Avalanche Tricolor: carta ao Geromel

Bahia 3×1 Grêmio

Brasileiro – Arena Fonte Nova, Salvador BA

Geromel em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Amigo Geromel:

Acordei há pouco, depois de uma noite mal dormida. Preferi o conselho do travesseiro – um erro que não recomendo a ninguém – a começar esta carta ainda sob a emoção provocada pelo resultado da sexta-feira. Precisava escrevê-la com um mínimo de razão, se é que tenho capacidade de acioná-la quando escrevo sobre coisas pelas quais sou apaixonado. 

Os torcedores somos passionais. Você sabe disso. O que certamente não sabe, porque não haveria motivos para saber, é que cultivei um tal relacionamento com o Grêmio que, ao contrário de muitos dos nossos, sou incapaz de maldizer meu time, meus ídolos e todos aqueles que vestem a camisa do Imortal. Talvez alguma ironia, uma palavra de lamento, quem sabe um pouco de sarcasmo para salgar a carne. Jamais apontar o dedo, julgar e – Deus me livre – ofender. Se vestiu esta camisa tricolor, tem meu respeito. Aliás, essa costuma ser minha conduta com todo e qualquer ser humano. São valores que precisamos preservar.

Na noite de ontem, a imagem de seu corpo estendido dentro da área pequena e seu rosto escondido na grama da Fonte Nova, logo depois de uma tentativa desesperada e frustrada de impedir o terceiro gol, representava a nossa entrega tanto quanto a nossa dor. Você permaneceu ali por alguns segundos, que me pareciam a eternidade. Porque me remeteram ao passado que vivenciei dentro do estádio Olímpico, onde tive minha personalidade forjada em meio a amigos, ídolos e mentores. Seu Ênio – Ênio Andrade – que o diga. Que mestre me foi. Como me ensinou para a vida. Ajudou-me até a entender melhor o meu pai. Acredite!

Em uma situação parecida com a de ontem – que ainda não é definitiva porque não está morto quem peleia -, atuava como gandula, ao lado do gramado, função que acumulava a de ‘pombo-correio’, uma espécie de garoto de recado do técnico, o seu Ênio. Naqueles tempos, o treinador não saía de dentro da casamata. Ao fim da partida, houve protesto da torcida, rojões explodiram na pista olímpica e as ofensas dirigidas ao time espocavam no meu peito. Corri para o vestiário junto com os jogadores e lá dentro recebi o abraço de um dos meus ídolos: Iura – você já ouviu falar dele, né? Os dois choramos copiosamente. Éramos dois guris gremistas sofrendo com o que havíamos assistido dentro e fora de campo e com o destino que nos era oferecido naquele instante.

Foi essa mesma sensação que tive ontem – só não fui explícito porque meu filho estava ao meu lado observando em silêncio o desespero do pai. E a maturidade, infelizmente, me trouxe a vergonha de chorar por um time de futebol (ah, este Milton mais velho não tem ideia de como era genuíno e muito mais aprazível ser aquele guri do Olímpico). Queria ter corrido para dentro do gramado, e compartilhado com você aquele instante pelo qual, suponho, tenha vindo à mente a sensação de impotência. De que nada mais poderá dar certo na nossa vida. De que uma história se encerrava.

Sabemos que aquele não é o ponto final muito menos aquela é a imagem de uma história que você construiu no Grêmio. Para nós, a maneira como você defende essa camisa, o futebol qualificado que você pratica, a maneira sóbria com que encara todas as dificuldades e os atacantes que se atrevem a entrar em nossa área, se sobrepõem a qualquer revés que possamos sofrer neste e em outros tempos.  O sorriso na vitória, a alegria do troféu erguido e a honestidade com que você atua em campo são muito maiores e mais marcantes do que a dor que você sentiu naquele instante no gramado. 

Queria ter estado lá, ao seu lado, abraçado e solidário, porque –  independentemente da importância que cada um dos que estiveram no nosso time nos recentes tempos de glória –  você, mais do que ninguém, mereceria uma roteiro diferente do que este que estamos protagonizando. 

Na impossibilidade de consolá-lo em campo, arrisco essa carta que, espero, chegue até suas mãos um dia. Uma carta que aqui está escrita talvez muito mais para apaziguar o meu coração entristecido. Afinal, você, por tudo que aprendemos assistindo à sua conduta, conhecendo sua família, comemorando com seus pais a classificação à final do Mundial, e compartilhando conhecimento com seu irmão, Ricardo, é uma fortaleza. Da qual não podemos prescindir. 

Força! E avante!

Do seu fã e amigo à distância, Mílton

Em tempo: Geromel, meu gato, está mandando aquele abraço pra você.

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