Avalanche Tricolor:Pachecão,Rochemback e a conquista

 

Grêmio 3 x 1 Liverpool
Libertadores – Olímpico Monumental


O destino havia nos oferecido oportunidade rara e difícil. Disputar uma decisão ainda no início da temporada, quando as pernas não estão devidamente equilibradas, e os companheiros de equipe tentam se entrosar, entender onde cada um deve estar no momento em que a bola é passada ou o contra-ataque surge.

Alguns jogadores mal haviam sido apresentados à torcida e aos próprios colegas, mas vestiam a mesma camisa, o mesmo Manto Tricolor, capaz de unir e transformar atletas em campo. Foi o que aconteceu com Vinícius Pacheco sacado do banco de reservas quando o Grêmio estava em desvantagem no primeiro tempo e a ameaça de se despedir precocemente do sonho de toda sua torcida estava no ar. Uma incógnita para a maioria dos gremistas.

A presença dele naquela altura, em movimento apropriado do técnico Renato Gaúcho, foi fundamental e mostrou que para ser grande é preciso coragem. Muitos esperariam o intervalo para a troca, mas nosso treinador foi acostumado a driblar o lugar comum do futebol. E com este lance, permitiu que Vinicius se apresenta-se à América do Sul: “Prazer, Pachecão !”

Incomum também é saudar atletas que surgem como coadjuvante no espetáculo dos gols. Seria simples lembrar de mais um marcado com a cabeça e as lágrimas de André Lima ou os dois definitivos de Vinícius Pacheco. Mas um jogador merece citação especial: o capitão Fábio Rochemback. Nesta noite esteve na origem de todas as jogadas que resultaram em gols. No primeira, o cruzamento certeiro; no segundo, o passe preciso; no terceiro, a cobrança de escanteio.

Foi grande no desarme das jogadas, nos carrinhos precisos e no olhar duro para intimidar na marcação, também. Deu exemplo àqueles acostumados a subestimar o adversário, que se imaginam maior e mais importante do que todos; e acreditam que a vitória será alcançada sem luta e seriedade.

Rochemback tem, a partir de agora, a tarefa hercúlea de liderar o Grêmio até o título da Libertadores, e ele se sacrifica com talento para tal.

A caminhada para o Tri será intensa mas pelo início vitorioso desta temporada temos muitos motivos para desconfiar de que o Imortal Tricolor está prestes a aprontar mais uma façanha no futebol sul-americano.

A primeira conquistamos nesta noite. Que venha a próxima.

Avalanche Tricolor: Cheiro de Libertadores

 

Liverpool 2 x 2 Grêmio
Libertadores – Centenário, Montevidéu

Lúcio na primeira decisão da temporada (Foto: Gremio.Net)

De baixo das arquibancadas do estádio do Nacional em Montevidéu o cheiro do puchero dominava o ambiente. Era bem simples o restaurante no qual a delegação do Grêmio havia sido recebida pelos adversários. E foi nele que fui apresentado ao panelão com um caldo capaz de levantar defunto. Lá dentro, acompanham o grão de bico tudo aquilo que nós costumamos servir em uma feijoada – menos o feijão.

Dado o impacto que a comida uruguaia teve no meu estômago e o estrago que fez no meu preparo físico até hoje desconfio que a mistura levava algo mais do que os condimentos previstos na receita do chef.

Era fins dos anos de 1970 quando sofri esta primeira experiência em uma competição no exterior. Naquela época ainda arriscava alguns pontapés nas canelas de ponteiros atrevidos vestindo o número 6 às costas da camisa tricolor. Mesmo o torneio sendo entre equipes infantis, o cheiro da rivalidade entre Grêmio e Nacional estava no ar.

Quando assisti ao Grêmio entrar no Centenário na noite desta quarta-feira, aquele azedo voltou à minha garganta. O estádio era outro, mas o país era o mesmo e a rivalidade idem, apesar do adversário ter pouca tradição no futebol sul-americano, ter sido batizado com nome de time inglês e vestir camisa inspirada em um italiano.

O cheiro se espalhou quando a transmissão da televisão cortou a imagem do jogo para mostrar torcedores incitando uma batalha nas arquibancadas. Soube após a partida que policiais teriam agredido alguns gremistas. Nunca se saberá qual foi a ordem dos fatores.

O gramado ruim, a sola da chuteira acima da linha da bola, a dividida ríspida, a troca de tabefes e safanões não deixavam dúvida de que aquele não seria um jogo qualquer. Os gols atrapalhados confirmaram a tese.

O sofrimento nos cruzamento na área, o vacilo dos zagueiros, o passe mal feito no meio de campo e as arrancadas sem destino dos atacantes davam um sabor estranho para esta primeira decisão do ano.

Não dava para esperar muito mais. Alguns novos nomes apareceram na camisa branca do Grêmio, gente que mal havia sido apresentada para nós torcedores.

No apito final, o empate em dois gols foi um alívio e deu ampla vantagem ao Grêmio que decide tudo em casa, diante de sua torcida e no Olímpico Monumental. Estádio que além de churrasco tem cheiro de Libertadores.

Avalanche Tricolor: Em busca de um sonho

 

Universidade 0 x 1 Grêmio
Gaúcho – Canoas

Viçosa faz de penâlti (foto: Gremio.net)

Desumano. Foi a expressão usada pelo ex-volante do Grêmio Lucas para definir a maratona de jogos enfrentada pelo time logo no início da temporada. Ele fez o comentário em entrevista ao jornal Correio do Povo, deste domingo. Na reportagem, depositou confiança na competência do presidente Paulo Odone: “com certeza ele vai levar o Grêmio de novo a títulos”, afirmou o jogador que atua pelo Liverpool (ING), mesmo nome da equipe com quem vamos disputar a pré-Libertadores, na próxima quarta-feira, dia 26, no Uruguai.

Sim, após quatro jogos em uma semana, todos pelo ‘emocionante’ Campeonato Gaúcho, o Grêmio decide vaga para a competição que mais interessa nesta temporada. Em pouco mais de dez dias de treinamento, sem tempo para piscar, pensar e respirar, o time de Renato Gaúcho estará sob a tensão de uma disputa que será vida ou morte – mata-mata como chamam no futebol.

Um dia antes de viajar para a primeira partida da decisão, Renato e seus jogadores foram obrigados a atuar em um gramado de pouca qualidade e contra uma equipe que por mais mérito que tenha quase nada representa para o futebol brasileiro. Com todo o respeito ao Universidade de Canoas, um time que não tem torcedores nem identidade está longe de ser um clube de futebol. Talvez seja apenas um negócio no futebol.

As divididas com o adversário (e houve muitas), o carrinho por trás (também aconteceu) e a bola disputada com veemência (faz parte deste jogo) eram sempre uma jogada de alto risco. Qualquer descuido e um goleiro com o talento de Vitor, um volante com a presteza de Adílson ou um atacante com a ansiedade de Diego Clementino poderiam nos faltar quando mais necessitaríamos.

Aparentemente, todos saíram inteiros de dentro do campo e com uma vitória importante para o time respirar com folga em relação a seus adversários no campeonato. O coração ficou na boca o tempo todo, não pelas emoções que o futebol costuma proporcionar, mas pelos perigos que rondavam músculos, canelas e tornozelos de nosso time.

O físico ainda não está preparado para esta final de pré-Libertadores, a mente tem de estar. E na mala a certeza de que não se mede a decisão pelo adversário, mas pelo o que esta pode nos proporcionar. Sendo assim, começa amanhã, a viagem em busca de um sonho: o tri da Libertadores.

Avalanche Tricolor: Jonas pode

 

Grêmio 2 x 1 São José
Gaúcho – Olímpico Monumental

Jonas está condenado às críticas nestes próximos dias. Moralistas sem causa e senhores de caráter ilibado pedirão punição, afastamento, quem sabe uma medida exemplar contra o atacante que explodiu de razão ao marcar o primeiro gol do Grêmio.

Ouvirá conselhos e puxões de orelha de comentaristas, torcedores e dirigentes. Afinal, as ofensas públicas dirigidas à social do estádio Olímpico não condizem com os bons modos exigidos de um atleta profissional.

Que partam todos para o destino que Jonas os encaminhou !

Ouviram porque falaram. E vaiaram de maneira errada, injusta. Foram incapazes de compreender as razões que impedem Jonas e seus colegas de imprimirem o futebol que sempre esperamos. Estão sendo preparados para uma decisão em poucas semanas, sem direito a pré-temporada e após terem imposto um ritmo alucinante no fim do ano anterior.

Tem todo o direito de explodir com aqueles que não enxergam que entre o desejo de tocar a bola ou chutar a gol existem músculos endurecidos pelos treinos de início de ano. Os impacientes que se retirem. Deixem Jonas fazer seus gols estranhos, bonitos e decisivos.

Jonas tem crédito no clube e no futebol, que não lhe dá o devido respeito. Goleador do Brasileiro foi preterido por muitos na escolha dos melhores do País. Com fama de patinho feio, vê os críticos torcerem o nariz. Sofre o mesmo dentro do seu time.

Um dos maiores atacantes que passaram pelo Grêmio e peça fundamental para a arrancada de 2010, merece toda a nossa atenção. Tem de ser valorizado pelo que faz e pelo que é.

A reação dele é paixão que tem pelo que busca. E isto tem de ser admirado, não criticado. Jonas é capaz de chorar dentro de campo se não alcança seu objetivo. Não aceita a indiferença diante dos fatos.

É bom moço, sincero nas palavras e resignado.

Em vez de glorificado, assistiu durante as férias ao enorme esforço da diretoria para enfiar goela abaixo de parte da torcida um falso ídolo. Enquanto ele nem contrato tem renovado.

Jonas é o nosso ídolo.

E após a “comemoração” da noite dessa sexta-feira, em Porto Alegre, meu ídolo ainda maior.

Gol neles, Jonas !

O voo-cego do rádio esportivo

 

Por Milton Ferretti Jung

 

O autor do texto está na ponta esquerda da mesa

 

Preciso, antes de mais nada, agradecer aos leitores do meu texto de estreia, neste espaço, pela ordem, Carlos Magno Gibrail, Daniel Lescano, Nelson Valente, Armando Italo, Dora e Airton Gontow. Foram todos muito bondosos. Grato pelas boas-vindas, passo para a escrever o que reservei para esta quinta-feira.

 

Outro dia, o Mílton, em sua “Avalanche Tricolor”, a propósito de uma outra estreia – a do Grêmio no Campeonato Gaúcho- lembrou, com saudade, o início de sua carreira na Rádio Guaíba, no qual, repórter esportivo que era, trabalhava nos jogos dessa competição, muitos deles narrados por mim. A saudade se explica: os jogos, em geral, especialmente aqueles disputados no interior do estado,transformavam-se em batalhas campais ou quase nisso. Os jogadores, mesmo os da dupla Gre-Nal, mais bem remunerados, tinham amor à camiseta, coisa rara hoje em dia, pois o profissionalismo transformou muitos em verdadeiros mercenários. O que o Mílton não recordou, porque não havia nascido na época, foi das dificuldades que se enfrentava para transmitir as partidas do que agora resolveram apelidar de Gauchão, superlativo injustificável para o futebol que se vê.

 

Em algumas cidades interioranas – Bagé era uma delas – não havia linha telefônica, necessária para que se falasse dos estádios. Viajava-se, na véspera dos jogos, por estradas de chão batido, muitas vezes debaixo de chuva. Não havia motorista profissional. Dirigiamos nós mesmos inseguras kombis. Dentro delas, estava um enorme transmissor “single-side-band”, o substituto da linha telefônica. Para que funcionasse era preciso comprar dois postes de bom tamanho, estender entre eles um cabo, conectado a outro que, por sua vez, ligava-se ao transmissor. Na sede da rádio, um técnico passava trabalho para receber a transmissão. Esse, controlava o áudio girando um botão. Para a equipe que estava no estádio ouvisse o retorno do som que era enviado, fazia-se necessário sintonizar a onda-curta da emissora.

 

Em transmissões de futebol fora do estado precisava-se contratar a Radional, antecessora da Embratel e nem sempre confiável. Essa, certa vez – e com isso vou encerrar este papo, não se preocupem – nos deixou na mão num jogo entre Atlético Mineiro e Grêmio, em Belo Horizonte, no Estádio Independência. Sem conseguir captar a onda-curta da Guaíba, abri a transmissão depois de avisar para o estúdio que iriamos – o Ruy Ostermann e eu – entrar no ar em “voo-cego”. E entramos. Narrei 85 minutos. Foi então que a onda-curta deu o ar da graça. No estúdio, o locutor do noticiário apresentava o Jornal da Noite.

 

Seja lá como for (ou como era) que, tal qual o Mílton bem mais tarde, nós dois tenhamos bons motivos para sentir saudade dos velhos tempos do futebol e do rádio esportivo.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista, gremista e meu pai. Escreve toda quinta-feira aqui no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Avalanche Tricolor: Saudade do Gaúcho

 

Grêmio 2 x 2 Lajeadense
Gaúcho – Olímpico Monumental

A televisão ainda passava jogos em video tape. A tecnologia oferecida não permitia transmissões de partidas a longa distância, ao menos não a um custo que valesse a pena investir. Jogo ao vivo e em cores era na arquibancada e os mais próximos disputados pelo Campeonato Gaúcho.

Era uma época em que competição daquele quilate não exigia aumentativo para ser valorizada. Desconfio que esta mania de chamar as disputas de Gauchão, Paulistão e outras coisas mais surgiu no momento em que a importância destes campeonatos diminuiu.

Gauchão pra gente era o Paixão Cortês que surge na ilustração do Xico Silva.


Seja como for, foi nas viagens ao interior do Rio Grande do Sul que aprendi como se joga futebol de verdade. Deixava-se Porto Alegre para cruzar o estado e éramos abrigados em estádios de madeira, com alambrado despencando, vestiários precários e torcida adversária vibrando como se fosse final de Mundial.

Foi nestes gramados – forma de dizer porque há muito a grama não era vista nem plantada naqueles campos – que assisti às mais impressionantes retrancas; zagueiros que trocariam um Troféu Belford Duarte pela canela do primeiro atacante que se atrevesse cruzar na intermediária; carrinhos que riscavam o chão e trilhavam o caminho com faíscas da chuteira de cravo antes de alcançar a perna alheia.

E eu gostava muito de tudo aquilo.

Jogar futebol era uma aventura, principalmente para os jogadores que chegavam da capital, sempre um alvo a ser abatido. Mesmo assim, o meu time era melhor e superava todas estas intempéries. Voltava para a “cidade grande” com sangue na camisa, barro nas meias, calção corroído pela poeira e a satisfação pela batalha vencida.

Sofri muito ao lado do campo vendo tudo isso acontecer. Vibrei e chorei com vitórias incríveis. Entendi que no futebol nem sempre o melhor ganha, é preciso também ter mais coração. Sabe aquela coisa de raça e determinação ? Pois é, nos jogos do Gaúcho era mais do que necessário.

Eu fui forjado torcedor neste campeonato, onde ganhei meu primeiro título – história já contada neste blog.

Muitos de nós passamos a nos apaixonar pelo futebol nas competições estaduais que se iniciaram neste fim de semana. Não exatamente neste arremedo de jogos disputados em fórmulas que mal conseguimos explicar aos nossos filhos. Hoje, os grandes times entram em campo preocupados em preservar seus jogadores para os jogos importantes da temporada.

O Grêmio, por exemplo, está de olho na pré-Libertadores, no dia 26 de janeiro, e para se livrar dos compromissos do Gaúcho fará, nos próximos dias, uma sequência absurda de partidas para um time que recém começa o ano – a largada para esta maratona foi hoje. Jogou muito bem no primeiro tempo, sem fôlego para marcar mas com talento na troca de bola. No segundo, cansou, desistiu ou estava desacostumado com as coisas do Estadual.

Distante do Olímpico e de volta ao papel de torcedor de PPV, assisti à partida sem a apreensão do passado. Sinal dos tempos, talvez. Apesar disso, tenha certeza de uma coisa: eu ainda acho muito bom ser campeão Gaúcho.

Veja mais ilustrações do Xico Silva no álbum do Picasa

Assis, de promessa do futebol a fazedor de promessas

 

Por Airton Gontow
Jornalista e cronista

Você se lembra do jogador Assis? Não, não falamos do ótimo atleta do Fluminense e do Atlético-PR, que marcou época no futebol brasileiro, formando com o centroavante Washington a versão brasileira do Casal 20.

Nos referimos a Roberto de Assis Moreira, o empresário, conhecido no mundo do futebol, como ‘o irmão do Ronaldinho Gaúcho”.

Baixinho e habilidoso, foi um dos grandes casos de craque excepcional que acabou não acontecendo. Integrou diversas Seleções Brasileiras e atraiu o interesse dos europeus que tentaram “sequestrá-lo” para a Itália. Foi resgatado pelo Grêmio e brilhou por pouco mais de um ano no tricolor gaúcho, que conduziu ao título da Copa do Brasil de 89, com atuações estupendas. Fez um dos gols na vitória gremista de 2 a 1 na partida final contra o Sport. Na semifinal, o time gaúcho havia despachado o Flamengo com uma humilhante goleada de 6 a 1.

Na época, o empresário Juan Figer chegou a afirmar que Assis era a promessa mais valiosa do futebol mundial.

Com muitas perspectivas, em estranhíssima transação Assis foi jogar no vibrante futebol suíço: no FC Sion. Lá seu futebol não evoluiu, apesar de algumas boas atuações. Pelo contrário, piorou, murchou. Quase sumiu. Mesmo assim, conseguiu transferir-se em 95 para o Sporting Clube do Porto, onde ficou pouco tempo. Em 96, jogou seis meses no Vasco e outro semestre no Fluminense. Voltou ao Sion e, novamente, a Portugal, para jogar no poderoso CF Estrela da Amadora. Pouco depois foi atuar na equipe japonesa do Consadole Sapporo. No ano 2000, foi defender o Corinthians e, em 2001, foi à França, para jogar no Montpellier, onde encerrou sua carreira.

Assis acabou não acontecendo. Percorreu o mundo, mas não chegou ao estrelato. Fracassou, para a surpresa de todos que o acompanharam nas equipes de base do Grêmio e da Seleção Brasileira.

Com a morte prematura do pai, tornou-se a figura paterna para o pequeno Ronaldo. E quando Ronaldinho Gaúcho confirmou as previsões de que seria o maior craque da família Moreira, Assis passou a gerenciar a sua carreira. Não deixaria o irmão repetir seus próprios erros, garantiu.

Roberto de Assis Moreira é presidente e fundador do Porto Alegre Futebol Clube, criado em janeiro de 2006. Após alguns anos na Segundona Gaúcha, o Porto Alegre conquistou o título em 2009 e a ascensão à Primeira Divisão. No ano passado, garantiu a permanência na elite da competição estadual. Em 2011, estará novamente entre os principais times do estado.

Assis é um homem rico. Mas não conseguiu cumprir a promessa de ser um bom gerenciador para a carreira do irmão.

Ronaldinho Gaúcho ganhou competições importantes, foi campeão do mundo pela Seleção Brasileira, foi duas vezes eleito o melhor jogador do mundo pela FIFA, tem uma fortuna estimada em 100 milhões de euros, mas está claro para todo mundo – mídia e torcedores – que – quando o assunto é apenas futebol e não situação bancária – é um jogador que desperdiçou o enorme talento que “Deus lhe deu”.

Nunca um gênio do futebol amargou tantos momentos no banco de reserva. Foi assim no Grêmio, ainda que em início de carreira; assim foi no Paris Saint-Germain, no Milan e até mesmo no Barcelona. Aos 30 anos, não foi convocado para a Copa do Mundo de 2010.

Ronaldinho Gaúcho é um craque que não é o grande ídolo em nenhum dos clubes em que atuou. Teve, sabemos, milhões de admiradores no mundo inteiro. Mas não é amado por torcida alguma. Não deixou saudades no Paris Saint-Germain e no Milan. Saiu vaiado do Barcelona, onde foi substituído e implacavelmente superado por Messi.

Não tem nem a paixão da torcida brasileira. As vozes que cobraram Dunga por sua desastrosa convocação para a última Copa pediam Ganso e Newmar. Poucos reclamaram a ausência de Ronaldinho Gaúcho.

Nada indica que se for para o Flamengo o excepcional jogador conseguirá ocupar na história do clube e no coração do torcedor rubro-negro o espaço que é de Zico. Sua última chance de se tornar um ídolo para a história era no Grêmio.

Há poucos indícios de que o jogador está realmente disposto a resgatar seu grande futebol. As notícias sobre o craque gaúcho mostram que ele encontrou Romário na churrascaria Porcão, que foi esta semana a uma feijoada e que ontem foi até Florianópolis para assistir, às duas da manhã, ao show de Amy Winehouse. Nenhuma informação ou imagem trazem o Ronaldinho entrando em uma academia ou correndo na praia, em busca de entrar em forma, ainda que todos os times já estejam em plena pré-temporada.

O leilão promovido por Assis e a ridícula coletiva de imprensa no Copacabana Palace desgastaram ainda mais a marca Ronaldinho Gaúcho. Se o futebol do jogador já estava em declínio desde 2006, sua imagem parece seguir o mesmo caminho, ainda que seu provável destino seja o Flamengo, time com a maior torcida do futebol mundial.

Promessa e Assis são palavras que andam, inexoravelmente, juntas. De eterna promessa, Assis é um homem que promete para todo mundo.

É triste a atual imagem de Ronaldinho Gaúcho.

Seu famoso sorriso faceiro parece hoje, para a maioria das pessoas, o riso de um homem sem personalidade, um bobo alegre, que deixa tudo nas mãos do irmão.

Assis e Ronaldinho Gaúcho flertaram ao mesmo tempo com pelo menos três clubes, deram a palavras de que o negócio estava fechado e fizeram promessas que não cumpriram. Juras de amor foram apenas para o Grêmio. Cairão, porém, nos braços de outros torcedores.

Para os gremistas que estão tristes e indignados, digo o que falaria para um bom amigo, traído pela mulher:

– Chora não. Ela não presta!

Jogada rara no futebol

Dignidade e ética são palavras que costumam não combinar com futebol. Mas fazem parte da estratégia do técnico Franco Navarro, vice campeão peruano pelo Leon de Huanuco, provável adversário do Grêmio na Libertadores 2011 – pelo que se constata ao ler reportagem publicada na primeira página do uruguaio El Pais.

Navarro abriu mão do título do campeonato nacional do Peru ao deixar fora da equipe seu melhor jogador, o volante argentino Gustavo Rodas, que havia sido expulso na partida anterior por ter se envolvido em uma briga generalizada. A Comissão de Justiça da Associação Profissional de Futebol, porėm, deu ao jogador efeito suspensivo sob a alegação de que ele não havia agredido ninguém – mesmo que as evidências mostrassem o contrário.

“Todos concordam, inclusive Rodas, que não se deve tirar vantagem de algo errado. Há muita hipocrisia no futebol, porém, este clube tem dignidade”, disse o treinador em atitude pouco comum ao esporte. Com a derrota por 2 a 1 para o San Martín, Navarro perdeu pela quarta vez a disputa do título nacional, mas parecia bem mais preocupado em defender seu caráter a uma taça.

Com este gesto, Navarro mexe com nosso mais básico instinto de torcedor e põe em xeque comportamentos com os quais nos acostumamos na busca pela vitória.

Antes de aplaudir a atitude dele, no entanto, pense o que você diria ao técnico do seu time caso ele tomasse a mesma decisão.

Avalanche Tricolor: Meninos, eu vi, juro que vi

 

Grêmio 3 (5) x 1 (3) Goiás
Sulamericana – Avellaneda (ARG)

Menino, eu vi, eu juro que vi Vítor de braços abertos fazendo milagres em defesas impossíveis.

Meninos, eu vi, eu juro que vi Paulão despachando a bola para as arquibancadas sempre que o perigo esteve próximo.

Meninos, eu vi, eu juro que vi nossos alas correndo, aloprados, ao fundo do campo deixando tontos os marcadores adversários.

Meninos, eu vi, eu juro que vi Rochemback, Rafael Marques, Adílson e todos os nossos marcadores comendo a bola com a ponta da chuteira.

Meninos, eu vi, eu juro que vi Douglas com maestria entregar a bola aos seus companheiros como se a eles desse uma joia rara.

Meninos, eu vi, eu juro que vi Andre Lima atrapalhado colocando a bola para as redes e Jonas fazendo a única coisa que é capaz de fazer em campo: muitos gols.

Meninos, eu vi, eu juro que vi Renato gesticulando ao lado do campo, gritando frases inaudíveis na inútil tentativa de organizar o caos.

Mas eu vi muito mais do que isso, juro que vi, na noite e madrugada de futebol jogado na argentina Avellaneda, em estádio com emblemático nome Libertadores da América.

Estavam lá nas arquibancadas Lara, Arce, Ancheta, Airton, Calvet, Everaldo, Dinho, Gessi, Ronaldinho, Iura, André Catimba, Alcindo, Juarez, Tarciso … e tantos outros que se misturavam aos milhares de torcedores que empurravam os azuis à conquista de uma vaga na Libertadores.

O Grêmio foi grande, desta vez travestido de Independiente. Assim como o foi em tantos outros momentos mágicos do futebol mundial em que nossos espírito foi incorporado por times nem sempre com jogo qualificado, mas com desafios inacreditáveis

Avalanche Tricolor: É muito bom ser pai desses meninos

    Grêmio 3 x 0 Botafogo
    Brasileiro – Olímpico Monumental

    Olímpico Monumental

    Os foguetes começaram a estourar logo cedo. Alguns ônibus já estavam estacionados perto de casa e torcedores improvisavam o local para o churrasco. Ouviam-se gritos à distância e camisas do Grêmio desfilavam na calçada diante da casa de minha infância e adolescência. Foi ali que meu coração foi forjado gremista e minha alma, imortal.

    O clima era de decisão como tantas que havia assistido em meu passado porto-alegrense, boa parte delas com o direito de me iludir com os ídolos e me enganar com as promessas de vitória. Às derrotas, havia meu pai suficientemente maduro e calejado para me consolar.

    Hoje não, o pai era eu. Quem havia motivado os meninos para viajar à Porto Alegre e torcer pelo Grêmio no Monumental, neste começo de férias, é quem teria de assumir a responsabilidade pelo feito (ou desfeito).

    Por que não levá-los à primeira partida no Olímpico em jogo menos complicado? Quem sabe um de campeonato Gaúcho, desses por onde comecei a saborear o gosto pelas conquistas? Fui escolher logo uma “final” de Brasileiro, com a difícil tarefa de vencer e esperar um resultado externo para saber se teríamos o direito de estar mais uma vez na Libertadores.

    E se nada desse certo? O resultado ruim, a frustração, o estádio lotado de tristeza, os meninos me olhando querendo entender tudo aquilo ? Será que encontrarei lugar para eles sentarem e assistirem à partida com segurança?

    Nessas horas, tudo ganha uma dimensāo muito maior do que deveria. Tinha a responsabilidade de transformar aqueles momentos em algo especial, mesmo que boa parte do espetáculo não dependesse apenas de mim.

    Os meninos foram se vestir para o jogo, e buscaram na mala camisas azuis, sem que eu pedisse – davam sinal de ansiedade, também.

    Lá fora, a música entoada pelos torcedores aumentava, ainda faltavam algumas horas para seguir ao estádio, apesar de minhas preocupações já terem percorrido toda a curta caminhada até o nosso destino.

    Churrasco em família encerrado, não dava mais para recuar. Era hora de sair para ver o Grêmio no Monumental. É bem diferente do que vê-lo em qualquer outro lugar, muito mais do que torcer por ele diante da televisāo como os acostumei.

    Saí de casa de mãos dadas com os dois, e havia ainda a companhia dos meus irmão e sobrinho, ambos neófitos nestas caminhadas até o estádio – torcem pelo Grêmio sem sofrimento, na maior parte das vezes de ouvido apenas.

    Em Familia

    Tantas dúvidas e apreensões não resistiram atė a esquina da Saldanha Marinho, rua que sempre marcou o início do meu passeio ao Olímpico. Os primeiros passos na companhia deles foram suficientes para perceber quanta bobagem desnecessária havia passado pela minha cabeça. Temer o quê, se estar ali com meus dois filhos – acrescido de mais dois caras muito legais em minha vida – era, sim, o mais importante. Maior do que qualquer outra coisa que o futebol pudesse me proporcionar.

    Entrar no Pórtico dos Campēoes com eles em meio a multidão entusiasmada de gremistas foi especial, estávamos quase correndo como se não suportássemos mais a ansiedade de entrar no estádio e encontrar nosso lugar para gritar e comemorar aqueles instantes juntos.

    Pouco antes de subirmos ao nosso espaço não-reservado, encontrei dois velhos conhecidos. Verardi, eterno supervisor do clube, e Pedrão, antigo segurança sempre presente ao lado do time. Foi ele quem me lembrou de frase-lamento que repeti várias vezes ao meu pai sempre que uma adversidade surgia no caminho do Grêmio: “estão nos roubando, pai!?”

    Desta vez ninguém me roubaria a alegria de estar com meus dois filhos no Monumental, independentemente da estratégia armada pelos técnicos e do jogo jogado pelos times.

    Quis o destino, porém, que a alegria fosse completa.

    Meu time e a minha torcida foram cúmplices da satisfação de cantar trechos do hino rio-grandense ao lado dos meninos, de aplaudir a escalação e a movimentação dos jogadores, de socar o ar na bola que explodia no travessão ou fora tirada do adversário com um elegante carrinho.

    Foram cúmplices na festa do gol, dos três gols, emocionantes gols marcados por nossos ídolos. Os de André, Jonas e Douglas. Os evitados por Vítor e Paulão. Os quase feitos por Clementino. Os que se tornaram possíveis graças a inteligência emocional de Renato.

    Meu prazer, nosso prazer, de estarmos pulando, abraçando um ao outro, rindo dos torcedores boca suja, vibrando com o resultado e pedindo sorvete para matar a sede me fez criança como eles. Como na época em que eu era eles. Em que eu era apenas um menino apaixonado pelo seu time.

    Hoje, sou o pai desses meninos. Meus meninos gremistas.

    Vibrar