A Avalanche definitiva

 

 

Voltei para casa. Mesmo morando há 21 anos em São Paulo, lá ainda é a minha casa. Minha infância, minha adolescência e o início da vida adulta foram vividos por lá. Fui brincar no pátio como fazia quando criança. Vi o campinho de futebol, encostado na rua Dr Aurélio Py, onde joguei bola muitos anos, nos tempos em que, como zagueiro e lateral esquerdo, exercitava a arte de chutar canelas. Havia muitos carros estacionados sobre ele, mas o areião, no qual rasguei joelhos e cotovelos, ainda se destaca em toda sua extensão. Do outro lado, vi a quadra na qual joguei basquete, passei frio e escorreguei na água da chuva que ultrapassava o telhado que despencou durante um vendaval. No meio do caminho enxerguei a sacada, onde meus craques apareciam de vez em quando, abanavam e, com o polegar, davam sinais de confiança. Foi meu pai quem lembrou das piscinas que ladeavam a avenida Carlos Barbosa, as quais frequentava carregado pelas mãos da minha mãe, no verão gaúcho. Os guris com quem fiz amizade não encontrei. Devo ter passado por eles, mas a idade escondeu seus traços de criança e não os reconheci. Havia outros ao meu lado. O Christian, meu irmão, o Fernando, meu sobrinho, e o Lorenzo, meu filho mais novo, que não escondia a alegria de estar compartilhando comigo as brincadeiras de criança naquele imenso pátio que se transformou o Olímpico Monumental.

 

No último dia de vivência no estádio, cenário de parte da minha vida, chorei de forma contida, não pela despedida, mas ao ouvir, mais uma vez, o radinho de pilha transmitir a voz de meu pai que, Milton Ferretti Jung, que por 15 longos minutos, narrou os lances do Gre-Nal. Antes do jogo, havia sido tocante ouvir as declarações dos craques do passado que desfilaram no gramado do Olímpico. Gente como Gaspar, Jardel, Danrley, Mazaropi, Iura e Loivo, meu eterno Coração de Leão. Nada se comparou, porém, a transmissão feita pelo meu craque da locução esportiva. Perfeccionista, jura que os óculos impróprios para a distância atrapalharam e preferia ter dado ritmo mais acelerado ao jogo. Só ele tinha esta preocupação. O que nós, seus fãs e ouvintes, queríamos era relembrar, agradecer por todas as emoções narradas. Tirar foto ao lado dele, assim como dezenas fizeram questão na caminhada até a cabine da rádio Guaíba. Voltar no tempo.

 

O Gre-Nal desse domingo, que só descrevo ao fim desta segunda-feira pela necessidade de retomar o fôlego, sufocado pelas sensações que vivi, era coadjuvante num cenário tão grandioso. A falta do futebol bem jogado, a carência de habilidade para furar bloqueios defensivos, a predominância da violência, o descontrole dos comandantes e a incompetência do árbitro pouco nos importaram. Esperávamos o fim da partida ansiosos para dar adeus ao velho estádio. E o fizemos com uma Avalanche definitiva, que extrapolou os limites da Geral, torcida que trouxe este movimento sincronizado para as arquibancadas. Era a última vez, oficialmente, que comemoraríamos nossos feitos, ao lado de filhos, sobrinhos, irmãos, pais e amigos no pátio da minha casa. No Olímpico Monumental.

E o menino descobriu um templo

 

Por Silvio Bressan
Jornalista e gremista

 

 

Havia muita cor e barulho naquela noite de dezembro de 1971, quando o menino assustado entrou pela primeira vez no Estádio Olímpico. Grêmio e Coritiba disputavam um jogo do Campeonato Brasileiro, mas para uma criança que só via futebol pela TV, em preto e branco, o que mais chamava a atenção era a imensidão daquele espaço, o verde da grama, o colorido dos uniformes e os sons da torcida. Os dois gols do ponteiro-direito Flecha me iniciaram na profissão de fé pela camisa 7, a mesma que já havia sido honrada por Tesourinha e Babá e ainda seria consagrada por Tarciso e Renato. Graças ao Olímpico, futebol para mim tornava-se uma coisa real, palpável, com cor, cheiro, barulho e a minha saga de gremista ganhava um palco, um verdadeiro templo para celebrar algumas de minhas maiores decepções e alegrias até hoje.

 

E já lá se vão mais de 40 anos de emoções variadas, mas sempre intensas… Logo no segundo jogo (Grêmio 1 x 1 Cruzeiro, em 1972), o espanto pelo soco de Everaldo no juiz José Faville Neto. Depois, a reverência de ver, pela primeira e última vez, o gênio Pelé naquele histórico gramado (Grêmio 1 x 0 Santos, em 1974). Na mesma época, um inusitado 0 x 3 contra um desconhecido time de Encantado virar 3 x 3 para o delírio da multidão (por outro lado, nos anos 80, também houve um 4 x 1 conta o Santo André que virou 4 x 4 para a frustração geral).

 

Eram tempos difíceis, anos de chumbo para a democracia e a torcida gremista, com derrotas em Gre-Nais e um jejum de oito anos sem títulos. O adolescente tímido, porém, como toda a nação tricolor, não desistia. Mesmo quando a bravura de um Chamaco, Cacau, Tarciso e Iúra não era suficiente para vencer o tradicional rival, lá estava ele na geral, almofada numa mão e rádio na outra, acreditando que um dia a sorte mudaria. E mudou tão de repente que quase ninguém acreditou. Na verdade, levou apenas 14 segundos até que Iúra, agora melhor acompanhado, abrisse o placar naquele Gre-Nal de agosto de 1977. O Grêmio deu a saída de bola e, sem que o adversário tocasse na bola, já estava vencendo.

 

Tínhamos, enfim, um time confiável, onde a bravura de Tarciso e Iúra agora era lapidada pela categoria de Tadeu Ricci, André e Éder. Naquele ano foram sete Gre-Nais e o Grêmio venceu cinco, três deles no Olímpico, com direito à duas goleadas. E chegamos ao dia mais importante, até então, para a história daquele adolescente no Estádio Olímpico. O Gre-Nal de 25 de setembro teve de tudo: pênalti perdido por Tarciso, gol do André, contusão do mesmo André na comemoração e um final tumultuado pela invasão da torcida e briga no gramado. O mais importante, porém, para aquele rapaz, era que finalmente seu time era campeão, em cima do seu principal adversário, e no seu grande palco. Não havia nada mais a desejar. Como reza uma de nossas mais famosas faixas, “Nada pode ser maior”.

 

Saindo da adolescência, ainda vieram o título de 1979, também no Olímpico, e a escalada nacional e mundial, a partir de 1981, com a conquista do campeonato brasileiro, até o título da Libertadores, em 1983, o maior feito da história do Olímpico. Na década de 80, aliás, fomos brindados por uma seqüência memoráveis de vitórias em Gre-Nais e títulos no nosso maior templo: de 85 a 90 quase todas as decisões foram clássicos vencidos pelo Grêmio no Olímpico. Em 89, já na vida adulta, pude testemunhar o título da primeira Copa do Brasil, em 1989, um sábado à tarde, em cima do Sport. Um ano depois, já morando em São Paulo, tive a felicidade de assistir a um 4 x 0 no Gre-Nal decisivo do campeonato. Não sabia porque pretendia voltar, mas aquele foi meu último título no Olímpico.

 

De lá para cá, como morador de São Paulo, voltei esporadicamente ao velho templo, com vitórias e derrota. A cada viagem à cidade natal, mesmo quando não havia jogo, o compromisso obrigatório era dar uma passada no Olímpico, visitar a loja e sentar nas arquibancadas, mirando o gramado. Queria aproveitar cada instante naquele velho concreto oval e rememorar as cenas mais marcantes dessas quatro décadas: as brigas e o “senta e levanta” dos Gre-Nais; a enorme buzina que ficava no meio da geral e nos ensurdecia cada vez que era acionada; ao lado do alarme sonoro, a tradicional faixa “Com o Grêmio onde o Grêmio estiver”, sempre estendida e guarnecida por fiéis escudeiros; os corneteiros da social, sempre mais exigentes e pouco pacientes com o time; o pânico que se instalava na torcida quando o limitado Vilson ajeitava a bola na intermediária e todos gritavam “Não chuta, Vilson, não chuta!”; as imprecações contra o indefectível cotovelo do zagueiro Figueroa; o cheiro misturado de cigarro e cerveja; no verão, o picolé que já chegava líquido; no inverno, o café quente demais e o amendoim que era só casca e farelo; no final, os jornais queimados pela arquibancada e a volta a pé pela Azenha entupida de gente, rádio colado no ouvido e o passo apressado para não perder o último ônibus, lá na Avenida Ipiranga. No retorno à São Paulo, ficava sempre uma ponta de nostalgia até o próximo encontro com o Olímpico, que era sempre eletrônico. Numa volta à minha infância, antes do primeiro jogo, o Olímpico passou a ser uma imagem constante na minha TV.

 

Em outubro deste ano, resolvi me despedi do glorioso casarão. Convidei meus irmãos, residentes ainda em Porto Alegre, e alguns amigos daquelas jornadas, que hoje moram em Santa Catarina, para reviver parte da nossa adolescência e juventude. E lá fomos para a última aventura no templo azul. Como mascote da turma, um menino de 13 anos, filho de um amigo, com a camisa tricolor e a uma alegria incontida. Era seu segundo jogo no Olímpico e fiquei imaginando se sua empolgação era a mesma daquele menino no início da década de 70. Fomos para trás do gol do ginásio, à esquerda das cabines de rádio, ali exatamente onde estávamos há 35 anos, vendo André Catimba vencer Benitez e fazer história. Dali também vibramos com o gol do zagueiro Werley, no empate de 1 x 1 com o Santos. Não havia mais Pelé e Neymar não brilhou, até foi expulso. Mas tudo isso foi muito menos importante do que ver a emoção do menino, que, como outras gerações desde 1954, era renovada a cada quarta e domingo naquele verdadeiro santuário.

 

Tenho orgulho de ter vivido, no Olímpico, 20 de seus quase 60 anos de história memorável. Foi ali que o menino, adolescente e adulto forjou sua identidade de gremista, temperada nas vitórias e derrotas, como toda a grande paixão. É esse sentimento que levarei para a Arena e essa é a maior homenagem que posso prestar ao antigo estádio e legar às novas gerações que surgirão no moderno templo. Ainda que o antigo casarão não esteja mais lá, a alma e o coração de todos os gremistas das últimas seis décadas lá estarão. Imortal mesmo é a lembrança que não se apaga e o velho Olímpico de tantas cores, barulhos, frustrações e glórias continuará com sua chama acesa na memória de milhões de torcedores.

 

Da inauguração à despedida do estádio Olímpico

 

Por Milton Ferretti Jung

 

 

Conheci quando criança – nem me lembro que idade tinha – a primeira praça de futebol do Grêmio: o Estádio da Baixada ou, se preferirem os mais velhos, o Fortim da Baixada, situado na Rua Dona Laura, no bairro Moinhos de Vento. Meus amigos e eu, deixamos Higienópolis, onde morávamos, caminhando até a Baixada. Era um domingo e pretendíamos dar um jeito de entrar no Estádio. Queríamos ver o Grêmio jogar. O máximo que conseguimos foi espiar a partida por uma fresta. Eu, pelo menos, não voltei mais a ver o Grêmio atuar naquele local, cujo pavilhão de madeira foi cedido ao Força e Luz, dono do Estádio da Timbaúva, em troca do zagueiro Airton, de saudosa memória para os gremistas.

 

Minha carreira radiofônica começou em 1954,na Rádio Canoas, um pequena emissora, por coincidência, no mesmo ano em que o Presidente tricolor, Saturnino Vanzelotti via realizar-se o seu sonho de dar ao seu Clube um moderno Estádio, o Olímpico Esse, mais tarde, foi ampliado por outro dirigente: o Dr.Hélio Dourado. Uma das minhas primeiras tarefas, na Canoas, foi a de fazer a cobertura jornalística da inauguração do Estádio Olímpico. Há quem imagine que eu tivesse narrado o Gre-Nal, que havia sido o jogo escolhido para a festa inaugural, de má memória para o Grêmio. Eu era solteiro e ainda morava no bairro de Higienópolis. Casei e nos mudamos para bem bem perto do Olímpico, onde o Christian, meu caçula,ainda reside, isto é, na Rua Saldanha Marinho. O Mílton Jr., que jogou na escolinha de futebol do Grêmio e depois, passou 12 anos no basquete gremista, atuando do time infantil ao adulto, hoje âncora do Jornal da CBN, em São Paulo, no blog dele, sempre que o Grêmio joga, não deixa de escrever a “Avalanche Tricolor”. Nessa, não faz muito, lembrou, que considerava o pátio do Olímpico, uma extensão do quintal da nossa casa.

 

Neste domingo, Mílton e Lorenzo, um dos meus netos, mais Christian e Fernando, o filho dele, ambos que seguem morando na Saldanha Marinho, vão tentar acostumar-se a viver longe do novo e moderníssimo estádio gremista: a fabulosa Arena. Ficamos com dois corações, um deles triste, com a despedida do passado; o outro, alegre com o a praça de esportes do presente, que se inicia daqui a alguns dias.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Avalanche Tricolor: A nossa seleção em campo

 

Figueirense 2 x 4 Grêmio
Brasileiro – Florianópolis (SC)

 

 

Para ser o vice-campeão e ter o direito de chegar a Libertadores sem disputar nenhuma prévia, o Grêmio ainda precisa do resultado da última rodada do Campeonato Brasileiro, no clássico que marcará a despedida de todos nós do Olímpico Monumental. Independentemente do que acontecer, é inegável a bela campanha realizada nesta temporada, ao menos na competição nacional, com uma ascensão incrível desde as rodadas finais do primeiro turno quando aceleramos o passo, entramos na ‘zona de Libertadores’, nos mantivemos nesta posição privilegiada o restante da competição, a ponto de garantirmos a classificação para o torneio sul-americano com três rodadas de antecedência, e atropelamos os adversários que nos separavam da vice-liderança.

 

A vitória deste fim de tarde, em Florianópolis, apenas ratificou o desempenho invejável do tricolor que garantiu a vitória no primeiro tempo com excelentes participações de Zé Roberto e Elano. Souza, prestes a assinar a permanência dele ano que vem, também marcou. No segundo tempo, o Grêmio fez o que os comentaristas costumam chamar de ‘administrar o resultado’, mas eu prefiro chamar de ‘viver perigosamente’. Apesar de termos tomado dois gols parecíamos mesmo ter o domínio da partida, a ponto de, em seguida, ampliar nossa vantagem com Leandro.

 

Merecemos o que conquistamos até aqui e mereceremos muito mais se a vaga direta para a Libertadores vier com um vitória contra o co-irmão, nem tanto pelo adversário, mas porque concluiríamos com uma conquista a história mágica que vivemos juntos no estádio Olímpico. O curioso é que apesar de tudo, continuamos não tendo nossos méritos reconhecidos, haja vista a seleção da CBF anunciada semana passada. Não encontraram lugar para nenhum dos jogadores gremistas, menos ainda para seu treinador, ao contrário do que aconteceu com todos os demais times que estão nas primeiras colocações. Fato que, ao contrário do que imaginam, nos engrandece. Pois se não temos craques com capacidade para compor a lista dos melhores do campeonato, não temos um técnico com habilidade suficiente para ser o comandante deste escrete de talentos, o que nos teria levado à vice-liderança do Brasileiro?

 

‘É o Grêmio, idiota!’ sussurrou uma voz no meu ouvido que veio sei lá de onde, talvez da minha própria consciência. E com razão. Pois o que nos levou a esta condição no Brasileiro, foi nossa história, o espírito que sempre nos moveu para as grandes conquistas e o desejo de oferecer ao Olímpico o melhor de cada um de nós e mostrar o quanto seremos gratos a este estádio. Com todos os méritos, Luxemburgo, Zé Roberto, Elano, Marcelo, Fernando e os demais que vestiram orgulhosamente a camisa tricolor podem ter a certeza de que fazem parte de uma seleção muito especial. Da seleção do Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense.

Procura-se: locutor esportivo de TV

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

 

Domingo, ao término da partida de futsal que deu o campeonato mundial à seleção brasileira, embalado pela emoção do espetáculo, fiquei à espera da premiação. Até entendi o abrupto corte da Globo encerrando a transmissão, priorizando a grade da programação. O que comecei a não apreciar foi o falatório do locutor do Sportv, cujo ápice do desagrado foi escutá-lo comentar que iria se calar para que pudéssemos ouvir o som do show das medalhas, mas não se calou. Nem no momento musical nem nas falas dos protagonistas. Mudei então para a Bandeirantes, ato que imediatamente tive que recuar, pois lá o falatório do locutor ainda era maior.

 

Frustrado, mas no embalo para uma análise como consumidor, lembrei que talvez o rádio ainda deva estar influenciando os profissionais da TV. Fui conferir no Google e para a minha surpresa, praticamente todos os cursos de locução ou narração são de radio e TV. Ora, numa era de especialização e, principalmente, de grande desenvolvimento tanto para o rádio quanto para a TV, é aconselhável a mesma base? Imagine se as telenovelas ainda carregassem influência das radionovelas. E se os cursos fossem para artistas de rádio e TV? Bem, a dramaturgia é idêntica. Será?

 

Encontrei ainda no Google um excelente artigo do Mílton Jung (leia aqui). Valioso como testemunha por ocasião da Copa na África, como protagonista inovador pela RedeTV e como âncora de rádio, que lhe confere rara autoridade para análise. Ficou evidente que nesta área não se toma conhecimento nem de McLuhan, com o seu veredicto “os meios são a mensagem” nem com o Marketing, que certifica o consumidor como o centro do mercado.

 

Quem gosta de futebol não quer saber do óbvio nem do que já está na tela. Comentários precisam considerar que a maioria destes telespectadores entende e gosta de futebol. Não devem ser feitos durante a bola correndo se não forem pertinentes para não se tornarem impertinentes e irritantes. Imagens fora do contexto nem pensar enquanto o jogo está em andamento. Mostrar todo o banco de reservas no início do jogo, quando a tensão inicial ainda persiste é a prova que os boleiros não foram consultados.

 

A verdade é que em termos de futebol tudo é passado, arcaico, pois só para o futebol a TV ainda não chegou. Nem para a arbitragem, muito menos para a narração.

 

Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos, e escreve às quartas-feiras, no Blog do Mílton Jung

Avalanche Tricolor: quando o juiz é protagonista do jogo

 

Portuguesa 2 x 2 Grêmio
Brasileiro – Canindé/SP

 

 

Ao mesmo tempo em que o Grêmio fazia de conta que estava em campo contra a Portuguesa, jogo que assistia em um dos canais do ‘pagou-pra-ver’, ia ao ar, na HBO, o último capítulo de FDP, série que conta a história de um juiz de futebol, sobre a qual conversei com você nesta Avalanche domingos passados. Na ficção, o juiz Juarez Gomes da Silva é assediado por investidor russo para favorecer o clube argentino, do qual é dono, que disputa a final da Copa Libertadores. No campo da realidade, o árbitro Marcelo de Lima Henrique, até onde se sabe e seria injusto pensar diferente, sofreu apenas as pressões normais de uma partida de futebol. Isto não o impediu de interferir no placar do jogo desta noite de domingo ao anular um gol do Grêmio ainda no primeiro tempo quando estava 0 a 0. Foi levado ao erro por um dos seus auxiliares que, sem o recurso eletrônico, enxergou impedimento inexistente. No seriado, Juarez quase foi prejudicado por um bandeirinha que estava incomodado por não ter sido escalado para apitar a decisão sul-americana e por outro que estava na gaveta – o que na minha terra, talvez na sua também, é sinônimo de vendido, subornado, ladrão. O fim do seriado foi inusitado, pois o time da casa saiu em desvantagem, empatou e virou com um gol do juiz – cena inspirada, imagino, no lance que levou o Palmeiras a empatar em 2 a 2 com o Santos, em 1983. A bola sairia pela linha de fundo, mas bateu nas pernas do árbitro José Luis de Aragão e foi para as redes. Em FDP, desviou na cabeça de Juarez e entrou, dando o título para os argentinos com uma ajuda involuntária dele.

 

A propósito, o placar desta noite também surpreendeu, principalmente após o fraco desempenho do Grêmio que parecia apagado em campo até levar dois gols – o primeiro deles de pênalti (o juiz acertou?). As três substituições feitas por Luxemburgo e o belo desempenho de Zé Roberto, que era assistido pela mãe de 71 anos, presente no estádio, foram fundamentais para a reação e para mantermos a vice-liderança isolada do Brasileiro, o que nos dá vaga direta à Libertadores. Não fosse o árbitro, teríamos, quem sabe, aumentado esta vantagem na classificação.

 

E o Palmeiras teria sobrevivido ao menos mais uma rodada no campeonato. Mas cada um com os seus problemas. E o Juarez, com os dele.

Avalanche Tricolor: A Imortalidade contamina

 

Millionarios 3 x 1 Grêmio
Sul-Americana – Bogotá (COL)

 

Há um espírito que cerca nossa camisa, que nos capacita a superar os mais incríveis desafios e nos fez entrar para a história. Vencemos partidas inimagináveis e conquistamos campeonatos que poucos acreditavam ser possível. Muitas vezes, entramos em campo desacreditados e fomos avaliados com desprezo. Nossa garra era confundida com violência, nosso desejo de ser campeão visto com maus olhos. No entanto, fomos muito maior do que todos estes e fomos além. Foi assim nos campeonatos estaduais, nas Copas do Brasil, no Brasileiro. Em todas as competições internacionais das quais participamos. Muitos lembrarão aqui a inacreditável Batalha dos Aflitos e eu não esqueço a forma como chegamos ao título Mundial.

 

Esta força que consagrou nossa Imortalidade, às vezes, emana de nossa alma para contaminar clubes e seleções em outros rincões. Nosso autor preferido, por gremista alucinado que é, Eduardo Bueno, lembra bem da façanha tricolor travestida de Uruguai, na final da Copa de 50, entre tantas outras descritas no livro “Nada Pode Ser Maior”, que deveria ser leitura obrigatória para cada atleta que se atrevesse vestir nossa camisa. Nesta noite de quinta-feira não foi diferente. A Imortalidade estava em campo, de azul, também, lutando pelo impossível. Pena que do outro lado.

Tecnologia demais é graça de menos no futebol

 

Por Milton Ferretti Jung

 

“Quando você sabe que está derrotado, aceite a derrota com dignidade”. Ao ler essa frase no romance ‘As Trilhas da Glória’, de Jeffrey Archer, escritor inglês, que a colocou na boca do tutor de George Leigh Mallory, protagonista desse seu livro, me lembrei do conselho dado por Marcos, ex-goleiro do Palmeiras, à direção do clube, ao saber que o presidente Tyrone pretendia obter a anulação do jogo de seu ex-time contra o Inter. Em outras palavras, Marcos praticamente repetiu a frase usada por Archer. Os que acompanham o Brasileirão sabem que Barcos, centroavante palmeirense, marcou um gol com a mão, gesto não flagrado pelo árbitro Francisco Carlos Nascimento. A alegação palmeirense, não aceita pelo STJD, foi que o delegado do jogo, avisado por um repórter, soprara para Jean Pierre, o quarto árbitro, que a televisão havia mostrado o toque. A legislação não permite que sejam usados recursos televisivos para definir lances de jogos. Mas a causa do Palmeiras não prosperou. Não houve como provar que a informação passada para o juiz fosse fruto do que a televisão mostrara.

 

Passou-se,então a discutir, mais uma vez, à luz do ocorrido, a validade do uso de recursos tecnológicos – imagens de TV – para esclarecer lances polêmicos. Se o assunto fosse colocado em votação, com certeza, a maioria da mídia esportiva seria favorável ao sistema. Eu, porém, não gostaria de vê-lo vigorar. Entendo que uma das graças do futebol – a de permitir que tudo o que acontece neste jogo seja discutido à saciedade, especialmente a atuação do árbitro e de seus auxiliares – tem de permanecer imutável. Duvido que a tecnologia possa ser posta em prática em todas as competições futebolísticas, eis que encareceria, por exemplo, os campeonatos estaduais. Afinal, todos as partidas teriam de ser filmadas e seria preciso que os árbitros fossem imediatamente avisados sobre irregularidades imperceptíveis para os seus olhos e os de seus auxiliares. Sei que juízes e assessores se comunicam entre si, mas apenas com o uso de transmissores de voz. Para mim, isso fica no limite do que é possível. Esses novos assistentes, que ficam de olho no que ocorre no fundo dos gramados, já se constituem em acréscimo desnecessário. O que dizer, então, de estragar o futebol de todos nós com a utilização de tecnologia.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung

Avalanche Triciolor: Em família, feliz e na Libertadores

 

Grêmio 2 x 1 São Paulo
Brasileiro – Olímpico Monumental

 

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Sozinho, sofredor e sempre acreditando, começo a assistir à decisão deste domingo emocionado com o estádio Olímpico tomado de gremistas. É das últimas vezes que veremos estas imagens do Monumental sacudindo com o pulo e grito dos torcedores, que, por merececimento, teriam de vir acompanhadas de uma excelente apresentação e a vitória, lógico. Como esperar tudo isso, porém, com quatro dos principais jogadores afastados, dois deles fundamentais para o time, casos de Elano e Kleber, e contra uma equipe que, foi o que ouvi durante toda a semana dos entendidos em futebol, tem feito atuações fabulosas? O revés no primeiro tempo, no instante em que o time apresentava-se melhor, resultado de dupla falha de Saimon, um dos que deixaram o estaleiro para formar a defesa, reforçava o ceticismo, sem apagar a esperança.

 

Aos poucos meu isolamento no sofá foi sendo substituído pela companhia da mulher, a primeira a se aproximar. Fez para me ver feliz, pois, mesmo tendo trabalhado com futebol por muitos anos, nunca admirou muito as partidas. Os meninos, como sempre, começaram o jogo diante do computador, apesar de que, com a habilidade que desenvolveram desde pequeno, são capazes de compartilhar a diversão digital com as emoções do jogo na TV. O resultado ruim em campo os fez se aproximar, talvez pelo mesmo sentimento que moveu a mãe, solidariedade. Sabiam quanto uma derrota naquelas condições, com aquela expectativa, com a chance desperdiçada de alcançar a passagem direta para a Libertadores iria calar fundo.

 

O menor se espremeu entre os pais. O mais velho chegou em seguida e se sentou no chão a frente do sofá. Para todos estarem ali em volta era porque percebiam que o momento exigia concentração total. Eram necessários mais do que os 45 mil torcedores que estavam no Olímpico. As tentativas de gol eram festejadas e as excelentes jogadas de Zé Roberto aplaudidas. Olhavam-me com piedade nas bolas perdidas e tentavam entender minha reclamação contra o árbitro mesmo quando ele acertava. O apoio deles me trouxe força e preocupação. Não gostaria de tê-los ali para compartilhar uma derrota. Seria marcante comemorarmos juntos uma virada que começou a se desenhar com a excelente – ou seria fabulosa? – apresentação do segundo tempo. Era outro time, outros jogadores, um futebol com mais personalidade.

 

Veio o primeiro gol do Guerreiro e a certeza de que o segundo se avizinhava. Veio o segundo com Moreno e a garantia de que nada mais poderia nos deter. Os torcedores gritaram “Fica Luxemburgo” e tive de explicar o por quê. Pediram “Fica Zé Roberto”e eu expliquei, também. Deram olé, foram superiores e comemoraram a vitória como se tivessem levado o título. E eu não precisei dizer mais nada. Apenas nos abraçamos, pois estávamos de volta à Libertadores no melhor estilo do Imortal Tricolor.