Avalanche Tricolor: #GrêmioÉClassico

 

Grêmio 3×1 Aimoré
Gaúcho – Estádio do Vale/Novo Hamburgo

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Luan e Everton, craques do Grêmio. Foto de Lucas Lebel/GrêmioFBPA

 

“Estadual é clássico” diz a hashtag do Canal Premiere, que transmite as partidas do Campeonato Gaúcho, no sistema “pagou-para-ver”. Parece-me que a intenção é valorizar as competições estaduais, há algum tempo enfraquecidas pelo número excessivo de times inscritos, muitos sem qualquer qualificação, fórmulas mirabolantes para encaixar as datas no apertado calendário do futebol brasileiro, e estrutura acanhada de estádios e cidades que recebem os jogos.

 

A campanha publicitária do canal também faz questão de mostrar que os estaduais costumam ser decididos por lances e jogadores inusitados, que fazem a diferença. O Grêmio é representado pelo atacante Pedro Junior e o gol de cabeça que garantiu o título de 2006, em um time que tinha como principal estrela o meio campista Tcheco e era treinado por Mano Menezes.

 

No Grêmio atual de Roger, porém, os protagonistas são mesmo os craques do time. Jovens talentos que têm desempenhado futebol acima da média e oferecido ao torcedor lances de excelência. Na noite desta quinta-feira, assistimos mais uma vez à movimentação incrível dos garotos Everton, Luan, Pedro Rocha e, no segundo tempo, Lincoln – uma turma que não tem medo de jogar futebol refinado, assim como não foge à luta, quando necessário (às vezes até exagera, não é Luan?).

 

Seria injusto creditar apenas aos meninos a segunda vitória seguida na competição, pois se são capazes de tocar a bola com precisão e se deslocar com velocidade para recebê-la de volta, isto se deve ao trabalho de uma equipe muito bem treinada que consegue equilibrar a juventude e a experiência nos diversos setores do time: Maicon e Wallace como volantes e os laterais Oliveiras, mostram isso com clareza. Sem contar Douglas, o veterano do time, que encaixa passes como poucos no futebol brasileiro.

 

Mesmo saindo atrás no placar, o que sempre pode causar desajustes na equipe, o Grêmio tem conseguido “voltar para o jogo”, como dizem os entendidos em futebol, colocado a bola no chão e oferecido ao torcedor (ao menos para mim) a certeza de que, em pouco tempo, retomará o domínio da partida, passará à frente e consagrará mais uma vitória.

 

Mesmo considerando que é apenas o início da temporada e temos coisa bem mais importante a fazer neste ano, arrisco a dizer que o Grêmio já está jogando um futebol de muita classe. O Estadual, não sei, mas o Grêmio 2016, este sim, tem tudo para ser um clássico.

Avalanche Tricolor: prazer em revê-lo!

 

Brasil 1×3 Grêmio
Gaúcho – Centenário/Caxias do Sul

 

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Foto:Lucas Uebel/Álbum oficial do Grêmio, no Flickr

 

O estádio era o velho Centenário, na Serra Gaúcha, onde assisti a muitos jogos pelo Campeonato Gaúcho – e lá também trabalhei, nas épocas de repórter de campo pela Rádio Guaíba de Porto Alegre. A imagem da vizinhança sobre a laje das casas que rodeiam o local, transformada em arquibancada, permanece. A impressão é que os arredores, no bairro de Marechal Floriano, pararam no tempo, apesar do crescimento da cidade de Caxias do Sul.

 

O adversário na estreia do Campeonato Gaúcho também era bem conhecido, aliás é um dos mais tradicionais do Rio Grande: o Brasil de Pelotas, que teve de migrar para Caxias, neste primeiro jogo, devido a punição imposta pela Federação Gaúcha de Futebol, ainda na competição do ano passado. O time tem sido o melhor do interior gaúcho nas últimas temporadas, acaba de subir para Segunda Divisão do Campeonato Brasileiro e sempre é empurrado por uma fanática torcida

 

Apesar de Caxias, o Centenário e o Brasil de Pelotas me trazerem boas lembranças dos tempos em que morei no Rio Grande do Sul, a saudade que sentia, até a bola começar a rolar, era do Grêmio que encantou o futebol brasileiro no ano passado. Era daquele estilo de futebol que Roger nos ensinou a gostar: marcação sobre pressão, pouco espaço para o adversário jogar, time se movimentando com rapidez, bola saindo de um pé para o outro sem precipitação e muita precisão.

 

Já havia assistido às duas partidas anteriores, o amistoso contra o Danubio e a estreia na Copa Sul-Minas-Rio, ambos sem muito entusiasmo, seja porque a primeira nada valia, seja porque a segunda era com time reserva, que pouco se entendia.

 

Hoje, não! Hoje começava a temporada propriamente dita.

 

Time titular em campo e competição tradicional em disputa faziam desta partida a mais importante até aqui. As circunstâncias do jogo tornaram o resultado ainda mais relevante, pois encaramos um adversário esforçado e com marcação persistente, um árbitro metido a disciplinador e um gramado que se desmontava a medida que era pisoteado pelos jogadores. Não bastassem essas intempéries, ainda falhamos na marcação logo no início da partida e saímos atrás no placar.

 

Apesar das dificuldades iniciais e da irritação aparente de alguns jogadores, o Grêmio não abriu mão de sua maneira de jogar. O pouco espaço que restava em campo, devido ao sistema defensivo bem montado pelo técnico adversário, era usado para fazer a bola rolar de pé em pé.

 

O time parecia consciente de que somente tendo o domínio total da bola é que conseguiria chegar ao gol. Apesar de ter criado poucas chances, no primeiro tempo, o talento foi premiado com a jogada pelo lado direito em que Luan foi forte na marcação e veloz para encontrar Maicon, que corria em direção à área. De presente, Luan recebeu o passe de volta e empatou a partida.

 

No segundo tempo, ficou evidente que a conversa com Roger no vestiário mais uma vez colocou as coisas nos seus devidos lugares. Luan e Maicon voltaram a ser protagonistas ao servirem com categoria Everton e Pedro Rocha, no primeiro e no segundo gol, respectivamente.

 

O Grêmio está de volta!

 

Foi um prazer revê-lo!

O futebol brasileiro é igual ao Brasil

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

(Sacolão das Artes no Parque Santo Antônio Imagem: Léo Pires)

(Sacolão das Artes no Parque Santo Antônio Imagem: Léo Pires)

 

“Como o futebol explica o mundo”. É o que Franklin Foer propõe demonstrar em sua obra. Os fatos de segunda-feira, em Zurique, comprovam a tese de Foer. E podemos concluir que o futebol brasileiro é igual ao Brasil. Celeiro do mundo, eminente exportador de matéria prima, mas incapaz de agregar valor à matéria prima e exportar o produto acabado. Por exemplo, o campeonato nacional e a Copa do Brasil.

 

Na premiação de 2015, a Bola de Ouro teve Neymar como indicado, o gol mais bonito ficou com Wendell, e a Seleção dos melhores jogadores do ano tem Daniel Alves, Marcelo, Neymar e Thiago Silva. O Brasil é o país com maior número de representantes nesta seleção.

 

Para comparar este fenômeno do futebol nacional com o país Brasil vejamos o café, do qual somos o maior produtor mundial e temos qualidade excepcional. Exportamos os grãos para depois importá-los como cafés gourmets com preços multiplicados por mais de dez vezes.

 

Vendemos jogadores ao Barcelona, ao Milan, ao PSG, para depois comprar o campeonato espanhol, italiano, francês, etc. E vimos nossas crianças vestindo essas camisas e espantosamente achamos natural.

 

Precisamos de competência para eliminar tanto o “complexo de vira-lata” quanto o ufanismo, e saber lidar com mitos como o jeitinho, o talento nato e o improviso.

 

É imprescindível identificar no futebol a atividade rendosa e global que realmente é. E, tratá-lo como tal.

 

Se a matéria prima principal existe, os produtos e subprodutos também deverão ser aproveitados por nós. Não será o mercado menor que possuímos a justificar a abdicação a favor de europeus, asiáticos e em breve americanos.

 

Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Mílton Jung.

Avalanche Tricolor: o futebol prevaleceu e o Grêmio está na Libertadores, em 2016!

 

Joinville 0x2 Grêmio
Brasileiro – “Arena”Joinville

 

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As poças d’água eram visíveis na maior parte do campo e a grama mal disfarçava o barro no piso de jogo de um estádio que alguém pretensioso batizou de arena. Jogar futebol era a última das possibilidades, nesta tarde, no interior de Santa Catarina, estado que vem sofrendo semanas após semanas com as chuvas. É de surpreender que as duas equipes tenham tentando jogar bola e conseguido levar emoção para a partida que marcou a última rodada do Campeonato Brasileiro.

 

Para consagrar a campanha iniciada com o comando técnico de Roger (perdão se continuo a lhe chamar da forma como nós torcedores o conhecemos), em maio deste ano, o Grêmio fez cedo o primeiro gol, em um momento raro no qual se conseguiu driblar a precariedade do campo, e confirmou a vitória, no segundo tempo, curiosamente beneficiando-se desta mesma precariedade. Chegou a sofrer pressão, mas esta também foi calculada, pois obrigou-se a adaptar-se as condições impostas, chutou bola pra cima, pro lado e pra onde mais fosse possível. E se defendeu com todas suas possibilidades e riscos – o perigo de uma lesão era eminente, Luan que o diga.

 

Achei engraçado ouvir alguns comentaristas querendo analisar a qualidade do futebol jogado hoje sem levar em consideração que naquele campo deveria ter sido proibido jogar futebol.

 

O Grêmio tem de ser avaliado pelo que construiu neste ano, pela força que teve de encontrar em seu elenco jogadores qualificados a praticar um tipo raro de futebol nos campos brasileiros, em que o passe preciso, o deslocamento constante, a aproximação em todos os setores do campo e o toque de talento na bola prevaleceram. Tudo isso sem abrir mão de um marcação sob pressão desde o campo ofensivo,que teve sucesso porque contava com participação de todos seus jogadores. Impôs respeito pelo futebol jogado, jamais pela violência aplicada.

 

Os gremistas recuperaram o prazer de torcer por seu time, não que tenham em algum momento desistido de fazê-lo, sempre o fizemos, mas a falta de evolução não nos oferecia a expectativa de tempos melhores. Ao pôr a bola no chão – exceção ao jogo de hoje, onde esta foi impedida de rolar – e privilegiar o bom futebol, Roger e sua equipe nos trouxeram esperança. Mais do que isso: nos deram resultados; alguns históricos, não é mesmo? Aliás, muito mais do que isso: nos colocaram outra vez na Libertadores, que, afinal de contas, é o que realmente nos interessa.

 

Prepara-se: em 2016, tem Grêmio na Libertadores!

 

PS: e você vai fazer o que no ano que vem?

Avalanche Tricolor: talento e juventude põem mais uma Libertadores na conta

 

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Brasileiro – Arena Grêmio

 

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Futebol não é matemática, mas a soma de alguns fatores tende a um resultado positivo. Quer um exemplo?

Troca de bola precisa + triangulação de jogadores + drible + chute certeiro =  gol.

E assim foi o primeiro gol do Grêmio.

 

Everton, Marcelo Oliveira, Everton de novo, o drible, o espaço conquistado sobre o marcador e o chute distante do goleiro. Foram eles que protagonizaram a jogada pelo lado esquerdo, capaz de desestruturar o adversário. Poderiam ter sido quaisquer outros dos gremistas em campo, pois Roger teve a capacidade de montar uma equipe que se impõe pelo talento, mesmo que em alguns momentos demonstre imaturidade.

 

Fomos imaturos muitas vezes nesta competição, o que nos fez desperdiçar lances de gols após belas tramas construídas pela equipe; ou ao perder pontos com gols levados nos minutos finais em contra-ataque; ou, como hoje, quando a ansiedade pelo resultado nos impediu de segurar a bola da maneira devida, o que parece ter levado Roger à loucura.

 

Como reclamar, porém, dos efeitos da juventude deste time se foram os jovens, a começar pelo próprio técnico de 40 anos, com idade bem abaixo da média nacional, os responsáveis por alguns dos momentos mais importantes no Campeonato Brasileiro. Hoje, além de Everton, de 19 anos, Luan, do alto dos seus 23 anos, nos ofereceu a alegria da vitória.

 

A propósito: a matemática, esta que não tem quase nada a ver com o futebol, também nos foi favorável no segundo gol. A cobrança de falta foi desenhada na planilha dos jogadores que se reuniram em torno de  Luan. O goleiro deles bem que percebeu que alguma surpresa sairia daquela falta e tentou impedir com todos seus artifícios. Mas nosso atacante calculou com precisão como bater na bola, a força necessária, o ponto certo por onde deveria passar e a distância que esta precisaria percorrer para chegar ao seu destino. O esforço para encontrar o resultado certo incluiu até uma variável: a possibilidade de deslocamento do goleiro. Puxando o traço: mais um gol do Grêmio.

 

Sei lá quanto foi calculada aquela defesa de Bruno Grassi, aos 44 do segundo tempo, mas o lance não poderia deixar de ser citado nesta Avalanche,  até porque, também por causa dele, somamos mais três pontos na tabela de classificação, o que nos permite, entre outras coisas, a chegar ao fim da temporada com desempenho invejável contra os primeiros colocados.

 

Você já fez as contas? Ganhamos quatro pontos de seis disputados com o Corinthians e seis pontos dos seis disputados com o Atlético Mineiro. Isso diz muito do time de Roger.

 

A combinação de resultados na última rodada ainda pode nos dar de presente o segundo lugar e cerca de R$ 6 milhões na conta bancária.  Mas o  que interessa mesmo é que hoje, independentemente da matemática, podemos comemorar com muita alegria a passagem para a Libertadores que, afinal de contas, é o nosso objetivo maior.

 

A foto deste post é do álbum Grêmio Oficial no Flickr

Já não se faz mais como antigamente

 

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Em conversas frequentes com estudantes de jornalismo, esforço-me para mostrar que a escolha que fizeram faz muito sentido em uma época na qual a informação e, por conseguinte, o desenvolvimento de conteúdo são essenciais. Tento não repetir o que ouvia já nos meus tempos de faculdade – e lá se vão mais de 30 anos – quando éramos visitados por profissionais, alguns bastante respeitados pelos jovens, que insistiam em nos desestimular pela falta de perspectiva que haveria na profissão: “já não se faz mais jornalismo como antigamente”. E não se fazia mesmo. Como hoje, aliás. Esse, porém, é assunto para outro texto.

 

Escrevo sobre o saudosismo que me parece permear as emoções de muitos dos profissionais já estabelecidos no mercado, e alguns, inclusive, afastados por aposentadoria consentida ou forçada, para destacar opinião do ex-jogador Tostão, publicada em reportagem do jornal O Globo, na edição de sábado, 21 de novembro. O gancho para o texto do jornalista Carlos Eduardo Mansur foi a reclamação de alguns dos atuais jogadores da seleção brasileira, expressa em entrevista por Daniel Alves, quanto as críticas proferidas por comentaristas esportivos que já jogaram futebol.

 

É verdade que a seleção brasileira, treinada por Dunga, não é empolgante e o porre do 7×1, sob comando de Luis Felipe Scolari, deixou-nos com uma ressaca que será eterna enquanto dure. Mas também é verdadeiro o fato de que projetar as glórias, táticas e dribles do passado para os gramados atuais é uma injustiça, pois a forma de jogar futebol mudou por completo diante de estratégias mais bem organizadas e pelo desenvolvimento físico de atletas – haja vista a força e a velocidade com que atuam hoje.

 

Não quero, porém, me ater ao futebol. O que me interessa na opinião de Tostão é a explicação que dá para esta reação comum na maioria de nós quando nos referimos a realidade vivida no passado, às vezes, recente:

 

“Isso não é pecado, não é deturpação, não é vigarice. É da vida, é de todo tipo de atividade. Há o ex-jogador que vive ligado ao passado, não assume ou não se identifica com a sua vida atual. Vive enamorado do que ele foi: “Na minha época era melhor”. É a tal memória afetiva. O sujeito vive uma época de glória e tem dificuldade de viver o momento. São componentes humanos habituais, até mesmo o receio de que surja alguém melhor do que ele foi”.

 

Gosto de ler o craque – do jogo e das palavras – porque sintetiza com clareza pensamentos que minha capacidade de se expressar, muitas vezes, não permite.

 

A reflexão feita por Tostão deve servir de alerta para profissionais de todas as áreas, independentemente de onde atue. Em nome do saudosismo, criticamos o que é feito aqui e agora, ficamos a nos lamentar e a praguejar o novo com o qual nos deparamos no escritório e na empresa (ou na redação, no caso dos jornalistas). Exaltamos o passado por temer nossa incapacidade de se adaptar ao que está para acontecer. Assim como remetemos o pensamento ao que foi porque a memória é seletiva e nos faz esquecer quanto difícil eram os processos e quantos erros cometíamos.

 


Sem perder as referências que ajudaram a construir seu conhecimento, deixe o saudosismo para trás, prepara-se para as mudanças e se adapte a regra do jogo. Ou invente o seu próprio jogo. Pois já não se faz mais nada como antigamente.

 

A foto que ilustra este post é do álbum de Rhea Monique, no Flickr, e segue as recomendações de criação comum

Avalanche Tricolor: ainda bem que no primeiro turno nós goleamos

 

Inter 1 (0) x (5) 0 Grêmio
Brasileiro – Beira Rio

 

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A grandeza de nossos feitos pode ser medida pelo esforço do inimigo em nos vencer.

 

Lembrei-me dessa verdade enquanto assistia ao clássico deste domingo, em Porto Alegre, apesar de não gostar muito de trabalhar com essa dicotomia quando trato do futebol, esporte que já foi palco de intolerância e mortes. Amigos e inimigos. Vida ou morte. Paz e guerra. É sempre perigoso usar essas expressões quando estamos diante de pessoas que nem sempre são capazes de compreender que a co-existência de paixões e opiniões é possível.

 

Feita a ressalva, volto ao futebol propriamente dito. Hoje era perceptível a necessidade que o adversário tinha de ganhar, uma questão de sobrevivência. De honra, talvez. Especialmente após a goleada retumbante que levou no primeiro turno, 5 a 0 – repito o placar para caso você já tenha esquecido. Não esqueceu, né?

 

Se jogávamos apenas futebol – ou tentávamos jogar futebol, pois deixamos muito a desejar, tendo como referência a qualidade do jogo que apresentamos até aqui neste campeonato -, do outro lado havia alguém jogando a vida. E talvez isto tenha feito diferença nas bolas divididas, na força imposta para superar o marcador, na insistência em chegar ao gol mesmo com a falta de talento.

 

É claro que para o torcedor um Gre-nal nunca é apenas um Gre-nal. Queremos ganhar todos, um atrás do outro, em casa ou fora e de goleada sempre, apesar de que estas costumam acontecer só de vez em quando e, ultimamente, a nosso favor.

 

A segunda-feira é sempre mais dolorida quando não é o nosso time que vence o clássico. Mas não se preocupe, caro e raro leitor gremista deste blog, se servir de consolo, nesta segunda-feira, aqui em São Paulo, a dor será bem maior para outros tricolores. Seis vezes maior.

 

Perdão, lá estou de novo falando em goleada.

 

É que isso não me sai da cabeça e parece que também não sai da cabeça do adversário, pois comemorou a vitória por um a zero de hoje como se tivesse ganhado a Copa do Mundo. Fez volta olímpica? Foi o que ouvi o locutor da televisão dizer. Deve ser exagero desse pessoal da crônica esportiva.

 

Para o Grêmio, o resultado atrasou o carimbo definitivo no passaporte para a Libertadores que, como você já sabe, é o nosso grande objetivo. Pelos meus cálculos é necessário apenas mais um ponto nos dois próximos jogos. Dadas as circunstâncias, até arriscaria dizer que do jeito que está já chegamos lá, pois mesmo que o Gremio não marque um só ponto e os adversários ganhem todas suas partidas, ainda teriam de golear em seus jogos, devido a grande vantagem no saldo de gols gremista.

 

Goleada? Desculpe-me, teimo em repetir a palavra que ainda soa mal no ouvido de alguns amigos gaúchos. Prometo não repeti-la mais até porque está na hora de me recolher e me preparar para a semana que se inicia. E, também, porque do Grêmio de hoje tenho muito pouco a escrever, já que, vamos ser sincero, deixamos a desejar.

 

Ainda bem que no primeiro turno nós goleamos, ops!

 

A foto deste post é do álbum Grêmio oficial, no Flickr

Avalanche Tricolor: o necessário, somente o necessário …

 

Grêmio 1×0 Fluminense
Brasileiro – Arena Grêmio

 

Luan comemora com Roger o gol da vitória (álbum Flickr do Grêmio Oficial)

Luan comemora com Roger o gol da vitória (álbum Flickr do Grêmio Oficial)

 

“Eu uso o necessário
Somente o necessário
O extraordinário é demais”

 

Via o Grêmio jogar, na noite desta quinta-feira, quando lembrei da letra de música que embalava os meninos aqui de casa sempre que assistíamos a um dos muitos DVDs da Disney, que faziam parte da coleção de entretenimento deles quando eram bem pequenos ainda. Hoje, os dois estão grandinhos e cada um fazendo das suas, mesmo assim a música voltou à memória, principalmente depois do gol gremista. Gol, aliás, resultado de uma tranquila cobrança de pênalti de Luan, pênalti bastante claro, registre-se, apesar de ter acabado de ver no Twitter que alguns colegas de jornalismo esportivo o chamaram de polêmico. Se houve polêmica, isto se deu porque o autor do pênalti, aquele que colocou a mão na bola, não foi punido com um cartão amarelo, o que resultaria em sua expulsão, pois já havia recebido um por uma falta no segundo tempo.

 

Lembrei da música porque percebi que, em campo, o Grêmio fazia o necessário, somente o necessário, para levar os três pontos nesta sua caminhada para o Tri da Liberadores – jamais devemos esquecer que este é o nosso objetivo maior. E quando digo que fazia o necessário, longe de mim desmerecer o que era feito. Pelo contrário. Marcava o suficiente para impedir a chegada do adversário, apesar de uma bobeada logo no início que quase atrapalhou nossos planos. E marcava a saída de bola como Roger gosta, sem dar muito espaço e retomando o domínio do jogo rapidamente. O necessário.

 

Assim que a bola estava nos pés gremistas, os jogadores se deslocavam no gramado sempre apresentando-se como opção de passe e assim faziam com que o passe tivesse maior precisão. Tanta movimentação acabava gerando lances de gols que, na maior parte do jogo, eram desperdiçadas pela insistência de sempre querer alguém mais bem colocado para concluir. Um mérito ou um defeito – dependendo do resultado final – deste time que não abre mão de jogar futebol com qualidade, porque qualidade no futebol é preciso.

 

Até que veio o pênalti. E Luan converteu com a tranquilidade de um veterano, que ele não é, mais uma vez fazendo o necessário. Sem paradinha, sem precisar de ginga, sem muitas delongas, apenas com precisão, a necessária precisão (e tranquilidade) dos cobradores de pênaltis.

 

O restante do jogo foi trocar bola de pé em pé, uma prática irritante para os adversários que sempre acaba em expulsão ou punição, quando o árbitro não se omite de sua responsabilidade – e hoje por mais de uma vez se omitiu, apesar de ter expulsado um deles aos 18 do segundo tempo. Sei que muitos dos torcedores devem ter temido algum revés, mas, convenhamos, a partida ficou sob controle. Os três pontos foram garantidos, a manutenção da vaga da Libertadores, também, e seguimos distantes dos que se engalfinham mais atrás.

 

Fizemos o necessário, apenas o necessário. O extraordinário … que venha no domingo!

Avalanche Tricolor: um resultado de tirar o sono dos outros, não o meu

 

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Brasileiro – Ilha do Retiro/Recife

 

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A rodada do Campeonato Brasileiro reservou-me o Grêmio para fechar um fim de semana diversificado e divertido, que se iniciou no fim da tarde de sexta-feira com jantar em família. Os demais dias foram divididos entre sessões de filmes e seriados, realização de algumas tarefas profissionais pendentes e uma ótima experiência com um grupo de cidadãos dispostos a mudar a forma de se fazer política no Brasil, no evento Virada Política, que se realizou em São Paulo.

 

O caro e raro leitor deste blog pode achar estranho eu ter escrito no parágrafo acima que o fim de semana foi divertido, diante do resultado do meu último compromisso deste domingo. Claro que eu preferiria ir para a cama comemorando uma vitória, a medida que a conquista de mais três pontos nos daria chance de disputar o vice-campeonato e embolsar mais uns dois milhões de reais. Tivéssemos produzido ofensivamente um pouco mais, arriscado a gol um pouco mais e acertado o pé um pouco mais, principalmente na troca de passe final e no chute, era provável que saíssemos com resultado bem melhor.

 

Uma derrota como a deste domingo, porém, é incapaz de estragar os momentos que vivi no fim de semana ou mesmo a minha visão sobre o Grêmio – e olha que Heber Roberto Lopes se esforçou para tirar meu bom humor com sua arbitragem atrapalhada e displicente. Digo isso com tranquilidade porque teimo em não analisar o desempenho gremista por esta ou aquela partida, isoladamente. Hoje mesmo alguns jogadores que têm sido excepcionais em campo não conseguiram desenvolver o mesmo futebol. Seria injusto aproveitar o baixo rendimento para criticá-los.

 

Tenho insistido nesta Avalanche que precisamos olhar a campanha ao longo da temporada, as expectativas que tínhamos e a perspectiva que se abriu graças ao crescimento técnico e tático da equipe. Nossa evolução tem sido tal que a perda dos três pontos neste domingo é incapaz de mudar a trajetória vitoriosa que estamos trilhando na busca do Tri da Libertadores – esta sim uma obsessão gremista. Não há motivos de preocupação, o que não significa que tudo esteja resolvido. Roger sabe que precisa ajustar as peças, dar mais consistência para alguns jogadores e reforçar o elenco, mas tudo isto administrado com a tranquilidade, prudência e sabedoria que lhe são características.

 

Quem não deve dormir muito tranquilo neste domingo é aquela turma que viu mais um candidato chegar para a disputa da quarta vaga para a Libertadores.

 

A imagem deste post é do álbum Grêmio Oficial no Flickr

A incrível história de Eurico Lara

 

Por Airton Gontow
jornalista e cronista

 

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Faz 80 anos que morreu o goleiro Eurico Lara, grande nome da história do Grêmio, ao lado de Airton Pavilhão e Renato Portaluppi.

 

Aprendi a história de Lara ao lado de seu túmulo, no cemitério São Miguel e Almas, em Porto Alegre, segurando na mão de meu pai, como acontece com muitos e muitos gremistas. Era um goleiro fantástico e gremista apaixonado (como todos os gremistas devem ser). É o único jogador da centenária história gremista citado por Lupicínio Rodrigues. Sim, o autor de “Nervos de Aço” e “Felicidade foi se embora” fez o belo o hino do Grêmio – “Até a pé nós iremos, para o que der e vier, mas o certo é que nós estaremos com o Grêmio onde o Grêmio estiver”.

 

Mas eu falava sobre Eurico Lara, que era apaixonado e gremista e, veja só, estava no quarto de um hospital, com tuberculose e doente do coração, no dia da final do campeonato gaúcho, contra o inimigo Internacional, no chamado clássico Gre-Nal. Lara fugiu do hospital para assistir ao jogo. Um empate daria o título ao Grêmio, que estava com um ponto a mais na competição. Mas, faltando três minutos, o juiz marcou um pênalti para o Inter. A torcida gremista, em grande maioria, ficou em silêncio, com medo da catástrofe próxima. Foi neste momento que Lara disse para o homem que cuidava do portão junto ao gramado: “abre”. E quando entrou em campo foi tirando a camisa, as calças…estava de uniforme por baixo e, pasme, de chuteiras. O estádio explodiu de espanto e alegria, mas logo depois, aconteceu um silêncio absoluto, que até hoje impressiona a todos os que assistiram à cena. Era como se não houvesse vozes, pássaros…vento no mundo

 

O atacante do Inter ajeitou a bola. Parecia um touro, enquanto se preparava para iniciar a curta corrida em direção à bola. O chute saiu forte, alto, no canto esquerdo. Mas Lara, meu herói Eurico Lara (cantado por Lupicínio como “o craque imortal”) saltou como um gato e encaixou a bola no peito e com ela continuou agarrado quando caiu no chão. A torcida entrou em delírio. Os jogadores se aproximaram para reverenciar aquela lenda do futebol. No estádio, uma chuva de chapéus, como nunca mais foi vista, nem mesmo nas comemorações pela vitória dos aliados na Segunda Guerra Mundial. Lara continuava agarrado com a bola no chão. Sim, era sua, não queria soltá-la. Os jogadores foram se afastando. A torcida de pé, em silêncio, compreendeu o que acabara de acontecer. Lara estava morto. Com a bola grudada naquele imenso peito gremista. No gramado, milhares e milhares de chapéus eram como flores homenageando aquele deus do futebol.

 

Na verdade, a história não aconteceu exatamente assim. No dia 22 de setembro de 1935, contrariando as recomendações médicas para que não atuasse mais, Lara entrou em campo para o jogo decisivo – um Gre-Nal! – do campeonato da cidade, naquele ano chamado de “Campeonato Farroupilha”, por ser o período das comemorações do centenário da Revolução dos gaúchos. O Grêmio precisava vencer para conquistar o título. Foi uma das maiores atuações de sua vida, decisiva para a vitória gremista por 2 a 0. Nunca mais atuou. Faleceu em 6 de novembro, 45 dias após o Gre-Nal – e dizem os médicos que a morte foi apressada pelos meses em que, mesmo doente, jogou pelo Grêmio.

 

Mas vou contar ao meu filho exatamente como o meu pai me contou: segurando em sua mãozinha de gremista, ao lado do túmulo do inesquecível Eurico Lara, aquele que morreu defendendo um pênalti, com tuberculose e doente do coração, dando o título de campeão ao Grêmio….