De cappelletti

Por Maria Lucia Solla

Olá,

Cappelletto, é palavra italiana que quer dizer chapeuzinho. E cappelletti é seu plural. Chapéu me leva a um dito americano que diz: Lar é onde você pendura o chapéu. Agora, não dá para enveredar por essa via de raciocício sem pensar na minha tia e nos seus capeletes que, ao menos na minha família, são sinônimo de tia Inês.

Cobertos de magia, eles atraem a família toda. No dia de Natal, é batata! Quero dizer capeletes, que caem como carinho, no estômago espancado pelo pupurri da véspera.

Minha tia junta gregos e troianos em volta da mesa, desde sempre. Chegam pelos olhos, ficam pelo estômago, e acabam deliciosamente presos nas teias do coração. Para mim é o verdadeiro Natal. Escapo da noite onde o que se espera são os presentes, e o resto é pura consequência.

Maria Lucia e a Tia Inês

Na casa da minha tia chegam todos. Filhas, genros, netas, netos e uma bisneta. Agregados também são bem-vindos, e eu e meus filhos, quando calha de estarmos por perto.

A tia se prepara com antecedência. Recheia e molda cada capelete. Reune e une a família. Seu calendário gastronômico envolve também a Sexta-feira Santa, com “o” bacalhau, e a cada data festiva do calendário gregoriano ela alimenta e reforça as raízes da árvore da família.

E a as raízes da árvore da sua família, como são reforçadas?

Pense nisso, ou não, e até a semana que vem.

Ouça “De Capelletti” na voz da autora.

Maria Lucia Solla é terapeuta e autora do livro “De Bem Com a Vida Mesmo Que Doa”, publicado pela Libratrês. Aos domingos, nos serve um cardápio de reflexões.

Desperdício

Por Abigail Costa

O dia seguinte ainda está por vir, mas o pensamento já acabou com ele. Na nossa memória-agenda finalizamos nossos compromissos. Dez, doze horas, resumidas em poucos minutos. Nesse tempo ocupado por tarefas que deverão chegar, deixamos de cumprir aquelas que estão diante de nossos olhos.

Desperdício de momentos.

Foi embora aquele instante que seu filho lhe contava como foi emocionante o jogo de futebol na escola, mas por estar envolvido com o dia seguinte você não se permitiu prolongar a conversa – limitou-se a um … Que bom !!!!

Não percebeu um olhar mais provocante do companheiro, perdeu a chance de um carinho no começo da noite por estar mergulhada no dia seguinte.

Estava envolvida demais nos emails, não ouviu a piada ingênua em família, deixou escapar a chance de uma boa gargalhada.

Deixou de saborear o tempero do jantar, já pensando que o café da manhã deverá ser feito em poucos minutos por causa do trânsito.

Desperdício de situações rotineiras. Que têm um prazo de validade – deveria ser consumido naquela hora. Depois, perde o interesse, o tesão, a graça, o sabor.

Desperdício de momentos.

Neste caso, tentar recuperar é inútil.

Aproveitar o tempo é uma poupança para a vida toda, sem arrependimentos.

Não é preciso esperar pelo dia seguinte, ele sempre vem.

Abigail Costa é jornalista e aceitou o convite para transformar em texto pensamentos que consolaram amigos e construíram amizades.