Avalanche Tricolor: o que ganhamos nesta Quarta-feira de Cinzas?

Ypiranga 0x0 Grêmio

Gaúcho – Colosso da Lagoa, Erechim/RS

Gustavo Nunes em foto de Guilherme Testa/GREMIO FBPA

Quero ganhar sempre! Na vida e no futebol. Quero ganhar até no toss — como chamávamos antigamente o sorteio que acontece antes de a partida se iniciar para escolher “bola” ou “campo”. Jogar com o que houver de melhor disponível, portanto, será sempre minha opção. O fato, porém, é que minha única responsabilidade em relação ao clube pelo qual torço é de torcer, torcer e torcer. E torcer para ganhar! 

Quem precisa administrar o clube, gerenciar o elenco, planejar a temporada e selecionar prioridades não pode pensar como um torcedor. Sua responsabilidade é muito maior. Extrapola o resultado de uma partida de futebol. Tem de pensar a longo prazo. Fazer escolhas e identificar prioridades. 

Diante disso, não condeno a decisão do Grêmio e seus gestores para a partida da noite desta quarta-feira, em Erechim, cidade que fica há cerca de 370 quilômetros de Porto Alegre. De ônibus, uma viagem com mais de cinco horas de duração. Um desgaste físico que não condiz com a prioridade do resultado na oitava rodada do Campeonato Gaúcho. 

Considerando o que nos interessa em 2024 e o próprio regulamento da competição que disputamos, que classifica os oito primeiros colocados de 12 participantes à fase seguinte, manter o time principal retomando o fôlego e treinando por mais tempo, em Porto Alegre, faz todo o sentido. 

Ao torcedor que quer ver seus principais jogadores em campo e vencer sempre e a todo custo, resta ter paciência. Esperar os momentos decisivos para cobrar desempenho mais apurado, esforço redobrado e resultados condizentes com a história do clube. 

Foi, assim, com complacência que assisti à disputa desta Quarta-feira de Cinzas, no Colosso da Lagoa. E, apesar de mais um empate, que nos mantém na segunda colocação do campeonato e invictos a sete jogos, saí da partida com a expectativa de que a “maquininha” de fabricar ponteiros esquerdos segue ativa pelos lados de Humaitá. Depois de Pedro Rocha, Everton, Pepê e Ferreirinha, fomos apresentados a Gustavo Nunes. 

O atacante tem apenas 18 anos, nasceu no litoral paulista, e chegou no clube em 2021. Foi destaque no ano seguinte na campanha de finalista do Grêmio no Campeonato Brasileiro Sub-17. Em 2023, conquistou o Campeonato Gaúcho Sub-20. Fez sucesso na Copa São Paulo de futebol júnior, em 2024, com três gols e duas assistências em seis partidas disputadas. 

No jogo passado, partiu dos pés dele a assistência para o gol de empate do Grêmio. Hoje, só deu Gustavo Nunes: encarou a marcação forte, demonstrou habilidade no trato da bola e se impôs aos adversários com velocidade. Mais não fez porque estava cercado de colegas que estão aquém do seu futebol, sem contar a nítida falta de entrosamento.

Saímos de Erechim com apenas um ponto a mais na tabela de classificação, e a esperança de que ganhamos mais um atacante. E eu quero ganhar sempre! 

Avalanche Tricolor: muito mais do que uma vitória!

Grêmio 3×2 Flamengo

Brasileiro – Arena do Grêmio, Porto Alegre/ RS

Há momentos que fazem a história de um time. Há outros que os colocam em seu devido lugar. O Grêmio esteve nesse limiar, nesta noite de quarta-feira, em Porto Alegre. No seu pior momento no campeonato, deparou-se com seu maior algoz dos últimos anos. Em campo, não contava com toda sua força, começando pela ausência do principal reforço e quarto maior goleador do mundo, Luis Suárez. Nas arquibancadas, enfrentava um torcedor desconfiado.

Mais do que a performance em campo, a vitória era essencial para mostrar ao Brasil a grandeza do nosso futebol. Uma derrota nos relegaria ao oitavo lugar da competição, além do risco de entrar em uma espiral descendente sem retorno. E foi diante dessa iminência que se desencadeou uma reação surpreendente para quem vinha observando o time perder força, principalmente na segunda metade do Brasileiro.

Em 10 minutos, jogadores que vieram do banco, ainda muito jovens e sem a experiência das estrelas que brilhavam pelo adversário, revitalizaram o futebol gremista. Demonstraram uma desenvoltura que não se via durante quase toda a partida, muito menos nas anteriores.

O gol de empate veio dos pés de Ferreirinha, alvo de reclamações da torcida há algum tempo. O da virada foi de Nathan Fernandes, que, com apenas 18 anos, teve a audácia de enfrentar os grandalhões dentro da área e chutar cruzado para marcar. O gol da vitória veio de André, com apenas 21 anos, através de um chute seco e certeiro. Em todos os gols, a presença marcante de Villasanti, que lutou incansavelmente e se posicionou à frente para colocar seus companheiros em condições de marcar.

O resultado de hoje representa muito mais do que uma simples vitória. Mais do que apenas interromper uma incômoda sequência de derrotas para o mesmo adversário. Mais do que o fim de uma série de deslizes que nos afastaram do topo da tabela. O 3 a 2 desta noite evidencia que o Grêmio reconhece sua grandiosidade na história do futebol e honra a marca que o consagrou: a da Imortalidade!

Avalanche Tricolor: a culpa é do Grêmio

Flamengo 1×0 Grêmio

Copa do Brasil – Maracanã, RJ/RJ

Suárez em destaque na foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

O ano era para ser mediano. No Brasileiro, estar no meio da tabela, no máximo na primeira página como costumamos nos referir aos que aparecem entre os dez primeiros classificados, seria suficiente. Na Copa do Brasil, cada etapa vencida seria bem-vinda — no mínimo, um pouco mais de dinheiro para pagar as contas. 

Foi então que o Grêmio decidiu trazer Luis Suárez — o terceiro maior goleador do mundo em atividade. O cara fez três na primeira partida. E a cada jogo revelava uma qualidade técnica para a qual não estávamos preparados — e entre nós muitos dos nossos jogadores. Seguiu marcando gols, dando assistência para os seus companheiros, e proporcionando jogadas de uma inteligência acima do normal. Sua camisa 9 virou orgulho imortal!

Bastaria Suárez para o ano já ser considerado acima da média. Mas teimamos em vencer o Campeonato Gaúcho — o que, convenhamos, “virou goleada”. Novos jogadores se juntaram ao grupo. Os “abominados” foram embora a conta gotas, sem muito trauma. O elenco ganhou qualidade apesar de restrito. Nem mesmo uma sequência de lesões que nos tirou alguns dos melhores, impediu que o time encontrasse soluções para superar seus adversários.

Na Copa do Brasil, vencemos jogos nos minutos finais. Viramos resultados fora de casa. Tiramos da cartola gols que nos permitiram ir para o tira-teima dos pênaltis. E chegamos à semifinal, a despeito dos prognósticos.

Em paralelo, os favoritos marcavam passo e nós, passo a passo, nos aproximamos do G4 do Campeonato Brasileiro. Entramos no seleto grupo da elite do Brasileiro e por lá ficamos. Mesmo com um jogo a menos do que os principais adversários, estamos agora em terceiro e disputando a vice-liderança. 

Nem sempre o jogo foi bonito. Nem sempre jogamos bem. Nem sempre havia espetáculo. Às vezes, uma derrota ou um empate azedo tentavam nos empurrar a crueza da realidade, como se questionando nossa condição no campeonato. Os demais resultados mesmo assim teimavam em nos iludir. Nos fazer acreditar. 

A partida dessa noite de quarta foi a síntese da temporada até aqui. 

A postura do nosso time no lotado Maracanã e contra uma equipe milionária e protegida deu a entender que havia chances de uma virada histórica. Suárez e seus companheiros estavam mais próximos e mais intensos do que no primeiro jogo da semifinal. Chegou-se à frente do gol. Reduziu-se parte dos riscos do ataque adversário. E quando não se tinha sucesso na marcação, Grando foi grande novamente com defesas importantes. 

O Grêmio nos fazia acreditar mais uma vez. Até que a bola bateu na mão de nosso zagueiro e o árbitro entendeu que era pênalti —- apesar de termos tido lances semelhantes a nosso favor, nesta mesma Copa do Brasil, e o VAR e o juiz terem interpretado de forma contrária. Contrária ao Grêmio. 

Era a realidade se impondo. Não bastava jogar acima do esperado, não bastava superar seus próprios limites. Precisava ser maior do que tudo e de todos. Não conseguimos. Sentimo-nos frustrados. E a culpa deste sentimento é, única e exclusivamente, do Grêmio. Porque o Grêmio sempre nos faz acreditar. Sempre tenta ser mais. Sempre está no jogo. 

Independentemente do que a realidade queira escancarar para nós, Grêmio, eu sempre acreditarei!

Avalanche Tricolor: alucinações de um torcedor

Grêmio 0x2 Flamengo

Copa do Brasil – Arena Grêmio, Porto Alegre/RS

Reprodução de ClicRBS, foto de André Avila/Agência RBS

Um a zero no primeiro; dois a zero, no segundo tempo. E Grando resolve na cobrança de pênaltis. O roteiro para mais uma virada histórica do Imortal, no Rio de Janeiro, já está escrito no coração do torcedor gremista — aquele que lotou a Arena e cantou e cantou e cantou mesmo após o apito final de uma partida em que perdemos por dois gols de diferença e tivemos de jogar mais de meia hora com um jogador a menos contra o time mais rico e poderoso do Brasil. 

Para quem ainda precisa de mais uma pitada de alucinação, pouco antes de o jogo se iniciar, leio no ex-Twitter de Edu Cesar, titular e editor do @PapodeBola, uma frase clássica de Armindo Antonio Ranzolin, um dos maiores narradores esportivos que o rádio gaúcho já teve: eu disse que acreditassem, eu pedi que acreditassem, eu nunca deixei de acreditar” — o grito do locutor foi proferido ao fim do título da Libertadores da América, em 1983, e virou estrofe de música dos Engenheiros do Hawaii.

Quem me convence de que deparar com essa lembrança em um tuíte (ou agora se chama “xiste”?) sem pretensão, escrito sei lá por qual motivo, não seja um sinal dos céus para apaziguar o coração angustiado deste torcedor que lhe escreve, caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche. 

Acabo de ver meu time ser derrotado em casa,  sair atrás na decisão da vaga à final da Copa do Brasil e perder seu principal zagueiro e capitão, Kannemann, por “duplo” cartão amarelo — aplicado por um árbitro que foi pouco criterioso na distribuição das punições —, no início do segundo tempo, o que lhe tira da próxima partida, no Maracanã. Tudo isso acontecendo em uma noite na qual o futebol gremista pouco apareceu, com exceção dos 20 primeiros minutos de jogo quando Suarez tentou mais uma vez aquele gol antológico à longa distância e Villasanti desperdiçou um gol frente a frente do goleiro quando o placar ainda estava zerado. 

A persistirem os sintomas de alucinação desta Avalanche, pode começar a levantar uma estátua para Gabriel Grando, porque iremos agradecer muito a ele por ter defendido um pênalti ainda no primeiro tempo do jogo de hoje. Será graças aquela defesa que nos habilitaremos a cometer mais um desvario no futebol brasileiro, nos classificando à final contra todos os prognósticos e crenças.

Avalanche Tricolor: o dia em que a bola fez um trato com o Diabo!

Flamengo 3×0 Grêmio

Brasileiro – Maracanã, RJ/RJ

Suárez em mais uma tentativa de ataque, em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Tem dia que não entra. E o dia foi hoje. Foram 25 chutes em direção ao gol — quase o dobro do adversário. Foram oito chutes no gol — o dobro do adversário. Luis Suárez fez de tudo um pouco. Driblou, serviu, lutou e atacou. No segundo tempo, quando já mancava de um das pernas, mesmo sob forte marcação, chutou de primeira de fora da área e a bola bateu no poste de um lado, correu sobre a linha e bateu no poste do outro lado. Na sequência, mais um lance do nosso time, e a bola se chocou no travessão. Já havíamos testado por baixo, por cima, de fora e de dentro da área. Quando não era um poste, havia um zagueiro. Quando não tinha zagueiro no meio de caminho, era o goleiro a impedir nosso gol – convenhamos, é para isso que estão lá.

Tem dia que não entra. E o dia foi hoje. Ao contrário do adversário que o que fez, fez bem. Nós fizemos muito. No primeiro tempo, menos. No segundo, mais. Nem assim fomos capazes de abrir o placar a nosso favor. Sair do Maracanã com um empate já teria sido lucro, considerando a pressão do estádio, o embalo do time da casa e o gramado mal acabado. Seria suficiente para nos manter entre os quatro primeiros antes da parada de 10 dias da competição. Não conseguimos. Perder estava na conta, também. Ninguém imaginava que seria fácil. Não precisava ter sido com esse placar elástico.

Assim como tem dia que não entra, tem árbitro que não ajuda. Pior, atrapalha! É caseiro. Passa pano para os de casa, pune com rigor o forasteiro. Eu não daria o pênalti reclamado, em que a bola bate na mão do zagueiro. Mas várias vezes, fomos vítimas dessa interpretação. Erraram contra nós nas vezes anteriores. Não erram a nosso favor ou contra eles. Faz parte do jogo e a gente sabe que o jogo tem de ser jogado assim. 

Além disso, precisamos aceitar que neste campeonato também ganhamos partidas sem ter o mesmo volume de jogo do adversário.Portanto, ganhar ou perder é da vida. O importante é entender o que pode ser aproveitado daquilo que fizemos no Maracanã, investir mais para consertar os erros de marcação, aprimorar o acabamento das jogadas e torcer para que tenha sido hoje — e apenas hoje — o dia em que a bola fez um trato com o Diabo.

Avalanche Tricolor: forjados pelas batalhas e aflições, não desistiremos jamais

Grêmio 2×2 Flamengo

Brasileiro – Arena Grêmio, Porto Alegre/RS

Ferreirinha em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Se é de batalhas e aflições que queremos escrever essa jornada de 2021, o capítulo desta noite foi escrito a contento. Diante do mais caro time do futebol brasileiro, de uma crise técnica poucas vezes vista e de um silêncio retumbante na nossa Arena – pela punição imposta à torcida que assistiu a alguns alucinados invadirem o campo rodadas atrás -, sofremos dois gols já no segundo tempo e vimos o rigor do árbitro punir com expulsão um dos nossos atacantes. A derrota seria inevitável e desistir de lutar a única opção, não estivéssemos falando de um clube que já nos propiciou alguns dos mais impossíveis resultados da história do futebol.

Como se algo estranho ao campo da bola transcendesse a razão, o passe que foi inseguro durante quase todo jogo chegou preciso ao pé de Ferreirinha – que já havia recebido todo tipo de bola, mas sem conseguir finalizar de forma correta. Nosso ponteiro esquerdo, que em toda a partida arriscava dribles sem sucesso, livrou-se de três marcadores e deu o presente que Borja, recém-entrado no time, mais esperava. Nosso centroavante com um carrinho empurrou a linha do VAR para longe e a bola para as redes. 

As possibilidades de levar ao menos um ponto deste jogo ainda eram pouco consideradas pelos críticos quando mais uma vez o sobrenatural protagonizou. Ferreirinha, incansável. Ferreirinha, insistente. Ferreirinha, que há algumas partidas vem tentando sem sucesso marcar gols após desconsertar seus adversários, desta vez cortou uma, duas vezes e colocou a bola fora do alcance do goleiro, estufando as redes e empatando a partida.

Os matemáticos e pragmáticos seguem céticos às nossas chances de escaparmos da Inominável a quatro rodadas do fim do campeonato. Passarão os dias falando de percentuais, projeções e possibilidade de queda. Da impossível tarefa de construir no fechamento da temporada o que não fomos competentes de fazer ao longo de todo ano. Tomados pela lógica, se esquecerão que fomos forjados nas batalhas e nas aflições. E delas nos alimentaremos para persistirmos até o fim lutando pela presença na elite do futebol brasileiro. 

Avalanche Tricolor: carta ao meu amor!

Flamengo 0x1 Grêmio

Brasileiro – Maracanã, RJ/RJ

Borja em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Amor,

Há momentos na nossa vida que são muito especiais. Fazem cicatrizes em nosso coração. Não como aquelas provocadas por feridas de tropeços, erros e pecados. São marcas que ficam para nos lembrar a todo instante o quão feliz fomos naquelas experiências. Para não nos deixar desanimar diante de percalços e questionamentos que irão acontecer —- e como têm acontecido, na maioria das vezes por minha culpa, minha tão grande culpa, como dito no ato penitencial que faço em todas as missas dominicais.

Esses mesmos momentos que cicatrizam o coração, todas as vezes que os enxergamos no retrovisor de nossas vivências, induzem nossa memória afetiva e nos fazem reviver as emoções, acelerar o batimento no peito, arrepiar os pelos da pele, lacrimejar os olhos e sorrir de forma incontida. Ah, como você foi gigante ao me proporcionar cada uma dessas sensações, amor! 

Nestes dias, vivenciei essa montanha russa ao seu lado, mesmo que você sequer tenha percebido, afinal estava inebriada — merecidamente inebriada —- pela peculiaridade da semana que se encerrou.  Uma semana especial na sua vida, porque sabemos o quanto você preza pelo dia de seu aniversário. E assim deveria ser para todos e sempre. Para cada um de nós. Se a humanidade tivesse noção de como é importante brindarmos pelos instantes de alegria que temos, não ergueria um copo de vinho sequer sem agradecer a Deus pelo que Ele nos proporciona.

Aprendi com você que essas vitórias precisam ser celebradas, a despeito de ainda potencializar tanto a dor das derrotas. Sou um péssimo aprendiz, confesso. Tivesse absorvido as lições que você me ensinou nesse tempo todo em que estamos juntos, provavelmente seria um humano melhor. Seria alguém mais grato a tudo que a vida me ofereceu, a começar por estar ao seu lado.

Não, não sou merecedor sequer de parcela dessa dedicação que você me prestou ao longo deste tempo. Seja como for, estou aqui a agradecer por tudo que você me propiciou. Pelo amor que você compartilhou. Pelas alegrias e frutos que me deixou experimentar. 

Esteja onde eu estiver — nunca se sabe que lugar da arquibancada o destino me reservará —, saiba que sempre estarei aplaudindo suas vitórias, consolando suas derrotas e admirando seu jeito de ser.

Obrigado por existir, meu Amor!

(esta carta, claro, escrevo para minha mulher que comemorou mais um ano de vida, no dia 15 de setembro; mas, pensando bem, tem destino perfeito para o time do meu coração que aniversariou no 16 de setembro e voltou a me proporcionar a alegria da vitória, neste domingo)

Avalanche Tricolor: porque foi assim que aprendi a ti gostar

Flamengo 2×0 Grêmio

Copa do Brasil – Maracanã, RJ/RJ

Kannemann em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Sou gremista, não por agora. Sou gremista de nascença. Quem já conversou comigo, leu minhas palavras ou ouviu minhas conversas sabe muito sobre isso. E se começo a Avalanche reforçando essa ideia é porque muitos devem imaginar que momentos como esse que estamos enfrentando são suficientes para nos afastar daquilo que aprendemos a gostar. Quem viveu o que vivemos, não esmorece. Não se micha como dizem lá pelas nossas bandas. 

Na noite de ontem, mesmo diante do desastre da primeira partida, do time alternativo levado a campo, das carências de qualidade e talento, do poder financeiro e político do adversário —- que teve o privilégio de levar torcedores para o estádio e esfregar na nossa cara, sem máscara, o desrespeito aos quase 590 mil mortos por Covid-19  — , lá estava eu na torcida mais uma vez. Porque é assim que nos tornamos gremistas. Acreditando sempre, mesmo que não haja por que acreditar.

Posso lhe garantir, já foi pior. Muito pior. E se você, caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche, for gremista como eu, sabe do que estou falando. Hoje, sofremos mais porque ficamos mal acostumados com a performance, resultados e títulos dos últimos anos. Tivemos um time de excelência e de futebol exuberante poucas temporadas atrás. E quando olhamos em campo, ainda vemos alguns resquícios desse passado recente: alguns cambaleando e outros apenas como um desenho mal esboçado do que foram. Tem até mesmo talentos em potencial, que não conseguem se expressar.

Nada disso … nem a bola mal tratada, nem a gestão mal acabada, nem as derrotas acumuladas, … nada disso me demove do desejo de torcer pelo meu Grêmio. De acreditar no meu Grêmio. De sofrer desta paixão. Por isso, a despeito do que esteja acontecendo, do que aconteceu na noite desta quarta e do que acontecerá em seguida, cá estou a ratificar este amor e a desejar-lhe um feliz aniversário, Grêmio!

Avalanche Tricolor: minha cadeira azul

Grêmio 0x4 Flamengo

Copa do Brasil — Arena Grêmio

Minha cadeira azul fica ali ao lado da tela da televisão, onde assisto a todos os jogos de meu time. É o lugar que encontrei para jamais esquecer o Grêmio que já fomos. O metal frio do assento ondulado e do encosto curvado teve sua cor recuperada; o número que a identificava no anel superior do Olímpico Monumental, também: J-104 aparece na cor branca sobre o fundo preto. Quando a recebi de presente —- generosidade de meu irmão, Christian —- logo pensei nos milhares de torcedores que a usaram ao longo de sua vida útil no saudoso estádio. Quem sabe até eu tenha sentado nela em um domingo qualquer de futebol. 

Foi em cadeiras azuis como essa que forjei minha paixão pelo Grêmio. E você, caro e raro leitor desta Avalanche, não tem ideia de como ela  moldou minha personalidade e meu caráter. De quantas vezes saltei sobre ela com os dois pés para comemorar o gol impossível e a virada improvável. De quantas vezes, me ajoelhei diante dela para não ver o desastre que se avizinhava. De quantas vezes, escondi minha cabeça sobre o assento para que meus colegas não me vissem chorando a derrota sofrida.

Foi em uma dessas cadeiras azuis e de ferro frio que suportei anos a fio sem um título estadual. Foi nela que, ao lado de meu pai, vibrei como nunca com o gol de André Catimba, naquele Gre-Nal histórico de 1977. Dela presenciei a conquista da América na batalha final contra o Peñarol. Foram elas, as centenas e centenas de cadeiras que ornavam de azul o setor das cativas do velho estádio, que me uniram a amigos, serviram de assento para conversas animadas e aninharam alguns amores platônicos que minha timidez impedia de revelar àquelas torcedoras que vestiam a camisa tricolor. 

Hoje, foi para a cadeira azul, ao lado da televisão, que olhei, ao fim da partida. Em silêncio, enquanto absorvia o que acabara de acontecer no gramado de Humaitá, perguntava a ela onde está o meu Grêmio, aquele que não temia qualquer adversário por mais forte que fosse; que mesmo quando o futebol não se expressava pela qualidade, se superava na força e na coragem? O que aconteceu com a nossa Imortalidade, que um dia nos permitiu ascender de divisão com apenas sete jogadores em campo? Que já nos fez virar placares de forma inimagináveis? Que me fez ter orgulho de meu time mesmo em momentos de derrota?

Com a frieza típica do ferro, que se tornava mais penetrante ainda quando exposto ao inverno do Rio Grande do Sul, a cadeira azul nada me disse. Porque nada há para dizer em um momento como esse. E o melhor que ela pode fazer é ficar ali, parada, servindo-me como uma memória do que fomos, lembrando-me que, a despeito de já termos passado por momentos dramáticos, encontramos forças para nos recuperar. E soubemos reescrever a história.

Avalanche Tricolor: não vai deixar saudades

Bragantino 1×0 Grêmio

Brasileiro — Nabizão, Bragança Paulista/SP

Foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Cuspida e escarrada! A última rodada foi a cara do Campeonato Brasileiro, que, ao longo da temporada, desdenhou a gravidade da pandemia, teve jogos suspensos devido a “contaminação em rebanho” em alguns times, jogadores expostos a risco e traduzindo essa apreensão no campo com performance abaixo da esperada, estádios com arquibancadas vazias e com aglomeração de torcedor do lado de fora.

O Covidão-2020, apelido que meu amigo Juca Kfouri deu ao campeonato, terminou sem direito a gol do título. O campeão perdeu na partida final, marcando uma campanha claudicante o suficiente para superar em pontos ganhos todos os demais adversários. Quem poderia ser campeão em lugar do campeão, não foi capaz de vencer mesmo jogando em casa e contra um time que nada mais tinha a ganhar. Quase ganhou, mas o VAR impediu que a injustiça fosse concretizada, primeiro em um pênalti sinalizado pelo árbitro, que voltou atrás ao ser chamado para rever na televisão, ao lado do campo, e depois em dois gols marcados em posição de impedimento, que foram anulados com o certificado do VAR.

Quem diria, depois de uma competição em que faltou verificação do VAR, houve erros com o apoio do VAR e descobrimos que o VAR só funciona se estiver bem calibrado, foi o VAR quem salvou a lisura do resultado nos acréscimos do Campeonato. Nesse caso, justiça seja feita, o auxiliar sinalizou a irregularidade do gol e se não foi agredido — como ameaçaram alguns jogadores — deve agradecer ao VAR que ele, aos gritos, anunciava que seria consultado.

Sem gol do título, sem torcida, sem futebol qualificado e com Covid-19, o Campeonato Brasileiro terminou com o mesmo campeão da temporada anterior. Ou seja, enfrentamos toda essa maratona para entregar o título ao mesmo time. Pode isso, Juca?

E se estou aqui a falar de dois jogos que não tinham a presença do Grêmio, protagonista de sempre nesta Avalanche, é porque nada tenho a registrar do desempenho do meu time na rodada final da competição.

O Campeonato Brasileiro de 2020, que já vai tarde, não me deixará saudades.