Se o esporte é o espetáculo, não pode ser submetido ao espetáculo

 

 

 
Por Carlos Magno Gibrail

 

 

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reprodução de imagem do SporTV

 

 

Na semifinal da Copa São Paulo de Futebol Júnior, segunda-feira, em Barueri – região metropolitana, o futebol foi ignorado pelo árbitro Thiago Luis Scarati, ao dar inicio do segundo tempo da partida entre São Paulo e Internacional, num campo cujo piso estava totalmente alagado e recebendo enorme quantidade de raios nas proximidades.

 

 

A assustadora imagem de uma imensa poça de água protagonizada por um festival de raios e trovões não foi suficiente para Scarati absorver um mínimo de equilíbrio mental e paralisar a partida, que jamais deveria ter sido reiniciada.

 

 

Só mesmo a força da natureza, embalada em um raio que caiu nas proximidades dos jogadores, fazendo com que vários atletas sentissem nos pés a alteração gerada e um repórter da Globo tivesse seu corpo absorvido parte da descarga, fez com que Thiago Luis paralisasse o jogo.

 

 

O futebol e os demais esportes que se profissionalizaram têm se curvado ao capital que os mantém. Entretanto, é hora de proteger os atletas, também valiosos e valorizados pelo mesmo capital.

 

 

A melhor forma deverá ser a criação de normas de condições mínimas para a prática de cada modalidade. E, neste caso, o futebol está atrás de vários outros esportes que já possuem limites. É evidente que deixar a critério de uma única pessoa, que no caso do futebol nem é profissionalizada, não funciona e estaremos correndo riscos como o de Barueri.

 

 

A grande desvantagem do futebol no contexto geral dos esportes é que os jogadores são a parte de menor poder em todo o sistema. Os atletas por várias vezes tentaram um espaço mais participativo, mas pelas ameaças de clubes e federações nunca lograram sucesso.

 

 

Os recentes astros aposentados poderiam abraçar esta missão, principalmente os que tiveram maior notabilidade na carreira e aptidão de comunicação.

 

 

De pé de obra à mão de obra com microfone na mão.

 

 

Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Mílton Jung.

Avalanche Tricolor: jovens, aprendizes da vida

 

Grêmio 3×5 Caxias
Gaúcho – Arena Grêmio

 

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Os guris da VivoKeyd em foto da Riot Games

 

Foi um sábado destinado aos mais jovens. Todos envolvidos em competições e com seus desafios próprios. Fui observador (e torcedor) em todos esses momentos, mesmo porque, por mais que creia na longevidade que me será oferecida, já passei dos tempos em que era um jovem competidor. Não me incomoda esse fato, posso lhe garantir, caro e raro leitor desta Avalanche. Pois vivi intensamente aquela fase, seja no futebol seja no basquete – neste por muito mais tempo. Em uma ou outra modalidade, dediquei-me a vestir a camisa do Grêmio, do colégio Rosário, no qual estudei boa parte da vida escolar, e do Rio Grande do Sul, nas poucas oportunidades para as quais fui convocado. Jogos e títulos perdi muito mais do que ganhei. Experiência e valores para a vida, ganhei muito mais do que desperdicei.

 

Logo no início da tarde de sábado, estive no estúdio em que foi disputada a partida de abertura do CBLol2018, competição nacional de League of Legend, a mais proeminente modalidade de e-Sports que temos notícia. Se duvida no que escrevo, arrisque assistir às transmissões ao vivo no canal SporTV, sábados à uma da tarde. Você vai se surpreender. É só deixar esse preconceito besta de lado. A cada ano que passa – e eu os acompanho ao menos há quatro – é melhor, maior e mais confortável a estrutura oferecida aos pro-players, que são os atletas que formam cada uma das oito organizações credenciadas a disputar o título nacional da “primeira divisão”.

 

Prometo que não me estenderei em explicações sobre o assunto, pois temo perder a atenção do leitor que caiu neste texto acreditando que falaríamos só de futebol. Mas devo dizer que minha presença na competição eletrônica justifica-se pelo envolvimento de meus dois filhos na atividade, um como jornalista e admirador e o outro como “head coach” (sim, eles costumam ser chamados assim em vez do nome em português para a função). Esse último é um dos comandantes do time favorito ao título de 2018 e estreou com uma “sonora vitória” – como descreveu o site do SporTV. Deixou-me feliz e me deixará mais anda se seguirem nesta toada, pois ainda lembro dele e seus comandados – muito já em outros times – tristes e com lágrimas nos olhos quando perderam a final do ano passado, no primeiro semestre.

 

É sempre melhor ver jovens sorrindo e satisfeito com suas conquistas. É revigorante. Pois sabemos que para conquistarem o direito ao sorriso, muitos passaram por dificuldades, às vezes tiveram de dar as costas à família que não entendia sua opção de jogar em lugar de se formar doutor, sofreram em treinamentos exaustivos para melhorar a técnica e o físico, se frustraram ao não serem chamados para compor o time principal, caíram em depressão com a crítica contundente ou choraram diante da derrota.

 

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Os guris do Grêmio em foto de Lucas Uebel/Grêmio Oficial

 

Na minha segunda etapa como observador (e torcedor), diante da televisão onde o Grêmio se apresentava com sua equipe de garotos, os sentimentos de alegria e tristeza se misturaram. Via-se o sorriso dos guris quando seguiam em direção ao ataque; quando conseguiam se livrar do adversário com a bola grudada no pé ou uma gingada de corpo; quando deixavam o companheiro mais bem colocado para o gol. O sorriso era gigantesco na comemoração do tento: e sorriram assim por três vezes, todas no primeiro tempo de partida.

 

No entanto, a alegria de jogar bola se desfez a medida que o adversário reagia, empatava, virava e ganhava a partida. Um dos nossos chorou antes de deixar o gramado. Saiu com a camisa escondendo o rosto. Outros devem ter acordado neste domingo sem ainda entender o que aconteceu? Talvez estejam com vergonha de sair de casa. De trocar mensagens com os amigos no WhatsApp. E temem pelo que ouvirão de seus superiores na volta aos treinos. Sem contar o que estão ouvindo nas redes sociais de gente incapaz de perceber que eles são apenas jovens diante de enormes desafios. Jovens em busca de afirmação, obrigados a tomar decisões, carregar nossas pretensões e amadurecer muito antes do que cada um de nós. Simplesmente, jovens. Que vão vencer, sorrir, perder, chorar. Vão viver!

 

O importante é que sejam capazes de aprender com cada um desses momentos. Se conseguirem, não perderam. Aprenderam. É o que desejo, tanto aos jovens que saíram vencedores, no Lol, quanto aos que sentiram o dissabor da derrota, no futebol.

Conte Sua História de São Paulo – 464 anos: não era comum menina no estádio

 

Por Dalva Rodrigues

 

 

Uma das primeiras paixões na cidade foi o futebol. Desde menininha, ouvia meu pai contar histórias do time da empresa na qual trabalhava; das encrencas  e brigas que arrumavam. Dos jogadores viajando na carroceria do caminhão até o campo do adversário.

 


Já casado e com seus dois filhos, papai jogou e dirigiu o Anchieta Futebol Clube, time de várzea da Vila Liviero, onde morávamos. Domingo na periferia era  dia de futebol, de alegria, de almoços caprichados, e de sacos cheios de uniformes sujos, uniformes que minha mãe e minha avó lavavam e reclamavam.

 


Naqueles tempos não me interessava realmente pelo esporte. Achava estranho aquele jogo só de homens correndo atrás da pelota, mas fazia parte da vida de meu pai e eu observava esse gosto com carinho,  sempre atenta aos causos que contava.

 

Em 1974, já com 12 anos, apaixonei-me pelo Palmeiras, apesar de meu pai ser são-paulino. Não era comum mulheres em estádios nem mesmo meninas jogarem futebol. Mesmo assim sonhava ser goleira. E treinava para isso. Queria ser como o arqueiro Leão, um de meus ídolos na época junto com Ademir da Guia.

 


Lia tudo sobre futebol: A Gazeta Esportiva; o Almanaque do Zé Carioca para aprender as regras do jogo; dormia com o radinho de pilha ouvindo programas esportivos. Aprendi tudo sobre o esporte e passei a entender porque ele era uma paixão.

 

Nunca esquecerei meu primeiro passeio a um estádio de futebol.

 

Foi em um clássico: Palmeiras x São Paulo, no Morumbi, o Cícero Pompeu de Toledo. Perturbei muito meu pai para convencê-lo a me levar pois aquilo não era coisa de meninas.

 

Enfim, chegou o grande dia: era um domingo, pegamos o ônibus até o centro, caminhamos até o Vale do Anhangabau – onde filas imensas de ônibus esperavam os torcedores para os levarem até perto do estádio. O resto do caminho era feito a pé.

 


Descemos depois de uma bagunça saudável dentro do ônibus, sem sinal de violência ou palavrões. Esses eram guardados para o juiz e bandeirinhas. 

 

A multidão descia a avenida larga que não me recordo o nome… Meu coração que já batia forte acelerava ao ver o estádio enorme lá embaixo, crescendo cada vez mais a cada passada. Sentia-me como uma ave em um bando a cruzar os céus para chegar ao seu destino, livre e juntas.

 


Meu pai, como muitos torcedores, levava um rádio de pilha nas mãos. No caminho, ouvíamos Fiori Gigliotti, que apresentava o programa Cantinho da Saudade. A música ao fundo era Bailarina Solitária… Até hoje essa música me remete aquele pequeno trajeto cheio de emoções no coração de uma menina que veria pela primeira vez seu time jogar.

 


E a emoção continuou lá dentro. O medo do balanço do estádio que vibrava com os pulos da torcida na hora do gol. Água, cachorro quente, picolé de limão e amendoim com casca eram as opções, embora minha mãe tivesse preparado um lanchinho tipo piquenique para nós… Coisa de mãe, que na época me causou vergonha durante a revista para entrar no estádio, mas na hora que a fome apertou, agradeci.

 


Vi meu Palmeiras vencer por  2×1 o glorioso São Paulo do meu pai que ficou muito bravo quando eu o abraçava de alegria na hora dos gols do meu verdão.

 

Nesse dia, tive o privilégio de assistir a duas feras em campo, Ademir da Guia e Pedro Rocha. Eles não rolavam a bola, eles bailavam com ela pelo gramado verdinho rumo ao ataque, como namorados nos bailes de outrora conduziam as damas. Sublime!

 


E veio o apito final, a comemoração dos vencedores na casa do rival e a vontade de ficar ali, eternizar aquela sensação enorme de alegria.

 

Realizara meu sonho.

 


Calmamente fomos deixando as arquibancadas para trás, a fumaça e cheiro de churrasco das barraquinhas nos perseguindo.. Ao som dos passos apressados, fizemos o caminho de volta pela cidade semi-adormecida. Cada um rumo ao seu destino. Amanhã  cedinho seria mais um dia de trabalho na cidade.

 


Naquela noite nem dormi direito. Que domingo feliz! Cada detalhe se repetia em minha mente insistentemente. Guardei para sempre em minha memória aqueles momentos junto ao meu pai que já se foi, guardei com ternura e sinceridade no meu cantinho da saudade, como dizia o saudoso Fiori Giglioti.

 

Dalva Rodrigues é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é de Cláudio Antonio. Venha comemorar os 464 anos da nossa cidade: escreva a sua história para milton@cbn.com.br.

Avalanche Tricolor: começou o Campeonato Gaúcho

 

São Luiz 1 x 1 Grêmio
Gaúcho – Estádio 19 de Outubro/Ijuí RS

 

 

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Lance do primeiro gol no Gaúcho de 2018 (reprodução Premier)

 

Tinha campo encharcado, charanga na arquibancada e alambrado ao lado da linha lateral. Teve gente metendo a mão no peito e gritando com o adversário. Juiz atrapalhado e pressão por todos os lados.

 

Tinha até um Anchieta em campo pra gente rememorar os grandes momentos de 1977 quando nosso capitão levantou a taça daquele histórico campeonato, no saudoso estádio Olímpico. Soube que é neto do nosso capitão.

 

Tinha a cara do Campeonato Gaúcho. Pena ser uma quarta-feira à noite. Sou do tempo em que o Estadual era inaugurado com pompa e circunstância. E domingo à tarde, dia nobre do futebol.

 

Hoje, joga-se o Gaúcho na hora e data em que der. É preciso encaixar o campeonato nos dia vagos do concorrido calendário do futebol brasileiro e estrangeiro. É que, ao contrário de outros por aí, além do estadual, brasileiro e Copa do Brasil temos nossos compromissos fora do Brasil. E tem, também, Copa do Mundo a interromper nossa caminhada aos títulos desejados.

 

Independentemente do espaço e da importância da competição no calendário gremista, assim como você, caro e raro leitor (gremista) deste blog, eu quero vencer. Quero comemorar títulos. Fazer festa na Goethe (mesmo que metafórica já que moro distante de Porto Alegre). Dar volta olímpica. Levantar taça. Ver meu time brilhando, sempre. E, convenhamos, começar a temporada com um troféu do Gaúcho no armário  sempre dá ânimo diferente.

 

Do time que entrou em campo, conhecia poucos. Parte por minha distância do dia a dia do clube; parte porque a gurizada é nova, mesmo para quem está atualizado com o cotidiano do clube. Mas gostei do atrevimento deles. Apesar do gramado com acúmulo da água, tocaram bola, ensaiaram trocas de passes, se entusiasmaram com os dribles, deram uma caneta aqui, se desvencilharam da marcação ali. Jogaram sério na defesa e evitaram riscos.

 

Especialmente, tiveram a oportunidade de, em campo, realizarem um sonho, como disse ao fim do primeiro tempo Matheus Henrique. No caso dele, o sonho de marcar um gol. Nosso primeiro gol no Campeonato Gaúcho de 2018: “tenho noção do tamanho da camisa do Grêmio!”. Sem dúvida, Matheus, uma camisa com a qual muitos sonham. Mas poucos, como você, têm o privilégio de vestir!

O marketing e a canetada que mudou as marcas e os marcos no futebol brasileiro

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

 

Há sete anos, na sede da CBF, com homenagem a Pelé, medalhista por decreto em conjunto com outros jogadores, e a entrega de miniaturas de taças de campeão brasileiro a cinco clubes recém-titulados, a história do futebol brasileiro estava adulterada.

 

No tapete. E, no topete de seu artífice, Ricardo Teixeira:

 

“Todas essa glórias foram conquistadas dentro do campo, nas quatro linhas, com gols, jogadas maravilhosas e muito talento. O reconhecimento teria que vir da nossa parte e acreditamos que a hora chegou. Por isso, como presidente, tenho orgulho de parabenizar os jogadores e os presidentes de Botafogo, Cruzeiro, Santos, Palmeiras e Fluminense como legítimos campeões brasileiros.”

 

O visível objetivo de manipulação e  poder, que já passaram por tantas grandes corporações, não surpreende. O que espanta é que os clubes, donos do produto e das marcas, não enxerguem como essas medidas afetam negativamente o mercado do qual dependem, pois interferem no campo onde as marcas atuam – e que para se fortalecerem precisam ter credibilidade,  história, feitos e marcos de conquistas disputados igualitariamente.

 

A perda é de todos, quando regras estabelecidas podem ser ditatorialmente alteradas. Acreditamos, entretanto, que o mais incongruente é o fato dos clubes não enxergarem que neste processo de valorização de marca, imagem e história, o título do passado com o nome mudado é esvaziado. Perde o valor original. E muitas vezes a hegemonia.

 

Por exemplo, o de ter sido o campeão da Taça Rio, primeiro campeonato mundial reconhecido pelo mercado. E, digamos, pela FIFA. Entretanto, incompreensivelmente, o Palmeiras, dono da façanha pleiteia a troca do título.

 

Outro caso é a Taça INTERCONTINENTAL, cujo título deve ser mantido, por respeito histórico e também porque é valioso, pois ninguém mais poderá ter.

 

Aqui, é preciso registrar, como subproduto do estrago feito há sete anos, os aspectos estatísticos que se alteraram automaticamente com as mudanças manipuladas por Ricardo Teixeira e seu grupo.

 

A esperança para dias mais promissores fica na eterna expectativa da profissionalização dos clubes brasileiros. Um olhar ao futebol europeu e ao basquete americano será essencial para um futuro melhor e condigno com o rico manancial de mão de obra nacional. Ou uma atenção ao mundo do tênis, onde quem manda são os tenistas.

 

Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Mílton Jung, às quartas-feiras.

Avalanche Tricolor: meu orgulho em vestir o azul, preto e branco nesta final do Mundial

 

 

Grêmio 0x1 Real Madrid
Mundial – Zayed Sports City/Abu Dhabi

 

Gremio

 

Faz pouco chegamos do estádio Zayed Sports City. Estamos no quarto do hotel fechando as malas. No domingo, logo cedo, embarcaremos de volta. Dobramos carinhosamente cada uma das camisas do Grêmio que nos acompanharam nesta jornada. Estão suadas, cheirando a corpo, um pouco amassadas, mas seguem sendo vestidas com a merecida dignidade. Durante todos esses dias essas camisas desfilaram pelos Emirados Árabes exaltando nosso orgulho de ser tricolor e conquistando adeptos, como os três torcedores “emirates” que sentaram à nossa frente. Todos estavam com a camiseta do Real – é o time da moda, não é mesmo? – mas um deles virou-se para trás e me contou que gosta muito do Grêmio por causa de um jogador em especial: Tcheco, que foi ídolo no Al-Ittihad, o time da casa. Por onde passamos deixamos admiradores.

 

Foi assim todo este ano: jogando o melhor futebol do Brasil, ganhamos a admiração do público e da crítica. Poucos se atreveram a questionar a qualidade do nosso jogo e do time montado por Renato e comissão técnica. Os resultados em campo estavam a altura dessa expectativa, levando em consideração que fizemos escolhas pontuais em relação as competições disputadas. Tínhamos uma obsessão que era voltar a dominar a América. Enquanto dobrava algumas das camisas para colocar na mala, dava para perceber ainda marcas dessas batalhas sul-americanas. Marcas que estão na camisa e na alma de cada gremista que encontrei nesses dias.

 

O time copero conquistou as Américas e nos encharcou de felicidade. Após vencer a Libertadores, ainda superou o Pachuca, do México, considerado o melhor time das Américas do Norte e Central, na primeira partida nos Emirados. Com essa vitória credenciou-se para a final do Mundial, lugar reservado apenas aos grandes, e deparou-se com um gigante, talvez o maior de todos os tempos.

 

Nada do que tenha acontecido nesta noite de Abu Dhabi é suficiente para me tirar o orgulho de ser gremista. Aliás, muitas das coisas que aconteceram nesta noite fortaleceram ainda mais este meu sentimento. Assisti às nossas camisas vestidas por cerca de 7 mil torcedores, ouvi o canto da nossa torcida ecoando pelas arquibancadas do Zayed Sports City e vi todos que estavam no estádio aplaudindo a entrada do nosso uniforme tradicional no gramado da grande final.

 

Em campo, lutamos, fizemos o que era possível. O que estava ao nosso alcance. Talvez um pouco mais de pressão aqui, um pouco mais de calma ali, quem sabe um lance de sorte a nosso favor, uma falta cobrada mais para baixo ou uma barreira mais fechada à frente da bola. Detalhes que poderiam não fazer diferença diante do adversário que enfrentávamos. Ou poderiam. Nunca se sabe o que a bola nos reserva numa noite de futebol.

 

Das camisas em campo quero fazer minha reverência a Geromel e Kannemann. Eles foram gigantes, cada um a seu estilo. Defenderam nossas cores e cidadela com bravura e talento. Venceram quase todas suas batalhas. E nas mais complicadas contaram com o apoio de Marcelo Grohe, outro que lutou até onde alcançou para nos manter vivos na disputa.

 

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A vitória não veio, mas o Grêmio me deu o direito de sonhar mais uma vez: o de disputar uma final de Mundial. Um sonho que vivi intensamente nestes últimos dias, admirando sua camisa entre as maiores do Planeta. Vestindo-a com o orgulho de sempre nas arquibancadas, nas ruas, nos locais turísticos, sagrados e consagrados destes Emirados. Um sonho que sonhei ao lado de meus dois filhos a quem fiz questão de beijar ao fim da partida, um agradecimento a esses companheiros que souberam entender a importância deste momento para o pai e ainda me surpreenderam ao levar para o jogo uma camisa com o nome do avô que, afinal, foi quem me deu a primeira camiseta azul, preta e branca que vesti na vida, despertando esta paixão em todos nós.

Avalanche Tricolor: com Renato, vamos acabar com o Planeta!

 

 

Direto de Abu Dhabi

 

 

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Chegou o dia … finalmente chegou o dia. Aqui já é sábado, 16 de dezembro. A ansiedade é tanta que o dia de decisão começa antes. Já é madrugada quando publico esta Avalanche. Já é dia de “acabar com o Planeta”, lema que nos embalou durante a Libertadores e nos segue no Mundial.

 

 

E não se fala em outra coisa aqui em Abu Dhabi. Depois de acabar com as Américas – afinal somos os campeões das Américas, vencemos a Libertadores e despachamos o Pachuca, do México, na semifinal do Mundial – chegou a hora de acabar com o Planeta.

 

 

E quando digo que não se fala em outra coisa é porque não tem um canto sagrado desta terra – e eu fui a alguns -, não tem um grão de areia deste deserto que não esteja tomado de azul, preto e branco. Sei lá quantos gremistas estão por aqui, mas a turma é no mínimo vistosa. Nossas camisas estão em todos os espaços e são de todos os modelos. Tem tricolor, tem azul claro, azul escuro, tem preta. Tem retrô, tem histórica, tem sem número nas costas, com nome de craques do passado, tem as mais novas e as bem velhas. Tem de todo tipo e todos com o Grêmio na altura do coração.

 

 

Tem muita camisa 7 – e Luan que me desculpe – mas com o 7 de Renato, o Gaúcho que nos levou ao céu desconsertando os alemães na final do Mundial em 1983. De Renato que infernizou a vida de técnicos, os seus e o dos adversários. Que enlouqueceu laterais, zagueiros e qualquer um que se intrometesse no seu caminho. Que aventurou-se técnico e driblou a descrença de críticos, fez embaixadinha com as palavras e brincou com a cara de que não o levou a sério.

 

 

Que me matou de ódio, a ponto de desviar-me da trajetória profissional que eu havia escolhido – e um dia conto esta história para você, caro e raro leitor desta Avalanche. Que me fez morrer (ou quase) de amor pelo Grêmio. E prometer a mim mesmo – depois daquela final de 1983, que assisti na casa de amigos em Porto Alegre – que um dia estaria ao lado do Grêmio, ao vivo, em uma final do Mundial.

 

 

Foi Renato quem me trouxe até Abu Dhabi. Seja pela promessa que fiz há 34 anos seja pelo que ele fez com o Grêmio em 2016 e 2017. Foi Renato quem me fez acreditar em novos títulos. Quem deu a toda nossa torcida a expectativa de um título. Mais do que isso: nos devolveu a Copa do Brasil, nos devolveu o orgulho de um futebol bem jogado – o mais bem jogado no Brasil, disseram os entendidos. Nos permitiu delirar a cada batalha vencida na Libertadores. Convenceu seus jogadores, todos eles – os craques, os renegados, os abnegados -, que poderiam entrar para o panteão dos Imortais. Que não teve pudor de admitir erros, mudar jogadores no primeiro tempo, substituir renomados por reservas, de incorporar-se em Everton para nos colocar na final de um Mundial, mais uma vez.

 

 

Ainda há quem questione se Renato foi melhor que Cristiano Ronaldo. Claro que foi. Só Renato foi capaz de nos fazer vibrar com um Mundial. De resgatar a Copa do Brasil e a Libertadores. Só Renato é capaz de fazer o Grêmio acabar com o Planeta!

 

Avalanche Tricolor: ser gremista era o seu destino!

 

 

Direto de Abi Dhabi

 

 

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Um dos meus guris – o mais velho – apareceu na televisão com cara de sofrimento em cena flagrada logo após o fim do tempo normal e o início da prorrogação, em Al Ain. Era a cara da nossa torcida naquele instante de dúvidas sobre o destino do Grêmio no Mundial. Pena não terem mostrado os olhos dele com lágrimas e o sorriso no rosto que vieram assim que Everton entortou os zagueiros mexicanos. Era a cara do nosso torcedor naquele momento, tomado pela certeza de que havíamos garantido presença na final, sábado, em Abu Dhabi.

 

 

A imagem do Gregório chegou aos amigos, foi comentada em rede social e virou tema de uma das entrevistas que concedi a colegas de rádio e televisão, desde que cheguei aos Emirados Árabes. Para mim, já registrei isso em Twitter, é a revelação de que criei, sim, um gremista, mesmo que tenha nascido distante de Porto Alegre.

 

 

GREGORIO

 

 

Ao lado dele, no estádio em Al Ain, estava o irmão mais novo, o Lorenzo. E esse não teve sua imagem registrada, talvez pelo olhar sereno que busca manter diante de todas as situações, mesmo as mais difíceis. Mas eu o assisti aplaudindo o Grêmio, sorrindo nos lances mais bonitos, lamentando as bolas desperdiçadas e comentando as nuances do jogo. Seja por força da profissão – é técnico de eSports – seja por personalidade, sempre foi mais comedido nas emoções. Contido, mesmo que no coração bata todo tipo de sentimento. E eu sei que bate forte.

 

 

Durante o próprio jogo, registrou no Twitter a sensação de assistir ao Grêmio no Mundial:

 

 

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Foi, porém, uma outra mensagem dele, escrita já na madrugada pós-jogo, na conversa frequente com os amigos e seguidores, que me chamou atenção:

 

 

LORENZO 2

 

 

“Tento ser”, escreveu, sem saber que já é gremista desde que era um piá de calça curta.

 

 

Tomara que seus colegas de organização, mais adeptos as conversas dos esportes eletrônicos, jamais leiam esta Avalanche, pois vou ser inconfidente agora e revelar imagem que não se enquadra com àquele treinador que trabalha diariamente com eles.

 

 

Em 2005, na maior de todas as batalhas que já conquistamos, a dos Aflitos, meu guri estava com apenas seis anos e o futebol não fazia parte de sua vida. Estava no videogame enquanto o pai sofria diante da televisão assistindo ao jogo no Recife.

 

 

Com a atenção chamada pelo meu desespero, no instante em que o árbitro assinalava mais um pênalti contra nós e expulsava um jogador após o outro, ele e o irmão vieram correndo para o quarto onde eu estava. Tentavam entender a dimensão do drama que estávamos enfrentando. Com a voz e as palavras que me restavam contei a eles e recebi o abraço dos dois em solidariedade. Ficaram ao meu lado assistindo a cada um daqueles momentos épicos que registramos na história. E no apito final comemoraram o título e a ascensão comigo.

 

 

Depois de pular pela façanha alcançada, olho para trás e encontro meu guri menor, esse que diz que está tentando ser gremista, abraçado em um dos cachorros que temos lá em casa. Estava aos prantos, emocionado pela nossa vitória e pelo êxtase que o pai vivia.

 

 

Portanto, Lorenzo, não precisa tentar, não: seu coração já foi ferido em azul, preto e branco desde aquele tempo. Agora, não tem mais volta. Por mais que você esconda da gente, vai sofrer ao nosso lado tanto quanto deliciar-se com as emoções que o Grêmio proporciona.

 

 

Sábado estaremos os três no alto das arquibancadas do Zayed Sports City Stadium, em Abu Dhabi, seguindo o que o destino nos ofereceu: ser gremista!

Avalanche Tricolor: é de perder o sono

 

Direto de Abu Dhabi

 

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O gol de Everton em foto Getty Images/Fifa.com

 

Acostumar-se com a diferença de horário entre Brasil e Emirados Árabes é mais difícil que passar pela defesa do Al Jazira. Nessa quarta-feira, o descontrole foi total com a madrugada estendida após o jogo do Grêmio. Troquei a noite pelo dia e paguei caro. A quinta-feira está para amanhecer por aqui enquanto no Brasil muita gente ainda assiste ao jogo do Flamengo pela Sul-americana e eu já estou que não consigo mais ficar na cama.

 

Na cama, sem sono, comecei a pensar no que vi em campo até agora e no que pretendo ver sábado na decisão do Mundial, no estádio de Abu Dhabi. Lembrei da pergunta de Zé Elias, um dos participantes do programa Bom Dia Bate Bola, da ESPN, do qual fui convidado a participar para falar da experiência de assistir ao Grêmio, na primeira partida em Al Ain. Queria saber se eu já havia imaginado como seria o gol do título, se havia criado minha própria fantasia antes de a bola começar a efetivamente rolar.

 

Ainda tenho muito viva a imagem do gol de Everton que nos levou à final. Isso já é suficientemente forte para ocupar minha mente. Mas confesso que fiquei, sim, imaginando como seria ser campeão mundial, que momento sublime poderíamos viver em família, aqui nos Emirados. E sem nenhuma pretensão de adivinho, pensei o quanto mitológico seria ganharmos com um gol de Geromel, provavelmente resultado de uma cobrança de escanteio. A bola vindo pelo alto e um leve toque de cabeça desviando-a para o fundo das redes. É de arrepiar, mesmo que tudo ainda seja fruto da imaginação.

 

Sabemos da dimensão do adversário da final. Da qualidade técnica dos jogadores que formam o milionário time espanhol. Dos predicados daquele que é considerado o melhor do mundo na atualidade e da constelação que o acompanha. Dinheiro, muito dinheiro, estrutura e experiência são diferenciais que pesam quando saímos do campo dos sonhos para jogar bola no campo da realidade.

 

Renato e seus comandados também reconhecem essas diferenças e isso não nos diminui. Ao contrário, nos fortalece. Pois respeitar a força contrária é o primeiro passo para se estabelecer a melhor estratégia para enfrentá-lo. Entender seus movimentos e a potência de suas armas, permite uma articulação mais precisa, cirúrgica.O futebol não perdoa prepotência nem tem espaço para deslumbramentos. Exige cabeça no lugar, pé no chão, bola rolando na grama, marcação séria e jogo responsável. É lá dentro das quatro linhas que o jogo se resolve.

 

Nada disso nos impede de sonhar. E imagino que muitos dos nossos jogadores, que espero estejam dormindo no horário em que escrevo esse texto, têm sonhado no título desde que se capacitaram à final. Já demonstraram competência para realizá-lo. O que o Real revelou contra o Al Jazira é que a vitória sobre o espanhóis é possível. E nós já conquistamos muitas coisas impossíveis.

 

De minha parte – e já falei para você, caro e raro leitor desta Avalanche – o meu sonho já está sendo realizado. Vivenciar o Grêmio em um Mundial tem sido incrível. Sentir-se em casa dividido a arquibancada com milhares de gremistas em estádio tão distante da nossa terra foi emocionante. Ouvir os jornalistas estrangeiros fazendo referências ao meu time tem significado muito especial, motivo de muito orgulho. E no sábado, Senhor Amado, não quero nem imaginar o êxtase ao ver nossa camisa tricolor entrando no gramado do Zayed Sports City Stadium. Não quero imaginar, mas já posso sentir, a ponto de ter mais uma vez perdido o sono.

 

E isso, tenha certeza, não é culpa do fuso horário.

Avalanche Tricolor: emoção, sofrimento e lágrima como verdadeiros gremistas que somos

 

Grêmio 1×0 Pachuca MEX
Mundial – Estádio Haza bin Zayed/Al Ain

 

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É madrugada em Abu Dhabi! Voltei para cá depois de assistir à vitória que colocou o Grêmio na final do Mundial de Clubes, em Al Ain, que fica há cerca de uma hora e meia daqui. Temo que esta madrugada se estenda ainda mais, pois está difícil acalmar o coração e a excitação após partida tensa, disputada e sofrida como a desta estreia do Grêmio na competição.

 

Havia pedido 2 a 0 nas entrevistas que concedi para emissoras de rádio brasileiras, entre as quais duas CBNs, em Porto Alegre e São Paulo. Era muito mais um desejo de tranquilidade do que uma crença. Conhecedor das façanhas gremistas por que esperar que a classificação à final viesse com um passeio, como alguns quiseram dar a entender que seria obrigação do campeão da Libertadores? Fomos forjados no sofrimento e assim construímos nossas conquistas. Não seria diferente em um Mundial.

 

Ainda sinto o impacto da tensão provocada todas às vezes que o adversário ameaçava nosso time em desenfreados ataques. Nas bolas que Marcelo Grohe defendeu, nas que desviaram por força do destino ou nas que sequer chegaram ao nosso gol graças aos mitológicos Geromel e Kannemann. Ou às roubadas cirúrgicas de Cortez, que encarnou nessa noite Everaldo, Arce e todos os laterais que passaram por nossa história.

 

Tenho presente no corpo o resultado do sofrimento diante de ataques mal engendrados, de lances forçados e de jogadas inacabadas, que se repetiram em boa parte do jogo. Sem contar os gols desperdiçados em cobranças de faltas que chegaram a tocar a rede ou rasparam o travessão, mas sempre pelo lado de fora. Ou em lances como aquele em que Luan estava livre dentro da pequena área. Era só tocar na bola que ela entrava, gritavam na arquibancada. A gente sabe que lá dentro é tudo muito diferente, mas enquanto os nossos não conseguiam fazer a diferença só nos restava sofrer.

 

As marcas desta semifinal que me tiram o sono não estão apenas no peito e na alma. Estão na memória, também. Nas cenas que tenho vivenciado desde que desembarquei na Terra do Mundial. Na caminhada ao estádio ao lado dos filhos, na torcida cantando nosso hino e nossas cores, nos olhares que trocamos a cada minuto que se passava sem que o gol saísse. Na imagem dos guris aplaudindo, lamentando, gritando por este jogador, praguejando por aquele outro, vibrando e sofrendo como eu sempre vibrei e sofri.

 

E, claro, não me sai da cabeça o instante mágico em que Renato redivivo e incorporado em Everton disparou em velocidade pelo lado esquerdo em direção à área, balançou entres marcadores, abriu espaço e disparou com o pé direito para marcar o único e necessário gol que nos levaria à final do Mundial. Foi tudo ali, na nossa frente, diante de nossos olhos, bem pertinho de onde estávamos assistindo ao jogo. Parecia ter sido feito para nós. E tenho certeza que o foi.

 

Um momento único a ser vivido por mim que passei infância e adolescência dentro do saudoso estádio Olímpico e aqui realizo o sonho de ver meu time mais uma vez no Mundial. Um momento que pude dividir com as devidas emoção e lágrimas abraçado aos meus dois filhos, que viveram longe de Porto Alegre. Emoção e lágrimas devidamente retribuídas por eles como verdadeiros gremistas que são. Gremistas forjados por mim – sem dúvida – mas, especialmente, pela nossa história!

 

E que história experimentamos juntos nessa noite que não vai acabar tão cedo!