Expressividade: uma relação sem fim

 

Hoje publico o último episódio desta série com textos do capítulo “Santo de casa não faz milagre, mas tem expressão”, escrito para o livro “Expressividade — Da teoria à prática” (Revinter), organizado pela fonoaudióloga Leny Kyrillos, em 2005. É minha homenagem a fonoaudiologia e em referência ao Dia Mundial da Voz, que foi comemorado em 16 de abril, quando iniciei a publicação dos textos. Para ler o capítulo completo, acesse o link no pé deste post. Eles estão em ordem decrescente:

 

speak-238488_1280 2

 

ESTAS FONOAUDIÓLOGAS INCRÍVEIS E SUAS MARAVILHOSAS LIÇÕES!(2)

 

 

Na era pós-Glorinha de minha vida, descobri que este mercado, além de dominado pelas mulheres, tinha muita gente bem preparada que atuava com “amor, persistência e sensibilidade” —- palavras consideradas mágicas pela protagonista do livro “O que é ser fonoaudióloga – memórias profissionais de Glorinha Beuttenmüller”. Encontrei profissionais familiarizados com as características específicas do jornalismo ou daqueles que usam a voz como ganha-pão. Eram pessoas que não cuidavam apenas da fala, mas da alma, também. Muitas vezes as sessões eram ocupadas para contar casos pessoais ou histórias da redação, mais do que discutir diretamente o que deveria fazer para corrigir este ou aquele problema na comunicação. Mesmo porque as dificuldades na fala, algumas vezes, estão ligadas a questões emocionais.

 

É fundamental que a fonoaudióloga tenha excelente ouvido, capaz não apenas de perceber pequenos detalhes do som que emitimos, mas auscultar nossos sentimentos. Uma das experiências que tive em fonoaudiologia me mostra esta verdade de maneira mais crua. Por motivos que não saberia avaliar claramente quais foram, a relação que mantive com uma profissional contratada pela emissora de televisão em que eu ainda trabalhava foi das mais ruidosas. Não era exatamente pelo fato de ela fumar entre uma sessão e outra —- o que sempre pareceu uma contradição, mas o que eu tinha a ver com isso? Talvez tenha sido as inúmeras proibições que me foram impostas: “não beba, não fale, não …. e mais não”. Certo mesmo é que algo aconteceu — ou deixou de acontecer — entre nós que me levou a transformar cada sessão fonoaudiológica em uma avaliação da empresa. Parecia-me que todo encontro seria decisivo para meu futuro naquele emprego. Novamente somatizei na garganta a insegurança profissional e, impreterivelmente, na véspera de cada atendimento, minha voz sumia. Como o tratamento não flui fui recomendado a procurar uma profissional que não estivesse ligada à empresa e pudesse me receber com mais frequência. Foi daí que parti para minha terceira experiência.

 

Não sei quanto deste artigo poderá ser útil a você que lê neste momento. No entanto, se servir para que pelo menos uma fonoaudióloga pare para repensar seu comportamento sempre que estiver atendendo um empregado da empresa da qual ela é contratada, estarei realizado. Preste atenção se sua imagem —- e escrevo especificamente para as fonoaudiólogas —- não está sendo confundida com a do chefe do departamento ou diretor da fábrica; se sua postura naquela sala, sentada diante de um funcionário, não está muito mais parecida com a do patrão. Faça-o entender que o trabalho que está sendo realizado naquele momento, não é benefício da empresa, mas dele próprio.

Seja parceira do seu paciente.

Como já disse, estava na hora de encarar a terceira fonoaudióloga da minha vida. Na verdade, a terceira e a quarta, porque no mesmo consultório trabalhei com duas profissionais que não atuavam em emissoras de rádio e televisão, mas com conhecimento profundo do uso da voz no jornalismo. Passei por avaliações minuciosa a partir da aplicação de métodos de análise acústica e espctográfica, pela primeira vez. Aprendi exercícios para relaxar as cordas vocais e aquecer a garganta antes de iniciar uma locução. Alguns já conhecia e, para os novos, fui apresentado. Coisas como fazer sons semelhantes a mantras ou abrir e fechar a boca articulando exageradamente as vogais, que quando feitos dentro do carro a caminho da redação provocavam, nos mais próximos, estranhos olhares. Azar dos bisbilhoteiros. Soubessem eles os benefícios que sentia a cada movimento, fariam o mesmo, e, chegando ao trabalho, poderiam conversar com colegas em um tom “aveludado”, mais sedutor.

 

Mais importante, contudo, não foram os exames e exercícios, mas a liberdade que ganhei. Até começar esta etapa com as novas fonoaudiologia tudo era proibido. Eu seguia à risca a recomendação de não falar ao telefone, fechar a boca em locais barulhentos, ficar quieto dentro do carro da emissora, eliminar bebida gelada de meu cardápio, entre outras restrições. E nada resolvia. Perda de tempo, porque assim que me ensinaram que era possível fazer quaisquer dessas atividades —- convenhamos, algumas prazeirosas —- desde que com moderação, o tratamento passou a dar resultados positivos.

 

Falar sob estresse é parte da rotina de um jornalista de rádio e televisão. As restrições a que estava submetido, no entanto, aumentavam esta pressão psicológica, atingindo o ponto mais sensível de um profissional da voz — a própria. Pesquisas mostram a relação entre distúrbios da voz e a dificuldade para lidar com situações de estresse. Minha experiência pessoal serve bem para ilustrar estes estudos.

Ao abrir mão das restrições impostas, mas confiando minha palavra na moderação de meus atos, consegui atingir um ponto de equilíbrio.

Desde aquele momento, tornei-me grato às fonoaudiólogas. Entendi sua importância no processo de comunicação e passei a lamentar a falta das mesmas na maioria das redações brasileiras, principalmente as de rádio. É inacreditável que um veículo que tenha no som sua principal característica, tão pouca atenção dê à capacidade vocal de seus profissionais. É verdade que houve avanços neste processo. A locução radiofônica também ganhou tom coloquial e a forma de apresentar passou a ser vista com a mesma importância que o conteúdo. Há emissoras de rádio, como a CBN, em que os locutores obrigatoriamente são jornalistas. Não bastando mais ter um vozeirão. É preciso entender a notícia para transmiti-la com correção. Ao mesmo tempo, exige-se que este jornalista tenha recursos vocais, como articulação dos sons precisa e sem exageros e modulação e intensidade da voz coerentes como o que está sendo noticiado. Fatores que garantem o interesse do ouvinte, informam de maneira precisa e transmitem credibilidade. Apesar disso, você dificilmente verá uma fonoaudióloga com o crachá de uma emissora de rádio, a não ser que seja de visitante.

 

Minhas relação com as fonoaudiólogas nunca mais se encerrou. Fui e voltei aos consultórios tantas vezes entendi ser necessário. Lá estive para resolver problemas circunstanciais de rouquidão e, também, para encontrar o tom certo nesta ou naquela forma de transmissão. Em alguns casos para aumentar a velocidade da locução de notícias. Em outros, para ganhar confiança na apresentação dos programas. Procurei até mesmo para achar a nota certa no grito de gol. Não foi sempre que saí de uma sessão com o problema resolvido. Até hoje busco um recurso melhor para determinadas situações. O que apenas reforça a minha tese de que estas profissionais deveriam estar integradas ao corpo funcional das empresas de comunicação, assim como estão locutores, repórteres, redatores e editores — o que, faça-se justiça, já ocorre em algumas emissoras de televisão no Brasil, como é o caso da TV Globo.

 

Não estranhe o fato de ter citado apenas o nome de uma fonoaudióloga ao longo deste trabalho. Não é esquecimento ou injustiça deste que escreve. Primeiro, não é meu objetivo fazer críticas pessoais. Segundo, cada uma das profissionais das quais fui paciente vai encontrar —- se é que me darão o prazer da leitura —- um ponto aqui e outro acolá que deixarão evidente a importância dela na minha formação. Identifiquei apenas Glorinha Beuttenmüller por ser a pioneira na terapia da voz nos meios de comunicação.

 

Glorinha se aproximou de uma redação de telejornal no início da década de 1970. Sérgio Chapellin, já citado em capítulos anteriores, estava completamente rouco. Consta que o problema seria resultado da pressão psicológica provocada por ter de substituir na apresentação um dos maiores nomes do rádio e da televisão brasileiros, Heron Domingues, que se consagrou como locutor do “Repórter Esso” e depois se transferiu, como era comum, para a televisão. Já tendo sido aluno de Glorinha na Rádio MEC — onde a fonoaudióloga ministrou cursos de dicção, entre 1964 e 1973, curiosamente para profissionais liberais e não para radialistas —, Chapellin confiou sua recuperação na terapia desenvolvida por ela. O tratamento foi bem-sucedido e marcou o nascimento de uma nova atividade dentro das redações.

 

Esta história já tem 30 anos, período em que a relação entre fonoaudiólogas e jornalistas amadureceu. No princípio, eram os problemas vocais que levavam os profissionais de comunicação ao consultório. Queriam resolver distúrbios na maioria das vezes provocados pelo uso inadequado da voz. Hoje, estas mulheres incríveis —- homens, também —- e suas técnicas maravilhosas não apenas curam, mas apuram um padrão de qualidade, com enfoque no corpo não apenas na voz. Estimulam o desenvolvimento de um estilo próprio, respeitam a característica de cada indivíduo. Natural e espontâneo, o jornalista ganha expressividade e transmite credibilidade.

 

Para ler todos os textos do capítulo “Santo de casa não faz milagre, mas tem expressividade”,clique aqui. Estão publicados na ordem decrescente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s