Mundo Corporativo: Denis Peres, CEO da Nadir, fala do desafio de combinar 114 anos de história com inovação e expansão internacional

Denis Peres, CEO da Nadir
Denis Peres no estúdio de podcast da CBN Foto: Priscila Gubiotti/CBN

“É prioridade o nome do jogo.”

Em cinco anos, a participação das exportações na receita da Nadir passou de 8% para 20%. A empresa, que completou 114 anos em agosto, vende para mais de 100 países e pretende ampliar a presença internacional sem perder a identidade construída no mercado brasileiro. O desafio de combinar tradição, inovação e execução foi tema do Mundo Corporativo, da CBN.

Denis Peres, CEO da Nadir, contou que a empresa começou consertando máquinas de datilografia, produziu artigos para iluminação, porcelana e vidro manual até se tornar líder no mercado de utilidades domésticas de vidro no Brasil e na América Latina. Segundo ele, a companhia é hoje a quarta maior do setor no mundo.

A mudança de controle ocorreu em 2019, quando a empresa deixou de ser familiar e passou a ter o fundo americano H.I.G. Capital como principal acionista. Peres, primeiro CEO de fora da família, afirma que a transformação não exige apagar o passado. Exige reconhecer o que continua valioso e identificar o que precisa mudar.

“Eu acho que o primeiro ponto é realmente honrar e entender quais são as fortalezas que a empresa sempre teve.”

Ao mesmo tempo, a tradição não pode virar dogma. Empresas longevas acumulam conhecimento, reputação e vínculos com o consumidor. Também podem carregar certezas que já perderam a validade. Um dos desafios que enfrentou foi quando a Nadir identificou uma oportunidade na categoria de potes de vidro, impulsionada pelo aumento do consumo de refeições levadas de casa.

A ideia enfrentou resistências internas, baseadas em dificuldades operacionais e tentativas anteriores que não haviam funcionado. A discussão foi retomada, profissionais que já conheciam o problema foram reunidos ao lado de pessoas capazes de formular novas perguntas. O resultado foi o lançamento, no ano passado, de uma nova linha de potes, que será ampliada.

“O diálogo aberto e o respeito mútuo, ele sempre supera esse tipo de divergência.”

O mesmo princípio aparece na renovação do Copo Americano. Criado pela Nadir em 1947, o produto recebeu o nome porque começou a ser fabricado em uma máquina americana. O desenho, porém, é brasileiro. Mais de 7 bilhões de unidades foram vendidas ao longo da história. Para acompanhar novos hábitos, a companhia transformou o copo original em uma família de produtos, com outros tamanhos, potes e versões decoradas.

Dados aproximam a marca do consumidor

A experiência acumulada ajuda a empresa a conhecer seu público, mas já não basta. Mudanças nos hábitos de consumo, no tamanho das famílias e nas dimensões das moradias ocorrem com maior velocidade. Por isso, a Nadir ampliou a coleta de informações em tempo real e o uso de dados na tomada de decisões.

O reposicionamento recente da marca foi precedido por pesquisas presenciais com consumidores próximos e distantes da empresa. Peres disse que essa escuta mostrou uma mudança importante: as pessoas pensam menos apenas no produto e mais na ocasião em que pretendem usá-lo.

Essa leitura orientou a mensagem “Onde tem Nadir, tem presença”. A comunicação procura recuperar histórias e memórias afetivas já associadas aos produtos. Em uma das iniciativas, consumidores foram convidados a contar sua relação com a marca; alguns relatos deram origem a pequenas séries documentais e a visitas às casas dos participantes.

Para o executivo, publicidade sem correspondência na experiência perde força. “O consumidor é muito eficiente e inteligente. Ele entende quando não tem autenticidade no que você está falando.”

A expansão internacional começou há mais de duas décadas, mas ganhou velocidade nos últimos anos. A empresa tem fábricas no Brasil e na Colômbia e concentra os esforços de crescimento em sete ou oito mercados, embora mantenha vendas para mais de 100 países.

A escolha depende do tamanho do mercado, da competitividade da empresa e dos segmentos em que pode atuar. Também requer disposição para adaptar o portfólio. O Copo Americano, um dos símbolos da Nadir no Brasil, por exemplo, não ocupa posição central nos Estados Unidos, onde os consumidores preferem copos maiores.

“Você tem de ter humildade de entender que não pode simplesmente aplicar o que funciona no Brasil ou na Colômbia, que são as duas operações que a gente tem fábricas hoje, em outros mercados.”

Os Estados Unidos estão entre os principais destinos da companhia. Segundo Peres, as vendas no país cresceram mais de 30% no ano passado, e a avaliação da empresa é que ainda há espaço para manter um ritmo expressivo nos próximos anos.

Clareza antes da execução

Inovação, exportações, eficiência comercial, cadeia de suprimentos e marketing disputam recursos e atenção. O papel da liderança, segundo Peres, é definir quais iniciativas podem produzir maior impacto no menor prazo e com menos esforço. Depois da escolha, a equipe precisa executar sem reabrir a mesma discussão a todo momento, salvo quando surgirem fatos novos.

“É procurar fazer o simples que tem mais impacto. Quanto mais simples, melhor.”

A meta da Nadir para este ano é crescer 10%. O executivo considera o objetivo desafiador para uma companhia madura e para um setor igualmente maduro. Ainda assim, identifica espaço no Brasil: em número de unidades, o consumo por pessoa no país seria próximo da metade do registrado nos Estados Unidos e na Europa.

A inteligência artificial começa a apoiar a análise de dados de consumidores e clientes, a identificação de oportunidades de crescimento e algumas etapas da produção. Peres ressalta que a Nadir trabalha no “mundo dos átomos”, transformando matérias-primas, como areia, em objetos de uso diário. A tecnologia entra como ferramenta para melhorar decisões e processos, sem alterar a natureza industrial do negócio.

A síntese da estratégia está menos na busca pela ideia perfeita e mais na capacidade de decidir, executar, aprender e corrigir. Para uma empresa com mais de um século, o passado oferece raízes. O futuro, porém, continua exigindo movimento.

Assista ao Mundo Corporativo

O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã, pelo canal da CBN no YouTube. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN, e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. Você pode ouvir, também, em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Carlos Grecco, Letícia Valente, Rafael Furugen, Débora Gonçalves e Priscila Gubiotti.

De contração e expansão


Por Maria Lucia Solla

Céu de São Paulo

Ouça De contração e expansão na voz e sonorizado pela autora

Dinheiro e poder não transformam, não corrompem, mas têm o poder de revelar, como se revelavam as fotografias há pouco. Revelam nossa essência, deixam à mostra o que se instalou em nós, da educação que recebemos na família, e da influência da escola, de amigos e da vida; ao longo dela.

Poder e dinheiro fazem um raio X da personalidade e a exibem para o mundo, imprimindo seus ingredientes em cada gesto, palavra, atitude, ação e reação. Nos põem do avesso.

Quando chegam, dinheiro e poder soltam as amarras que limitam os passos, que impedem de experimentar a receita sofisticada, o par de sapatos de grife, o eletrônico da hora, que surge todo dia, toda hora. É com o aval da chegada deles que tratamos ou destratamos o outro, ao sabor de alegria e frustração. É através da lente deles que respeitamos ou desrespeitamos o vivente do lado, o da frente, de trás, e libertamos ou subjugamos, com o mesmo aval dado por eles.

Falo disso porque canso de ouvir que matéria é passagem para o inferno, que dinheiro é sujo, que muda a cabeça da gente. Canso de ouvir que fulano ficou besta depois que enricou. Ficou besta, não; já era. Só tem mais coragem e mais liberdade para ser quem verdadeiramente é.

Não há o que nos transforme, sinto pelo informe. Nada; nadica de nada. Nem melhorar, nem piorar. Fomos longe demais acreditando na cartilha passada de geração em geração, comportamental e oralmente, feito telefone sem fio, e não paramos para avaliar o passado, o hoje, o presente, o agora. Fomos longe demais, sempre correndo atrás da vida, sem alcançá-la, por medo dela. Queremos o prazer, e disseminamos frustração.

Nada fora pode nos mudar. Só o que transforma o homem, é ele mesmo, ouvindo o coração, afastando pensamento que faz o corpo contrair e acolhendo o que o faz expandir; que faz sorrir, que faz achar que vale a pena continuar.

Se quisermos, sorriremos mais e mentiremos menos; e quando isso acontecer, o sol vai acordar cedo no verão e dormir, preguiçoso, no inverno. O amor vai vencer o medo. O ser humano vai viver feito abelha e formiga, cuidando junto, do bem-comum.

Quando isso acontecer, ninguém mais vai se lembrar de que houve um tempo em que culpa e medo eram arma, quando a gente vivia se queixando do odor das flores do mal. Quando isso acontecer, o dever e o prazer terão pesos iguais. E eu sorrio só de pensar, e meu corpo se expande.

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza curso de comunicação e expressão. Aos domingos, escreve no Blog do Mílton Jung