Avalanche Tricolor: o futebol tem dessas coisas

 

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Brasileiro – Arena Fonte Nova/Salvador-BA

 

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Everton em mais uma tentativa de ataque, em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

O futebol tem dessas coisas.

 

Fizemos jogos incríveis nesta temporada e saímos lamentando a falta de gol, o empate injusto, o erro do árbitro ou o campo maltratado. Desperdiçamos pontos e perdemos a oportunidade de estar no topo da tabela.

 

Na tarde em que tivemos o pior desempenho do ano, esquecemos de trocar passe no ataque, perdemos o controle do jogo — chegamos a tropeçar na bola, coisa rara neste time — e efetuamos chutes distorcidos, saímos do gramado com uma vitória de 2 a 0 e na vice-liderança da competição.

 

Verdade que os dois gols que fizemos foram resultado daquilo que temos de melhor: a velocidade com que se trabalha a bola e com que se escapa da marcação.

 

No primeiro, Everton foi talentoso para driblar e preciso ao encontrar Ramiro no meio da área, onde sofreu o pênalti. Por curioso, só fizemos o gol depois de Maicon errar a cobrança — outra raridade nestes últimos tempos.

 

No segundo, Everton, o “imparável” voltou a funcionar com uma escapada que deixou marcadores estatelados no chão. Depois foi uma corrida para ver quem conseguia empurrar a bola para dentro. Entre Pepê e Thaciano, ficou com esse último a tarefa de decidir o jogo.

 

Fora esses lances, pouca coisa se tirou da partida. Para não ser injusto, destacou-se a defesa que pressionada em boa parte do jogo soube afastar os perigos que se avizinhavam.

 

Torcedores devem estar a se perguntar: é melhor jogar bem e empatar ou jogar mal e ganhar os três pontos? A quem ainda tem essa dúvida, minha resposta: jogar o melhor futebol do Brasil como vínhamos fazendo até aqui e ganhar. Essa é a nossa missão e voltaremos a cumpri-la assim que as principais peças estiverem em forma novamente. Porque jogar bem e não conseguir o resultado até acontece — o futebol tem dessas coisas. Agora, jogar mal e vencer, é muito mais difícil — apesar de que o futebol, como vimos hoje, também apronta dessas. Ainda bem que dessa vez foi a nosso favor.

Avalanche Tricolor: crise? que crise?

 

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Brasileiro – Arena Grêmio

 

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Everton contra três marcadores em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

Sem crise. Sem gols, também. Mas sem crise. E se alguém pensa na possibilidade de que uma possa se instalar, está muito enganado. O Grêmio é campeão Gaúcho e da Recopa Sul-Americana. Está classificado às quartas-de-final da Copa do Brasil, segue firme e forte na Libertadores e se mantém na luta pelo Brasileiro

 

Mas está em oitavo? Sim, está mesmo. E pode ficar em nono, dependendo a combinação de resultados. Para quem só enxerga futebol pelo buraco da fechadura pode parecer um problema. Mas é preciso olhar de maneira mais ampla.

 

Começa que a distância para o topo da tabela é pequena — e pode mudar em duas ou três rodadas no máximo. Ao contrário de anos anteriores, ninguém disparou na liderança, apesar de haver times com campanhas consistentes — alguns inclusive com campanha dedicada ao Brasileiro, diferentemente do Grêmio.

 

O mais importante é que a falta de gols nas últimas partidas, que tanto incomoda o time e os torcedores, não ocorre pela falta de futebol —- a bola segue rolando de pé em pé a maior parte do jogo e com passes precisos acima da média dos adversários. A quantidade de finalizações também é significativa, mesmo estando abaixo do esperado pelo tempo que mantemos o controle da partida.

 

As lesões, principalmente no ataque, tiraram opções de Renato que, neste momento, está com jogadores de características semelhantes para colocar dentro da área. Sem essa variação, o adversário se fecha, e os caminhos para chegar ao gol ficam limitados. À medida que os machucados retornarem, os gols voltarão, também.

 

O curioso nesse empate de quarta-feira foi perceber que se antes a retranca era o antídoto usado por times que ocupavam a zona de rebaixamento, agora passou a sê-lo daqueles que estão no topo da tabela. Ou seja, a fórmula encontrada para parar o futebol bem jogado do Grêmio é impedir que se jogue futebol.

 

Se você estiver apostando em crise, não perca seu tempo. O futebol de qualidade haverá de perseverar.

 

Avalanche Tricolor: uma vitória com o talento de Everton, o “imparável”

 

Ceará 0x1 Grêmio
Brasileiro – Arena Castelão/Fortaleza CE


 

 

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Everton em mais uma escapada, na foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

 

Começo esta Avalanche com um pedido de desculpas — e endereçado a Thonny Anderson, o menino que em um minuto e meio fez aquilo que vínhamos tendo dificuldade para fazer durante esta e as duas últimas partidas pelo Campeonato Brasileiro.

 

Aos 35 minutos do segundo tempo, de cabeça, Thonny fez o único e necessário gol nesta vitória sobre mais um adversário que enfrentamos que estava na zona de rebaixamento — os dois times anteriores, para os quais desperdiçamos quatro pontos dos seis disputados, também estiveram ou estão por lá.

 

Peço desculpas a Thonny Anderson porque o lógico seria escrever esta Avalanche sobre ele, que aos 20 anos, emprestado ao Grêmio, tem sido colocado à prova desde o Campeonato Gaúcho. Cotado para sair jogando na partida deste domingo, havia quem o desafiasse a mostrar seu talento, pois estaria devendo o futebol que prometeu nas suas primeiras aparições.

 

Lamento, Thonny, mas meu coração pede para escrever sobre outro jogador — aquele que protagonizou a jogada que permitiu que você fizesse o gol. 

 

Foi Everton quem, no fim do ano passado, me proporcionou a lembrança mais emocionante do futebol nos últimos tempos. Eu estava ali, ao lado dele, em Al Ain, quando nosso atacante entrou na área, cortou para a direita e marcou o gol, já na prorrogação, que nos colocou na final do Mundial de Clubes.

 

Aquele gol parece ter feito nosso atacante desencantar. Parece ter provado a ele próprio o quanto era capaz de fazer com a camisa do Grêmio.

 

Até ali, Everton ameaçava dribles, arriscava alguns chutes e até decidia partidas, mas sempre deixava a ideia de que mais desperdiçava oportunidades do que as aproveitava. Era o jogador que entrava no segundo tempo quando o time não encontrava solução.

 

Hoje, com apenas 22 anos, Everton está muito mais maduro e preciso, sem perder o desejo de ser moleque, que lhe faz acreditar em todas as jogadas, mesmo com a marcação dobrada. Quando recebe a bola, não se satisfaz com o passe para o lado ou o lance burocrático. Quer mais. Olha para frente. Arrisca o drible e consegue passar pelos marcadores.

 

É duramente marcado, empurrado, acossado, mas resiste a todos os algozes. Ele não desiste. Não para nunca. Hoje, sofreu dois pênaltis. No primeiro, o pé foi puxado pela mão do zagueiro, mas o árbitro titubeou e voltou atrás. No segundo, foi derrubado em cima da linha, e o árbitro marcou fora.

 

Quando muitos já temiam mais dois pontos perdidos, a bola foi espantada da nossa área, em uma cobrança de escanteio, e encontrou Everton na nossa intermediária. Ele tocou a bola para a frente, cruzou o meio de campo, atropelou sem dó o marcador e seguiu conduzindo-a em velocidade impressionante.  Ao entrar na área, havia outro zagueiro para pressioná-lo. Everton não se incomodou. Tocou a bola pelo alto e na cabeça de Thonny. Deu de presente ao outro menino do nosso ataque o gol da vitória.

 

Everton comemorou o gol de Thonny apontado o dedo para o céu, enquanto todos nós, inclusive o autor do gol, apontávamos o dedo para ele — o “imparável” Everton.

Avalanche Tricolor: tá difícil, chama o Luan

 

Grêmio 1×0 Defensor
Libertadores – Arena Grêmio

 

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Luan comemora único gol da partida em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

Dias estranhos vivemos nesta semana.

 

A paralisação do setor de transportes de carga mexeu no cotidiano dos brasileiros. Os caminhões deixaram de entregar as mercadorias, interromperam o tráfego nas estradas e prejudicaram o trânsito nas cidades.

 

O alimento deixou de chegar aos armazéns e o pouco que chegou teve preços majorados. O combustível ficou escasso e as filas de motoristas nos postos são enormes — imagem que só perde em escândalo para o preço cobrado na bomba.

 

Sem abastecerem, os ônibus diminuem o número de viagens e os passageiros ficam mais tempo no ponto. O serviço de lixo é suspenso, a rota da polícia é reduzida e as ambulâncias correm o risco de não sair dos hospitais. Os aviões voam com restrições e os correios desistem de prestar o serviço.

 

O governo não tem de onde tirar dinheiro porque gasta muito e gasta mal. Quando poderia melhorar o gasto, chafurdou na lama da corrupção. A Petrobras também foi destroçada por corruptos e gente de má-fé, e na reconstrução impôs regras de preço que pressionam o bolso de quem já está com dificuldade — o dólar sobe, o preço do barril sobe e a conta chega na bomba de combustível.

 

O cidadão está cansado de pagar a conta dos desmandos e mesmo sentido no seu dia as dificuldades impostas pela crise no abastecimento sinaliza apoio a reclamação dos caminhoneiros. Esses reclamam com razão porque ficam sem manobra para negociar preço, os custos aumentam e o frete não compensa. Por trás deles, escondidos na boleia, estão empresários, donos de enorme frotas de caminhão, que, sem direito à greve, empurram os motoristas para a frente das manifestações.

 

No cenário político, aproveitadores reagem, populistas gritam e extremistas ocupam espaço com discursos baseados em ideias mentirosas e fraudulentas. Há os que sequer sabem fazer conta, os que têm medo de por a cabeça para fora e os sem-noção, que agem como se nada estivesse ocorrendo a sua volta. Poucos buscam o equilíbrio da fala e o meio-termo nas ações.

 

E o que tudo isso tem a ver com o tema central dessa coluna, autodenominada Avalanche Tricolor?

 

Foi esse caos que me tomou o tempo nessas últimas 48 horas, me impediu de escrever a Avalanche logo após o jogo como costumo fazer desde 2008, e de agradecer a Luan por seu talento e precisão nos chutes.

 

Quando todos os caminhos estavam fechados e a bola teimava em desviar nos buracos do gramado mal-cuidado — Renato tem razão em reclamar —, nosso camisa 7 chamou a responsabilidade para si, usou de sua autoridade com a bola no pé e encontrou uma solução para resolver de vez nossos problemas em campo. Assim, o Grêmio encerra a primeira fase líder invicto de seu grupo e com a segunda melhor campanha da Libertadores.

 

Luan para presidente!

Avalanche Tricolor: é o preço da fama

 

 

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Brasileiro – Vila Capanema/Curitiba-PR

 

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Luan sofre na marcação em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

‘O Grêmio é o time a ser batido neste ano’ — ouvi de um dos jogadores do time adversário de hoje, na transmissão pela TV. A frase se repete jogo após jogo. Tem sido assim ao fim de todas as partidas do Grêmio independentemente da competição que e sstejamos disputando. É quase um mantra dos adversários. É como se jogassem uma competição à parte — tem o campeonato que estão disputando e tem o jogo contra o Grêmio.

 

O adversário abre mão de jogar bola e se satisfaz se conseguir impedir que o Grêmio jogue, mesmo que a bola esteja sob nosso domínio na maior parte do tempo — como aliás voltou a ocorrer hoje. É tão surreal o comportamento dos rivais que quando conseguem tomar a bola mal sabem o que fazer com ela — já havíamos assistido a algo semelhante quando disputamos o clássico na Arena, há uma semana.

 

Eles não tem culpa. Não adianta reclamar.

 

É o preço da fama e do futebol bem jogado que nos levou ao título do Gaúcho, da Copa do Brasil, da Libertadores, da Recopa Sul-Americana e do vice do Mundial. Da mesma maneira que Renato soube preparar a equipe para levantar todos esses troféus, terá de organizá-la para driblar essa situação que se repetirá rodada após rodada. Terá de encontrar no elenco — e fica a torcida que todos se recuperem em breve — soluções para mudar o cenário da partida sempre que deparar com essas circunstâncias.

 

O importante é ter paciência e saber que os pontos desperdiçados contra dois adversário da parte de baixo da tabela — ficamos apenas com dois pontos dos seis disputados contra equipes da Zona de Rebaixamento, nas duas últimas rodadas — por enquanto podem ser recuperados ao longo da competição. Especialmente quando estivermos diante dos adversários diretos — aqueles que entram no campeonato para vencer. 

 

E como temos um time mais propício aos grandes jogos que venha logo a quarta-feira quando teremos Libertadores.

Avalanche Tricolor: o futebol foi justo com o Grêmio

 

Monagas 1×2 Grêmio
Libertadores – Venezuela

 

 

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O gol da justiça em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

O Grêmio foi a Venezuela em busca dos três pontos e jogou o necessário para trazer para casa a liderança do grupo A, na Libertadores. Entrou em campo com com a defesa titular, o meio de campo — que teve o reforço de Ramiro – e o ataque alternativos 

 

Cícero que costuma jogar boa parte das partidas, geralmente no segundo tempo, foi escalado. Alisson, nossa espécie de 12o titular, também — mas com pouco minutos de jogo sentiu lesão na perna e teve de ser substituído.

 

Renato montou a equipe de forma calculada. Sabia que o time não poderia render o mesmo que vem rendendo nas partidas em que jogam todos os titulares — mas tinha consciência que os 11 escalados estavam aptos a superar o adversário.

 

E fomos melhores durante praticamente 90 minutos de jogo. Dominamos a partida, anulamos as jogadas de ataque, ocupamos o meio de campo e tocamos bola com a precisão que o gramado permitia — aliás, um gramado muito aquém do que se deve exigir no futebol profissional.

 

Se no primeiro tempo arriscamos uma ou outra jogada na frente, no segundo, a pressão aumentou, especialmente pela esquerda. Curiosamente, foi do outro lado direito que surgiu o gol, após Ramiro arriscar de fora da área e pegar a defesa de surpresa.

 

Com a vitória parcial, a intenção era deixar o tempo passar reduzindo ao máximo os riscos lá atrás.

 

O adversário realmente fez muito pouco para merecer o empate. Na primeira vez que chegou ao nosso gol, Grohe fez o que sabe fazer — defendeu de maneira espetacular. Na segunda, quando o ponteiro já girava nos acréscimos, a injustiça: Kannemann tentou tirar a bola e marcou contra.

 

O empate nos deixaria em segundo no grupo e em função da tabela dificilmente conseguiríamos chegar à liderança na última rodada, mesmo com um vitória na Arena. Parecia que o futebol nos pregaria mais uma peça, cometendo uma injustiça contra o time mais qualificado do grupo e que se mostrava muito superior ao adversário.

 

Sabemos bem que o futebol tem dessas coisas. Nem sempre o melhor vence. A bola que você chuta bate no travessão, o passe final é desviado por um buraco no campo e o drible que deixaria o atacante na cara do gol é desperdiçado. De repente, um descuido aqui e um tropeço ali e o gol adversário se realiza. O futebol está cheio de injustiça e por muitas vezes já fomos vítimas desses eventos.

 

Quando parecia que nada mais restava fazer, além de lamentar o empate, lançamos a bola para dentro da pequena área e Cícero que estava prestes a dominá-la foi derrubado. Entre o empurrão sofrido e o pênalti assinalado foram milésimos de segundos — tempo suficiente para me passar pela cabeça as injustiças cometidas contra o Grêmio pelo árbitro do fim de semana passado, que não marcou ao menos duas penalidades a nosso favor.

 

Desta vez foi diferente — o juiz estava bem colocado e não titubeou. Pênalti marcado quando o relógio estava fechando o tempo extra. Confesso que, mesmo assim, as injustiças de outros tempos voltaram a me atormentar.

 

Quando vi Jailson pronto para a cobrança cheguei a pensar quanto as circunstâncias de um jogo podem ser injustas com um jogador como ele, que vem tentando reconquistar o lugar no time.

 

Errar em um momento tão decisivo não me surpreenderia. É muita pressão e emoção — pois o Grêmio acabara de levar um gol e aquele seria o último e definitivo lance da partida.

 

Jailson teve personalidade, bateu forte e distante do goleiro — fez o gol que colocaria o Grêmio em primeiro lugar no grupo A e nos deixaria próximo da melhor campanha de todos os demais times que disputam a Libertadores.

 

O futebol que já nos ofereceu tantas injustiças desta vez foi justo!

Avalanche Tricolor: o empate no Gre-Nal

 

 

Grêmio 0x0 Inter
Brasileiro – Arena Grêmio

 

 

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Luan supera a marcação, em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

 

Não foi o massacre que alguns dos nossos anunciaram ao fim da partida. Massacre foi o 5 a 0 que fizemos, em 2015, ou o 3 a 0, do Gauchão deste ano. Ali, sim, não sobrou pedra sobre pedra.

 

 

No Gre-nal da tarde de sábado, que marcou o início da rodada do Campeonato Brasileiro, dominamos toda a partida e a bola rodou entre os pés gremistas por quase 70% do jogo. Chutamos mais a gol, cobramos muito mais escanteio, roubamos mais a bola e, provavelmente na única estatística que perdemos para o adversário, erramos menos passes.

 

 

Se quiser incluir aí nos seus números, também tivemos muito mais pênaltis não-marcados — fala-se em dois, mas podem ter sido três os lances em que o árbitro não enxergou a irregularidade. Nem ele nem o amigo dele que fica assistindo à partida na linha de fundo. Se pudesse voltar ao tempo, certamente teria me preparado para atuar nessa função — já imaginou, assistir a todos os jogos pertinho do gol, não pagar ingresso, não fazer nada e ainda ganhar uma grana para isso?

 

 

Apesar da supremacia gremista, o gol não saiu. Encontramos um adversário com 11 jogadores na marcação. Às vezes 12, como no primeiro tempo, quando Maicon enfiou a bola entre os marcadores e encontrou Cortez dentro da área e de frente para o gol — o árbitro fez o que os marcadores não tinham conseguido. Às vezes 13, como na tentativa de cruzamento de Madson, no segundo tempo, em que a bola foi parar no escanteio depois de desviar no braço do marcador — neste lance nem o juiz nem seu amigo viram nada.

 

 

Saímos de campo com sabor de derrota, como disse Luan logo após o jogo — pouco depois de ter sido agredido por um adversário que estava no banco de reservas e entrou em campo apenas para causar confusão, e não foi punido nem teve seu nome registrado na súmula pelo árbitro.

 

 

Saímos de campo descontentes, como disse Maicon ao analisar o sentimento do único time disposto e em condições de jogar bola. Descontentes porque também era o único time em campo capaz de fazer aquilo que o técnico do adversário havia desejado em entrevista antes do jogo: um futebol bonito.

 

 

O Grêmio jogou o futebol bonito que o caracteriza porque só sabemos jogar assim. Mas o futebol nem sempre privilegia os melhores — é dos poucos esportes que permite que os medíocres perseverem. E sorriam ao fim da partida, mesmo depois de terem sido completamente dominados e massacrados taticamente.

 

 
Ops, perdão! Massacre foi o 5 a 0 que fizemos, em 2015, ou o 3 a 0, do Gauchão deste ano. Ali, sim, não sobrou pedra sobre pedra. Hoje, os caras tinham mesmo que comemorar! Empataram com o melhor time do Brasil.

Avalanche Tricolor: a alegria de Thaciano é a alegria da gente

 

 

Grêmio 3×1 Goiás
Copa do Brasil – Arena Grêmio

 

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A emoção de Thaciano registrada na lente de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

Na história do futebol, a partida desta noite na Arena ficará apenas para as estatísticas. Se conseguirmos chegar ao Hexa da Copa do Brasil, poderá ter algum destaque e os gols de Alisson e Thaciano aparecerão no DVD do título — aliás, ainda produzem este material ou nos contentamos com o que está publicado no You Tube? Pergunto porque sou do tempo em que o legal era ter no arquivo o disco com os gols, produzidos pela Rádio Guaíba (mantenho vários deles aqui em casa).

 

O Grêmio já havia garantido a classificação às quartas-de-final no primeiro jogo quando venceu por 2 a 0 na casa do adversário. Nesta noite, teria apenas de confirmar a passagem e por isso Renato preferiu investir no time alternativo. O próprio adversário não via muitas chances de recuperação e também entrou em campo com seus reservas.

 

O público de pouco mais de 12,5 mil pessoas sinalizava a importância desta partida em meio a tantos outros jogos decisivos que estão na nossa agenda.

 

Mesmo com a pouca relevância da partida, ver Cícero, na posição de segundo volante, meter bola dentro da área no pé de Alisson, como no primeiro e terceiro gols do jogo, é alvissareiro. A temporada congestionada de jogos exigirá muito do elenco, e jogadores que estão no banco terão de ser usados com maior frequência se pretendemos nos manter vivos em todas as competições que disputamos.

 

Cícero já tem seu lugar na história com o gol que nos encaminhou o título da Libertadores, em 2017. Alisson é o 12º titular a ponto de já ser um dos goleadores do time, mesmo entrando sempre no segundo tempo. Com a possibilidade de sair jogando e demonstrando tremenda agilidade em campo — como hoje — fez dois gols e deu assistência para outro.

 

E é sobre o outro gol que quero falar com você, caro e raro leitor desta Avalanche — o gol de Thaciano, marcado aos 30 minutos do segundo tempo, quando a classificação já estava confirmada. A jogada foi bonita, sim, com a bola sendo conduzida por Alisson até a entrada da área e sendo passada por trás dos zagueiros. Foi tanta precisão que havia não um, mas dois jogadores em condições de chutar.

 

Quem chutou foi Thaciano — um garoto de 22 anos, prestes a completar 23, no próximo sábado. Com nome estranho, Thaciano Mickael da Silva, nasceu em Campina Grande, na Paraíba, estado muito bem representado por seu sotaque, como foi possível ouvir na entrevista pós-jogo. Começou no Porto de Pernambuco, foi parar no Boa Esporte, em Minas, time ao qual pertence até hoje —- ele está emprestado ao Grêmio.

 

Thaciano chegou a jogar no início da temporada no time de jovens que representou o Grêmio em boa parte da fase de classificação do Campeonato Gaúcho. Fez pouco, como fez pouco quase todo aquele time. Desde lá, ficou treinando entre os reservas e nunca mais havia tido oportunidade entre os titulares.

 

Hoje saiu no banco e foi chamado por Renato para substituir Lima, aos 26 do segundo tempo, quando a partida ainda estava empatada. Em quatro minutos apareceu dentro da área, recebeu a bola de Alisson, fez um giro sobre a própria perna e marcou seu primeiro gol com a camisa do Grêmio.

 

O desequilíbrio provocado pelo chute a gol o deixou de joelhos para comemorar. Os olhos se fecharam e a expressão no rosto, registrada pelas câmeras da televisão, revelava sua emoção. Ensaiou um choro pela alegria do gol. E foi retribuído pelo abraço dos colegas que perceberam o que representava aquele momento para o jovem atacante.

 

Mesmo que a partida de hoje, frente a tantas apresentações magistrais registradas pelo time de Renato neste ano, fique apenas nas estatísticas e, tomara, no roteiro do Hexa da Copa do Brasil, ver a emoção de Thaciano deu uma relevância especial para o jogo desta noite, na Arena.

 

A alegria dele é a alegria dos garotos da pelada que um dia sonharam jogar em um time grande — é a alegria que eu sonhei ter um dia na minha vida.

Avalanche Tricolor: vitória para quem ama o esporte, como Marcelo Barreto

 

Grêmio 5×1 Santos
Brasileiro – Arena Grêmio

 

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Alegria, alegria em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

Dos cronistas que os jornais brasileiros reservam para as edições dominicais, gosto muito de ler Marcelo Barreto — que a maioria dos caros e raros leitores deste blog conhece da SporTV. Logo cedo quando abri o caderno de esportes de O Globo, li a coluna na qual ele se penitenciava por ter desperdiçado oportunidades de escrever sobre as coisas lindas do esporte, como a cesta de três pontos de LeBron James no segundo final da partida que garantiu uma das vitórias do Cleveland Cavaliers sobre o Indiana Pacers, na NBA.

 

Barreto escreveu que lamentava ter perdido a capacidade de se encantar com as coisas belas do esporte — provavelmente porque sua visão anda embaçada por cenas de torcedores brigando na arquibancada, jogadores se engalfinhando em campo e cartolas roubando nos bastidores. Mesmo para jornalistas com a qualidade dele, é difícil impedir que a visão seja contaminada por esses fatos, tantas são as mazelas esportivas que temos de noticiar —- sem contar o cotidiano nas redações, onde há muita competição e tarefas frequentes a serem cumpridas.

 

Ao mesmo tempo que faz uma espécie de mea-culpa, Barreto deixa registrado que ama o esporte e só precisa ser lembrado disso de vez em quando.

 

Lembrei muito dele na noite deste domingo enquanto assistia ao Grêmio jogar na Arena, em Porto Alegre. E torci para que Barreto tenha tido oportunidade de ver o futebol jogado pelo time de Renato. Seu coração deve ter batido mais forte e o sorriso tomado conta de seu rosto ao longo dos 90 e pouco minutos em que a bola rolou de pé em pé com uma qualidade bem superior à média.

 

Desde os primeiros minutos, o Grêmio sufocou o adversário que não encontrava espaço para sair jogando ou trocar um passe que fosse. Assim que a bola era recuperada, passeava pelo gramado de um lado para o outro, às vezes era esticada por trás dos marcadores para chegar ao pé de um companheiro mais próximo da linha de fundo ou enfiada na área.

 

Quando a marcação se fechava, Maicon e Arthur conduziam a bola colada no pé, de cabeça erguida e com o olhar vislumbrando o colega mais bem colocado. Se chegasse a Luan, a jogada fluía com dois ou três dribles curtos. E o mesmo se repetia com Everton — especialmente depois que nosso goleador marcou o primeiro gol.

 

Os laterais Cortez e Léo Moura apareciam livres a todo o instante e se transformavam em ponto de apoio para a jogada seguir em frente — às vezes em trocas rápidas e precisas de passes, às vezes em escapadas para o cruzamento.

 

André e Ramiro se deslocavam mais adiante e se apresentavam para dar sequência no lance e quando possível chegar ao gol — e o Grêmio colocou a bola cinco vezes dentro do gol e a fez chegar próximo dele em incontáveis oportunidades.

 

O Grêmio fez gol de toque, fez gol de falta, fez gol a longa e média distância e fez gol na cara do gol. Usou todo seu repertório. O Grêmio foi um show na noite deste domingo — para a alegria de quem ama o esporte.

 

E se você, Marcelo Barreto — que ama o esporte — gostou do jogo de hoje, imagine o sentimento de quem ama o Grêmio como eu!?

 

Em tempo: pelo que o Grêmio faz no futebol e LeBron faz no basquete, será um prazer ler as próximas crônicas dominicais.

Clubes são responsáveis por 88% do dinheiro que move o futebol no Brasil

 

 

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Arena Grêmio em imagem de  Richard Dücker

 

 

Na ponta do lápis, o tamanho do mercado de futebol no Brasil é de R$ 6,25 bilhões, incluindo as receitas dos clubes – responsáveis por 88% desse valor -, das 27 federações estaduais e da CBF. O número está na pesquisa recém-divulgada pela Sports Value com base nos dados de 2017, seguindo um histórico que se iniciou em 2003.

 

 

O foco do trabalho coordenado por Amir Somoggi, especialista em gestão esportiva, são os 20 clubes de maior faturamento no Brasil que juntos geraram R$ 5,05 bilhões no ano passado, receita 4% maior do que em 2016. A marca é importante porque pela primeira vez superou os 5 bi.

 

 

O Flamengo está no topo desta lista, como já era de se esperar, teve receita de R$ 648 milhões — tem considerável vantagem sobre o segundo colocado, o Palmeiras (R$ 503 milhões). Na sequência, mais dois times da capital paulista: São Paulo (R$ 408 milhões) e Corinthians (R$391 milhões).

 

 

Para furar o eixo dos clubes mais ricos de RJ-SP temos o Cruzeiro (R$ 344,3 milhões) e o meu Grêmio (R$ 341,3 milhões).

 

 

Clubes

Receita total dos clubes — tabela e fonte Sports Value

 

A televisão ainda é quem mais ajuda a engordar os cofres dos clubes, com receita de R$ 2,02 bilhões, em 2017 —- o número é 18% menor do que no ano anterior, queda que estaria relacionada ao pagamento de luvas pela TV Globo e Esporte Interativo, em 2016, o que não não se repetiu ano passado.

 

 

Neste aspecto, Somoggi chama atenção para a divisão desta renda: a diferença entre o clube que mais recebe e o que menos recebe — falamos aqui de Flamengo e Chapecoense, respectivamente — é de 5,3 vezes, uma das maiores do esporte mundial. Incrível,o país das desigualdades sociais não poupa sequer o futebol.

 

 

A transferência de jogadores foi a fonte de receita que mais cresceu de um ano para outro: 40% — é a segunda mais importante para os clubes.

 

 

Uma curiosidade: o São Paulo — oitavo clube que mais recebeu dinheiro da TV — é o único que teve a negociação de atletas como principal fonte de arrecadação (39%), em 2017.

 

 

O patrocínio e a publicidade — que percebemos especialmente quando expostos na camisa dos clubes e, confesso, me incomodam pela interferência visual — por incrível que pareça ainda são pouco explorados diante do potencial dos clubes, suas marcas e o impacto no torcedor. Mesmo assim houve crescimento de 27% em relação a 2016 com o Palmeiras despontando no ranking — o clube paulista faturou R$ 131 milhões contra R$ 53 milhões obtidos pelo Grêmio, quinto colocado neste item, que teve forte exposição ano passado, sendo campeão da Libertadores e vice-campeão do Mundo.

 

 

As receitas com sócios cresceram 17% e a bilheteria 9%.

 

 

Receitas

arte e fonte Sports Value

 

 

A Sport Value mediu a força financeira do futebol brasileiro com as demais ligas pelo mundo e para ter dados mais reais desconsiderou os valores gerados com transferências de atletas: os clubes brasileiros se mantém na sexta posição do ranking mundial atrás das ligas da Inglaterra, Alemanha, Espanha, Itália e França.

 

 

Os clubes conseguiram melhorar a relação dívida/receita média nos últimos anos — indicador importante para avaliação de como está sendo feita a gestão dos clubes brasileiras. Especialmente pelo aumento de receitas, a relação vem registrando queda ano após ano —- se em 2014 essa relação era de 2,07, ano passado foi de 1,3.

 

 

Um dado que deve preocupar não apenas aos clubes mas aos cidadãos brasileiros: em uma década, as dívidas com o Governo Federal dobraram de tamanho — de R$ 1,2 bilhão, em 2008, passaram para R$ 2,5 bilhões, em 2017. É dinheiro que a União deixa de arrecadar e fará falta para investimento e custeio.

 

 

O grande drama desta questão é que os clubes brasileiros contam com forte lobby no Congresso Nacional — já ouviu falar da bancada da bola — e conseguem perdão para as dívidas com o Governo quando chegam a valores astronômicos.

 

 

Pra fechar nossa conversa, uma dúvida que fiquei desde o primeiro parágrafo deste texto: se o poder econômico dos clubes é tão grande — e que bom que é assim —, a ponto de representar 88% do total do valor gerado pelo futebol brasileiro, por que é a CBF e seus cartolas que ainda mandam e desmandam na organização de eventos e calendário?

 

 

Em tempo: para você que está acostumado  a ver meu Grêmio em destaque neste blog, recomendo a análise de Eduardo Gabardo, publicada no GaúchaZH, que revela a superioridade gremista sobre seu arquirrival também no campo da economia.