Avalanche Tricolor: um passinho de cada vez!

Chapecoense 1×3 Grêmio

Brasileiro – Arena Condá, Chapecó/SC

Lucas Silva e Thiago Santos em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Tinha no teatro compromisso inadiável e um espetáculo imperdível e emocionante, nesse sábado à noite. No palco do Sérgio Cardoso, aqui em São Paulo, dois casais de bailarinos propiciavam o encontro do passinho e da surdez; e não queria que nada me tirasse atenção daquele momento mágico em que um casal de bailarinos que ouve se unia a um que não ouve, em uma comunicação ritmada pela música — que pela genialidade dos seus criadores era transmitida a todos nós que estávamos na plateia. Eles conseguiram fazer o público ter a sensação do som da surdez em uma apresentação musical. Para nós que ouvimos, o silêncio é um luxo; aos que não ouvem, é o desafio do cotidiano. 

O passinho é dança nascida nas favelas cariocas que mistura breaking, frevo, samba e capoeira. Um desafio corporal que deixa a gente, os leigos, embasbacados: como alguém consegue movimentar os pés e o corpo com tanta agilidade e de forma sincronizada com a música? Imagine, então, fazê-lo sem ouvir, apenas sentindo a vibração do palco e o toque no corpo. Incrível!

Para os desentendidos, o passinho é aquela dança que jogadores de futebol desajeitados esboçam no anúncio do Campeonato Brasileiro, na tela do SporTV. Todos, mesmo os que ensaiam algum gingado, estão muito aquém da arte dos dançarinos. Convenhamos, o negócio deles não é dançar, é nos fazer feliz com outra arte proporcionada pelos pés: o futebol.

Abri mão de assistir ao jogo do Grêmio em troca do prazer único que o teatro, o primeiro desde o início da pandemia, me proporcionaria. Não pense que era desdém ou desconfiança com o nosso desempenho. O caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche sabe que minha crença é ilimitada. Foi uma escolha apenas. Mesmo porque, pelo Grêmio nada mais eu poderia fazer. Em campo, cabe apenas aos nossos jogadores dar solução para os problemas que criaram ao longo da temporada. É o que têm tentado nesses últimos jogos, mesmo aqueles em que não conseguiram vencer (exceção ao contra o América de Minas). Ontem engatamos duas vitórias seguidas, algo inédito nas nossas bandas, em 2021, e com destaque para nossos volantes que abriram o caminho para a vitória: Lucas Silva com chutes que começam a encontrar as redes; e Thiago Santos em uma sequência inesperada de dribles dentro da área e em direção ao gol.

A situação que nos encontramos não dá tempo de comemoração, e o próximo desafio se torna ainda mais difícil porque é contra um dos líderes do campeonato. Depois ainda teremos confronto direto com times que tentam escapar desesperadamente do risco do rebaixamento, e o virtual campeão do Brasileiro. São cinco jogos para fazer o que não realizamos em 33 rodadas. Temos condições de fazer; estamos demonstrando capacidade de reação; e alguns dos nossos jogadores se redescobrindo em campo. Seguimos acreditando. Seguimos em frente. Um passinho de cada vez!

Avalanche Tricolor: pelo direito à ilusão

Grêmio 3×0 Bragantino

Brasileiro – Arena Grêmio, Porto Alegre/RS

Kannemann em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Comentaristas de futebol são craques (ou deveriam ser) em enxergar aquilo que poucos de nós conseguimos ver em campo – a movimentação estratégica, o ocupar de espaços, a aproximação por bloco, a marcação alta, e todo esse cabedal de conceitos que os técnicos tentam levar dos treinos para o vestiário e do vestiário para o campo de bola. Os torcedores, por sua vez, veem coisas que a razão não explica, que só enxergamos porque assistimos ao jogo através dos olhos do coração

Hoje, alguns minutos de partida foram suficientes para a turma da análise técnica entender que o Grêmio jogava diferente, com velocidade, agilidade e troca de passe; jogava de forma incisiva, pra frente, pressionando e chutando a gol. O quarteto Campaz, Jonatha Robert, Diego Souza e Ferreirinha encantava os críticos pela movimentação, pelos dribles, por um futebol alegre que contrastava com a pressão psicológica e a tensão que cada um dos nossos jogadores tem carregado desde que nos metemos nesse atoleiro da tabela de classificação.

Diego parecia ter reencontrado companheiros que andavam afastados da área. Coube a ele marcar o primeiro gol de pênalti. De rebote do pênalti. Porque na cobrança, preferiu o centro do gol e viu o goleiro adversário defender a bola parcialmente. Completou, então, de cabeça para as redes. O que, convenhamos, já sinalizava uma mudança de astral. Nesses tempos difíceis que vivenciamos, a possibilidade de a bola ir para outro destino, era gigantesca.

Tivemos, também, Lucas Silva que marcou o seu gol, ao chegar forte na área e receber livre a bola que havia sido traçada entre os marcadores por Campaz e passada com precisão por Ferreirinha. E fechamos a goleada com um chute impressionante de Jonatha Robert, lá de fora da área, em uma bola que, cheia de remelexo, encontrou as redes.

Como disse, se aos comentaristas cabe a análise fria e lógica, a nós torcedores é reservado o direito à paixão. Com ela aflorando no peito, trago aqui aquele que considero o personagem do jogo, o craque da bola, o merecedor do Motoradio – que deveria ser revivido apenas para premiá-lo uma vez na vida. Falo de Walter Kannemann, um monstro, que personifica a alma de nossa imortalidade a cada bola que disputa, a despeito das dores no quadril que o perseguem há algumas temporadas. Foi ele o autor dos dois lances que selaram a nossa sorte na partida desta noite e – por que não sonhar – podem escrever um novo fim para nossa história.

No primeiro lance, Kannemann impediu a investida adversária jogando-se de cabeça quase aos pés do atacante, sem temer pela vida. Caiu ao chão com a mão no rosto. E foi retribuído pela ousadia. A bola que tirou de peixinho chegou ao nosso ataque que só foi parado dentro da área com a sinalização do pênalti que abriu o placar. Da cobrança e do gol todos se lembrarão. Da festa dos nossos jogadores, também. A cena se repetirá nos programas de esporte, hoje e amanhã. Kannemann talvez sequer apareça nas imagens, mas o torcedor se viu representando mesmo foi na valentia de seu zagueiro. 

O segundo lance veio quase ao fim da partida, em uma escapadela do time adversário que encontrou nossa defesa desguarnecida – supostamente desguarnecida. Porque havia Kannemann para nos proteger. No momento em o atacante já havia encoberto Brenno e a bola parecia ter encontrado seu caminho em direção ao gol, Kannemann em um esforço descomunal esticou-se como pode, alcançou a bola com a canela e a despachou para longe, fazendo-a se chocar no travessão. 

Um desavisado nos dirá que foi um esforço desnecessário, pois o placar já estava resolvido. Ledo engano. Kannemann saltou naquela bola porque jamais se aceitou derrotado – e isso será essencial para nós que ainda sonhamos com a salvação. Em seu lance, acompanhando a raça e a determinação, havia a sorte, que fez a bola bater no travessão em vez de seguir o caminho do gol. Vítimas que temos sido do Inevitável da Silva – tema da Avalanche anterior -, isso não é pouca coisa, não. Kannemann foi gigante em um jogo em que nosso ataque brilhou. E nos deu o direito à ilusão.

Avalanche Tricolor: o Inevitável da Silva

América MG 3×1 Grêmio

Brasileiro – Estádio Independência, BH/MG

Lucas Silva em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

A cena que abre o documentário Batalha dos Aflitos tem o diálogo de dois jogadores gremistas no vestiário. Um deles havia sido personagem de um gol irregular contra o Grêmio, que sacramentou o rebaixamento do tricolor, em 2004. Um gol de mão que – sem VAR nem vergonha – foi validado pelo árbitro da partida e causou revolta, que pouco serviu para mudar o nosso destino. Há coisas na vida inevitáveis. Por mais que nos esforcemos, astros, búzios, deuses, seja lá qual for a força extraordinária que nos cerca, agem para que o destino traçado se realize. 

Poderia ser o Sobrenatural de Almeida, que  Nelson Rodrigues criou para explicar os casos inexplicáveis que ocorriam contra o seu tricolor – o Fluminense. Seria criativo demais para um crônica de minha autoria e para o futebol do meu tricolor. Vejo em campo a atuação eficiente do Inevitável da Silva que grita alto e grita forte – usurpando o lugar-comum dos locutores de TV – nestes momentos de sofrência.

O craque mata a bola na canela. O meia-boca é protagonista de si mesmo. O jovem revelação surge mas o lance é fugaz. O goleiro com pinta de gigante, é pequeno diante da avalanche de chutes a gol. O músculo se esfacela, e o fôlego se extingue em uma frequência que impede recuperação e tira do embate todo e qualquer reforço. O técnico escala sem convicção e usa da mesma coerência na substituição. É inevitável.

Se dos seus não se pode esperar nada, imagine dos outros. O adversário acerta o passe com uma precisão que sequer ele acredita. O impedimento não se realiza por milímetros. O goleiro fecha o gol, mesmo que precise derrubar o atacante na área, porque sabe que o destino está a seu favor – ao menos, é inimigo do seu inimigo. É inevitável.

Como esperar que o árbitro identifique alguma infração contra você se o próprio é incapaz de sinalizar irregularidades que fazem parte do be-a-bá do futebol – como o lance desta noite em que o goleiro adversário dá dois toques na bola em cobrança de tiro de meta, de forma escandalosa, e sequer o auxiliar auxilia. Esperar que sinalize pênalti a favor – mesmo que o lance seja visto e revisto por todos os ângulos possíveis – é de uma ingenuidade atroz. Ah, o árbitro .. o juiz, o crucificado vitalício, nas palavras benditas de Nelson Rodrigues.

As reações em campo são as mesmas de sempre. As mãos vão para a cabeça em gestual que simboliza o inacreditável. Os palavrões surgem em gritos ensurdecedores. O tipão com jeito de vingador, parte para a violência. Chuta, peita, faz pose de herói. Leva amarelo, vermelho ou é flagrantemente ignorado. Nada do que faz muda a história. Só faz o nada. Um olha para o outro com indignação, com a certeza de que toda aquela encenação nos levará ao mesmo lugar que o futebol que jogamos: ao nada. É inevitável.

Ao Grêmio restam sete jogos. Hoje, ao fim da partida, ouvi alguém dizer na televisão que seriam necessários cinco vitórias para reescrever o nosso destino. Era isso ou o inevitável.

A mim, resta torcer! É inevitável!

Avalanche Tricolor: eu só quero é ser feliz

Grêmio 1×0 Fluminense

Brasileiro – Arena Grêmio, Porto Alegre/RS

Diego Souza comemora em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

O árbitro havia apitado o fim do jogo mas antes de comemorar qualquer coisa ainda procurei para ver onde a bola estava. Precisava me certificar de que nada de errado ainda poderia acontecer. No gol que marcamos, aos 28 do segundo tempo, não foi diferente: apesar da explosão repentina de quem vê a bola na rede, segurei a alegria até a certeza de que não teria o que revisar. 

Torcer para o Grêmio nesta temporada tem sido um sofrimento atrás do outro. Mesmo nos momentos em que o futebol pode nos proporcionar alguma satisfação, surge algo para nos frustrar. 

A bola é lançada na área, seu zagueiro a despacha para longe, mas de alguma maneira ela desvia no braço de um companheiro, e o pênalti é descoberto. Seu atacante é derrubado antes de finalizar em gol: pênalti a seu favor — pode contar com o erro na marca fatal. Seu time sai na frente, faz um gol impossível, e em seguida sofre a virada para provar que a felicidade é um sentimento fugaz, nesses tempos de carência.

Por isso, nesta noite, foi surpreende ver que o técnico decidiu lançar o time para frente, apostar em gente com energia e disposição. Que o lance que deu origem ao gol adversário foi em “flagrante” impedimento — só identificado pela linha virtual do VAR — e, portanto, foi anulado. Que quando Mateus Sarará recebeu a bola próximo da área adversária, ninguém se aproximou para impedir o cruzamento. Que o zagueiro foi incapaz de segurar Diego Souza no chão. Que nosso goleador foi capaz de saltar mais alto do que todos, manusear a cabeça e desviar a bola para dentro do gol — sem nenhuma suspeita de irregularidade.

Se o Grêmio jogou bem ou não, deixo para o analista analisar.

Se o resultado muda nosso rumo no campeonato, deixo para o destino nos destinar. 

Hoje, como se canta na canção:

“eu só quero é ser feliz, feliz, feliz, feliz, feliz

Onde eu nasci, é

E poder me orgulhar …”

Avalanche Tricolor: de experiência, esperanças e fracassos

Inter 1×0 Grêmio

Brasileiro – Beira Rio, Porto Alegre/RS

Kannemann em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Das boas coisas que o tempo nos oferece, a experiência é uma delas, a despeito de saber que essa também é feita da intensidade com que se vive as coisas — senão, como explicar jovens capazes de transformar o mundo como temos vistos recentemente.  No que se refere ao tema de sempre desta coluna,  sou muito experiente — e não escrevo isso para me gabar, apenas para constatar que de Grêmio já vivi muito e intensamente. Sofri como a maioria de vocês, nascidos nestes anos de 2000, nunca sofreram. Chorei na arquibancada, ao lado do gramado e dentro do vestiário, abraçado a meus ídolos. Chorei de dor e de amor. Vivenciei a escassez e a abundância de títulos — sequências que nos ensinam que nada daquilo que experimentamos no momento será eterno (vai passar!). 

Derrotas em clássicos sempre ocorreram. E em uma quantidade inimaginável para os tempos atuais. O que assistíamos até recentemente beirava o ineditismo, chegava ao limiar do impossível, a medida que falamos de uma das maiores rivalidades do futebol brasileiro. Há quem diga que é a maior. Humilde, como os gaúchos devem ser, a coloco entre as maiores do futebol mundial. Portanto, não surpreende a turma do lado de lá ter dado volta olímpica, desfraldado bandeira, tocado tambor e até feito pose de foto do título(?). Das galhofas com símbolo adversário, prefiro não comentar. Me falta isenção. 

E por isento que não sou, uso a experiência em situações como essa. Em lugar de iniciar meu texto assim que o árbitro encerrou a partida e os jogadores ainda se engalfinhavam no gramado, preferi contemplar o cenário com um copo de vinho em mãos. Ao mesmo tempo que o álcool percorria meu corpo e ascendia ao sistema límbico, atingindo meu senso crítico, meu sangue corria menos quente entre as veias e esfriava meu ânimo. Nesse jogo de compensações que a biologia humana disputa em situações como essa, meu desejo de dizer algumas “verdades” arrefeceu – sim, entre aspas, porque a verdade a que me refiro tem a ver com a reação que costumamos expressar quando a razão se cala e a emoção exacerba, geralmente traduzida em ataques desnecessários, palavras deseducadas, e injustiças. Embevecido – ou seria embebido – preferi a cama às palavras. Deixei para escrever essa Avalanche em momento mais oportuno.

Que bela decisão tomei – pensa o humilde escrevinhador cá com as listras tricolores da sua camisa.

Hoje cedo, quando ninguém ainda estava acordado em casa, deparei com a crônica do colunista de esporte dominical de O Globo, Marcelo Barreto, que tinha como cena de fundo o clássico carioca Botafogo e Vasco, e protagonista, um torcedor vascaíno, desses que se apresentam como “doentes”, apesar de já dar sinais de consciência. O time carioca caiu quatro vezes para a Série B e a possibilidade de permanecer por lá ano que vem chega a ser maior do que a nossa de cair, nesta altura da competição. Ou seja, o clássico de hoje deve ser determinante em diversos aspectos.

Marcelo descreve as reações do amigo vascaíno que fez de sua paixão, resignação — a medida que a idade avançava. Hoje, com o coração endurecido no tempo e na intensidade, não impõe mais medo nos amigos, que temiam atos extremos e vida colocada em risco como resposta às frustrações em campo. O cronista diz que “meu amigo aprendeu a esperar. E ainda não perdeu a esperança. Mas está a um passo de normalizar o fracasso.” As duas primeiras frases guardarei como lição nesta tristeza que me abate; a última, lutarei até o fim para não me dominar. Porque se tem algo com que não devemos jamais nos contentar é com o fracasso, sob o risco de perdemos o título que realmente conta na nossa história: o da imortalidade.

Avalanche Tricolor: um pecado

Atlético MG 2×1 Grêmio

Brasileiro – Mineirão, Belo Horizonte/MG

Campaz comemora gol em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

“Um pecado” falou Rafinha em entrevista ainda ao lado do gramado em que o Grêmio acabara de fazer uma de suas melhores partidas neste campeonato. Foi como o lateral gremista definiu o que aconteceu nesta noite em que enfrentamos o líder e virtual campeão do Brasileiro, um estádio estupidamente (no pior sentido da palavra) lotado — a despeito da pandemia que ainda vivenciamos — e a saga de azar que a temporada 2021 nos reserva.

Um pecado Borja perder o gol ainda no início do jogo em contra-ataque que parou no poste adversário. Um pecado saber que o gol que ele marcou na sequência foi anulado por um traço milimétrico e digital do VAR. O mesmo serviço auxiliar do árbitro que foi atento em ver irregularidade de Campaz ao se proteger de uma bola na barreira, mas foi incapaz de identificar a irregularidade na posição do jogador adversário que não respeitou o metro de distância da mesma barreira. Um pecado Chapecó ser tão preciso no lado em que saltou para defender o pênalti mas nem isso ter sido suficiente para alcançar a bola. 

O gol que não entra, o pênalti que é marcado, o gol que não evitamos … os pecados que o Grêmio está pagando por erros que não estão à altura da punição que recebemos. Até quando? Não sei. A noite de hoje, nos sinalizou mudanças de postura e de performance, que se reproduzidas nas demais partidas pode nos tirar deste sufoco que enfrentamos. 

É só não cometermos novos pecados … 

Avalanche Tricolor: que vergonha!

Grêmio 1×3 Palmeiras

Brasileiro – Arena Grêmio, Porto Alegre/RS

Geromel em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

A tabela de classificação já não era favorável na noite de sábado, quando sentei diante do computador para planejar o domingo futebolístico. Confesso que, pela primeira vez, o abatimento se expressou no coração deste torcedor (quase) sempre crente nas conquistas impossíveis do tricolor. O caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche sabe da minha tese — diante do desespero que assistimos nesta temporada — de que estamos disputando uma Batalha dos Aflitos estendida, em que os aflitos somos nós próprios. E haveremos de vencer, mesmo que tudo aponte no sentido contrário.

O que era ruim, pior ficou.

Tomamos uma virada ainda no primeiro tempo, o VAR apitou mais do que o árbitro – acertou nos dois lances cruciais, registre-se – e o azar deu às mãos à intranquilidade e passeou pelo gramado da Arena. Com cada vez menos rodada para se recuperar e a dificuldade de o treinador e o time enxergarem soluções a curto prazo, a esperança de uma reviravolta se esvaía.

Foi, então, que, ao fim da partida, ouvi as palavras de Geromel, que voltou ao time dois meses depois de se recuperar de uma lesão no pé e fez um jogo quase impecável, a despeito da falta de ritmo:  

“Temos de trabalhar. Não podemos desistir. Só juntos sairemos desta situação. Sabemos que é uma situação incomoda. Faltam 11 jogos e precisamos de seis vitórias. Temos que sair desta situação”. 

A afirmação de nosso zagueiro e capitão mexeu com meu ânimo. Tudo que estava prestes a desmoronar, me pareceu novamente possível — ao alcance de um time que,  com um chacoalhão e a inclusão dos jovens que deram mais ritmo no segundo tempo, se revelará imortal, como dito em seu hino e história. Estava prestes a levantar do sofá, sacudir a poeira e fazer minha reverência à camisa autografada por Geromel que está estendida em um quadro no memorial que mantenho em casa. Mas as cenas que vieram em seguida, me abateram de vez. 

Os alucinados torcedores invadindo o gramado da Arena, quebrando o que viam pela frente, vandalizando o VAR e correndo como baratas tontas (e covardes) me levaram ao fatídico ano de 2004 quando fomos rebaixados. Uma época em que o clube estava destruído, ao contrário de hoje; tínhamos um time muito inferior ao atual; e a sequência de violência nas arquibancadas do Olímpico nos tirou o direito de jogar em casa e com torcida quando mais precisávamos deste apoio. Uma atitude que praticamente definiu nosso destino.

Os torcedores que assim agiram neste fim de domingo, em Porto Alegre, me fazem sentir muito mais vergonha do que o rebaixamento que nos ameaça de forma mais intensa a cada fim de rodada. 

Avalanche Tricolor: sofrer é preciso e acreditar é nosso delírio

Atlético Goianense 2×0 Grêmio

Brasileiro – Castelo do Dragão, Goiania/GO

Kannemann em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

“A única certeza, pai, é que, esteja onde estiver, estarei torcendo pelo Grêmio”. 

Foi o que me disse, em tom de consolo, ao fim de mais uma derrota, o filho mais velho, que, nesta segunda (toc-toc-toc), completou 25 anos de vida. Gregório forjou-se gremista na insistência do pai, na Batalha dos Aflitos, nas Copas conquistadas, nas goleadas sofridas, nas imagens do passado e nas histórias contadas pelo avô.

Por mais gremista que seja, tenho sempre a impressão de que se senta ao meu lado para assistir aos jogos por solidariedade. A despeito do que esteja acontecendo, segue firme nesta missão de acompanhar o pai. Pode ser no cimento do Canindé, aqui em São Paulo, no calor de Humaitá, lá em Porto Alegre, ou nas cadeiras do Zayed Sports City, em Abu Dhabi. Esteve quase sempre comigo – quando não pode, pediu desculpas, como se isso fosse necessário.

Ao certificar-me de seu pensamento, imagino, é como se ele quisesse me dizer que, aconteça o que acontecer, eu não ficarei sozinho. Terei um companheiro para segurar na mão e a me oferecer o ombro, se for o caso de chorar – razões não faltam. Uma forma de amenizar a tristeza que assistir ao Grêmio em campo tem nos causado nesta temporada — exceção a um ou outro lampejo, e ao campeonato gaúcho, onde seremos hegemônico enquanto nossa hegemonia durar.

Há duas ou três rodadas, Gregório tem ensaiado esse discurso. E mesmo que faltem apenas 12 para encerrar o campeonato, não pense — caro e raro leitor desta Avalanche — que ele jogou a toalha. Isso nunca acontecerá porque sabe que sofrer é preciso, e acreditar é o nosso delírio. Está sintonizando com a ilusão que construi recentemente de que estamos fadados a disputar, neste fim de ano, uma espécie de batalha dos Aflitos estendida. 

Queria ter podido lhe dar essa vitória de presente. Mas, infelizmente, isso estava fora do meu controle e, pelo que assistimos, do nosso time, também. Consola-me saber que lhe dei um legado maior do que os três pontos que poderíamos ter conquistado nesta noite. O legado de ser um gremista de verdade — como revela a crença que expôs ao fim do jogo.

Avalanche Tricolor: “esse amor descontrolado, nunca vou deixar de lado”

Grêmio 3×2 Juventude

Brasileiro – Arena Grêmio, Porto Alegre/RS

Comemoração gremista em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Sentei à mesa com a família. Aquela pizza da casa, antecedida por um pãozinho quente com salsicha me esperava neste jantar de domingo. Tudo isso, regado a vinho — muito vinho. Não tenho pressa em beber, em comer e em dormir. Amanhã é segunda, mas estou de férias. Acordo quando der —- verdade que o corpo costuma pedir para sair da cama ainda de madrugada, impulsionado pelo hábito. Acordo se quiser. Tenho tempo para saborear as horas, o dia, e os prazeres que este me oferece.

Neste domingo, o prazer que senti foi o de uma vitória —- raro nos últimos tempos. Recheada de emoção, provocada por uma torcida que se fez presente em peso —- ou com o peso que lhe foi permitido, já que ainda estamos sobre restrições sanitárias. A cantoria das arquibancadas me encheu de esperança e, parece, contaminou o ânimo dos jogadores em campo, como se não bastasse estarem sob novo comando. 

Emocionei-me ao ouvir a cantoria que marcou nossa história. Que de tão intensa e genuína levou Guilherme Vilani, narrador da SportTV, a retransmiti-la como se fizesse coro com o nosso torcedor. 

“Esse amor descontrolado

Nunca vou deixar de lado

Sempre junto ao Tricolor

Eu te sigo aonde for

Com meu trapo e a bandeira

Venho pela camiseta

Hoje de qualquer maneira

Nós temos que ganhar”

Já não lembro se cantamos ‘Amor descontrolado’ tantas foram as letras entoadas pelo torcedor. Se não o fizemos, poderíamos ter feito, porque só ganhar nos interessava neste fim de tarde domingueiro. 

Uma vitória que passou pelos pés do sempre renegado Alisson, que já havia tentado um gol de calcanhar pouco antes de fazer a bola explodir no travessão e voltar para a cabeça de Douglas Costa. O mesmo Alisson que balançou na frente da área, deslocou os zagueiros e chutou forte, provocando o rebote do goleiro, aproveitado, com precisão, por Diego Souza.  

O baixinho e cabeçudo atacante gremista talvez seja a imagem do Grêmio atual. Nunca será reconhecido por seu talento, mas jamais poderá ser acusado de ter desistido. No último ponto que havíamos conquistado, foram deles os gols que nos levaram ao empate. Hoje, foram deles as assistências que nos deram a vitória. É, como dizem os entendidos do futebol, o principal ‘garçom’ do time gremista. Serve a seus colegas no ataque, serve ao time na defesa e serve a mim pela determinação que nunca nos negou —- mesmo diante de todas as críticas.

Sei que nada está resolvido, muito antes pelo contrário. A ‘Batalha dos Aflitos’ que enfrentamos nesta Série A teve apenas mais um capítulo. Insuficiente pra nos tirar do sufoco da zona-você-sabe-qual, mas necessária para quem acreditará até o fim, mesmo depois que decretarem a nossa morte — porque somos Imortal.

O jantar de domingo, o pão com salsicha, os pedaços de pizza e a garrafa de vinho — ao lado da família —-,  tiveram sabor especial nesta noite. O sabor da esperança “de que este amor descontrolado (que) nunca vou deixar de lado” haverá de me devolver a alegria de ser torcedor do Grêmio.

Avalanche Tricolor: chora, Brenno!

Santos 1×0 Grêmio

Brasileiro – Vila Belmiro, Santos/SP

Imagem reproduzida da SportTV

“Choro quando estou triste,

Lágrimas que queimam, mas que aliviam”

Brenno foi gigante enquanto pode. Defendeu as bolas quase impossíveis.  Uma a meia distância, com força e velocidade —- daquelas que o atacante comemora antes de ver a rede estufar. Outra no ângulo, em cobrança de falta perfeita que se fez imperfeita diante da perfeição de sua defesa. Despachou o perigo toda vez que este rondou nossa goleira. Sofreu no corpo o tranco adversário. Despencou das alturas e sentiu nos braços o choque violento com o gramado. 

Houve ao menos dois momentos em que parecia batido: foi quando sua áurea se estendeu além do corpo para impedir que a bola entrasse na cidadela — a fez desviar no poste ou impulsou seu zagueiro a tirar de cabeça. De tanto se fazer grande, Brenno transferiu aos atacantes o peso da responsabilidade de terem de ser maiores do que eles próprios eram capazes. Os fez pensar duas, três vezes antes de arriscarem o chute.

Apesar de fazer de tudo, Brenno não pode tudo. Por isso foi às lágrimas ao fim de tudo. Lágrimas de tristeza. De frustração. De indignação. Da injustiça de se ver batido na imprevisibilidade de uma bola desviada do seu rumo. 

Foi ao assistir às lágrimas de nosso jovem goleiro, que me veio a mente trecho de poesia que havia lido, nesta semana, quase por acaso, como foi o gol adversário. Por contraditório que seja, estava em busca de autores que definissem o poder das lágrimas provocadas por uma alegria. Encontrei Regiane Folter, outra jovem talentosa em sua arte da escrita, autora paulistana temporariamente erradicada no Uruguai —- ali onde se chega cruzando pelo Rio Grande do Sul. Na poesia de Regiane, agora, encontrei consolo para quem como Brenno — e eu — choramos diante da frustração:

“Choro quando estou frustrada,

Quando as coisas não saem e tudo parece perdido.

Cada gota que escapa leva um pouco de estresse acumulado,

E deixa espaço pro descanso tão necessário antes de recomeçar.”

Chora, Brenno! Amanhã tudo recomeça e vamos precisar de você gigante mais uma vez.

Leia a poesia “Choro para ser” de Regiane Folter