Avalanche Tricolor: a dança do Tonhão na terra de Padre Reus

Aimoré 1×2 Grêmio

Gaúcho – estádio Cristo Rei, São Leopoldo-RS

Rodrigues comemora o gol, em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

São Leopoldo fica logo ali. Coisa de meia hora, ou um pouco mais, de Porto Alegre. Cidade de Padre Reus, o quase santo de quem somos devoto por parte de pai. Todo ano, visitávamos em família o santuário onde o corpo de João Batista Reus está enterrado. Forma de agradecer pelas graças alcançadas.

Foi lá a partida desta noite pelo Campeonato Gaúcho. Não no santuário, é claro. No Cristo Rei, estádio do time da cidade, em que cabem cerca de 14 mil torcedores. Local acanhado como costumam ser os estádios em que são disputados os jogos no Rio Grande do Sul. De gramado descuidado e esburacado, incapaz de aceitar que a bola role de forma natural. 

Para este cenário, o Grêmio levou tive misto. Para não dizer reserva. Deixou alguns titulares no banco, que poderiam ser chamados em situação de emergência. A emergência se fez depois de tomar o primeiro gol. Bastou colocá-los em campo e o talento superou a marcação pesada e o gramado impróprio para jogo.

O primeiro gol foi de uma perfeição rara. Benitez, com qualidade no passe e visão de jogo, colocou a bola entre os marcadores e ao alcance de Nicolas, o lateral esquerdo, que foi à linha de fundo e cruzou na cabeça de Villasanti. Nosso volante paraguaio estava dentro da área. Teve o trabalho precioso de cumprimentar e fazer o gol.

O segundo gol veio novamente pela esquerda. Mais uma vez pelos pés de Nicolas, que cruzou para aproveitar a presença de Diego Souza. Nosso goleador não tocou na bola, mas foi fundamental ao levar com ele a marcação de dois adversários, abrindo caminho para Rodrigues dominar e marcar. 

Sim, Rodrigues, o zagueiro temido por muitos e acreditado por Vagner Mancini, que decidiu aproveitá-lo pela lateral direita, posição em que pode impor seus prazer de chegar ao ataque. Cá entre nós, nunca vi um zagueiro que gosta tanto de atacar como ele. Vamos lembrar que foi de Rodrigues, o gol que nos classificou na fase de grupos da Libertadores de 2020. 

Contra o Aimoré, é o segundo jogo em que Rodrigues é escalado nessa posição. Hoje, saiu jogando como zagueiro e portando a braçadeira de capitão. Não é pouca coisa. No segundo tempo, Mancini o deslocou para a direita e Tonhão, ops, Rodrigues não decepcionou. Já havia aparecido dentro da área outras vezes. Aos 41 minutos, quando Nicolas cruzou e Diego Souza arrastou os marcadores, foi ele quem surgiu para fazer o gol da vitória  e convidou o torcedor a dançar a dança do Tonhão.

Avalanche Tricolor: gracias, Benítez!

Grêmio 2×0 Guarany 

Gaúcho – Arena Grêmio, Porto Alegre/RS

Benitez é destaque em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

O lançamento de Thiago Santos, que provocou a trapalhada da defesa adversária e o gol de Janderson, aos três minutos, foi primoroso e merecia mais destaque da crítica esportiva – e me refiro apenas aqueles que tive oportunidade de ouvir falando da partida do Grêmio, neste domingo à noite. Talvez haja os que souberam apreciar o passe de longa distância assim como eu, apenas não os ouvi. Temo que alguns torcedores que torcem o nariz para Thiago também não tenham percebido a qualidade da jogada. Foi o caminho para desconsertar o sistema defensivo que já se desenhava fechado e aguerrido. 

A velocidade de Janderson e o esforço para alcançar a bola até confirmar que ela estaria dentro do gol também foram importantes para facilitar os trabalhos e nos confirmar na liderança do Campeonato Gaúcho. O guri de 22 anos, emprestado do Corinthians e que estava no Atlético Goianense, aposta de Vagner Mancini, já havia se destacado na partida anterior, na estreia do time principal na temporada. Com físico e tatuagem que lembram Everton Cebolinha, Janderson, além do gol, aproveitou bem as bolas esticadas pela ponta direita. Havia pensando em dedicar a ele, os parcos parágrafos desta Avalanche. Mas aí apareceu Benitez.

Com a lesão de Campaz, ainda no primeiro tempo, o argentino de 27 anos que esteve no São Paulo, ano passado, entrou em campo e logo mostrou seu cartão de visita para a torcida, especialmente àqueles que desconfiavam de sua consistência física: dividiu uma bola na intermediária, sem dó nem perdão de quem colocasse o pé do outro lado. Era só o início de sua participação no Grêmio. O que veio na sequência foi um repertório de passes rápidos e precisos. Com o lado de fora do pé, de calcanhar, de cavadinha e de primeira, colocou seus companheiros em condições de dar sequência para a jogada e no caminho do gol.

Foi por ele que a bola passou, no segundo e decisivo gol. Após receber um chute rasteiro que veio da defesa, com apenas um toque deslocou o marcador e encontrou Fernando Henrique livre na intermediária. O guri de 20 anos, que recém-havia entrado,  ajeitou a bola e o corpo, e meteu no pé de Diego Souza quase na entrada da área. Bem, aí Diego fez o que lhe cabe fazer. Carregou a bola, deixou o zagueiro de lado e estufou a rede, mais uma vez. A segunda em dois jogos dele na temporada.

O jogo em si não foi grande coisa. Ao Grêmio ainda serão necessárias algumas partidas para se saber o que teremos neste  2022. De qualquer forma, é bom sentir o sabor da liderança isolada nesta competição que vencemos nos últimos três anos. 

Avalanche Tricolor: caras e carecas novas, e um goleador sobrevivente!

Grêmio 2×1 São José

Gaúcho – Arena Grêmio, Porto Alegre/RS

Diego comemora o primeiro da temporada. Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

É feriado em Porto Alegre, nesta quarta-feira. Dia de Nossa Senhora dos Navegantes, padroeira da cidade. Tradição que vem dos Açores, de onde partiram os casais portugueses que aportaram mais ao sul do Brasil. Vieram de terras distantes e paupérrimas, de solo infértil, atendendo a demanda da Coroa Portuguesa, que buscava povoar regiões consideradas estratégicas. Tiveram o desafio de atravessar os mares, enfrentar as tempestades e se protegerem das pestes que atacavam os passageiros que se atreviam em viagens longas de navio. Sobreviventes!

Por coincidência e apenas por isso, 2 de fevereiro foi a data escolhida pelo Grêmio para levar a campo, pela primeira vez, o grupo de jogadores que acredita ser o ideal, até o momento, para encarar a travessia tempestuosa que nos aguarda, nesta temporada de 2022.

Faltam nomes ainda; tem gente lesionada e sem fôlego; é preciso ajustar o pé, os passes e as peças em campo. A partida dessa tarde, foi apenas o início da longa viagem que jamais quisemos navegar, mas para a qual fomos levados devido a improdutividade nos gramados por onde passamos no último ano.

Havia caras novas: Bruno Alves, Janderson, Nicolas e Orejuela – esse último uma cara meio nova, pois já esteve entre nós. Havia carecas novos, também (todos vítimas de trotes dos veteranos): Rildo, destaque no time de transição, e Gabriel Silva, guri de 19 anos, no qual se aposta alto – pelos dribles e chute no travessão que deu logo após entrar no time, no segundo tempo, uma aposta que pode dar ótimo resultado. Aguardemos!

Os outros eram velhos conhecidos. Alguns nem tão velhos assim, como Gabriel Gandro, que até agora não se sabe se será titular. Campaz, que fez um golaço de falta, abrindo os trabalhos na temporada, além de ter dado boa dinâmica ao ataque.  E Ferreirinha, o camisa 10 que esbanja talento pelo lado esquerdo e inicia o ano mais maduro, após tantos percalços dentro e fora de campo. 

Geromel, um ponto de exclamação para 2022; Thiago Santos e Lucas Silva, que tendem ser a dupla para enfrentar a dureza dos gramados e adversários que encontraremos pelo caminho; e Diogo Barbosa.

Deixei por último nesta lista Diego Souza. Não por acaso. Merece um parágrafo à parte (ou dois). Esteve fora dos planos no fim do ano. E de tanto procurar e não achar, a diretoria entendeu que ele ainda era a melhor solução para o comando do ataque. Foi o goleador do Brasil, em 2020. Foi goleador do Grêmio nas duas últimas temporadas. Foi goleador do Campeonato Gaúcho, nos dois últimos anos. E começou com o pé direito 2022, literalmente. Com a precisão e o aproveitamento de sempre, fez o gol que deu a vitória na estreia do time principal na competição estadual. 

Mesmo que não pareça, Diego demonstra ter fôlego para mais essa travessia no nosso barco. Após o gol, a televisão flagrou Vagner Mancini perguntando se ele queria ser substituído, como se já tivesse cumprido o papel para o qual foi mantido no grupo: marcar os gols da vitória. O goleador pediu para ficar em campo. Diego Souza é um sobrevivente!

Avalanche Tricolor: a Elias o que é de Elias

Brasil 1×1 Grêmio

Gaúcho – Estádio Bento Freitas, Pelotas/RS

Elias cobrando pênalti. Foto de Victor Lanner | Grêmio FBPA

Coube a Elias mais uma vez marcar o gol do Grêmio na segunda rodada do Campeonato Gaúcho. Havia feito os dois, na estreia, um deles de pênalti. Da mesma forma que no primeiro jogo, sofreu o pênalti ao receber a bola em velocidade dentro da área e provocar a falta do adversário. Também cobrou com segurança e colocou a bola no fundo do poço. Fez mais: demonstrou ter repertório variado na cobrança. No meio da semana bateu forte, no alto e do lado direito do goleiro; desta vez usou a força, chutou rasteiro e do lado esquerdo. 

Elias é destaque da base há algumas temporadas. Chegou a Porto Alegre em 2018, depois de surgir no Guarani de Campinas, cidade em que nasceu. Começou jogando pela ponta, aproveitando-se da força e velocidade. Passou a ser usado no meio da área. Foi goleador e campeão brasileiro de aspirantes, em 2021. A fama chegou aos olhos do torcedor que passou a pedir a presença dele na equipe principal. Teve poucas chances. Jogou nove partidas no ano passado e marcou dois gols. 

Internamente, a avaliação era que o atacante oscilava na qualidade de suas apresentações. Nos dois jogos, em que marcou os três gols gremistas, demonstrou que ainda precisa aprimorar o passe. É melhor recebendo a bola do que devolvendo-a aos colegas. Revela boa visão dos companheiros mas tem de melhorar na execução. A despeito disso, tem o faro do gol, como se dizia em um tempo em que Elias sequer havia nascido. O guri acabou de fazer 20 anos. É de novembro de 2001.

Está pedindo passagem. E, certamente, será mais bem aproveitado por Vagner Mancini. Talvez não saia como titular, mas tem tudo para ser esta a temporada da consagração de seu futebol. 

Avalanche Tricolor: a alegria de volta

Grêmio 2×1 Caxias

Gaúcho – Arena Grêmio, Porto Alegre/RS

Elias comemora o gol, em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

O drible de Rildo com a bola migrando de um pé para o outro e deixando os marcadores para trás foi de uma felicidade que só vendo. Tanto quanto o passe que encontrou Elias na cara do gol para fazer aquilo para o qual nasceu. Foram eles os protagonistas do lance que ofereceu ao torcedor gremista nossa primeira alegria do ano. 

O mesmo Elias foi responsável por arrancar nosso segundo sorriso na noite de estreia do Campeonato Gaúcho. Com força e talento, cavou e converteu o pênalti que garantiu a primeira vitória na competição, conquistada com uma equipe totalmente formada de guris bons de bola. 

Na comemoração de cada um dos gols, o entusiasmo da garotada foi contagiante. 

Começo por uma cena que me marcou ainda no primeiro gol. Guilherme Guedes – o lateral esquerdo para o qual se tem depositado confiança há algum tempo, mesmo que ainda jovem, com apenas 22 anos – foi flagrado pela câmera, de joelhos, com os olhos fechados, punhos cerrados, socando o gramado, em uma explosão de alegria; revelando a satisfação de ver seu time mais uma vez no caminho da vitória.

No segundo, Elias, após estufar a rede, correu em direção a linha de fundo, socou o ar e foi encoberto por todos os jogadores do elenco. A turma do banco não se conteve. Correu serelepe em direção ao atacante expressando o contentamento que o futebol é capaz de nos oferecer. Um amontoado de guris se divertindo com o ‘trabalho’ que se propuseram fazer: dar alegria ao torcedor. 

Será uma temporada difícil essa que se inicia. O desafio é conhecido por todos nós. Os riscos são enormes. A cobrança maior ainda. Sabe-se lá o que vai acontecer na próxima rodada, ao fim dessa competição ou nos demais campeonatos que farão parte desta jornada. Seja o que for, serão coisas do futebol, este esporte que escolhi para sofrer e sorrir. 

Nesta quarta-feira, quando o futebol voltou, a mim foi reservado o direito de sorrir. 

Avalanche Tricolor: de crenças e maldições

Grêmio 4×3 Atlético MG

Brasileiro – Arena Grêmio, Porto Alegre/RS

foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Chamei o pai que está no céu. Pelo santo do pai que não é santo também clamei. A imagem do Padre Reus que o acompanhou em vida esteve na minha mão durante toda a partida. E a vela na mesa permaneceu acesa até o fim. Ao lado dela esteve a imagem encardida de São Judas Tadeu, o das causas impossíveis – generosidade da esposa que se gremista não o é, torce pelo marido ou para que este não sofra como sofreu. Ao lado direito esteve o filho mais velho que nunca me abandonou. Que aprendeu o que é ser gremista quando ressuscitamos na Batalha dos Aflitos. Que soube o que é ser feliz quanto assistiu ao seu time campeão.

Nem o pai redivivo nem o santo aclamado nem a vela acendida nem o filho solidário são capazes de se sobrepor aos fatos. Por mais crenças que tenhamos e depositemos nesta ou naquela figura consagrada, a realidade se impõe aos nossos desejos e se sobrepõem às nossas crenças. Assim como nossa mística é insuficiente para nos fazer vencedores, nossas convicções se revelam incapazes de substituir a inanição e a prepotência que nos contaminaram ao longo da temporada.

O Grêmio está na condição que se encontra por sua conta e risco. 

De nada adianta maldizer os que pouco fizeram por nós. Terceirizar a responsabilidade da desgraça alcançada é trilhar pelo caminho que nos levou a esta condição. 

Se aqui chegamos é porque nos atrevemos a desafiar maldições – e estas não perdoam. Das maiores que acreditamos que venceríamos, está a do terceiro mandato. Fomos mordidos pela mosca azul, aquela de asas de ouro e granada, que se deslumbra e passa a  sonhar com poder e riqueza – assim descrita em poema de Machado de Assis. Que picou nosso presidente, Romildo Bolzan, e todos que acreditamos que mantê-lo no comando  seria o melhor que tínhamos a fazer naquele momento. 

Assim como a maldição da mosca azul definhou a fama e o poder de presidentes que se atreveram a se reeleger na República do Brasil, consumiu a capacidade de o Grêmio consagrar-se no sobrenatural, porque comprometeu nossa sanidade e senso de realidade. Pagamos. E pagamos muito mais caro do que merecíamos por acreditarmos sermos superiores à maldição do terceiro mandato. Não merecíamos todo este mal, a despeito de sermos os únicos responsáveis por irmos em busca dele.

Se chegamos onde chegamos por nossa culpa, nossa tão grande culpa, que sejamos capazes de respeitar o poder da imortalidade que nos notabilizou. E entender que só o alcançamos porque jamais desistimos de lutar. Uma luta que se inicia no amanhã e terá de ser brava ao longo de todo o ano de 2022. Afinal, como aprendemos no poema anônimo; 

“se um dia o mundo acabasse numa tragédia bravia

o mar, e os homens, e as feras, 

tudo, tudo terminasse, 

depois de ter passado um dia 

na fenda de alguma rocha 

onde uma flor desabrocha 

o Grêmio renasceria’

Renasceremos!

Avalanche Tricolor: se é para morrer, que seja de aflição

Corinthians 1×1 Grêmio

Brasileiro – Arena de Itaquera, SP/SP

Geromel, Gigante, em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

O locutor da TV falou em rebaixamento virtual. Confesso que não sei bem o que isso significa. Fosse no esporte eletrônico, faria algum sentido. No futebol de verdade – este disputado no gramado, com suor e inspiração; no qual vencer as bolas divididas é preciso; em que lutar é essencial e driblar é fazer a diferença – os fatos só se concretizam no apito final. 

No dicionário, virtual é o que existe apenas em potência. É o que poderá vir a ser, existir, acontecer ou praticar-se. Virtual era a derrocada gremista, em 2005. E o que assistimos foi a maior de todas as conquistas, porque foi a superação do inacreditável, do inimaginável. 

Quem imaginaria um time com essa campanha jogar o fino da bola como temos feito em muitos desses últimos jogos que disputamos. Jogos como o de hoje, em que uma torcida inteira se armou para nos vencer e teve de sair de seu estádio comemorando um pífio e insuficiente empate conquistado com um gol mágico, na bacia das almas. 

Confesso: sempre que vejo reações como essas no adversário – e estou aqui lembrando dos encardidos que nos venceram uma vez e festejaram como se fosse o título que não ganharam em toda uma temporada -, só me sinto ainda maior, a despeito da pequenez de nosso desempenho na maior parte da temporada. E se me sinto assim é porque acredito na ideia que um clube não é grande pelo resultado de uma partida ou temporada. O é por sua história. E a nossa é enorme. Isso ninguém é capaz de negar. 

O capítulo final do Campeonato Brasileiro de 2021 ainda não foi escrito. Disseram-me que para reverter a tragédia, precisaremos vencer o último jogo e esperar que dois times que estão na parte baixa da tabela não marquem um só ponto nos dois jogos – a começar pelos que disputarão nessa segunda-feira. Enquanto não o fizerem, estamos na disputa. Aflitos, mas na batalha. E se é para morrer, que seja de aflição, como em 2005.

Avalanche Tricolor: Imortalidade posta à prova

Grêmio 3×0 São Paulo

Brasileiro – Arena Grêmio/Porto Alegre-RS

Thiago marca seu gol, em foto de Lucas UebelGrêmio FBPA

O gol desperdiçado por Thiago Santos, com a goleira escancarada, no momento em que o Grêmio dominava o adversário, oferecia aos descrentes a prova provada de que nosso destino já estava traçado, neste 2021. Apenas mais um dos muitos indícios de uma jornada fadada à desgraça. Antes disso, bem antes disso, a performance no campeonato e os jogos perdidos, mesmo quando o time dava alguns sinais de reação, somavam-se a pênaltis não sinalizados, ao VAR enviesado, às derrotas improváveis e aos jogadores desorientados. A mensagem era clara: entregue os pontos, beije a lona e aceite a derrota. 

Thiago não aceitou. Lamentou, esbravejou e voltou à luta. Resignou-se a marcar pressão, forçar a roubada de bola e reiniciar a retomada para o ataque. Com ele, havia ao menos mais dez em campo e um tanto mais no banco. Uma gente disposta a mostrar para si mesmo que se havia uma só chance por esta chance batalhariam em cada pedaço do gramado. Independentemente do que viesse acontecer, desistir não era verbo a ser conjugado.

Coube ao próprio Thiago provar de sua força. Apareceu mais uma vez na cara do gol, onde se reencontrou com a bola, lançada por Diogo Barbosa, e de cabeça começou a reescrever a história. Colocou o Grêmio à frente no placar e conduziu o time à vitória necessária, diante de sua torcida. Verdade que a bola seguiu tentando nos pregar surpresas. Nos levar à descrença. Desviou em um poste. Chocou-se com o outro. Foi para fora, mesmo após ter sido tratada com o talento e a generosidade de Ferreira.

Foi, então, que o improvável voltou a se impor. Diogo, criticado pela torcida, escanteado do time, que deu assistência para Thiago no primeiro gol, assistiu a si mesmo, no segundo. Driblou com o pé esquerdo e serviu ao direito, que fez a bola tomar uma trajetória circular e se aconchegar no ângulo. Nem mesmo a dupla vantagem parecia tranquilizar os incrédulos que tinham na memória os empates cedidos e as derrotas entregues, em resultados que nos levaram a atual condição. Foi, então, que a perspicácia e precisão de Jonathan Robert enterrou a desesperança em um golaço marcado do meio de campo e por cobertura. 

O que assistimos na noite desta quinta-feira, que se desenhava trágica, pode não ser suficiente para nos manter vivos na primeira divisão. Temos de vencer as duas últimas partidas e esperar que a combinação dos resultados nos tire deste martírio. Uma tarefa mais complicada do que a outra, considerado a condição de nossos próximos adversários e a inconstância de nossa sorte (e futebo. Mas, com certeza, mostramos a incrédulos e crentes de que estamos dispostos, mais uma vez, a colocar a Imortalidade à prova.

Avalanche Tricolor: carta ao Geromel

Bahia 3×1 Grêmio

Brasileiro – Arena Fonte Nova, Salvador BA

Geromel em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Amigo Geromel:

Acordei há pouco, depois de uma noite mal dormida. Preferi o conselho do travesseiro – um erro que não recomendo a ninguém – a começar esta carta ainda sob a emoção provocada pelo resultado da sexta-feira. Precisava escrevê-la com um mínimo de razão, se é que tenho capacidade de acioná-la quando escrevo sobre coisas pelas quais sou apaixonado. 

Os torcedores somos passionais. Você sabe disso. O que certamente não sabe, porque não haveria motivos para saber, é que cultivei um tal relacionamento com o Grêmio que, ao contrário de muitos dos nossos, sou incapaz de maldizer meu time, meus ídolos e todos aqueles que vestem a camisa do Imortal. Talvez alguma ironia, uma palavra de lamento, quem sabe um pouco de sarcasmo para salgar a carne. Jamais apontar o dedo, julgar e – Deus me livre – ofender. Se vestiu esta camisa tricolor, tem meu respeito. Aliás, essa costuma ser minha conduta com todo e qualquer ser humano. São valores que precisamos preservar.

Na noite de ontem, a imagem de seu corpo estendido dentro da área pequena e seu rosto escondido na grama da Fonte Nova, logo depois de uma tentativa desesperada e frustrada de impedir o terceiro gol, representava a nossa entrega tanto quanto a nossa dor. Você permaneceu ali por alguns segundos, que me pareciam a eternidade. Porque me remeteram ao passado que vivenciei dentro do estádio Olímpico, onde tive minha personalidade forjada em meio a amigos, ídolos e mentores. Seu Ênio – Ênio Andrade – que o diga. Que mestre me foi. Como me ensinou para a vida. Ajudou-me até a entender melhor o meu pai. Acredite!

Em uma situação parecida com a de ontem – que ainda não é definitiva porque não está morto quem peleia -, atuava como gandula, ao lado do gramado, função que acumulava a de ‘pombo-correio’, uma espécie de garoto de recado do técnico, o seu Ênio. Naqueles tempos, o treinador não saía de dentro da casamata. Ao fim da partida, houve protesto da torcida, rojões explodiram na pista olímpica e as ofensas dirigidas ao time espocavam no meu peito. Corri para o vestiário junto com os jogadores e lá dentro recebi o abraço de um dos meus ídolos: Iura – você já ouviu falar dele, né? Os dois choramos copiosamente. Éramos dois guris gremistas sofrendo com o que havíamos assistido dentro e fora de campo e com o destino que nos era oferecido naquele instante.

Foi essa mesma sensação que tive ontem – só não fui explícito porque meu filho estava ao meu lado observando em silêncio o desespero do pai. E a maturidade, infelizmente, me trouxe a vergonha de chorar por um time de futebol (ah, este Milton mais velho não tem ideia de como era genuíno e muito mais aprazível ser aquele guri do Olímpico). Queria ter corrido para dentro do gramado, e compartilhado com você aquele instante pelo qual, suponho, tenha vindo à mente a sensação de impotência. De que nada mais poderá dar certo na nossa vida. De que uma história se encerrava.

Sabemos que aquele não é o ponto final muito menos aquela é a imagem de uma história que você construiu no Grêmio. Para nós, a maneira como você defende essa camisa, o futebol qualificado que você pratica, a maneira sóbria com que encara todas as dificuldades e os atacantes que se atrevem a entrar em nossa área, se sobrepõem a qualquer revés que possamos sofrer neste e em outros tempos.  O sorriso na vitória, a alegria do troféu erguido e a honestidade com que você atua em campo são muito maiores e mais marcantes do que a dor que você sentiu naquele instante no gramado. 

Queria ter estado lá, ao seu lado, abraçado e solidário, porque –  independentemente da importância que cada um dos que estiveram no nosso time nos recentes tempos de glória –  você, mais do que ninguém, mereceria uma roteiro diferente do que este que estamos protagonizando. 

Na impossibilidade de consolá-lo em campo, arrisco essa carta que, espero, chegue até suas mãos um dia. Uma carta que aqui está escrita talvez muito mais para apaziguar o meu coração entristecido. Afinal, você, por tudo que aprendemos assistindo à sua conduta, conhecendo sua família, comemorando com seus pais a classificação à final do Mundial, e compartilhando conhecimento com seu irmão, Ricardo, é uma fortaleza. Da qual não podemos prescindir. 

Força! E avante!

Do seu fã e amigo à distância, Mílton

Em tempo: Geromel, meu gato, está mandando aquele abraço pra você.

Avalanche Tricolor: forjados pelas batalhas e aflições, não desistiremos jamais

Grêmio 2×2 Flamengo

Brasileiro – Arena Grêmio, Porto Alegre/RS

Ferreirinha em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Se é de batalhas e aflições que queremos escrever essa jornada de 2021, o capítulo desta noite foi escrito a contento. Diante do mais caro time do futebol brasileiro, de uma crise técnica poucas vezes vista e de um silêncio retumbante na nossa Arena – pela punição imposta à torcida que assistiu a alguns alucinados invadirem o campo rodadas atrás -, sofremos dois gols já no segundo tempo e vimos o rigor do árbitro punir com expulsão um dos nossos atacantes. A derrota seria inevitável e desistir de lutar a única opção, não estivéssemos falando de um clube que já nos propiciou alguns dos mais impossíveis resultados da história do futebol.

Como se algo estranho ao campo da bola transcendesse a razão, o passe que foi inseguro durante quase todo jogo chegou preciso ao pé de Ferreirinha – que já havia recebido todo tipo de bola, mas sem conseguir finalizar de forma correta. Nosso ponteiro esquerdo, que em toda a partida arriscava dribles sem sucesso, livrou-se de três marcadores e deu o presente que Borja, recém-entrado no time, mais esperava. Nosso centroavante com um carrinho empurrou a linha do VAR para longe e a bola para as redes. 

As possibilidades de levar ao menos um ponto deste jogo ainda eram pouco consideradas pelos críticos quando mais uma vez o sobrenatural protagonizou. Ferreirinha, incansável. Ferreirinha, insistente. Ferreirinha, que há algumas partidas vem tentando sem sucesso marcar gols após desconsertar seus adversários, desta vez cortou uma, duas vezes e colocou a bola fora do alcance do goleiro, estufando as redes e empatando a partida.

Os matemáticos e pragmáticos seguem céticos às nossas chances de escaparmos da Inominável a quatro rodadas do fim do campeonato. Passarão os dias falando de percentuais, projeções e possibilidade de queda. Da impossível tarefa de construir no fechamento da temporada o que não fomos competentes de fazer ao longo de todo ano. Tomados pela lógica, se esquecerão que fomos forjados nas batalhas e nas aflições. E delas nos alimentaremos para persistirmos até o fim lutando pela presença na elite do futebol brasileiro.