, dentro e fora da Arena. Agora, com certeza, seus torcedores assistirão aos jogos com muito mais conforto e precisão e terão bons motivos para se orgulhar. Espero que as torcidas organizadas e o nosso futebol desorganizado não desperdicem esta oportunidade e permitam que o Itaquerão continue sendo a Arena Corinthians (ou a Arena de São Paulo, como batizou a Fifa).

Avalanche Tricolor: eu fui ao estádio

 

Portuguesa 0 x 0 Grêmio
Brasileiro – Estádio do Canindé (SP)

 

 

Fui ao estádio. Faço a confissão logo no início desta Avalanche quase como um pedido de desculpas a mim mesmo. Porque ir ao estádio é um desrespeito que nos impomos em nome do clube que aprendemos a gostar. Neste domingo, especialmente, em nome de uma tradição (?) que começou há três anos: assistir ao último jogo da temporada do Grêmio.

 

Desta vez, o encontro estava marcado para o Canindé onde já estive em anos anteriores, portanto sabendo o que me esperava. Estacionar o carro é simples. Comprar o ingresso, razoavelmente fácil, ao menos em partida de pouco público. Verdade que a pequena janela com grade, pela qual você é atendido, faz o bilheteiro se parecer mais um prisioneiro. Não sinta pena dele, porque, em seguida, você será submetido à revista pelo PM e terá a sensação de que é um parente prestes a visitá-lo na cela. Parte das catracas eletrônicas funciona manualmente e metade está desativada. Irônico, porém, é ter em mãos um bilhete com número da fila e assento – B 22, no meu caso – e descobrir, assim que chega ao local, que não passa de uma pintura no cimento – escolhi a última fileira, “cadeira” 13, na sombra. O estádio está mais cuidado do que das vezes anteriores. Lamentei apenas pelo sumiço do funcionário que era responsável pelo rudimentar placar no alto da torre. Espero que ele tenha se qualificado para fazer manutenção no telão que agora registra o resultado da partida.

 

A Geral do Grêmio estava presente e entrou no estádio quase no fim do primeiro tempo, devido aos necessários cuidados com a segurança, com charanga, faixas, gritos de apoio e subindo no alambrado. Um certo tom de desrespeito, mas até bem comportada levando em consideração os absurdos que vimos em outros jogos pelo Campeonato Brasileiro. São marcantes na arquibancada por sua força, mas a maior parte dos torcedores que vai ver jogo fora de casa é formada por gente que mora longe do Rio Grande e aproveita a oportunidade para matar a saudade, como eu. Havia muitos pais com seus filhos, alguns assistindo a um jogo pela primeira vez, como Matheus, com quem até tirei fotografia ao lado (e o pai dele vai ter de me mandar a foto para publicar), que ganhou o ingresso de presente de aniversário. Dadas as circunstâncias da partida, o skate que havia ganhado um dia antes vai lhe render mais emoções. Ele, assim como todas as crianças presentes, se não tiveram muitos motivos para se manterem acordadas até o fim nesse domingo, pelo menos estão aprendendo a torcer por um time que não se contenta em ser coadjuvante nas competições que disputa e tem uma obsessão: jogar Libertadores da América. É isso que justifica a cantoria entoada ao fim da partida, mesmo com desempenho tão comedido diante de um adversário que também entrou em campo disposto a não correr riscos.

 

O Grêmio, aos trancos e barrancos, termina o Campeonato Brasileiro como vice-campeão e capacitado a planejar o título continental no ano que vem, quando eu estarei novamente na torcida e disposto a assistir, no estádio, ao último jogo da temporada de 2014. De preferência no Marrocos.

Das redes, dos estádios e das ruas

 

Nei Alberto Pies
professor e ativista de direitos humanos.

 

É impossível dissociar o momento festivo da Copa das Confederações que se realizou no Brasil das manifestações cívicas e cidadãs por melhoria de condições de vida dos brasileiros. Embora recorrente a tese de que o futebol pode servir de “amnésia do povo”, devemos nos perguntar diante de fatos relevantes que envolveram o esporte e a cidadania no Brasil. Seguem as perguntas: a) a Copa das Confederações e a Copa do Mundo são as nossas vilãs no Brasil? (ou serviram como parte do pretexto para os jovens e estudantes verbalizarem seus sentimentos de abandono, desmando e desconsideração por parte da nossa classe política? b) dá para imaginar (ou ignorar) o Brasil sem a cultura do samba, da boa acolhida e hospitalidade, do jeitinho brasileiro e do futebol? c) qual seria a grave consequência política no Brasil se a nossa seleção tivesse perdido os jogos? d) que lições o Brasil pode tirar da postura do treinador e de seus jogadores em campo pela Copa das Confederações e da postura dos muitos brasileiros que saíram às ruas clamando mudanças?

 

Os brasileiros reinventaram-se pelas redes sociais. A sedução inicial da internet “anestesiou”, não por muito tempo, os anseios e as necessidades mais imediatas e concretas de nossa geração jovem. Era o tempo do descobrimento, do encantamento. Passado este tempo, as redes sociais chamaram as ruas para a “verbalização” dos descontentamentos generalizados. Que coisa bem boa e bem feita!

 

Os jovens descobriram que o poder das ruas é mais eficiente do que o poder das redes. Mas não precisavam ter-se revoltado contra o nosso futebol, porque o poder também está no futebol. O futebol brasileiro reflete as nossas diferenças, as nossas potencialidades, os nossos talentos, a nossa criatividade. O futebol é um dos espetáculos brasileiros que representam muito do nosso povo, de sua postura e de sua vontade de vencer e apresentar-se ao mundo. O esporte é o lugar da superação, da disciplina, da projeção pessoal e coletiva, do descortinar das possibilidades.

 

O Brasil sai desta Copa e das manifestações totalmente revisado. Todos nós estamos fazendo novas e importantes interpretações do nosso modo de ser, pensar e agir brasileiros. Os jovens que, corajosamente ocuparam lugar nas ruas descobrem-se sujeitos políticos, mas descobrem também que não podem desconsiderar as posições políticas e partidárias que já fazem a nossa democracia, pois democracia não se faz sem partidos (mas também não somente com eles). Nossa classe política percebeu que precisa estar mais atenta aos clamores das minorias, dos jovens, dos trabalhadores e de todos aqueles que historicamente foram os mais esquecidos e mais sacrificados. O nosso povo começa a se acordar para permanecer em vigilância pelas práticas decentes que nos façam superar a endêmica corrupção que corrói a política brasileira. Aprendemos, ainda, que não podemos criminalizar quem luta, de forma pacífica, desde sempre, por mais cidadania, democracia e direitos humanos no Brasil, a partir das ruas.

 

Os brasileiros, no futebol, nas redes e nas ruas, descobrem-se novos sujeitos, capazes de reinventar a sua história e os destinos de seu país. Os estádios e as ruas sempre foram, essencialmente, espaços de construção de identidade, de cultivo de bons valores humanos e espaço para viver e experimentar os melhores relacionamentos.

 

Se o Brasil redescobre o poder das ruas, redescobre também o poder que tem o esporte e o futebol. Redes sociais, ruas e futebol podem ser sempre lugares democráticos para a gente avançar a partir das ideias e dos ideais da maioria dos brasileiros. A Seleção Brasileira foi, nesta Copa, o reflexo dos potenciais da nossa nação. Jogou com coerência, espírito colaborativo (de equipe) e respeito aos seus adversários. Sigamos, pois, jogando pela cidadania, pelos direitos humanos e pela liberdade de sermos o que sonhamos ser.

 

As grandes vaias

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

 

As vaias que Blatter e Dilma receberam no sábado resultaram em infinitas análises. As ciências humanas foram requisitadas para explicá-las. Um exagero!

 

A vaia nos estádios sempre foi usada para desaprovar os intrusos ao espetáculo que viria. Simples assim! Nos anos 1970, no auge do futebol brasileiro, o estádio do Morumbi com 100 mil torcedore,s duas horas antes do inicio do jogo, recebeu equipes de futebol formadas pelas coelhinhas da revista Playboy, “vestidas” a caráter. A ideia de entreter não funcionou. Foram recepcionadas com uma vaia e um coro fenomenal: “queremos homens, queremos homens…”.

 

O Morumbi fizera o que Nelson Rodrigues preconizara para o Maracanã, quando afirmava que lá se vaiava até mulher nua. Não antes de ter dito num programa da TV Rio uma frase que se tornou antológica. Quando se comentava que o Marechal Castelo Branco teve seu velório no Clube Militar anunciado pelos alto-falantes do Maracanã pedindo um minuto de silêncio antes do jogo América x Botafogo, e o Maracanã inteiro vaiou. Ao que Nelson comentou: “O Maracanã é implacável, vaia até minuto de silêncio”.

 

O torcedor que vaiou Blatter e Dilma faz parte do público da pesquisa do Datafolha que constatou que 77% apoia a Copa e naquele momento queria mesmo é assistir à partida Brasil x Japão. Entretanto, parte deste mesmo público da pesquisa, fora do Mané Garrincha, dava seu recado aos políticos e seus desmandos. As passagens reajustadas era apenas um pretexto inicial. E o movimento tomou uma seriedade respeitável. Um movimento sem um líder único e sem um inimigo específico, mas com a cara de um Brasil atualizado. De repente o país do futebol, está se transformando com a ajuda das mídias sociais na democracia a caminho da República ideal.

 

Por isso que o incessante barulho de helicópteros durante horas na noite de terça-feira não me impediram que o humor aflorasse ao passar em frente ao Palácio dos Bandeirantes, ontem pela manhã, e lesse o cartaz empunhado por uma bela jovem remanescente da ação: “Acorda Brasil”.

 

Também na terça-feira foi anunciado que R$ 400 milhões de dinheiro público federal seriam creditados ao estádio de Itaquera para se somar aos R$ 420 milhões que a Prefeitura de São Paulo já tinha doado. Na próxima semana, a PEC 37 será votada, quando correremos o risco do Ministério Público ser esvaziado. “Acorda Brasil”.

 

Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Milton Jung, às quartas-feiras.