Avalanche Tricolor: entre livros e maldições

Grêmio 1×2 Athletico Paranaense

Brasileiro – Arena do Grêmio, Porto Alegre/RS

Iturbe comemora seu gol em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Na fila do livro “Amazônia na encruzilhada”, de Miriam Leitão, a conversa era sobre jornalismo, rádio, literatura e meio ambiente. Ninguém se aproximou para puxar assuntos do futebol. Ainda bem! Cheguei cedo na Livraria da Travessa, no Shopping Iguatemi, neste início de noite, em São Paulo. Quando se trata de livros de autores renomados e queridos, a concorrência por lugares na fila costuma ser intensa. Chegar atrasado significa esperar por horas para ter a oportunidade de cumprimentar a autora e receber um autógrafo.

Quando cheguei, Miriam já estava por lá e recebendo o carinho de amigos e a atenção de jornalistas que foram cobrir o lançamento. Logo a encontrei, agradeci pela bela obra que valoriza a maior riqueza que o Brasil tem e vive sob ameaça: a Amazônia. Em troca, além da gentileza de sempre, fui presenteado com palavras da autora e um autógrafo que ficará guardado entre meus livros queridos na biblioteca que mantenho em casa. Na biblioteca e no coração.

Na livraria, além de olhar os demais livros expostos, um prazer que mantenho no meu cotidiano, conversei com mais alguns colegas de profissão e tomei o caminho de volta para casa. O trânsito era intenso. A cara de São Paulo. O que me impediu de assistir na televisão ao primeiro tempo da partida do Grêmio. O recurso foi o rádio. E no rádio, além do gol de Iturbe, bem no começo do jogo, só ouvi sofrimento, reclamações e previsões catastróficas. Todas se realizaram.

Cheguei em casa no intervalo quando as equipes estavam em campo para iniciar o segundo tempo e o Grêmio já estava com nova formação. Assim que a bola começou a rolar, a impressão é que tanto os comentaristas quanto os torcedores ouvidos na rádio tinham assistido à outra partida. Passamos a pressionar, a impedir o avanço do adversário, a incomodar no ataque e dar sinais de que a vitória era iminente. Bastava um pouco mais de ajuste no chute final. Cheguei a me entusiasmar. Mas o que era entusiasmo virou ilusão. E da ilusão à frustração.

Nos minutos finais, quando estávamos nos acréscimos, o pior dos mundos se desenhou. Tanto insistimos em tomar um gol que o gol se realizou. Daqueles que costumávamos fazer e que, nestes últimos tempos, sei lá por qual motivo, se transformaram na nossa maldição. É quase como se os deuses do futebol, aqueles mesmos que nos deram o dom da Imortalidade, tivessem se reunido e decretado: vocês não fazem por merecer! Será?

Conte Sua História de São Paulo: a camisa 10 de Pelé no Museu do Futebol

Por Sérgio Yunes

Ouvinte da CBN

A tarde quente e ensolarada de janeiro tornou ainda mais agradável a chegada à Praça Charles Miller, onde fica o Estádio Municipal do Pacaembu. Era 2019. O estádio ainda não passava por reformas, funcionava normalmente, inclusive naquela noite receberia uma partida pela primeira fase do Paulistão: São Paulo e Guarani de Campinas.

No vasto largo, vendedores ambulantes dos mais diversos tipos já se postavam, embora ainda fosse cedo. A polícia também estava presente, com soldados a pé e viaturas. Olhando tudo isso e driblando a todos eles, como convém ao histórico local, tomei o rumo do estádio. Meu destino não era o campo de jogo ou as arquibancadas, mas sim o Museu do Futebol, um dos principais pontos turísticos da cidade.

E como sou fanático pelo esporte desde 1970, quando fui apresentado ao jogo dos 11 pelo maior time de futebol de todos os tempos, a seleção brasileira daquela Copa do México, a visita ao Museu era mais do que obrigatória, era uma necessidade. Antes, uma ótima surpresa. Mesmo em preparação para o jogo da noite, os acessos à parte interna do Estádio estavam abertos à visitação. Cruzei os portões e logo cheguei ao campo. Arquibancadas, pista e gramado mostraram-se galantes, tudo prontinho para a partida e para receber as torcidas.

O velho e histórico estádio revelava seu charme, encantamento e força. Aliás, força não só dele, mas de todo o futebol brasileiro, com placas em homenagem às conquistas da Seleção Brasileira, com os nomes de todos os jogadores.

Visto e sentido tudo isso, era hora de entrar no Museu. No caminho, a loja do Futebol. Como lembrança, um imã de geladeira com a imagem do Estádio. Ali ao lado, no café do Pacaembu, um jornalista começava a preparar os primeiros materiais para a cobertura do jogo. Ingresso na mão, comecei o passeio pelo imenso universo do esporte mais popular no mundo.

Escudos, fotos, vídeos, gravações, camisetas, arquivos históricos, listas de clubes, músicas e até uma biblioteca, talvez a mais completa para estudos sobre a modalidade. Mas foi na parte final da visita que presenciei algo impressionante, algo quase inacreditável. 

Amarelinha, incrivelmente nova e perfeita, como foi o futebol de seu dono. Lá estava ela, a camisa número 10 de Pelé. E não era qualquer 10 de Pelé, se é que é possível existir isso, era a camisa usada pelo Rei na final da Copa de 70.

Peça sem preço, de valor inestimável para toda uma nação e para o mundo, estava ali, venerada como um altar que homenageava a paixão e um dos homens mais amados do planeta. Impossível não ficar encantado ou hipnotizado ao olhar a vestimenta, imaginando os movimentos geniais, sagrados e míticos que recebeu naquele jogo contra os italianos. Impossível não devorar com os olhos cada detalhe da peça, do histórico escudo da CBD à etiqueta do fabricante, uma multinacional de material esportivo, colocada na parte interna, sem ficar à mostra. Naquele tempo não havia o marketing de hoje. Toda lisa, num amarelo dominante com gola e bordas das mangas em verde, certamente era a principal peça do Museu e alvo maior dos visitantes.

Ainda atônito por ter estado tão perto daquela peça icônica, que poderia ter tocado não fosse o vidro de proteção, encerrei o passeio pelo Museu e pelo Estádio. Ganhei novamente a praça Charles Miller, que já começava a receber os primeiros torcedores para o jogo da noite, afinal a bola, o campo e o gol precisavam continuar a prestar suas homenagens a quem os tratou com tamanha majestade.

Ouça o Conte Sua História com o gol de Pelé na final de 70

Sérgio Yunes é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Seja você também personagem da nossa cidade. Escreva seu texto agora e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros episódios, visite meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.”

Avalanche Tricolor: obrigado, Senhor Suàrez!

Inter 3×2 Grêmio

Brasileiro – Beira Rio, Porto Alegre/RS

Suárez comemora segundo gol em Gre-Nal. foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Padre José Bertolini é gremista de Bento. Vive em São Paulo há muitos anos. E, por essas felizes coincidências que a vida proporciona, reza missa na capela próxima de casa. O caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche o conhece de crônicas passadas. Esteve por aqui no emblemático Gre-Nal do 5 x 0, em agosto de 2015, e em outras tantas passagens que o futebol nos proporcionou. 

Hoje cedo, era Padre José quem estava escalado para rezar a missa, na Capela da Imaculada. Antes de encerrar a homilia, inspirada na parábola da Vinha do Senhor (se estiver interessado leia aqui), entrelaçou suas reflexões com memórias do seminário. Lembrou-se de um colega gremista que, enquanto ouvia os jogos em um pequeno rádio colado no ouvido, segurava um santo rosário na outra mão, avançando na reza do terço à medida que a partida progredia. Bertolini questionou: “Acredita realmente que o Senhor vai interferir?”

Antes que o considerem descrente, esclareço que Padre José foi preciso em sua fala pois sabe, a partir de seus estudos aprofundados da religião, que não é neste campo que a intervenção divina se realiza. Já escrevi vez passada que lá onde a bola rola, nossos deuses são profanos e nossas atitudes nem sempre são santas. 

No futebol, quem intercede por nós é o goleiro realizando milagres; são os zagueiros, nossos guardiões inabaláveis, que precisam contar com a ajuda dos santos protetores que atuam na frente da área; os meio-campistas, que manejam a bola com a devoção com que um fiel avança nas contas do terço até completar a reza; são os atacantes e seus gols salvadores. Se nada disso funciona, pouco adianta pedir aos céus.

Mesmo diante do resultado negativo desta tarde de domingo, há razões para o Grêmio expressar gratidão. Graças ao esforço sobre-humano de Luís Suaréz que voltou a marcar gol no clássico, desta vez de falta — coisa rara na história recente do Grêmio — os torcedores deixaram o Gre-Nal com um sabor menos amargo, lembrando-nos das uvas verdes e azedas da parábola evocada por Padre José.

Avalanche Tricolor: quero falar sobre Geromel

Fortaleza 1×1 Grêmio

Brasileiro — Arena Castelão, Fortaleza, CE

Geromel em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Na última partida antes do Gre-nal, assuntos não faltam para os que gostam de falar do Grêmio —- gostem bem ou gostem mal. Pode-se falar da qualidade da assistência de Reinaldo, que serviu Suárez com um passe em curva nas costas dos marcadores e permitiu que o uruguaio marcasse o gol de empate. 

Claro, pode-se falar de Suárez, também, que sempre é um bom motivo para puxar conversa, mesmo com torcedores contrários. O gringo mais uma vez se entregou em campo como quase nenhum outro. E nos premiou com aquela corrida por trás dos zagueiros e a precisão do chute, apesar da pressão do goleiro que saiu em sua direção e parecia ter fechado todos os espaços. Até a reclamação de que ele não marcava gols fora de casa cai por terra: ele fez dois nas duas últimas partidas em que jogamos como visitantes

Há os que andam por aí reclamando da dificuldade que temos de impor nosso futebol na casa dos adversários — e têm motivos para tal; ou do desperdício de pontos que nos afasta cada vez mais do título, apesar de estarmos na luta pelas primeiras colocações há muitas rodadas; ou das perdas sucessivas de cobranças de pênaltis — esquecendo-se de que foi nos pênaltis que avançamos até a semifinal da Copa do Brasil.. 

Apesar de tudo, ter o melhor ataque, com 40 gols marcados e o segundo maior número de vitórias, 13 no total, no Campeonato Brasileiro, ao menos até o instante em que publico esta Avalanche, talvez também fosse razão de um bom bate-papo no boteco.

Todos são temas pertinentes! 

Eu me reservo o direito de falar do que mais me chamou atenção na partida dessa tarde de sábado: a performance de Geromel. Ver nosso zagueiro de volta com a faixa de capitão e, pela primeira vez no ano, disputando uma partida completa, após a cirurgia no joelho e o problema muscular, já seria motivo de alegria para mim. Vê-lo com a segurança e empenho que vi —  imagino que você, caro e cada vez mais raro leitor dessa Avalanche, também tenha visto — é mais do que motivo para minha satisfação.

Geromel está com 38 anos, completados há cerca de uma semana — aos crentes nas coisas alheias, ele é virginiano como o Grêmio. Resiliente e paciencioso, nosso zagueiro superou a distância dos gramados e a dureza do período de reabilitação. Para quem foi atleta e passou por isso, sabe o drama que é cada dia de fisioterapia, exercícios doloridos e avanços limitados, expectativas para voltar aos treinos e medos de que a lesão volte a incomodar.

Enquanto alguns reclamariam da falta de ritmo de jogo, na volta ao time, Geromel  demonstrou estar em plena forma física e técnica. Em campo, mostrou que mantém o reflexo que o fez dos maiores zagueiros que já vestiram nossa camisa. Deu o bote na hora certa e impediu o drible do atacante. Antecipou-se às jogadas e abortou as tentativas do adversário. Dentro da área manifestou seu gigantismo despachando a bola pelo alto e por baixo. Independentemente de como ela viesse.. 

Nos deu ainda a satisfação de assisti-lo novamente ao lado de Kannemann com quem forma a dupla de zaga mais vitoriosa dos últimos tempos. Geromel traz tanta segurança à defesa que seu colega de área pode se expor menos e completou uma partida sem tomar cartão amarelo, coisa rara nesta temporada. 

Ao fim ainda expressou a humildade que marca sua trajetória. Ao repórter de campo que o elogiou, respondeu que não poderia ser diferente depois de tanto tempo que teve para treinar. Como se voltar a campo após meses recuperando-se de lesão e jogar da forma como jogou fosse a coisa mais natural do mundo. Não o é! Geromel é simplesmente sobrenatural !

Avalanche Tricolor: a vitória do Grêmio Copeiro!

Grêmio 1×0 Palmeiras

Brasileiro — Arena do Grêmio, Porto Alegre/RS

Foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Era jogo de Brasileiro e o Grêmio o transformou em jogo de Copa. Tipo mata-mata. Em que se não mata morre. Que não interessa o quanto se joga mas o quanto se sabe sofrer. Do pragmatismo e da bola para o mato. Do suor correndo no peito e o sangue lavando a testa. 

Era uma partida daquelas que não se busca a melhor performance, o que se quer é o resultado. E o resultado se fez logo cedo, aos 10 minutos do primeiro tempo, na clássica jogada da bola passando de pé em pé até estufar a rede. E foi o pé direito de João Pedro que marcou aquele que seria o único gol do jogo após receber o toque precioso de Luis Suárez, o goleador e mais talentoso garçom da nossa equipe.

Villasanti também fez parte da triangulação do gol. Fez muito mais do que isso. Foi gigante na marcação, fechou todos os espaços e não perdeu dividida de bola. Encarou a cara feia do adversário. Irritou o atacante e se sacrificou em campo quando percebeu que o risco do empate era iminente. Deu a vida, foi expulso e saiu aplaudido pelo torcedor que encontrou no desempenho de nosso volante o Grêmio copeiro que andava escondido em algum armário no vestiário.

O Grêmio não foi melhor. Foi apenas maior. E era isso que eu mais esperava do meu time, há algum tempo, para que o coração resignado que me batia fraco no peito voltasse a pulsar no ritmo da raça de um Imortal.

Ao tomar a frente do placar, o Grêmio que assistimos hoje na Arena decretou que ninguém mais seria capaz de nos roubar a conquista alcançada. E em nome dela assumiu a postura do guerreiro que não teme o tranco do adversário, não tem vergonha do chutão e faz da catimba estratégia de jogo. Foi assim que chegamos às maiores das nossas vitórias nos 120 anos de vida e foi assim que superamos depois de sete anos, em casa, o adversário desta noite. 

O Grêmio, desta vez, foi Copeiro em pleno Campeonato Brasileiro! Que assim seja para todo e sempre.

Avalanche Tricolor: alguma coisa acontece no meu coração!

Corinthians 4×4 Grêmio

Brasileiro — Neo Química Arena, SP/SP

Suárez comemora o quarto gol em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Um jogo maluco! Um jogo incrível! Um jogo histórico! É o que ouço na transmissão da partida desta noite. O narrador, o comentarista e o repórter repetem essas expressões aos borbotões. O jogador entra na onda e usufrui do adjetivo alheio para explicar o placar de oitos gols e dois vira-viras. Nas redes sociais, não faltarão torcedores repetindo os elogios a esse confronto fora de data — imagine que a partida desta noite se refere a décima-quinta rodada do campeonato quando a competição já está na sua vigésima-terceira. 

Há quem queira animar o público e arrisque a pergunta que será feita no futuro: “onde você estava naquele empate de 4 a 4?”. Eu responderei, se a memória ainda me permitir: sentado no sofá, diante da televisão e resignado. 

Alguma coisa acontece no meu coração!

No passado, estaria alucinado diante de uma partida como esta que se encerrou agora há pouco. Nesses últimos tempos, porém, tenho assistido aos jogos do Grêmio sem a ilusão dos apaixonados que sempre me moveu como torcedor. 

Perdi o êxtase do gol. Comemoro desconfiado. Seja porque imagino que o árbitro vai anular seja porque temo a sensação da frustração a seguir. Fazemos um, fazemos dois gols. E ainda assim ponho em dúvida a vitória. 

A dinâmica da partida de hoje certifica esse sentimento. Vejo o adversário avançar e tenho certeza de que o revés se aproxima. A virada que tomamos no primeiro tempo apenas reafirma meu temor.

O segundo tempo começou e o que veio na sequência confirmou minha intuição, a despeito de no peito bater o desejo de que eu estivesse profundamente enganado. Mesmo que a bola role de pé em pé; o talento surja no passe, no toque e no chute a gol; e nos mostremos capazes de recuperar a vitória que havia sido perdida, ainda assim desconfio. 

Temo o resultado tanto quanto temo estar sendo injusto com quem sempre me seduziu. E lá vem a realidade acolher meus maus presságios. Para que não reste dúvidas, não basta ver o empate se realizar depois de estar duas vezes a frente do placar, ainda sou obrigado a assistir a mais um lance de pênalti crasso não marcado pelo árbitro e sequer alertado pelo VAR.

Um jogo maluco! Um jogo incrível! Um jogo histórico! Repetirão por aí. Para mim, mais um jogo em que desperdiçamos a oportunidade de conquistar três pontos e fomos prejudicados pela falta de critério e coragem dos árbitros brasileiros. 

Que tudo isso que sinto hoje seja breve e o Grêmio reascenda a paixão enrustida em algum lugar do meu coração e acabe com essa minha resignação! 

Avalanche Tricolor: 120 anos de vida!

Vista aérea da Arena no dia dos 120 anos em foto de Diego Vara/GrêmioFBPA

Saí da Igreja, agora há pouco — vou à missa todos os domingos —, e encontrei o Romano, conterrâneo e gremista desgarrado aqui em São Paulo, assim como eu. Migramos da saudação de paz a comentários sobre nosso time tão rapidamente quanto fazemos o sinal da cruz. Ele disse que não havia lido minha “coluna” mas já imaginava o que eu teria escrito sobre a partida da quinta-feira à noite. Sim, Romano está entre os caros e raros leitores desta Avalanche.

Não leu porque não escrevi. Coisa rara nesses mais de 15 anos desde que criei esse espaço em que usufrui do nome de uma das comemorações mais loucas que a torcida gremista já proporcionou — saudade da geral do Olímpico. E não escrevi porque o futebol jogado no interior paulista, na retomada do Campeonato Brasileiro, após a Data Fifa, além de se encerrar tarde, pouco me inspirou e o conteúdo de minha escrita não seria justo com os 120 anos de fundação que o Grêmio comemoraria no dia seguinte. 

Aniversário do nosso time gostamos de festejar. E consta que a comemoração foi linda lá pelas bandas da Arena com famílias reunidas, torcedores entusiasmados, homenagens merecidas a craques como Tarcisio, o Flecha Negra, música e shows para todos os gostos. Além de boa comida e bebida. Quando a data é redonda, os festejos são ainda mais especiais.

Recentemente completei 60 anos de vida e esse arredondar de datas me permitiu perceber que metade da história gremista acompanhei em vida. Verdade que lá no início dos meus tempos sequer sabia o que era futebol, mas meu pai deve ter comemorado vitórias me abraçando ainda bebê, colocando a bandeira sobre meu berço e compartilhando seu sorriso ao chegar em casa após as partidas disputadas no Olímpico, que, aliás, ficava na vizinhança da casa em que morei criança. Lembre-mos que nasci em meio às conquistas que nos levaram ao Heptacampeonato Gaúcho (1962 – 1968).

A primeira experiência sentida na pele que tive com o futebol foi aos seis anos. Já contei aqui essa história familiar pouco recomendada aos pais modernos.

Um primo de segundo grau usufruiu da minha ingenuidade e me fez vestir uma camisa do adversário e erguer uma bandeirola encarnada, no dia em que desperdiçamos a oportunidade de sermos Octacampeões Gaúchos. Meu pai me bateu com o pau da bandeira para que eu aprendesse definitivamente minha missão em vida: ser gremista eternamente. Muito anos depois, ele próprio disse ter se arrependido da atitude, no que eu fiz questão de agradecer pela boa lição que aprendi.

De lá pra frente, minha relação com o Grêmio se fez mais íntima. Passei a frequentar o Olímpico, joguei na escolinha de futebol, migrei para o basquete, fui mascote desses de entrar de mãos dadas com os jogadores, fui gandula e pombo-correio do Seu Ênio Andrade, a quem assumi como meu padrinho, chorei nas arquibancadas e no vestiário fui consolado por alguns dos nossos ídolos. Entrei em campo para festejar conquistas e tive de sair correndo de dentro dele para não sermos atingidos por foguetes arremessados por torcedores frustrados com a derrota.

O Grêmio faz parte da minha vida e ajudou a construir meu caráter. Devo muito aos aprendizados que tive lá dentro e sou grato pelas alegrias e sofrimentos que me forjaram como pessoa.

Foi importante para tornar mais próxima e verdadeira a relação que tive com meu pai e de tão significativo, mesmo quando a doença já não permitia que ele se expressasse de forma clara, eram os símbolos do Grêmio, sua cor, sua camisa e as imagens na televisão, nossos pontos de conexão. Fiz questão de passar tudo isso aos meus filhos que hoje são gremistas apesar de terem nascido longe de Porto Alegre e nesta terra, São Paulo, de tantos clubes grandes e sedutores. 

O significado deste clube foi gigante e aproveito esses 120 anos de fundação para agradecer por tudo que o Grêmio fez por mim, expressando aqui um sentimento que talvez estivesse enevoado, após o resultado frustrante na véspera de nosso aniversário.  

Avalanche Tricolor: a magia que veste a camisa do Grêmio

Grêmio 2×0 Cuiabá

Brasileiro – Arena do Grêmio, Porto Alegre/RS

Suarez comemora o primeiro gol da partida em foto de Lucas Uebel/GremioFBPA

(NE: este post teria de ter sido publicado no domingo, mas fiquei sem acesso ao Blog nesses dias)

No domingo que iniciou a semana de folga no trabalho, visitei os parques da Universal, na Flórida. Apesar de todas as atrações com personagens dos meus tempos de criança — lá estavam o Popeye e o Recruta Zero — ou de super-heróis como o Homem Aranha e Hulk, o centro das atenções é Harry Potter. O guri, que estuda na escola de Hogwarts, faz magias e além de encarar todo tipo de fera ainda depara com com dilemas morais e riscos de cancelamento, esses provocados pela opinião e comportamento discutível de sua autora, a britânica J.K.Rowling.

Foi lá na estação de trem que leva à escola — de verdade, nos permite trocar de uma parque para outro da Universal — que um outro guri me chamou atenção: estava na fila, a espera de embarcar e vestindo a camisa do Grêmio. Naquele momento, nosso time já vencia por um a zero o adversário que nos serviram no café da manhã deste domingo, em Porto Alegre. E com um gol de Luis Suárez que conferi na transmissão em tempo real do site do GE. 

Já disse aqui nesta Avalanche que desde a chegada do terceiro maior artilheiro em atividade no mundo os torcedores gremistas não se contentam mais com gols. Queremos que os gols sejam marcados por Suárez, especialmente depois que soubemos que sua passagem no Grêmio deve expirar ao fim do ano. Vê-lo balançando a rede nos oferece a sensação de que estamos diante de algo realmente mágico, daquelas coisas que poucos fãs do futebol mundial têm o direito de saborear. Nós temos!

Vi nos melhores momentos ao menos outros dois lances geniais de Suárez. O mais lindo no segundo tempo quando deu um chapéu no marcador e completou de perna direita para a defesa do goleiro. Imagino que os privilegiados que assistiram ao jogo devem ter se deliciado com sua movimentação, participação nas tabelas no ataque e dedicação ao time. É mágico!

Foi nas imagens editadas e compartilhadas na internet que vi a tabela que deu início ao segundo gol que o árbitro assinalou contra, mas poderia ter colocado em nome do combo Ferreirinha, Reinaldo e Galdino, fazendo justiça a forma como os três se deslocaram, trocaram passes com precisão e deixaram a defesa adversária enfeitiçada. Minha imaginação me faz acreditar que outros movimentos como aquele ocorreram durante a partida, porque quando o Grêmio decide jogar seu melhor futebol, é irresistível! 

A vitória nos mantém entre os melhores times do Brasil, mesmo que muitos ainda não tenham percebido esse fenômeno que alcançamos em tão pouco tempo desde que subimos da divisão aquela-cujo-nome-não-deve-ser-pronunciado’ … (melhor não dizer seu nome porque corremos o risco de sermos amaldiçoados como ao repetirmos o nome de Voldemort, ops, por você-sabe-quem). Apesar da distância que existe entre o líder e seus perseguidores, é importante ressaltar que o que tem mais chances de lhe tirar o título tem nome e sobrenome: é o Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense. 

A partida ainda não havia se encerrado quando perdi de vista o guri com a camisa do Grêmio que passeava no parque da Universal. Queria ter tido oportunidade de chamá-lo e perguntado: “você viu o gol do nosso bruxo?”. E ele responderia, bem humorado: Wingardium Leviosa!

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Avalanche Tricolor: um jogo para matar a saudade!

Grêmio 3×0 Cruzeiro

Brasileiro – Arena do Grêmio, Porto Alegre/RS

Jogadores comemoram gol em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Teve Geromel de volta. E com a braçadeira de capitão. Mais do que isso, com Kannemann também recuperado, tivemos o retorno da melhor dupla de zaga que já vestiu a camisa do Grêmio, neste século. Que enquanto esteve em campo não perdeu uma só disputa de bola. Adiantou-se ao marcador para impedir a sequência da jogada. Despachou o perigo quando o lançamento chegou a nossa área. E nos fez relembrar a imagem clássica deles levantando todos os troféus que conquistamos na última década. 

Teve Luan no meio de campo vestindo a camisa 7, mesmo que apenas nos 15 minutos finais. Ouvir a torcida gritando seu nome, pedindo para que entrasse, já valia o ingresso. Diferentemente da primeira vez em que retornou ao time, foi mais acionado. Tocou a bola com leveza. Tabelou com seus colegas. Cadenciou o jogo. Esforçou-se na marcação. E acionou na mente de cada um de nós — caros e raros gremistas que leem esta Avalanche — uma série de cenas inesquecíveis de quando fomos campeões da Libertadores e  Luan, o Rei da América.

Foi um jogo para, também, matar a saudade recente de Suárez que estava há oito partidas sem marcar o seu, coisa rara na jornada esportiva do terceiro maior goleador em atividade no mundo. Registre-se: não ter feito gols diz muito mais de como atuamos nas últimas partidas do que propriamente do desempenho do atacante; assim como não diminuiu sua importância no elenco a medida que nos faz muito maior sempre que está em campo. Agora, em 36 partidas, Suárez marcou 14 gols e deu 11 assistências. Um prazer que poucos torcedores no mundo terão para contar.

O jogo deste fim de domingo, que nos elevou a terceira posição do Campeonato Brasileiro, mexeu com essa emoção nem sempre fácil de definir: a saudade. Até o toque de bola no meio de campo que se sobrepôs ao do adversário nos remeteu às glórias mais recentes. A começar pelo talento de Pepê que comparam com o de Michael, outro genial que vestiu nossa camisa e nos levou aos últimos grandes títulos. Foi dele, Pepê, o terceiro gol em uma jogada que nos fez lembrar os bons tempos de triangulação, aproximação e forte movimentação no ataque.

A categoria de Pepê fez fluir melhor o futebol de Villasanti, Carballo e Cristaldo — os dois últimos com participações decisivas nos gols da vitória. Cristaldo foi quem, no primeiro gol, roubou a bola no ataque e serviu Suárez; e quem, no segundo, bateu a falta com rapidez, encontrou Suárez que de calcanhar entregou para Carballo colocar com categoria nas redes.

O Grêmio, hoje, foi um time que matou a minha saudade! 

Avalanche Tricolor: um recado ao grupo de WhatsApp

Santos 2×1 Grêmio

Brasileiro – Vila Belmiro, Santos/SP

Foto de Lucas Uebal GrêmioFBPA

Quem me conhece bem sabe que quase não abro espaço a grupos de WhastApp em meu celular. É estratégia para preservar a sanidade. Uma forma de silenciar o barulho das redes sociais e ser menos impactado pelo contágio emocional que a vida em bando provoca. Quando uma pessoa expressa uma emoção forte como medo, empolgação ou raiva tende a insuflar esse mesmo estado psicológico em seus pares. Pessoas aparentemente tranquilas podem ter reações extemporâneas e radicais se envolvidas por um coletivo que reforça suas convicções e pensamentos. É em parte o que acontece em um estádio de futebol no instante em que cidadãos pacíficos fazem coro aos torcedores que ofendem o árbitro, o adversário ou o jogador que pisa na bola (ou esquece que ela está em jogo).

Mesmo que não acredite em grupos de WhastApp que eles existem, existem. Poucos, mas estão lá no meu celular e se movimentam ativamente conforme a situação. Hoje, minha tela não parava de piscar com as notificações de um desses grupos — claro, aquele formado por gremistas –, especialmente após os 17 minutos do segundo tempo quando se iniciou a “contra virada” (será que posso chamar assim quando meu time sai na frente e entrega o jogo depois?). Aos 44 do segundo tempo, após a pataquada dos nossos jogadores, o que era pisca-pisca virou luz estroboscópica. A prudência me fez virar o celular com a tela para baixo e me calar diante do que haveria de acontecer ao fim desta primeira rodada do returno do campeonato.

Preferi deixar que a turma do WhatsApp expressasse no silêncio do meu celular sua indignação perante a iminência da derrota que nos afastaria do líder e nos deixaria momentaneamente fora do G4 — grupo que almejamos ocupar para garantir vaga direta na Libertadores e ganhar um respiro no início da próxima temporada com uma preparação mais longa para a competição sul-americana. Não queria ser influenciado pelas opiniões catastróficas e as teorias de conspiração que costumam florescer nesses momentos de forte emoção. A bronca, a opinião exarcebada e a frase sangrada pela raiva se justificam por humanos que somos. Tanto quanto mais apaixonado, mais sensível se torna o nosso coração. Não pense que sou santo — ops, melhor não usar hoje esse adjetivo. Não pense que sou calmo mediante os acontecimentos do futebol. Assim como qualquer torcedor, alterno o vibrar e o esbravejar conforme o lance. Reclamo do árbitro nas marcações contra o meu time — mesmo que tenha de me redimir ao conferir o acerto dele no replay. 

Minha estratégia, porém, é clara. Jamais permitir que o movimento de bando me impulsione a dizer o que a razão não concorda. Da mesma forma que não faço cálculos antecipados que “provam” que seremos campeões após uma vitória incrível sobre um adversário de peso, me nego a ter previsões trágicas por causa de uma derrota impossível de admitir como a deste domingo. Mesmo porque, nesta altura do campeonato, o destino de cada time ainda não está traçado. Alguns até flertam desde o início com o rebaixamento e outros estão se aproximando cada vez mais desta faixa — sem nenhuma provocação, tá!?! Assim como há os que miram o topo da tabela e têm feito por merecer o lugar lá no alto. 

O Grêmio, que voltou a ter revés contra times da parte de baixo da competição, ainda tem muito a fazer para que possamos dizer com certeza qual será nosso lugar neste campeonato. Aquele elenco que nos colocou na vice-liderança foi reforçado para o returno com as novas contratações e a recuperação de lesionados. Acertá-lo e fazê-lo jogar de maneira coordenada mesmo quando há necessidade de substituições ao longo da partida é responsabilidade do comando técnico. Teremos mais tempo para fazer esse arranjo a medida que estamos agora dedicados ao Brasileiro, por força da desclassificação da Copa do Brasil, no meio da semana passada.

Quanto a você que por ventura esteja  gritando “Fora Renato” ou “desse jeito nem Libertadores” ou “o campeonato acabou para nós” ou “tem que botar todos estes que aí estão no banco” —- juro que não li meu grupo depois que a bola parou —, tenho certeza que vestirá a camisa tricolor no próximo domingo, vai correr para frente da televisão, ligar o rádio ou ocupar uma cadeira na Arena, e ressuscitará sua esperança logo que a bola começar a rolar, devolvendo ao nosso grupo de WhatsApp aquele clima saudável e de confiança que nos entusiasma a entrar logo cedo e desejar: “Bom dia, gremistada!”