Expressividade: uma relação sem fim

 

Hoje publico o último episódio desta série com textos do capítulo “Santo de casa não faz milagre, mas tem expressão”, escrito para o livro “Expressividade — Da teoria à prática” (Revinter), organizado pela fonoaudióloga Leny Kyrillos, em 2005. É minha homenagem a fonoaudiologia e em referência ao Dia Mundial da Voz, que foi comemorado em 16 de abril, quando iniciei a publicação dos textos. Para ler o capítulo completo, acesse o link no pé deste post. Eles estão em ordem decrescente:

 

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ESTAS FONOAUDIÓLOGAS INCRÍVEIS E SUAS MARAVILHOSAS LIÇÕES!(2)

 

 

Na era pós-Glorinha de minha vida, descobri que este mercado, além de dominado pelas mulheres, tinha muita gente bem preparada que atuava com “amor, persistência e sensibilidade” —- palavras consideradas mágicas pela protagonista do livro “O que é ser fonoaudióloga – memórias profissionais de Glorinha Beuttenmüller”. Encontrei profissionais familiarizados com as características específicas do jornalismo ou daqueles que usam a voz como ganha-pão. Eram pessoas que não cuidavam apenas da fala, mas da alma, também. Muitas vezes as sessões eram ocupadas para contar casos pessoais ou histórias da redação, mais do que discutir diretamente o que deveria fazer para corrigir este ou aquele problema na comunicação. Mesmo porque as dificuldades na fala, algumas vezes, estão ligadas a questões emocionais.

 

É fundamental que a fonoaudióloga tenha excelente ouvido, capaz não apenas de perceber pequenos detalhes do som que emitimos, mas auscultar nossos sentimentos. Uma das experiências que tive em fonoaudiologia me mostra esta verdade de maneira mais crua. Por motivos que não saberia avaliar claramente quais foram, a relação que mantive com uma profissional contratada pela emissora de televisão em que eu ainda trabalhava foi das mais ruidosas. Não era exatamente pelo fato de ela fumar entre uma sessão e outra —- o que sempre pareceu uma contradição, mas o que eu tinha a ver com isso? Talvez tenha sido as inúmeras proibições que me foram impostas: “não beba, não fale, não …. e mais não”. Certo mesmo é que algo aconteceu — ou deixou de acontecer — entre nós que me levou a transformar cada sessão fonoaudiológica em uma avaliação da empresa. Parecia-me que todo encontro seria decisivo para meu futuro naquele emprego. Novamente somatizei na garganta a insegurança profissional e, impreterivelmente, na véspera de cada atendimento, minha voz sumia. Como o tratamento não flui fui recomendado a procurar uma profissional que não estivesse ligada à empresa e pudesse me receber com mais frequência. Foi daí que parti para minha terceira experiência.

 

Não sei quanto deste artigo poderá ser útil a você que lê neste momento. No entanto, se servir para que pelo menos uma fonoaudióloga pare para repensar seu comportamento sempre que estiver atendendo um empregado da empresa da qual ela é contratada, estarei realizado. Preste atenção se sua imagem —- e escrevo especificamente para as fonoaudiólogas —- não está sendo confundida com a do chefe do departamento ou diretor da fábrica; se sua postura naquela sala, sentada diante de um funcionário, não está muito mais parecida com a do patrão. Faça-o entender que o trabalho que está sendo realizado naquele momento, não é benefício da empresa, mas dele próprio.

Seja parceira do seu paciente.

Como já disse, estava na hora de encarar a terceira fonoaudióloga da minha vida. Na verdade, a terceira e a quarta, porque no mesmo consultório trabalhei com duas profissionais que não atuavam em emissoras de rádio e televisão, mas com conhecimento profundo do uso da voz no jornalismo. Passei por avaliações minuciosa a partir da aplicação de métodos de análise acústica e espctográfica, pela primeira vez. Aprendi exercícios para relaxar as cordas vocais e aquecer a garganta antes de iniciar uma locução. Alguns já conhecia e, para os novos, fui apresentado. Coisas como fazer sons semelhantes a mantras ou abrir e fechar a boca articulando exageradamente as vogais, que quando feitos dentro do carro a caminho da redação provocavam, nos mais próximos, estranhos olhares. Azar dos bisbilhoteiros. Soubessem eles os benefícios que sentia a cada movimento, fariam o mesmo, e, chegando ao trabalho, poderiam conversar com colegas em um tom “aveludado”, mais sedutor.

 

Mais importante, contudo, não foram os exames e exercícios, mas a liberdade que ganhei. Até começar esta etapa com as novas fonoaudiologia tudo era proibido. Eu seguia à risca a recomendação de não falar ao telefone, fechar a boca em locais barulhentos, ficar quieto dentro do carro da emissora, eliminar bebida gelada de meu cardápio, entre outras restrições. E nada resolvia. Perda de tempo, porque assim que me ensinaram que era possível fazer quaisquer dessas atividades —- convenhamos, algumas prazeirosas —- desde que com moderação, o tratamento passou a dar resultados positivos.

 

Falar sob estresse é parte da rotina de um jornalista de rádio e televisão. As restrições a que estava submetido, no entanto, aumentavam esta pressão psicológica, atingindo o ponto mais sensível de um profissional da voz — a própria. Pesquisas mostram a relação entre distúrbios da voz e a dificuldade para lidar com situações de estresse. Minha experiência pessoal serve bem para ilustrar estes estudos.

Ao abrir mão das restrições impostas, mas confiando minha palavra na moderação de meus atos, consegui atingir um ponto de equilíbrio.

Desde aquele momento, tornei-me grato às fonoaudiólogas. Entendi sua importância no processo de comunicação e passei a lamentar a falta das mesmas na maioria das redações brasileiras, principalmente as de rádio. É inacreditável que um veículo que tenha no som sua principal característica, tão pouca atenção dê à capacidade vocal de seus profissionais. É verdade que houve avanços neste processo. A locução radiofônica também ganhou tom coloquial e a forma de apresentar passou a ser vista com a mesma importância que o conteúdo. Há emissoras de rádio, como a CBN, em que os locutores obrigatoriamente são jornalistas. Não bastando mais ter um vozeirão. É preciso entender a notícia para transmiti-la com correção. Ao mesmo tempo, exige-se que este jornalista tenha recursos vocais, como articulação dos sons precisa e sem exageros e modulação e intensidade da voz coerentes como o que está sendo noticiado. Fatores que garantem o interesse do ouvinte, informam de maneira precisa e transmitem credibilidade. Apesar disso, você dificilmente verá uma fonoaudióloga com o crachá de uma emissora de rádio, a não ser que seja de visitante.

 

Minhas relação com as fonoaudiólogas nunca mais se encerrou. Fui e voltei aos consultórios tantas vezes entendi ser necessário. Lá estive para resolver problemas circunstanciais de rouquidão e, também, para encontrar o tom certo nesta ou naquela forma de transmissão. Em alguns casos para aumentar a velocidade da locução de notícias. Em outros, para ganhar confiança na apresentação dos programas. Procurei até mesmo para achar a nota certa no grito de gol. Não foi sempre que saí de uma sessão com o problema resolvido. Até hoje busco um recurso melhor para determinadas situações. O que apenas reforça a minha tese de que estas profissionais deveriam estar integradas ao corpo funcional das empresas de comunicação, assim como estão locutores, repórteres, redatores e editores — o que, faça-se justiça, já ocorre em algumas emissoras de televisão no Brasil, como é o caso da TV Globo.

 

Não estranhe o fato de ter citado apenas o nome de uma fonoaudióloga ao longo deste trabalho. Não é esquecimento ou injustiça deste que escreve. Primeiro, não é meu objetivo fazer críticas pessoais. Segundo, cada uma das profissionais das quais fui paciente vai encontrar —- se é que me darão o prazer da leitura —- um ponto aqui e outro acolá que deixarão evidente a importância dela na minha formação. Identifiquei apenas Glorinha Beuttenmüller por ser a pioneira na terapia da voz nos meios de comunicação.

 

Glorinha se aproximou de uma redação de telejornal no início da década de 1970. Sérgio Chapellin, já citado em capítulos anteriores, estava completamente rouco. Consta que o problema seria resultado da pressão psicológica provocada por ter de substituir na apresentação um dos maiores nomes do rádio e da televisão brasileiros, Heron Domingues, que se consagrou como locutor do “Repórter Esso” e depois se transferiu, como era comum, para a televisão. Já tendo sido aluno de Glorinha na Rádio MEC — onde a fonoaudióloga ministrou cursos de dicção, entre 1964 e 1973, curiosamente para profissionais liberais e não para radialistas —, Chapellin confiou sua recuperação na terapia desenvolvida por ela. O tratamento foi bem-sucedido e marcou o nascimento de uma nova atividade dentro das redações.

 

Esta história já tem 30 anos, período em que a relação entre fonoaudiólogas e jornalistas amadureceu. No princípio, eram os problemas vocais que levavam os profissionais de comunicação ao consultório. Queriam resolver distúrbios na maioria das vezes provocados pelo uso inadequado da voz. Hoje, estas mulheres incríveis —- homens, também —- e suas técnicas maravilhosas não apenas curam, mas apuram um padrão de qualidade, com enfoque no corpo não apenas na voz. Estimulam o desenvolvimento de um estilo próprio, respeitam a característica de cada indivíduo. Natural e espontâneo, o jornalista ganha expressividade e transmite credibilidade.

 

Para ler todos os textos do capítulo “Santo de casa não faz milagre, mas tem expressividade”,clique aqui. Estão publicados na ordem decrescente.

Expressividade: minha carreira foi salva pela fonoaudiologia

 

Estamos quase chegando ao fim deste seriado composto por trechos do capítulo “Santo de casa não faz milagre, mas tem expressão”, escrito para o livro “Expressividade — Da teoria à prática” (Revinter), organizado pela fonoaudióloga Leny Kyrillos, em 2005. É minha homenagem a fonoaudiologia e em referência ao Dia Mundial da Voz, comemorado em 16 de abril:

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Foto Pixabay

 

ESTAS FONOAUDIÓLOGAS INCRÍVEIS E SUAS MARAVILHOSAS LIÇÕES!

 

O Colégio Nossa do Rosário sempre foi um dos mais completos de Porto Alegre. Lá passei boa parte da minha infância e adolescência. Aprendi muita coisa nas salas de aula, apesar de nunca ter sido um aluno exemplar. Aprendi mais ainda do lado de fora, convivendo com professores, comandando agremiação estudantil, trocando experiência com colegas e nos muitos treinos no time de basquete. Foi na escola, também, que me dei conta pela primeira vez das vantagens e desvantagens de ter uma voz grave mesmo na idade em que a maioria dos meninos ainda fala com o som de “taquara rachada”.

 

Não tenho dúvida de que minha voz — mais do que a personalidade —- colaborou muito para que eu assumisse posição de liderança nas discussões de política estudantil e nas atividades esportivas. Levava vantagem porque falava mais alto do que os outros. Mas ao mesmo tempo, o “vozeirão” me provocava constrangimento.

 

Foram muitas as vezes que, na dúvida entre uma resposta e outra no exercício de um exame qualquer, meu cochicho no ouvido do vizinho de carteira escolar reverberava no quadro negro e chamava atenção do professor. Outro motivo de incômodo era a brincadeira do dono da cantina que não se cansava em dizer: “enquanto os meninos trocam a voz fina pela grossa quando crescem, você vai mudar da grossa para a fina”.

 

Afinar não afinou, mas logo comecei a sentir problemas na garganta. Fosse depois de um recreio barulhento, uma festa com som alto, um discurso para o pátio repleto de gente, uma partida de futebol, sentado na arquibancada do estádio torcendo pelo meu Grêmio, o resultado final era o mesmo: rouquidão. Quase não conseguia falar. Situação que se agravou quando comecei a usar a voz profissionalmente. Os excessos foram tantos que o diagnóstico não tardou a surgir. Fui para a mesa de cirurgia tirar um nódulo nas cordas vocais, operação que me deixou sem falar por alguns dias e se tornou inócua por falta de orientação médica. Sem nenhum treinamento posterior, as dificuldades voltaram a aparecer.

 

Cheguei em São Paulo, em 1991, contrastado pela TV Globo. Um passo e tanto para quem ainda era inexperiente na profissão e havia trabalhado apenas um ano no veículo. A pressão psicológica se refletia na garganta. Algumas horas de trabalho e a voz começava a sumir. Foi quando conheci uma dessas figuras que se transformaram em ícone do jornalismo brasileiro, mesmo sem ser jornalista: Glorinha Beuttenmüller. Quase um mito, já que suas histórias —- muitas, lendas —- corriam o Brasil e, em cada estado que chegavam, recebiam uma nota mais alta. A fama era de que o sucesso dependia da palavra final dela. Só sobreviveriam os ungidos por sua benção.

 

Não precisei mais de um encontro para descobrir a verdade por trás daquela figura mística. Glorinha Beuttenmüller não era semideus. Era ser humano. Atendia a todos e tinha uma palavra para cada um dos seus ‘pacientes’. Ficou espantada quando lhe contei que apesar de ter feito uma cirurgia nas cordas vocais jamais havia sido orientado a procurar uma fonoaudióloga. Como sua presença na Globo de São Paulo não era frequente, dedicava seu pouco tempo comigo dentro de uma ilha de edição, reproduzindo minhas reportagens e chamando atenção para o forte sotaque gaúcho que marcava minha fala. Brincava —- ou seria uma ameaça? — ao dizer que iria proibir meu retorno ao Rio Grande do Sul, pois bastava um fim de semana nos pampas para o trabalho dela ir garganta abaixo.

Apenas alguns anos depois, quando ela e eu já não trabalhávamos mais na TV Globo, fui descobrir que Glorinha havia vivido boa parte de sua infância pelo interior gaúcho, tempo suficiente para detectar os defeitos da língua. Que fique bem entendida a frase anterior. A Globo, que fazia a primeira experiência de rede nacional de televisão, tinha como objetivo suavizar a pronúncia regional para não ferir os ouvidos alheios. O sotaque rasgado tem o mesmo efeito do excesso de gestos diante da câmera ou o uso de brincos, colares e gravatas extavagantes. Como bem define o jornalista Armando Nogueira, são vampiros que sugam a atenção do telespectador deixando a informação em segundo plano.

Lá no Rio Grande do Sul, além do sotaque trouxe algumas expressões, também. Goleira, atucanado, bragueta, pandorga, bergamota e barbaridade —- esta última podendo ser usada apenas pelo apelido, “bá”, ou acompanhada pelo polivalente “tchê” —- tornavam meu vocabulário exótico em terras paulistas e o trabalho de Glorinha mais difícil. Não havia erros de português ao utilizá-las mas atrapalhava o entendimento da mensagem. Parte pela insistência dela — que só não foi maior porque logo deixaria a emissora —- e parte pela facilidade que sempre tive em imitar a língua alheia, fui deixando o regionalismo de lado. Neste processo não poderia esquecer os puxões de orelhas do jornalista Carlos Tramontina, na época âncora do Bom Dia São Paulo, da TV Globo. Um professor na redação que quase perdia as estribeiras quando me ouvia dizer que “o fuca subiu a lomba e, em frente a lancheria, travou para não atropelar o guri com a pandorga na mão” (aperte a tecla sap: “o fusca subiu a ladeira e, em frente a lanchonete, brecou para não atropelar o menino com a pipa).

 

Apesar dos poucos encontros que tive com Glorinha, lembro de outra recomendação que fazia ao assistir às minhas passagens nas reportagens e participações ao vivo: “você tem de sentir os pés firmes e sentir o cóccix”. Era a a forma de explicar como manter uma postura equilibrada que transmitisse segurança. Em 1992, Glorinha Beuttenmüller deixou a TV Globo. Meu sotaque estava aparentemente dominado, mas ainda encontrava dificuldade para controlar a saúde vocal. De qualquer forma, minha primeira boa experiência com uma fonoaudióloga me abriu caminho para outras relações mais duradouras que me ensinaram a importância desta profissional.

Antes de seguir em frente, um pedido de desculpas: uso a palavra que designa o profissional responsável pela terapia da fala no feminino por força do hábito. Sempre trabalhei, entrevistei, fui entrevistado e li textos de fonoaudiólogas. Portanto, levando minha experiência em consideração, fonoaudiólogos que aí estão lutando contra a discriminação sofrida pelo sexo frágil, o masculino, me perdoem.

Os textos do capítulo “Santo de casa não faz milagre, mas tem expressividade”, publicados até agora, você tem acesso, na ordem decrescente, clicando aqui

Expressividade: a evolução de âncoras e apresentadores de rádio e TV

 

Leia o nono trecho do capítulo “Santo de casa não faz milagre, mas tem expressão”, escrito para o livro “Expressividade — Da teoria à prática” (Revinter), organizado pela fonoaudióloga Leny Kyrillos, em 2005. É minha homenagem a fonoaudiologia e em referência ao Dia Mundial da Voz, comemorado em 16 de abril:

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Foto: Pixabay

 

O RÁDIO NÃO ACABOU, VIVA A TV!

 

Foi em uma canal de televisão a cabo, desses que você encontra quase que por acaso enquanto está zapeando, que assisti a um debate com ex-figurões do rádio paulista. Gente respeitável que fez história nos tempos do galena —- este foi o nome herdado pelos receptores de rádio fabricados no início do século 20 devido ao sulfeto de chumbo em estado bruto, conhecido por galena, aplicado na peça que permitia a sintonia da emissora. Entre casos interessantes e discrepantes, os entrevistados uniram seus vozeirões para decretar: o rádio morreu. Para eles nada mais o que se faz atualmente é comparável com a programação que encantava a sociedade brasileira na era de ouro do rádio. Tempos em que, dos programas de auditório aos humorísticos, do radiojornalismo às radionovelas, celebridades surgiam e atores de talento indiscutível eram lançados para o delírio de um público que se amontoava nos estúdios para assistir, ao vivo, aos espetáculos. Paulo Gracindo, Mário lago, Ary Barroso, Emilinha Borba e Marlene são personagens desta que talvez tenha sido a primeira expressão da indústria cultural no Brasil.

 

É incontestável a decadência registrada a partir de 1955 quando a televisão já ganhava forma no País. Naquela época, profissionais de rádio migravam para o novo veículo acompanhados das verbas publicitárias. A televisão também encampava a programação radiofônica lhe acrescentando a imagem. Foi daí que vieram os teleteatros de sucesso estrondoso com os atores passando a ganhar fama à medida que reconhecidos pelo público. Era uma época ainda pobre na dramaturgia televisiva mesmo porque não havia constituído personalidade. A atriz Suely Franco lembrou de alguns desses momentos em entrevista a Rádio CBN. Ela começou na televisão como garota-propaganda da TV Tupi do Rio de Janeiro, em 1958. Não era coisa fácil. Os comerciais eram ao vivo e à base do improviso; não existia videotape. Ao falar sobre a importância do teleteatro no surgimento de talentos, Suely Franco comentou:

“Não há porque voltar ao tempo e reviver o teleteatro. A televisão desenvolveu uma linguagem própria e o teleteatro evoluiu para as novelas e minisséries. Eles somente existiam porque a televisão ainda buscava uma maneira de oferecer dramaturgia ao público.”

A televisão que em seus primeiros anos importou programas, profissionais e dinheiro do rádio, repetiu, também, comportamento e forma, naquela época. Os apresentadores das atrações radiofônicas, que levaram sua fama para o novo veículo, deram continuidade, nos shows de auditório, teleteatros e telejornais, ao modelo de comunicação que estavam acostumados. Paulo Tapajós, compositor, pesquisador de música popular e um dos principais construtores da Rádio Nacional do Rio de Janeiro — que desde o início de suas transmissões, em 1936, apresentava artistas ao vivo, radioteatro e notícia —- em programa especial da BBC Brasil sobre a história do rádio brasileiro, falou de como a televisão dependia do rádio:

“As primeiras experiências de televisão no Rio de Janeiro foram através da Rádio Nacional. Uma empresa francesa veio ao Rio oferecendo equipamentos, isso muito antes da TV Tupi existir. Nós fizemos pequenas transmissões, inclusive do nosso auditório de rádio com a apresentação de programas, se não me engano, como o Arco da Velha. Vários artistas se caracterizaram. E nós transmitimos para alguns receptores espalhados em pontos do Rio de Janeiro. Era uma transmissão dirigida”

Não por acaso durante muitos anos se ouviu na televisão a mesma voz embolada dos locutores de rádio que ficava ainda mais sem sentido diante das câmeras. Faltava expressividade. Na voz e nos gestos. Porque os movimentos de corpo eram restritos, ainda mais na apresentação dos telejornais em que qualquer aceno poderia ser entendido como falta de seriedade.

 

O Jornal Nacional, da TV Globo, estreou em 1º de setembro de 1969, e seus dois apresentadores titulares, Cid Moreira e Hilton Gomes, praticamente copiavam a voz e a postura dos locutores de rádio, agora em um estúdio de televisão —- não poderia ser diferente, afinal aquela era a escola deles. Sérgio Chapelin, que, assim como os demais apresentadores da época, havia iniciado carreira no rádio, assumiu uma das cadeiras da bancada do Jornal Nacional, em 1973. Ele formou, ao lado de Cid Moreira, uma das mais famosas duplas do telejornalismo brasileiro, e, em entrevista ao documentário “Âncora no Ar”, projeto experimental de Conclusão de Curso de Jornalismo da Faculdade Cásper Líbero, de São Paulo, justifica o modelo de comunicação adotado:

“A tentativa era você fazer um jornal bem radiofônico para que o telespectador não cochilasse diante da pobreza de imagens que se tinha. Então, se trabalhava com o quê? Com fotos e com arte que produzia alguma coisa”.

O próprio Jornal Nacional, que reforçou a ideia do apresentador de TV com postura radiofônica em seus primeiros anos de vida, foi responsável pela mudança deste comportamento. Gradual, é verdade, porque ao desenhar o formato de apresentação de seu principal telejornal, a Rede Globo optou pelo comportamento clássico, mais tradicional, que já havia sido superado nos Estados Unidos. Haja vista que, enquanto Cid Moreira era referência de apresentação no Brasil, o jornalista americano Walter Cronkite comandava o mais importante noticiário da televisão americana, o CBS Evening News, havia pelo menos sete anos. Lá, o rosto sisudo, o olhar estático no texto e as mãos, se restringindo ao movimento de trocas de laudas, não traduziam mais credibilidade. Os apresentadores haviam adotado a identidade do a âncora. Os jornalistas assumiam a apresentação das notícias e tinham participação efetiva na execução do telejornal.

 

O modelo americano não foi implantado na TV Globo devido ao momento político de restrições de liberdades. A emissora nascia no momento mais duro do regime militar. Era o governo do general Emílio Garrastazu Médici. Haveria dificuldade, ainda, para encontrar jornalistas capacitados para a apresentação de notícias em televisão —- aqueles que tinham boa voz costumavam ser radialistas —- ou de aceitar a linha editorial, que não se atrevia a fazer oposição à ditadura já que era uma concessão pública.

 

Seja qual tenha sido o motivo, ao assumir o modelo clássico de apresentação, a TV Globo influenciou as emissoras concorrentes no Brasil, retardando a chega do âncora ao telejornalismo brasileiro —- fato que, de certa maneira, atrasou o desenvolvimento de recursos que proporcionariam mais expressividade na apresentação. Por contraditório que pareça, mesmo com a opção pelo formato tradicional tendo sido mantida durante muitos anos no Jornal Nacional, foi neste programa que o público começou a identificar as primeiras mudanças na forma de apresentação. Intervenções frequentes do jornalista Armando Nogueira, na época diretor de jornalismo da Rede Globo, com orientações específicas a cada um dos apresentadores, em pleno estúdio de gravação, levaram Sérgio Chapelin e Cid Moreira a uma entonação diferente — por mais que o cacoete radiofônico predomine na locução de ambos até os dias de hoje. A dificuldade para esta mudança pode ser vista na afirmação de Chapelin, em depoimento ao documentário “Âncora no Ar”:

“O Armando Nogueira sempre dizia para a gente: ritmo, ritmo, ritmo. E eu imaginava que era falar como no rádio”.

A interferência —- positiva, diga-se de passagem —- de Armando Nogueira na forma de apresentação dos locutores não se limitou aos recursos vocais. Havia a preocupação com a redação, como explica o próprio jornalista:

“Os jornalistas de televisão escreviam como se fosse para o jornal impresso. O ritmo das frases era incompatível com o tempo da televisão que exigia períodos curtos e orações diretas”.

Foi no início da década de 1970 que surgiu o primeiro trabalho de fonoaudiologia voltado especificamente para a comunicação na televisão, com a contratação, pela TV Globo, de Glorinha Beuttenmüller, sobre quem falaremos mais adiante. Essa foi uma das muitas colaborações da emissora na mudança do formato de apresentação de notícias nos veículos de comunicação eletrônicos, porque mais tarde iria influenciar, também, o rádio brasileiro.

 

Em 1975 —- em pleno Governo João Figueiredo — a Bandeirantes decidiu quebrar um paradigma da televisão no Brasil. Enquanto as demais concorrentes copiavam o modelo da TV Globo, a emissora paulista lançava o Jornal da Bandeirantes com apresentação de Ferreira Martins —- este, típico exemplar do modelo tradicional —- e Joelmir Beting —- que se transformou no primeiro jornalista brasileiro a apresentar um telejornal, como explica no documentário “Âncora no Ar”:

“A gente estava testando um novo formato para um novo conteúdo. De um apresentador-comentarista, não locutor … Até se fez alguns anúncios que diziam que aqui quem trata a notícia é quem entende da notícia, quem faz a notícia, descaracterizando completamento o trabalho do locutor”

As diferenças na forma de apresentação ficavam mais evidentes à medida que Ferreira Martins seguia desenvolvendo sua locução com base no texto escrito, enquanto Joelmir improvisava —- seja por competência, seja por carência. Muitas vezes o jornalista teve de conversar com o telespectador para encobrir uma falha técnica. A improvisação e a intimidade do apresentador com a notícia resultaram em um novo formato que iria ganhar mercado na década seguinte.

 

Nos anos 80, com a democratização do País, mudou, também, o comportamento da audiência. O telespectador pedia jornalistas comprometidos com ele. Gente que agisse de maneira natural, falasse olhando no seu olho, tivesse opinião e expressão. A mudança de postura da audiência levou os apresentadores de televisão a trocar seu comportamento no ar. Os ombros relaxaram, o olhar ganhou naturalidade, e a locução, um tom coloquial. Foi um aprendizado difícil porque havia uma sociedade em transformação que reivindicava novas atitudes. Os jornalistas sabiam disso, mas tinham poucas referências no mercado nacional. Foram criando de maneira intuitiva ferramentas mais apropriadas para o vídeo. Alguns encontravam respaldo no trabalho de fonoaudiólogas, que estudavam novas técnicas de apresentação, Houve mudanças cenográficas, inclusive. O Jornal Nacional, por exemplo, mudava o enquadramento burocrático dos apresentadores, dando movimento às câmeras e profundidade no cenário —- a intenção era mostrar ao público que as notícias, também, tinham abordagem mais completa. A qualidade da comunicação deu um salto a olhos vistos. Olhos dos telespectadores, o que é melhor.

 

Já o rádio, tão importante para o surgimento da televisão na década de 1950, passou a ser influenciado por esta. À medida que os apresentadores dos telejornais começaram a aplicar técnicas de fonoaudiologia dando para cada tipo de notícia uma entonação diferente, modulando o tom da voz e a intensidade, entre outro recursos, os locutores foram obrigados a mudar o que até então era o padrão radiofônico. Ao renovar na forma e no conteúdo, o veículo contratou os prognósticos mais pessimistas. Existem, atualmente, quase 3 mil emissoras brasileiras que cobrem 96% do território nacional e atingem 95 milhões de pessoas todos os dias. Está em 90% dos domicílios e em 83% da frota de carros. Ganhou vida também na tecnologia à medida que a velha galena, que já havia se transformando com o transistor, ainda ganhou ares futuristas, ao incorporar os bits e se propagar no mundo pela internet.

 

Experiências atuais de emissoras radiojornalísticas como a CBN, Bandeirantes e Jovem Pan põem em dúvida o atestado de óbito apresentado naquele debate a que me referi no início deste capítulo. Um programa que, por sinal, era para comemora os 80 anos de vida do rádio no Brasil.

 

Os textos do capítulo “Santo de casa não faz milagre, mas tem expressividade”, publicados até agora, você tem acesso clicando aqui

Expressividade: respirar melhor ajuda a comunicar melhor

 

Aqui vai a sétima parte do capítulo “Santo de casa não faz milagre, mas tem expressão”, publicado no livro “Expressividade — Da teoria à prática” (Revinter), organizado pela fonoaudióloga Leny Kyrillos, em 2005. Trago esse texto para o Blog em homenagem a fonoaudiologia e em referência ao Dia Mundial da Voz (16/04):

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Foto: Pixabay

 

UMA PAUSA PARA RESPIRAR

 

Não, não estou convidando você para fechar o livro, sair à rua e respeitar um pouco de ar puro. Se quiser aproveitar a desculpa, fique à vontade. Mas, por favor, volte em seguida para esta leitura. O título, logo aí em cima, é para reforçar a ideia de que a pausa na locução, entre tantas outras mensagens implícitas, serve para respirar. Ao retomar o fôlego, garantimos a expressividade da fala. Mantemos o controle da ação.

 

A voz pode ser entendida como resultado do ar que circula no sistema respiratório. A sua produção ocorre na laringe, onde se encontram as pregas vocais — juro que prefiro a expressão “cordas vocais”, além de mais sonora parece-me mais significativa, mas não me atrevo mudar, mesmo porque sou minoria neste livro. Quando o ar é inspirado e entra nos pulmões as pregas se afastam. Ao falar, o ar sai dos pulmões fazendo-as vibrar e se transforma em ondas que ganham ressonância na boca, nariz e faringe. A articulação deste som ocorre pela ação da língua, dos lábios, mandíbulas e palato. Chega aos ouvidos do interlocutor completando o processo de comunicação. Assim, o ar é percebido como som e, portanto, quanto melhor a respiração, melhor a possibilidade de se comunicar corretamente.

 

O jornalista Heródoto Barbeiro, em seu livro “Falar para liderar —- uma manual de media training”, revela conhecimento de causa, fruto de sua competência na arte de comunicar e de seu comportamento influenciado pelo zen-budismo, ao escrever:

“Tem coisa que a gente pensa que já nasce sabendo e por isso não admite que alguém nos ensine. Entre elas está o respirar, o comer e o sorrir. Você vai dizer que se não soubesse respirar e comer já teria morrido, mais ou menos alguma coisa parafraseando Descartes: “respiro, logo existo”. Não é bem assim”.

A lista das coisas que acreditamos saber mas temos muito a aprender é bem maior, sem dúvida. Você não tem certeza de que sabe pensar? E ter relações sexuais? Temos muito, ainda, a entender com os orientais. Fiquemos, por agora, com o tema respirar.

 

A ciência Yogue, há mais de 3 mil anos, proclama que a vida é respiração. Não apenas porque a morte é resultado certo em pouco minutos se ficarmos sem ar, ao contrário da ausência de comida, água ou sono. Os Yogues, de sabedoria avançada e profunda, aos desenvolverem uma percepção extra-sensorial ficaram admirados pelo fenômeno da respiração. Compreenderam que para respirar conscientemente é preciso determinação e concentração. Feito assim, conectamos corpo e mente e encontramos o equilíbrio necessário na busca pela qualidade de vida.

 

Há muitos anos, profissionais, que têm na voz ferramenta de trabalho, são orientados a respirar com o diafragma. Nas primeiras tentativas que fiz para falar em voz alta e usar este tipo de respiração tinha a sensação de estar me preparando para a dança do ventre. Com o passar do tempos entendi bem a diferença entre os dois movimentos e preferi ficar apenas com o primeiro. Hoje, apesar de não ser um especialista no assunto, arrisco outras formas de respiração: pausada, circular, abdominal, diafragmática ou completa, dependendo da necessidade. Já aprendi que este ato vai muito além da absorção do oxigênio e eliminação do gás carbônico. Em meio ao trânsito, antes de uma apresentação ou quando não estou relaxado para dormir, muitas vezes expirar e inspirar profundamente são suficientes para encontrar um ponto de equilíbrio.

 

Observe sua respiração. Se estiver curta e rápida, sua mente estará trabalhando de forma agitada, nervosa. Se for irregular, você deve estar perturbado ou ansioso. Mas se sua respiração for suave, é sinal de tranquilidade. Aceite-a como está e ela mudará, como tudo na vida muda. Tudo surge e passa, e observando a respiração por um período, você tomará consciência disso. Controle seu ritmo respiratório e você controlará sua mente.

 

Aprender as técnicas de respiração é importante para combater a ansiedade que influencia na forma de se expressar pela fala. O nervosismo leva a pessoa a falar muito e rapidamente, dois aspectos que podem ser desastrosos na comunicação. Portanto, se houver limite de tempo para sua mensagem, não apresse o discurso, preferia uma versão menor e mais direta. Se a informação tiver de ser transmitida em um momento de estresse e emoção, não esqueça: foque na respiração, controle-a, se necessário for, e isto vai se refletir, até mesmo, na qualidade da sua voz.

 

Outras orientações você encontra na fonoaudióloga mais próxima de sua casa.

 

Os textos do capítulo “Santo de casa não faz milagre, mas tem expressividade”, publicados até agora, você tem acesso clicando aqui

Expressividade: pausa é silêncio, complementa a palavra ou muda seu sentido

 

Leia a sexta parte do capítulo “Santo de casa não faz milagre, mas tem expressão”, publicado no livro “Expressividade — Da teoria à prática” (Revinter), organizado pela fonoaudióloga Leny Kyrillos, em 2005. Trago esse texto para o Blog em homenagem a fonoaudiologia e em referência ao Dia Mundial da Voz (16/04):

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SILÊNCIO RODRIGUIANO

 

A importância da palavra é inquestionável. Quem a domina, comanda. Haja vista a preocupação com a formação de monopólios do setor de comunicação. Nos regimes totalitários as emissoras de televisão, os transmissores de rádios e as oficinas dos jornais são alvos preferenciais. Não há democracia sem liberdade de expressão. No Brasil, um dos pioneiros desta luta pelo direito do cidadão expressar opinião foi Nélson Rodrigues que, em 1943, revolucionou a dramaturgia com a peça Vestido de Noiva. Pernambucano, nascido em 1912, este jornalista e romancista transformou-se no mais importante autor do teatro contemporâneo. Morto aos 68 anos, forjou um legado de conceitos e ideias batizado pela crítica de “rodriguianos”. Ironicamente, um dos homens que mais souberam manejar as palavras era, também, um apreciador do silêncio:

“A maioria das pessoas imagina que o importante, no diálogo, é a palavra. Engano, e repito: — o importante é a pausa. É na pausa que duas pessoas se entendem e entram em comunhão”.

Pausa é silêncio. E, por assim ser, gera expectativa de quem ouve, motivo pelo qual deve ser usada como parte da mensagem para chamar atenção do receptor seja pela quebra de ritmo, seja pelo próprio vazio em si. Se palavras têm diferentes significados, não-dizer também ganha razão dentro do contexto. Pode ser insatisfação ou respeito. Leva à reflexão ou provoca indignação. É complemento da palavra ou muda seu sentido.

 

Na locução do texto, o silêncio leva o ouvinte a compreender a mensagem desde que feito de forma natural e no momento certo. Exclamação, vírgula e ponto são marcas de um discurso que devem ser respeitadas e permitem a retomada do fôlego do orador. No processo de comunicação, em que os interlocutores estão focados na compreensão do sentido das palavras e orações, a pausa não é menos importante, mesmo que o ouvinte não as perceba conscientemente.

 

Valorizar o silêncio foi a primeira recomendação que ouvi ao ser convidado para um desafio inédito na minha carreira profissional: narrar futebol na televisão. Faço questão de ressaltar o veículo no qual iria exercer a função porque, fosse no rádio, não caberia neste capítulo e sequer mereceria tal destaque. O diretor de jornalismo da Rede TV!, na época de fundação da emissora, era Albertico Souza Cruz que, motivado pela ideia do jornalista Juca Kfouri, passou a defender mudança substancial na cobertura dos jogos de futebol. Ambos entendiam que a exuberância e a qualidade das imagem que fazem parte de uma transmissão televisiva, eram suficientes para atender as necessidades do telespectador, cabendo ao locutor o papel de coadjuvante. No que, no meu entender, tinham plena razão, a tal ponto que aceitei o trabalho, apesar da minha inexperiência como narrador esportivo (as brincadeiras em torno da mesa de futebol de botão, ainda na infância, nunca constaram do meu currículo).

 

Hoje em dia, as emissoras de televisão oferecem à audiência uma quantidade enorme de imagens de um mesmo jogo com a presença, nos estádios, de um sem-número de câmeras. Somam-se a isso todos os recursos técnicos de reprodução, câmera lenta e computação gráfica à disposição do público. De casa, munido de um controle remoto, é possível selecionar a cena a que se pretende assistir e escolher o melhor ângulo para rever aquele lance duvidoso. Do lado de fora do campo, às vezes até dentro do gol, microfones captam todo e qualquer barulho. O grito quase impublicável do torcedor, o choro do craque machucado, a orientação do técnico, que tenta organizar seu time, o chute na bola e até o barulho da chuva. Seja qual for o som que fizer parte do espetáculo, chega até os aparelhos de televisão, capazes de amplificá-lo em equipamentos ainda mais potentes.

 

Em meio ao espetáculo de som e imagem que se transformou a transmissão esportiva, o narrador precisa encontrar o lugar dele. Deixar de lado a participação emotiva e quase histérica que ocupa, atualmente, nas principais emissoras de televisão. “Valorizar o silêncio”, como repetia Alberico a todo momento no ponto eletrônico que me acompanhava nas coberturas dos jogos de futebol. Atender a esta exigência significava me limitar as informações básicas, como o nome de quem estava com a bola ou o que sinalizava o árbitro. Abrir mão do “óbvio ululante” —- apenas para usar mais uma referência rodriguiana. Ou será que o telespectador, depois de todas as imagens à sua frente, ainda precisa ser informado que “o chute foi com o pé direito, no canto esquerdo do goleiro”?

 

O silêncio, confesso, incomodava a mim — que desde o início defendi a proposta, mas tinha dúvidas de como seria recebida e de minha própria capacidade profissional para a função — e aos telespectadores — acostumados a gritaria que reina nas transmissões esportivas. Somente os mais refinados se deram conta de imediato que ali se quebrava um paradigma do telejornalismo esportivo. Saía o “animador de auditório”, entrava o “narrador de futebol de televisão” —- papel que espero possa, um dia, ser desempenhado por alguém mais bem preparado do que eu.

 

O momento mais significativo desta experiência foi durante a partida entre Bayer de Munique, da Alemanha, e Real Madrid, da Espanha. O jogo, válido pela Copa dos Campeões da Europa, marcava a despedida do craque alemão Lothar Matheus. Faltando cinco minutos para a partida se encerrar, o técnico do Bayer decidiu fazer uma homenagem a Matheus e promoveu a substituição dele. O árbitro parou o jogo para que esta fosse realizada. Juca Kfouri, que comentava, e eu, apenas trocamos olhares e silenciamos. Durante oito minutos, o telespectador em casa teve o direito de assistir ao adeus de um dos mais interessantes jogadores do futebol internacional, sendo cumprimentado por colegas, adversários e árbitro, aplaudido em pé por todos que estavam no estádio, e, finalmente, caminhando, já solitário, até o fim de um corredor onde estava a porta do vestiário, sem a interferência do locutor e comentarista. Nenhuma palavra substituiria aquelas cenas. Valorizamos o silêncio e a inteligência do telespectador.

 

Os textos do capítulo “Santo de casa não faz milagre, mas tem expressividade”, publicados até agora, você tem acesso clicando aqui

Expressividade: a palavra certa é um agente poderoso

 

Começamos a semana com a quinta parte do capítulo “Santo de casa não faz milagre, mas tem expressão”, publicado no livro “Expressividade — Da teoria à prática” (Revinter), organizado pela fonoaudióloga Leny Kyrillos, em 2005. Trago esse texto para o Blog em homenagem a fonoaudiologia e em referência ao Dia Mundial da Voz (16/04):

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Foto: Pixabay

 

A PALAVRA CERTA NA HORA CERTA

 

Mark Twain foi notável humorista, escritor, americano, que nasceu em 1835, batizado Samuel Langhone Clemens. Autor de “As aventuras de Tom Saywer” consagrou-se escrevendo para crianças e adolescentes. Sua crítica à política externa dos Estados Unidos fez com que outros trabalhos de excelência, que falavam com o público adulto, demorassem a chegar por aqui. Morto em 1910, seu talento aparece, atualmente, registrado nos principais livros de comunicação e repetidos exaustivamente em artigos e ensaios. De palestras a discursos, Twain é lembrado em frases que aos poucos foram sendo torcidas e retorcidas. Incontestável é sua qualidade em destacar a importância da palavra — não apenas pelo texto que expressa uma técnica essencialmente verbal, mas, também, por citações deixadas para a história:

“A palavra certa é um agente poderoso. Sempre que encontramos uma dessas palavras intensamente certas… o efeito resultante é físico e espiritual, além de imediato”.

O redator está sempre em busca da palavra certa. A que vai conquistar, marcar, que tem de ser percebida pelo interlocutor para que cumpra seu propósito. Entra, então, o papel do locutor, de quem se exige a interpretação correta. É fundamental que ele entenda o que está escrito e para isso tem de dominar os temas tratados no noticiário. À medida que compreende, transmite com precisão. A mensagem torna-se clara. Todos os significados implícitos da palavra se valorizam com a ênfase que dá expressividade à fala, a partir dos recursos disponíveis como entonação, intensidade, ritmo e pausa, entre outros. Resultado: a mensagem vence a batalha pela atenção do receptor. E convence.

 

Para que esse processo tenha seu objetivo atendido, é fundamental o papel do redator. Um texto bem escrito ajuda a locução. Leva o apresentador a entender o sentido da mensagem, possibilitando uma interpretação melhor. Quem escreve deve levar em consideração que a notícia no rádio e na televisão será falada, portanto deve ser redigida de maneira clara, objetiva e simples. Escrever como se fala. A compreensão tem de ser imediata, caso contrário, se perde. No jornal e na revista permite-se a reflexão simultânea e posterior ao ato da leitura — o leitor tem o direito de voltar ao texto, reinterpretá-lo. O ouvinte, não.

 

No Brasil, lê-se pouco, escreve-se menos ainda e se prepara mal os estudantes de jornalismo. Soma-se a estes fatores uma facilidade proporcionada pela informática: a ferramenta de copiar e colar. A fonte de boa parte dos textos de rádio e televisão são as agências de notícias que têm as informações redigidas com as normas da língua escrita. Como o ”control + c, control + v” tem sido utilizado indiscriminadamente e sem que a redação seja adaptada para a língua falada, a locução é prejudicada. As notícias têm frases longas, que dificultam a respiração, e palavras com sonoridade ruim, que se transformam em armadilhas para o locutor. A melhor maneira de o redator não impor esses riscos ao apresentador é ler em voz alta todo o texto escrito. O ouvido será um ótimo conselheiro.

 

O jornalista catalão Iván Tubau, doutor em filologia francesa, graduado em arte dramática e professor do Departamento de Jornalismo e Ciências da Comunicação da Universidade Autônoma de Barcelona, em seu livro “Periodismo oral”(Jornalismo oral), lançado em 1993, chama atenção para a necessidade de aqueles que escrevem os textos jornalísticos destinados a uma execução oral traduzirem a linguagem popular, sem destruí-la:

“Quem escreve para rádio e televisão deve ouvir a algaravia da rua, ordená-la e limpá-la um pouco e devolvê-la levemente melhorada a seus emissores primigênios, procurando que estes a sigam conhecendo como sua”.

Tubau, que em seu livro combina a teoria e a prática da arte de falar nos meios de comunicação, ensina que “ao escrever para quem ouve deve-se escrever como quem fala”. Ao mesmo tempo em que analisa a importância do redator na expressividade do texto oral, Tubau lembra a figura do locutor, a quem cabe a interpretação correta deste discurso, e, por isso mesmo, deve ser um bom escritor, também.

 

Para melhor percepção, a mensagem precisa ser entendida por completo. Não basta tê-la parcialmente. Registre mais esta de Mark Twain:

“A diferença entre a palavra certa e a palavra quase certa é a mesma diferença entre o relâmpago e o vaga-lume”

Só por curiosidade: Mark Twain foi um dos primeiros a comprar uma máquina de escrever —- aquela sobre a qual abri parênteses no capítulo anterior —- e consta que seu romance “As aventuras de Tom Saywer” foi o primeiro livro cujos originais chegaram datilografados aos editores.

 

Os textos do capítulo “Santo de casa não faz milagre, mas tem expressividade”, publicados até agora você tem acesso clicando aqui

Expressividade: a importância da ênfase certa na palavra certa

 

 

Aqui está a quarta parte do capítulo “Santo de casa não faz milagre, mas tem expressão”, publicado no livro “Expressividade — Da teoria à prática” (Revinter), organizado pela fonoaudióloga Leny Kyrillos, em 2005. Trago esse texto para o Blog em homenagem a fonoaudiologia e em referência ao Dia Mundial da Voz (16/04):

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Foto: Pixabay

 

 

NO BANCO DOS RÉUS

 

 

“Ele não tem uma voz confiável”. Quantas vezes você já ouviu essa frase. É quase um julgamento final. Sem direito à apelação. Do som emitido, define-se a personalidade. Logo que começamos a falar, nossa imagem passa a ser construída no imaginário do interlocutor. Fala mole? É inseguro. Fala alto? É autoritário. Não para de falar? É uma “mala”. Para não sermos condenados nos primeiros minutos de jogo, é preciso cuidado na forma de se expressar. E poucas coisas são tão importantes na busca da confiabilidade através da fala do que a ênfase que funciona como um grifo na palavra.

 

 

Minha primeira experiência como apresentador de telejornal foi na TV Cultura de São Paulo. Na redação conheci uma das melhores vozes femininas da televisão brasileira, Valéria Grillo. Logo notei que antes de ir ao ar, ela pegava a caneta e começava a rabiscar todo o texto datilografado no papel (houve uma época era que os textos eram escritos em uma tal máquina de datilografia, espécie de computado da “Era das Trevas”, em que bastava apertar as letras do teclado para as palavras saírem impressas no papel. Você talvez ainda encontre algumas destas máquinas em antiquários). Aprendi com minha colega de redação que cada risco tinha um significado diferente. Alguns alertavam para o fim do período. Outros para a vírgula que vinha em frente. Um que parecia uma sequência de pequenas ondas sublinhava os nomes próprios. Os mais fortes pediam uma ênfase especial para a palavra. Não era nada simples, porque não bastava copiar os hieróglifos na minha lauda. Era preciso antes saber qual a palavra a ser valorizada.

A inflexão tem de ser dada nas palavras-chave do texto. Naquelas que são importantes para o entendimento do discurso e, portanto, devem chamar atenção do receptor.

Exatamente aquilo que fazia o locutor do Correspondente Renner quando o preço dos produtos aumentava. Não se pode esquecer que enquanto falamos, uma série de outros fatores disputam com a gente a atenção do ouvinte. Se ele está em casa, é a comida no fogão, o vizinho que fala alto ou as crianças que brincam no pátio. Se está no carro, tem o sinal de trânsito, o anúncio no cartaz, o menino fazendo malabarismo para pedir dinheiro ou a moça bonita que atravessa a rua. Lá se foi nossa mensagem ouvido abaixo, sem sequer ser percebida por quem de direito.

 

 

Quando se quer chamar atenção para alguma palavra escrita, usa-se o negrito, o itálico ou o sublinhado. Na palavra falada também temos ferramentas apropriadas. Para ênfase deve-se usar a articulação de forma mais precisa, diminuir a velocidade da fala e reforçar a intensidade. O prolongamento da palavra, o grifo usado em algumas situações, não costuma atingir o resultado pretendido. Apenas aumenta o tempo da locução — alguém já disse que tempo é dinheiro? —-, retira a finalidade da entonação e passa a sensação de que o texto está arrastado.

Quem tem o domínio da voz, subverte a ordem. Muda a intenção do discurso apenas na escolha da palavra a ser enfatizada. Quem não o tem, promove estragos na comunicação.

Políticos e executivos de grandes empresas costumam encomendar discursos às suas assessorias. Se não houver extrema afinidade entre quem escreve e quem lê, o prejuízo pode ser enorme. Recomenda-se que, ao receber um texto escrito por terceiros, leia-se antes acompanhado do seu autor, para que mudanças de tom e ênfases inapropriadas não levem a erros de interpretação. Neste mesmo texto que você lê agora em cada palavra, vírgula, ponto e contraponto há uma intenção que talvez seja percebida apenas por este escrevinhador. Uma sonoridade para quem escreve, mas que pode ser absolutamente sem sentido para quem o lê.

 

 

Os textos do capítulo “Santo de casa não faz milagre, mas tem expressividade”, publicados até agora você tem acesso clicando aqui

Dia Mundial da Voz: “Santo de casa não faz milagre, mas tem expressão”

 

Minha primeira experiência em livro surgiu pelas mãos da fonoaudióloga Leny Kyrillos, organizadora de “Expressividade — Da teoria à prática” (Revinter), publicado em 2005. Ela convidou 19 especialistas no tema da comunicação para que descrevessem o resultado de seus estudos e pesquisas. Eu era o 20º autor, uma espécie de gaiato neste navio, que  reunia mestres e doutores. Ao contrário dos demais colegas de publicação, era apenas um jornalista que havia aprendido muito mais dentro da redação do que na academia. Minha missão foi falar da vivência ao lado de colegas de profissão e de como uma série de fonoaudiólogas foi fundamental para minha formação. 

 

Para marcar o Dia Mundial da Voz, comemorado no dia 16 de abril, que neste ano tem como tema “Em tempos de distanciamento físico, a voz nos aproxima”, começo hoje a reproduzir, aqui no Blog, o capítulo de minha autoria “Santo de casa não faz milagre, mas tem expressão”

 

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Milton F Jung, o pai, foi a voz do Rio Grande e apresentou o Correspondente Renner

 

 

“Aqui fala o Correspondente Renner …”. Durante 42 anos, esta frase marcou uma das mais tradicionais sínteses noticiosas do rádio brasileira. Uma corneta estridente, com toque militar, era a característica musical que identificava o programa de notícias da Rádio Guaíba, de Porto Alegre. Já nos seus primeiros acordes, o ouvinte se ajeitava na cadeira, o motorista levantava o som do rádio no carro, as crianças tinham de fazer silêncio. E nos restautaurantes em que o serviço de alto-falante retransmitia a emissora, o barulho diminuir, como testemunhou, certa vez, Claudionor Bayard, garçom de uma churrascaria de Carazinho, cidade do interior do Rio Grande do Sul.

 

“Aqui no restaurante acontece uma coisa engraçada. O serviço de alto-falante funciona na Guaíba o dia inteiro. Quando chega a uma da tarde toca aquela corneta do Rener. O ruído ambiente baixa para mais da metade. As pessoas começam a falar mais baixo e até o barulho dos talheres diminui. Todos prestam atenção no Correspondente Renner”

 

Claro que estou falando de um tempo em que na sala da casa ou no salão do restaurante, o rádio predominava. Os aparelhos de televisão ainda não haviam encontrado seu lugar definitivo nem tinham tamanho suficiente para se sustentarem pendurados nas paredes. Época em que as sínteses noticiosas eram a principal e mais confiante fonte de informação. Naqueles tempos, em Santa Rosa, outra cidade gaúcha, as casas que tinham janelas de frente para a calçada permaneciam abertas. Não havia a necessidade das grades e muros que fazem parte da arquitetura atual. Lá de dentro era possível ouvir o som do rádio que ecoava pelos corredores de madeira e vazava para a rua. Lembro sempre de uma história que ouvi do jornalista Eridison Lemos, que após deixar o interior do Estado, fez sucesso nas redações das rádios Guaíba e Gaúcha.

 

“Quando eu trabalhava numa estação de rádio, em Santa Rosa, meu horário de saudade era a uma da tarde. Morava a uns 500 metros da emissora e ao me dirigir para casa ía ouvindo o Correspondente Renner sem levar nenhum rádio comigo. Eu ouvia pelo rádio dos vizinhos, pois em cada rua ou quadra havia pelo menos uma pessoa ouvindo a Guaíba”

 

Síntese noticiosa é um programa radiofônico em que os principais fatos são apresentados em textos curtos e diretos, com duração que varia de cinco a dez minutos. A locução é feita com velocidade, passando a sensação da urgência dos fatos ali noticiados. A fórmula foi consagrada pelo Repórter Esso que começou a ser transmitido pelas rádios Nacional, do Rio de Janeiro, e Record, em São Paulo, em agosto de 1941. Dezesseis anos depois, em maior de 1957, no Sul do País entrava no ar a Rádio Guaíba, de Porto Alegre, que tinha como destaque na sua programação o Correspondente Renner. O noticiário, que começou com quatro edições diárias, em pouco tempo se transformou na principal fonte de informação do público gaúcho.

 

O Correspondente Renner teve quatro apresentadores em toda sua história, que se encerrou em 1999 quanto a empresa patrocinadora que emprestava o nome à síntese não renovou contrato com a Guaíba. Atualmente o patrocinador é a Portocred. A mudança foi apenas no nome já que a emissora manteve as demais características do programa. A começar pelo apresentador Milton ferrete Jung que durante 35 anos foi reconhecido como a “voz do Renner”. fato que lhe garante desde então um recorde. É o locutor que há mais tempo apresenta um mesmo noticiário no Brasil.

 

Aqui, caro leitor, peço licença para uma pausa nesta conversa. Há necessidade de alguns esclarecimentos urgentes antes que você desista desta leitura e pule logo par ao próximo capítulo.

 

Milton Ferretti Jung é jornalista, mesma produção deste que lhe escreve. É natural do Rio Grande do Sul, assim como o autor deste texto. Trabalha na Rádio Guaíba, de Porto Alegre, como já fiz no início da minha carreira, lá pelos anos 80. Narra futebol, como já tentei certa vez em televisão. Se não bastasse tem o mesmo nome do acima assinado. Não se espante. Apesar das coincidências não sou eu, não. Mesmo porque ainda não fui contaminado pelo vírus que toma conta de alguns jogadores de futebol que costumam falar deles próprios na terceira pessoa: “O Zé Bedeu chega para somar”, o “o Zé Bedeu promete que vai jogar com muita raça e determinação”. E dê-lhe Zé Bedeu pra lá e pra cá na entrevista do próprio. As nossas semelhanças não são mera coincidência. O Milton, personagem desta história, além de ser tudo aquilo que já descrevi, é meu pai. Posso garantir, contudo, que a presença dele neste texto tem razões bem mais lógicas do que somente os laços familiares, como você verá mas adiante.

 

Esclarecimentos à parte, vamos em frente.

 

Seja pelas questões familiares, seja pelo costume de boa parte dos gaúchos, ouvir o Correspondente Renner era uma obrigação em casa. Quantas vezes minha mãe não abusou de nossa ingenuidade para garantir silêncio e respeito na sala logo que o noticiário começava: “vamos ficar quieto, crianças, se não o pai de vocês vai acabar ouvindo esta bagunça”. Anos depois, mesmo sem ainda ter lido os ensaios de Marsahl McLuhan, percebi que aquela caixa de madeira de onde saía o som da voz de meu pai não tinha ouvidos. Não demorou muito para outros fatos bem mais relevantes naquela transmissão me chamarem atenção.

 

TUDO ESTAVA CARO DE MAIS

 

José Sarney era o presidente da República. Na política, o Brasil ainda aprendia a viver no regime democrático. Na economia, um caos. A inflação era galopante. o preço da gasolina, ainda sob controle “rígido” do governo, subia a cada semana. E no Correspondente Renner, Milto Ferretti Jung traduzia a indignação do cidadão apenas com o recurso da voz. A mudança de tom que beirava a ironia, a quebra de ritmo na frase e a articulação mais precisa da palavra ao informar o novo valor do livro da gasolina expressavam um sentimento que aproximava o radialista do seu público. Tornava-o cúmplice do ouvinte, propiciando a identificação do receptor com aquilo que era transmitido.

 

Foi naquele período que, pela primeira vez, percebi o poder que o locutor de notícias tinha de persuadir o público através da expressividade da voz. Uma lição marcante para quem começava a sonhar com a oportunidade de se transformar em jornalista e colocar em prática aquilo que aprendera dentro de casa. Mais Importante ainda porque esta ferramenta me soava inusitado para a época, principalmente se o assunto era a síntese noticiosa. Imperava no rádio o padrão impostado quase monocórdio. Mas valia o “vozeirão” do que a expressão.

 

O incômodo popular com as constantes mudanças de preços naqueles tempos de inflação draconiana — nós já vivemos épocas assim, não lembra mais? — era reporduzido na ênfase da narração de Milton Ferretti Jung. Daquela forma, o locutor conspirava, consciente ou não, contra a retórica objetiva do rádio na qual a linguagem usada na construção do discurso era direta e reta. Sem espaço a interpretações, imaginavam os autores da tese.

 

Poucos locutores arriscavam novas fórmulas na apresentação das notícias mesmo porque ainda havia os mitos da imparcialidade e da objetividade da informação. Como se a simples seleção dos fatos transmitidos e a própria ordem com que estes são apresentados já não expressassem uma ideia. Até hoje, manuais de radiojornalismo de algumas emissoras reforçam a necessidade de se manter estes dois componentes na edição de um programa. Confundem imparcialidade com isenção e objetividade com correção.

 

Mostrem-me um jornalista imparcial e eu lhe apontarei uma mentida. Este só existe na teoria acadêmica. Você nasce, vive, convive, aprende, entende e pensa. Em cada etapa deste processo sofre influência. Cria suas próprias teses. Desenvolve suas ideias ou as copia. O jornalista — parafraseando aquele ministro do Trabalho —- também é ser humano. Tem seus valores e a partir deles toma partido, às vezes tem partido. Quase sempre torce para este ou aquele. Vibra com seu time de futebol, reza nesta ou ora naquela religião. Preza alguns, desgosta de outros e odeia mais tantos. Onde está a imparcialidade?

 

A meta tem de ser outra. Ao jornalista cabe a isenção ao executar se trabalho. Esta é possível. Aliás, é necessária. Deve ter respeito com o entrevistado, esteja este na seção dos que preza, desgosta ou odeia (se houver problema com este último, tome um Engov antes e outro depois que passa). Não há jornalismo sem o contraditório. Os diferentes pontos de vista devem ser apresentados para que o público tenha a sua própria opinião. É na busca da isenção que se afasta o risco de os meios de comunicação transformarem-se em doutrinários, instrumentos de grupos econômicos, políticos e religiosos.

 

Amanhã, leia a segunda parte do capítulo Santo de casa não faz milagre mas tem expressão, do livro “Expressividade, da teoria à prática”