Avalanche Tricolor: Renato é Trilegal

 

Grêmio 1(3)x(2)2 Caxias

Gaúcho — Arena Grêmio

 

Pôster Grêmio Tricampeão Gaúcho publicado pelo site GaúchaZH

 

Desde 2016, o Grêmio reserva ao menos uma data no calendário anual para comemorar um título. Naquele ano, vencemos a Copa do Brasil —- após 15 edições —-, que nos abriu a porta para o título de Libertadores, em 2017. Em 2018, 2019 e, agora, 2020, fomos campeões Gaúcho. No meio do caminho, colocamos na sala de troféus: Recopa Sul-Americana, Recopa Gaúcha e outras cositas más

 

Houve jogadores marcantes nestes cinco anos; gente que ressurgiu no cenário nacional como Geromel, dos maiores zagueiros que já vestiram a camisa gremista; que fez seu futebol se expressar pela liderança e talento, como Maicon — o capitão que ergueu todas essas taças dos últimos anos; ou que se consagrou e foi embora, como Luan, o Rei da América. E, recentemente, Everton.

 

Por mais importante que cada um seja (ou tenha sido) — e toda minha gratidão a eles —- foi o conjunto da obra, assinada por Renato Portaluppi, quem nos permitiu transformar títulos em rotina. Hoje mesmo se transformou no primeiro técnico, desde o feito de Oswaldo Rolla, em 1958, a conquistar o tricampeonato gaúcho. 

 

Costumam dizer que Renato tem estrela. Concordo que ele deixa tudo mais estrelado por onde passa. Discordo, porém, quando neste conceito vem embutida a ideia de sorte. Renato não é um cara de sorte. É inteligente da sua maneira. Sabe como poucos transformar pessoas. E o faz ao ser capaz de criar um espírito de grupo que está sempre disposto a agregar novos talentos e a abraçar jogadores que chegam com o desejo de provar suas qualidades.

 

A sequência de títulos chegou com Renato —- e isso não é uma coincidência. É resultado do amadurecimento que teve na vida. De como estudou —- apesar dele dizer que não precisa disso — a dinâmica do futebol contemporâneo e soube levar para campo. Da competência em entender a cabeça de jogadores e de ganhar a admiração dos torcedores. 

 

Depois de ter conquistado o Tri da Liberadores. Agora é Tri do Gaúcho. Renato, indiscutivelmente, é Trilegal!

Avalanche Tricolor: histórias do futebol às vésperas de mais uma final

Caxias 0x2 Grêmio

Gaúcho — Centenário, Caxias/RS

 

Everton comemora seu primeiro gol, em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

O caro e raro leitor deste Blog talvez estranhe a história que vou contar por aqui. Nem tanto pela história, mas por ter sido protagonizada por clubes e jogadores sobre os quais não costumo falar em uma Avalanche dedicada — e merecidamente — ao Grêmio. E por história do passado que é, considere que posso cometer falhas de memória — sou muito ruim de guardar nomes e épocas.

 

Foi em um dia qualquer das minhas andanças pelos estádios de futebol do Rio Grande do Sul, quando trabalhava como repórter setorista, e um dos técnicos de plantão falava do sucesso de Paulo César Carpegiani, no Flamengo, clube que não estava com essa bola toda quando o contratou, em 1977. O jogador havia saído de um Internacional, que ganhava quase tudo naquela época — sim, isso foi muito antigamente — e onde havia formado um dos melhores meios de campos do Brasil, o que lhe rendeu convocação à seleção brasileira. Diziam em Porto Alegre que Carpegiani estava com problemas físicos, algum tempo antes havia feito cirurgia no joelho.

 

No Rio, os astros se alinharam em favor dele e do Flamengo: estava surgindo um menino chamado Zico, e Carpegiani teve ainda como companheiros Adílio, Tita e Nunes. Ele se tornou um dos lideres das campanhas vitoriosas daquele time. Sobre a suspeita de Carpegiani não dar mais conta do recado, o técnico, contador da história, disse que o pessoal do Flamengo costumava brincar : “sempre que tiver um aleijadinho como esse pode mandar pra cá”.

 

Lembrei da história quando pensava como iniciar esta Avalanche, escrita um dia depois da vitória que colocou o Grêmio em vantagem e mais próximo de outro título gaúcho. Nestes tempos modernos, você sabe: é o Grêmio quem ganha tudo (ou quase tudo). O um a zero saiu cedo, com o jeito de o Grêmio jogar e com um jogador que leva muito jeito: Pepê. Não me surpreendeu. Nosso atacante está pronto para assumir a vaga de Everton — o que saiu.

 

O dois a zero, sim. Esse demorou mais e me chamou muito a atenção. Porque foi resultado de uma bola de rebote na entrada da área, que estufou a rede após um chute tão difícil quanto fulminante de Everton — o que chegou. Trocado por Luciano, o meia-atacante deixou São Paulo sob a descrença de seu clube e chegou a Porto Alegre sob a desconfiança de alguns torcedores.

 

“Só eu sei o momento que estava passando antes de começar aqui. Acharam que estava desacreditado, mas o pessoal aqui acreditou em mim”

Everton, camisa 11

 

Everton — o que chegou — tende a ser mais um desses casos de jogadores que entram no elenco gremista tendo de ouvir críticas à boca pequena. Precisando provar a todo o instante a sua qualidade. E preparado para se transformar em destaque, ao passar pelas mãos mágicas de Renato. O mais recente deles foi Diego Souza: barrigudo, sem força, ultrapassado — foram alguns dos adjetivos que o acompanharam até se apresentar ao time do qual hoje é o goleador.

 

Para não me estender muito nos casos, termino esta Avalanche lembrando Maicon, que trocou o São Paulo pelo Grêmio, em 2015. O que mais ouvi por aqui quando a transferência ocorreu, é que estávamos levando um jogador lento, cansado e que não tinha jeito. Nosso capitão é, sem clubismo, dos jogadores que mais sabem tratar bem a bola, distribuir o jogo e comandar um time em campo, no Brasil. Ver o que é capaz de fazer com a bola nos pés é como estar diante de um globetrotter do futebol.

 

Que estes relegados estejam todos de volta ao campo, ao lado de nossos jovens e promissores talentos, no próximo domingo para comemorar mais um título na história gremista — esta, sim, uma história que eu adoro contar nesta Avalanche.

Avalanche Tricolor: se eu troquei o Grêmio pela final da Liga? Você não me conhece mesmo!

Vasco 0x0 Grêmio

Brasileiro — São Januário RJ/RJ

 

Alisson em jogada de ataque; foto: LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

Houve quem duvidasse das minhas escolhas futebolísticas. Apostava que meu programa dominical seria assistir à decisão da Liga dos Campeões da Europa. Uma final que colocou frente à frente um projeto de clube, em que a organização é a principal estratégia, e um projeto de time, em que o dinheiro é estratégico. Oportunidade rara: alguns dos maiores jogadores do planeta se enfrentando em partida que prometia emoção do início ao fim, em competição das mais organizadas e caras do Mundo, e readaptada às novas condições impostas pela pandemia.

 

Um jogo com expectativa de audiência gigantesca na maior parte dos países para onde e por onde fosse transmitido: na tela da TV, do computador ou do celular.  Com tal interesse aqui no Brasil, especialmente pela presença de Neymar com a camisa do PSG, que o clássico paulista marcado para esta rodada do Campeonato Brasileiro teve de mudar de endereço. No estádio em que deveria ser jogado, preferiu-se a transmissão da final europeia no telão —- assistida no modelo drive-in.

 

Apesar de afirmar categoricamente aos meus colegas de rádio que me dedicaria a partida do Grêmio, em São Januário, disputada no mesmo horário que a final da Liga, a dúvida persistiu. E ao fim desta Avalanche, você —- caro e raro leitor deste blog —- talvez se mantenha no time dos descrentes. Duvidarem do meu comportamento e intenções não chega a ser novidade por jornalista que sou. 

 

O curioso é que esse jamais foi um dilema para mim. Minha agenda dominical estava bloqueada para ver a partida válida pela quinta rodada do Campeonato Brasileiro desde o rearranjo do calendário, necessário para se ajustar a parada forçada pelo coronavírus. Nem mesmo a escolha de Renato em escalar um time mezzo a mezzo, meio titular e meio reserva, já que temos decisão do Campeonato Gaúcho na quarta-feira, me demoveria da ideia de ver o Grêmio em campo.

 

Eu gosto muito de futebol. E futebol bem jogado, gosto mais ainda. Mas assistir a qualquer outra partida de futebol que não seja a do Grêmio, jamais será uma opção. Pelo Grêmio, eu torço; e torço muito.

 

Tá bom, me perguntará o incrédulo: se você antes do jogo soubesse que Vasco e Grêmio fariam uma partida medíocre, com muitos passes errados, bolas desperdiçadas e sem gols, nem assim você aceitaria trocar o programa desse domingo?

 

Incrédulos e crentes, minha resposta é não. Vou repetir: eu gosto de futebol mas antes eu torço para o Grêmio; e se é pelo Grêmio que torço, é com ele que estarei onde o Grêmio estiver! 

 

PS: bem que poderia ter me dado uma força também jogando um pouquinho melhor.

Avalanche Tricolor: que baita zagueiro é esse Geromel!

Flamengo 1×1 Grêmio

Brasileiro — Maracanã/RJ

 

 

Geromel nas alturas, em foto de LUCAS UEBEL/GRÊMIOFBPA

 

O Grêmio saiu do Maracanã lamentando a perda de dois dos três pontos que pareciam garantidos ao menos até o VAR e o árbitro da partida negarem o princípio que deveria mover suas decisões —- o mesmo que sustenta a justiça brasileira: in dubio pro reo. Na dúvida se a bola bateu na cabeça de Kannemann e depois no braço, que sequer as imagens conseguiram esclarecer, os senhores do apito e da telinha interpretaram contra o acusado. 

 

Tem de lamentar mesmo — nem tanto pelo árbitro e seus colegas, deles não costumo esperar muita coisa —- , mas principalmente porque foi superior ao adversário desde os 10 minutos do primeiro tempo. Aliás, que primeiro tempo. Coisa para ver, rever, repetir e ensinar.  Controlou o adversário quando este estava com a bola, a defesa foi muita segura e desarmou de maneira precisa e a saída para o ataque foi qualificada, mesmo que faltando um pouco mais de lances pelas laterais.

 

O gol de Pepê em uma jogada típica da equipe de Renato, com velocidade, deslocamento e passes precisos, fez justiça ao nosso domínio — e foi pelo lado.

 

Antes do gol já havíamos realizado duas ou três belas jogadas que mereceriam terminar na rede, mas que foram desperdiçadas por nossos atacantes. 

 

Aliás, como temos perdido gols ultimamente —- e não estou falando apenas de pênaltis, não. Jogadas bem elaboradas, às vezes de mais, que pecam no acabamento. Na última partida, em casa, passamos pela mesma situação. E também fomos punidos com um empate em jogo que tinha a cara da vitória.

 

No segundo tempo, faltou gás. Foi a impressão que tive. Alguns caíram antes do jogo terminar: casos de Maicon e Diego Souza, que preocupam pelas lesões que tiveram. Outros, se mantiveram em pé, mas revelaram cansaço, resultado da intensidade de jogo, da marcação acirrada e de um preparo físico ainda prejudicado pela parada fora de época, imposta pela pandemia.

 

A despeito de todos os lamentos. e considerando que seguimos invictos a 14 jogos e sem derrota no Campeonato Brasileiro, peço licença para encerrar essa nossa conversa —- caro e raro leitor —- com um expressão que tem me acompanhado jogo após jogo, especialmente após a volta da temporada. Uma frase que soa forte na minha garganta como se fosse grito de gol. Capaz de assustar a vizinhança e a turma aqui em casa. 

 

A cada desarme que faz dentro ou fora da área, por cima ou por baixo, com os pés ou com a cabeça; quando domina a bola em meio a confusão proporcionada pelo ataque adversário, livra-se de todos eles, ergue os olhos e encontra um companheiro para que este de início a jogada seguinte, comemoro com um só grito:

 

Que baita zagueiro é esse Geromel!

Avalanche Tricolor: como escolho meus próprios caminhos, prefiro falar da Portuguesa

 

 

Grêmio 0x0 Corinthians
Brasileiro — Arena Grêmio

 

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Memórias de um das vezes em que a Lusa esteve no meu caminho (Foto: Canindé, 2013)

 

Jogar em casa, obriga à busca dos três pontos. E o Grêmio buscou pelos caminhos que gosta de percorrer no campo. Com bola tocada, passe trocado, tentativas pelo meio e investidas pelos lados. Às vezes, fico com a impressão de que preferimos refinar o lance a chutar a gol — como se ele fosse surgir a qualquer momento, de forma natural, resultado do domínio da bola. Quase surgiu, em um cabeceio aqui, um bate e rebate acolá, e um pênalti desperdiçado.

 

Aqui um parênteses: alguém sabe me dizer quantos pênaltis nos perdemos em um ano? Pode ser implicância minha. Mas há algum tempo que reclamo o pênalti em favor do Grêmio — como hoje no carrinho imprudente do marcador de Diego Souza —, mas não comemoro antecipadamente pelo alto risco de frustração. Parênteses fechado.

 

De volta ao jogo.Ou melhor. Não vou falar do jogo, não. Se em campo os dois times fizeram pouco para vencer e saíram com cara de “melhor assim do que perder”, prefiro seguir esta Avalanche pelos meus próprios caminhos. E carinhos.

 

Durante a transmissão da TV, o locutor de esportes lembrou que o último título de Brasileiro conquistado pelo Grêmio foi em 1996, na final contra a Portuguesa, no estádio Olímpico. Isso me remeteu às cenas que ainda estavam na minha memória do filme “Lusitanos — o centenário da Portuguesa” que assisti pela internet na sexta-feira, dia 14 de agosto, data de nascimento da Lusa. A produção é de meu colega Luiz Nascimento e Cristiano Fukuyama, ambos torcedores da Portuguesa, é claro.

 

O filme é um primor, pois relembra momentos incríveis vivenciados por torcedores resilientes; e revela na voz embargada e no olhar mareado da maior parte dos depoentes, a única razão pela qual a Portuguesa sobrevive a tudo que enfrentou na história —- de injustiças a falcatruas; de lances imperdíveis a momentos impensáveis. É uma gente apaixonada. Que revive cenas que talvez jamais tenha vivido, mas que ouviu dos bisavós, dos avós, dos pais ou de algum lusitano com quem um dia sentou à mesa para dividir um prato de sardinha, saborear um bacalhau ou um cozido à portuguesa.

 

A colcha de lembranças muito bem costurada pelos produtores, a partir de depoimentos de torcedores, sócios, ex-jogadores e admiradores da Lusa, me envolveu de tal maneira que passei a pensar como a Portuguesa fez parte da minha vida paulistana, que se iniciou em 1991 — muito mais do que qualquer outro time daqui; e não foi por falta de grandes confrontos com os paulistas nestes últimos anos todos.

 

Logo que cheguei, a primeira partida de futebol que assisti foi a final da Copinha, em que o Grêmio enfrentava a Lusa. Perdemos de 4×0 para um time que tinha como maior destaque Dener, que um dia tive a alegria de ver vestindo a camisa gremista. O talento da gurizada lusitana era tal que nem mesmo a goleada e a perda do título me fizeram tristes naquela manhã, no estádio do Pacaembu.

 

Danrlei era o goleiro naquela final de jovens que acompanhei com resignação e admiração. E estava no gol em outro momento histórico que colocou a Portuguesa no meu caminho, cinco anos depois. Foi a final do Brasileiro em que na primeira partida perdemos por 2 a 0 em São Paulo — jogo que não pude assistir no estádio mas que acompanhei com o rabo do olho em um monitor ligado embaixo da câmera em que apresentava, no mesmo horário, o Jornal da Cultura.

 

No domingo seguinte, coube a mim a tarefa de editar os melhores momentos da final, que seria disputada em Porto Alegre, para o Cartão Verde, programa esportivo da Cultura. Minha escala naquele plantão tinha requintes de crueldade, pois meus colegas de redação apostavam todas suas fichas no time lusitano e queriam ver minha cara editando a conquista da Portuguesa em cima do Grêmio.

 

O fim da história você —- caro e raro leitor desta Avalanche —- haverá de lembrar. Faltando oito minutos para o fim do jogo, no estádio Olímpico, o Grêmio marcou o segundo gol que deixava o confronto igual e nos dava o título pela melhor campanha no campeonato. Minha felicidade não cabia naquela fita Betacam que, com o sorriso de um campeão, entreguei ao diretor do programa para ser reproduzida para todo o Brasil.

 

Apesar de nunca ter assistido nada muito empolgante em campo, desde as finais, em 1991 e 1996, os confrontos entre Portuguesa e Grêmio sempre foram os meus preferidos, aqui em São Paulo. Eram os poucos que conseguia ver, ao vivo, no estádio, e levar meus filhos, por considerar mais fácil de entrar e torcer no Canindé, a despeito da fila interminável na bilheteria e da fúria dos Leões da Fabulosa.

 

Lamento apenas ter sido testemunha do mais triste momento da Portuguesa na série A do Campeonato Brasileiro, em 2013, quando na última partida da rodada, em que o empate deixava todos felizes — o Grêmio, na Libertadores, e a Lusa na primeira divisão — um erro administrativo fez o time paulista ser rebaixado, por escalar irregularmente um jogador (e deixo para os torcedores da Portuguesa a explicação das razões que levaram a escalação equivocada). Era o início de uma longa jornada de decepções lusitanas.

 

Neste momento em que a Portuguesa comemora seu centenário, todo meu carinho aos torcedores da Lusa. E o desejo de que, o mais breve possível, eu possa voltar à assistir ao Grêmio jogando no Canindé, ao lado de meus filhos.

Avalanche Tricolor: gostou do nosso time, pai?!?

 

Grêmio 1×0 Fluminense
Brasileiro — Arena Grêmio

 

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Diego Souza comemora gol em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

“Esse guri aí no ataque é muito bom”

Sou capaz de ouvir a voz do pai ao telefone descrevendo Diego Souza, que apesar de veterano para o futebol, com os seus 35 anos, ainda assim seria definido como um guri para o velho que já passava da casa dos 80 anos. Já estava com a idade avançada e ainda sofria como um garoto à frente da televisão sempre que assistia ao Grêmio jogar —- fosse futebol de botão, em que ele era craque, fosse no campo. Telefonar para ele ao fim das partidas era quase um ritual que se iniciava com uma pergunta típica:

“E aí, pai, que tu achastes do nosso time?”

Mesmo com a idade avançada e a doença lhe tirando de forma cruel parte das lembranças do cérebro, o pai sempre arrumava um jeito de compartilhar sua percepção sobre a perfomance gremista em campo. Jogadores não tinham mais nomes, eram descritos por suas características: “esse carequinha que corre que nem o diabo da cruz” —- era como se referia a Everton em início de carreira. “Esse número 10, barrigudinho, é bom demais, heim!?” — era a senha para falarmos de Douglas. “Que baita zagueiro” era a expressão que mais me deixava em dúvida: não sabia se falava de Kannemann ou de Geromel — os dois, convenhamos, merecem a deferência.

 

Ligava para ele na vitória e na derrota. Pra nossa felicidade, os últimos anos que convivemos, falamos muito mais de títulos e conquistas. Campeão Gaúcho, da Copa do Brasil, da Libertadores ….  teve ainda a homenagem que fizemos a ele na final do Mundial.  Foram assuntos que dominaram nossas conversas até o momento em que o pai ainda era capaz de entender o que falávamos e, principalmente, se fazia entender com seus códigos mentais.

 

O dia em que percebi que nossas conversas passariam a não fazer mais sentido foi quando, juntos, na sala da casa de Porto Alegre, o pai quis iniciar uma bom papo sobre futebol e foi incapaz de pronunciar o nome do Grêmio. Tudo que conseguiu foi dizer “o azul”, que era o que o cérebro dele conseguia decodificar daquela história que nos uniu desde pequeno, iniciada ali mesmo na Saldanha Marinho, rua que fica a poucos metros do estádio Olímpico.

 

Fiquei triste naquele dia. Muito triste. Entendi que a vida e a memória estavam me tirando o único cara que foi capaz de me acolher mesmo quando cometi os maiores erros —- e nunca me negou um abraço, apesar das injustiças que lhe proporcionei. Talvez a única pessoa que, se viva estivesse, me receberia com carinho e generosidade diante das piores situações que eu possa enfrentar na vida.

 

O pai morreu há um ano. Há mais tempo já apresentava dificuldades de se comunicar. Mesmo assim, ficava sentado à frente da TV vendo o Grêmio jogar. A última vez foi em abril do ano passado, quando disputamos um Gre-nal. Vestiu a camisa do Grêmio e mesmo no silêncio que a doença o impôs foi possível vê-lo, em alguns momentos, reconectado com a realidade: talvez uma das últimas vitórias dele contra vida, apesar do empate em 0 a 0 (para saber mais, leia Avalanche Tricolor: uma vitória no Gre-nal).

 

Hoje não tive para quem ligar e falar da vitória gremista na estreia do Campeonato Brasileiro. Não tive um pai para dar os parabéns pelo seu dia. Mas tive as boas lembranças que ele me deixou em vida. E me faz sorrir por dentro, mesmo que meus olhos se encham de lágrima a cada parágrafo que escrevo nesta Avalanche.

 

Avalanche Tricolor: no Gre-nal, tudo normal!

 

Grêmio 2×0 Inter
Gaúcho — Arena Grêmio

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Foto de Lucas Uebel/GremioFBPA

 

Mais uma vitória em Gre-nal!

 

E lá se vão nove clássicos seguidos sem derrota.

 

Na Arena, o predomínio é ainda maior: 13.

 

É a maior série invicta de uma equipe como mandante no Gre-nal.

 

Há cinco anos não perdemos  uma só decisão contra o co-irmão.

 

Ou seja, Renato, desde que voltou ao comando da equipe, não foi apresentado a uma só eliminação ou perda de título.

 

Para a dupla Geromel e Kannemann foi o décimo Gre-nal invicto. Sempre que estiveram lado a lado em campo, nunca perderam. É o sétimo sem tomar gols.

 

Para Diego Souza foi o sexto, sem nunca ter perdido, em duas passagens pelo Grêmio. Marcou duas vezes. E é o goleador do time.

 

Na noite dessa quarta-feira, Diego  deu assistência para Maicon fazer o primeiro — do jogo e o dele em um clássico gaúcho.

 

Teve chapéu, teve meia-lua, teve drible pra lá e pra cá. Teve carrinho e chutão quando necessário. Teve agarrão e briga, também. Teve até expulsão.

 

E ainda teve Everton fazendo o que queria em campo, dançando no gramado da Arena, alucinando a marcação e sendo o responsável pelo drible que tirou cinco de seus marcadores da jogada, abrindo espaço para, de cabeça erguida, lançar a bola na área, onde estava Isaque, um novato em Gre-nal —  que não precisou de mais de um toque na bola para sentir o sabor de um gol no clássico. O sabor da vitória.

 

Tudo normal!

Avalanche Tricolor: de sorteio do porco à entrevista sem perguntas, coisas estranhas que vivi no futebol gaúcho

 

Grêmio 0x0 Nova Hamburgo
Gaúcho —- Arena (?) Alviazul, Lajeado/RS

 

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Foto: Lucas Uebel/GremioFBPA no Flickr

 

Futebol do jeito em que as coisas andam já é estranho por si só. Jogado em campo de várzea, sem torcida e com direito a lances bizarros, só da pra assistir com um copo de vinho na mão, um sofá inteiro para a gente se esticar e o cobertor para aquecer o frio que fez nessa tarde, em São Paulo.

 

O Grêmio jogou em Lajeado, no Vale do Taquari, região que está sob bandeira laranja há algumas semanas —- o que significa que tem risco médio de contaminação da Covid-19. A partida era para ser em Novo Hamburgo, na casa do adversário, mas lá a coisa está mais complicada ainda — a bandeira é vermelha. E se é vermelha, não se joga futebol.

 

O estádio escolhido para o jogo leva o apelido de arena. Que me desculpem os simpáticos torcedores do Lajeadense: as arquibancadas e o gramado não merecem o nome que recebem. A bola trocava de direção a cada passe, driblava por conta própria os marcadores e proporcionava cenas cômicas sempre que algum atacante tentava acertá-la em gol. Não foi de surpreender o zero a zero.

 

A precariedade da estrutura oferecida para o jogo serviu ao menos para me lembrar de momentos icônicos que vivenciei nos gramados do Rio Grande do Sul como repórter esportivo da rádio Guaíba de Porto Alegre.

 

Na segunda linha daquele timaço que formava o “Futebol da Guaíba”, cabia a mim as paradas mais difíceis, como os jogos de sábado à tarde, disputados pelo São José, em estádio que levava o nome do bairro do Passo D’Areia, na zona norte de Porto Alegre —- em uma época em que estádio de futebol era apenas um estádio de futebol. Para atrair torcedores, no intervalo das partidas, o clube promovia sorteios. Em uma das partidas fui convidado a tirar da urna o bilhete premiado. Com a pompa e a solenidade que o momento exigia, chamei pelos microfones do estádio o número vencedor e o prêmio maior lhe foi entregue: um porco vivo que, depois de sorteado, poderia ter o destino que o novo dono bem entendesse.

 

Naqueles tempos, eram os anos 80,  repórter de campo era repórter de todo campo. Tinha liberdade para circular pelo entorno do gramado, descrever o lance com os detalhes que só ele havia visto e reproduzir as cenas proporcionadas pelos técnicos e jogadores na casamata (que aqui em São Paulo preferem chamar de banco de reservas). Não havia esta história de só entrevistar jogador escolhido pela assessoria de imprensa do clube e esperá-lo na área reservada à imprensa. A medida que o cronômetro se aproximava do fim da partida, nos deslocávamos para o lado do gramado e nos preparávamos para uma corrida desesperada em direção ao personagem do espetáculo.

 

Em um jogo qualquer do Grêmio, pelo Campeonato Gaúcho, no estádio Olímpico Monumental —- esse sim merecia o título de Arena de Todos os Campeões —-, me posicionei a espera do final da partida. Nem bem o trilar do apito do árbitro havia se encerrado, abusei da minha juventude e com o microfone na mão e um fio enorme a me seguir, corri em busca da palavra do craque. O esforço para chegar antes dos concorrentes, me fez perder o fôlego. Sem conseguir dizer uma só palavra, restou-me estender o microfone em direção a ele que respondeu a uma pergunta que jamais consegui fazer. Após alguns minutos, nos quais o meu entrevistado disse o que bem entendia e minha respiração voltava ao ritmo normal, ao menos tive um saída espirituosa: “(fulano de tal) falou no microfone da Guaíba e mostrou que além de bom de bola é bom de papo, nem precisei fazer pergunta e ele já me respondeu”.

 

Avalanche Tricolor: deixe-me ser feliz ao menos até o apito final

 

Inter 0 x 1 Grêmio
Campeonato Gaúcho
Centenário/Caxias do Sul-RS

 

 

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Foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

 

 

O futebol é um negócio estranho. Faz da gente criança. Faz perder a lógica. O senso.

 

Tem quem prefira desdenhar. Intelectualizar. Contextualizar.

 

Sou do primeiro time: dos sem noção quando a bola rola. Já fui pior. Brigava. Sofria. Chorava. Hoje, brigo com a minha razão. Sofro do meu coração. E só choro na emoção da alegria ou quando busco na memória as experiência passadas.

 

Havia assumido o compromisso de que só voltaria a assistir aos jogos e a escrever esta Avalanche quando a pandemia passasse. Retornar aos campos com tanta gente sofrendo não faria nenhum sentido. Expor profissionais à prática do esporte e centenas de tantos outros que dependem dele, seria um risco à saúde. E jamais poderia ser conivente com tal situação.

 

Pois bem, o futebol voltou. E quando digo futebol, digo o Grêmio voltou, porque é ele quem me faz criança, perder a lógica, e o senso, por mais razoável que queira parecer. E voltou no maior clássico da Terra —- da minha terra ao menos. Uma provocação a qualquer das minhas convicções. Quase que a desafiar minha índole e a reputação que tento preservar diante da família.

 

Inventei para mim mesmo que só veria a partida para entender a dinâmica de um jogo na pandemia e sem torcida; ser apresentado aos protocolos sanitários em um campo de futebol; analisar a insensatez de cartolas e autoridades. Por isso sentei no sofá diante da TV com cara de constrangimento, olhando de revesgueio os primeiros movimentos — como se tudo aquilo não me pertencesse.

 

Queria enganar a quem?

 

O futebol me pertence, sim. Faz parte da minha vida. Nele amadureci, de criança virei adolescente para me transformar em adulto, forjei minha personalidade e vivenciei alguns dos momentos mais felizes ao lado de meu pai — e tenho saudade daquela vivência que o tempo e a saúde me tiraram.

 

Por que sentir vergonha pelo que meu coração insistia em sentir sempre que o Grêmio partia para o ataque? Dos dribles de Matheus Henrique, Jean Pyerre e Everton? Pela satisfação do passe bem passado e da bola bem rolada? Pelo orgulho de ver Geromel e Kannemann sendo gigantes, tão gigantes quanto imaginamos que eles sejam?

 

Às favas!

 

Gritei pelo pênalti bem marcado. Lamentei a cobrança mal feita. Vibrei com o desarme do setor defensivo e comemorei o gol enviesado de Jean Pyerre.

 

Mesmo sabendo que nenhuma dessas reações fossem suficientes para apaziguar meu coração que tem estado triste pelas mortes e descalabros que vivemos no Brasil, dei-me o direito de ser feliz ao menos por 90 minutos de um jogo bem disputado apesar de mal jogado.

 

Era só isso que eu queria: um naco da felicidade que nos foi roubada nesses mais de quatro meses de confinamento. E o Grêmio me ofereceu mais este momento de vida.

 

Não me julgue! Só me deixe ser feliz nem que seja até o apito final, porque nunca saberemos quando este final cruzará nosso caminho.

 

Fique tranquilo: minha felicidade não é suficiente para tirar meu senso, minha razão e meu olhar crítico a tudo que está acontecendo neste país.

 

Fique em paz, cuide-se e busque a sua felicidade onde ela estiver — mesmo que esteja correndo atrás de uma bola de futebol.

Avalanche Tricolor: bah, é claro que vamos vencer mais esta!

 

Nós 7×1 Eles
Arena Grêmio

 

 

 

Bateu uma baita saudade de ti! Já vão algumas semanas em que ligo a TV para te assistir e não te encontro. Ontem foi quarta, liguei a TV e nada. A quinta está chegando ao fim, e nada de novo. Esses dias até tinha um daqueles momentos mágicos que tu me proporcionaste —  que baita goleada foi aquela no clássico, heim ?!?  Mas era gravado, acontecido tempos atrás. Queria te ver agora.

 

Estou louco pra te ver em campo de novo, tocando a bola com aquela categoria que encantou o Brasil e conquistou a América. Aquele passe rápido, o deslocamento veloz e a movimentação que deixa o zagueiro deles tonto em campo. Aquela defesa impecável, com Geromel e Kannemann colocando os atacantes deles no bolso.

 

Tô com muita saudades das vitórias suadas, das goleadas implacáveis e dos troféus levantados. Das brigas em campo. Sim, até desses momentos sinto saudades, até porque me remetem aos tempos em que nos conhecemos. Tempos em que a bola era o que menos interessava. A gente queria vencer, de qualquer jeito, no campo e na briga.

 

Desde que conquistamos o Mundo as coisas mudaram um pouco. Ficamos meio bestas e exigindo bola rolando, craque em campo e gol de placa. Mas, confesso, de vez em quando bate uma saudade louca de quando bastava ganhar uma dividida de bola no meio de campo para comemorarmos na arquibancada.

 

Continuamos comemorando as dividas vencidas, mas queremos mais: queremos que a jogada prossiga, que alguém apareça na ponta, que nosso ponta dê o drible da vaca, deixe seu marcador estatelado na grama e o cruzamento termine com a bola no fundo do poço (puxa, pai, bateu outra saudade, agora de você, que criou este jargão no futebol gaúcho).

 

Sim, tô com uma baita saudade. E saudade, como ensina meu amigo e filósofo Mário Sérgio Cortella, é aquilo que nos deixa saudáveis, que permite que a gente faça uma saudação. É  “a lembrança daquilo que já foi e que a gente gosta de fazer passar de novo pelo coração”.

 

Hoje, tudo aquilo que fizemos juntos me passou no coração, enquanto ouvia a palavra do presidente Romildo Bolzan Jr. — ele próprio que recentemente, como é de se esperar de um Imortal, venceu a peste.

 

Bolzan relatou o que o Grêmio está fazendo para driblar as dificuldades sanitárias e econômicas. Como está preservando seu patrimônio, seus valores e seus jogadores. Como se planeja para vencer este adversário tão minúsculo quanto violento. E como pretende sair desta batalha — talvez a mais difícil que já enfrentamos — mais forte e mais unido do que nunca estivemos.

 

Bah, que saudade eu tô de ti! Volta logo Grêmio, volta!