No aniversário de SP, uma galeria de fotos para destacar a beleza da cidade

 

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(texto e foto de divagação)

 

A cidade de São Paulo tem uma galeria só para ela e que fica na loja 22 da área comercial do símbolo da cidade, o histórico edifício Copan, projetado por Oscar Niemeyer.

 

São fotografias do skyline da Avenida Paulista, aéreas do centro, prédios históricos como o Martinelli, o Itália, o Altino Arantes (antigo Banespa), o São Vito (demolido em 2011), o Teatro Municipal, a Catedral da Sé, além de vistas do Copan, que também é retratado pelas lentes do premiado fotógrafo RenattodSousa (dois Nikon Photo International e dois Prêmios Abril de Jornalismo).

 

A foto galeria exibe uma exposição permanente de imagens de São Paulo, impressas e montadas em diferentes materiais como canvas (tela de algodão), metacrilato, molduras tradicionais, echarpes, entre outros.

 

No aniversário de São Paulo a galeria estará aberta. A visitação é gratuita.

 

Serviço

 

RenattodSousa Foto Galeria
Endereço: Avenida Ipiranga, 200, loja 22, edifício Copan.
Telefone: (11) 3237-0056
Funcionamento: de 2ª a sábado, das 11 às 19 horas.
Visitação gratuita.

Conte Sua História de São Paulo 463: as cores dos ônibus que rodam na cidade

 

Por Sérgio Slak

 

 

Nasci na Vila Prudente, há 59 anos, e morei até os sete anos na Vila Ema, tudo na zona Leste. Com o falecimento do meu pai mudamos para a casa dos meus avós em Moema, na zona Oeste. Em frente de casa, tinha o ponto inicial da linha 670 – Moema – Praça da República, da Viação Moema. Eram ônibus nas cores vermelha, verde e branca. Lá perto tinha, também, o ponto inicial da linha 77 Vila Uberabinha-Rodoviária, da Viação Caribe. Eram amarelo, vermelho e branco.

 

Comecei ali meu fascínio pelos ônibus. E o que me encantava é que havia muitas empresas e cada uma com suas cores. Algumas com apenas uma linha. Por exemplo, achava maravilhosos os ônibus da Viação Útil, que faziam a linha Barra Funda – Bosque da Saúde, nas cores azul e cinza. Tinha a imagem de um cachorro atravessando o numero 969.

 

É claro que existiam as empresas com mais linhas de ônibus, como a Bola Branca que tinha as cores branco e vermelho. Não podemos nos esquecer do azul e bege da CMTC. Lá na gestão do prefeito Jânio Quadros, havia os Vermelinhos e os Fofões de dois andares.

 

Adorava olhar aqueles ônibus circulando, numa festa de cores e estilos de pintura.

 

O cenário passou a mudar no fim da década de 1970 quando criaram os consórcios de empresas de ônibus, as menores foram compradas. Na gestão da prefeita Luisa Erundina ocorreu a municipalização e todos os ônibus passaram a ter as cores branca e vermelha. Na de Marta, criaram-se oito consórcios e aí ficaram apenas oito cores em toda a cidade.

 

O transporte público evolui muito. Temos bilhete único, corredores, terminais, veículos articulados, biarticulados, com ar-condicionado e até wi-fi. Mas sinto uma saudade danada daquelas cores rodando por São Paulo.

 

Quando estou em um ponto, fecho os olhos e imagino que o ônibus que está chegando traz a marca da CMTC ou o colorido de algumas das velhas empresas.

 

Sergio Slak é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Envie seu texto para milton@cbn.com.br e conte a sua história da nossa cidade.

Conte Sua História de São Paulo 463: a costureira do Brás

 

Por Meire Theodoro

 

 

Nasci no Jaçanã. Em 22 de março. Tenho 40 anos e sou de família humilde: meus pais vieram do Nordeste muito jovens e moravam na cidade vizinha: Guarulhos.

 

Um dos meus primeiros empregos foi no Brás, na rua Monsenhor de Andrade. Era uma fábrica de confecção de lingerie onde se fazia desde o corte do tecido até a embalagem das peças. Trabalhar no Brás, um dos bairros de comércio mais movimentados de São Paulo, era curioso. Gostava de ver aqueles ônibus enormes com placas de todas as partes do Brasil que estacionavam a espera das sacoleiras.

 

Tinha 18 anos e gostava muito de tudo aquilo. Fui admitida como ajudante de produção e para bater o cartão às 7h10 da manhã, acordava às cinco e pegava o busão. Não tinha ainda a estação Tucuruvi do Metrô. Descia no Terminal Rodoviário do Tietê e embarcava no ônibus Museu do Ipiranga.

 

Com o tempo na confecção, aprendi a costurar. Meus pais, separados. Então, eu, uma das irmãs mais velhas, percebi que a vida era cheia de surpresas e responsabilidades. Aos 21 anos, fiz vestibular e com o salário da costura paguei meu curso de pedagogia. Era difícil conciliar mas eu queria muito … Gostava de falar. Percebi já no 2o Grau. Nas aulas de apresentação tirava boas notas e sonhava ser professora.

 

Era uma rotina difícil. Trabalho e faculdade. Saía às cinco da manhã, chegava às 11 da noite. Namoro nem pensar. O tempo passou rapidamente. Leciono há 20 anos na prefeitura, na Educação Infantil e Pós-graduação, em Educação Inclusiva. Sou casada, mamãe de um casal de filhos adolescentes lindos.

 

Moro em Guarulhos, acesso fácil a São Paulo, para onde vou todos os sábados sempre para descobrir algo interessante.Deixo o carro na região da 25 de Março e faço um “tour” por aí.

 

Meire Theodoro é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais uma capitulo da nossa cidade. Escreva para milton@cbn.com.br. 

Conte Sua História de SP 463: o cheiro das coxinhas na padaria da Consolação

 

Por Miguel Chammas

 

 

Primeiramente, Escola Técnica de Comércio Frederico Ozanan; depois Colégio Comercial Frederico Ozanan – boate Ozanan para os detratores. Reduto e fonte de ensino para todos os alunos.

 

Fui admitido em suas fileiras nos primórdios da década de 1950 para cursar o antigo Admissão. Fui aluno, atleta, diretor do Grêmio, fundador e membro da fanfarra, diretor artístico do GATO, membro efetivo de diversas comissões pró-formatura, professor substituto de Contabilidade Básica e, finalmente, diplomando do Curso Técnico de Contabilidade, em 1965.

 

Comecei minha vida na escola quando ela estava na Praça Franklin Roosevelt, 123, e a acompanhei até meados de 1967 já na Rua Augusta 423.
Eu era de família humilde e mesmo antes da conclusão do curso básico, por necessidade de trabalhar, estudava no curso noturno. Para economizar, minha ida para a escola ao fim do expediente de trabalho era metade a pé e a outra, andando.

 

O grande obstáculo que eu tinha de vencer, diariamente, era o quarteirão entre as ruas Caio Prado Jr. e Marquês de Paranaguá. Nessa esquina, pouco antes da escola, estava, ou melhor, ainda está a Rotisserie Bologna. O aroma de seus quitutes nos encontrava metros antes de seus portais. Ato contínuo, inebriados pelo cheiro, consultávamos nossos bolsos, quase sempre vazios, na busca de alguma moeda que nos permitisse saciar nossa gula com mordidas nas coxinhas de paladar inigualável. O tamanho não era nada avantajado, mas ganhavam da maioria das coxinhas vendidas na velha Sampa. Secas de gordura, com um creme consistente e saboroso, e um pedaço considerável de frango.

 

Era o alívio da nossa fome durante os estudos da noite. Isso quando encontrava algum dinheiro no bolso.

 

Quando os trocados não nos permitiam fazer loucuras gastronômicas, nos contentávamos em entrar na loja e sentir o cheirinho das tais coxinhas de frango. Pra disfarçar, íamos ao balcão da sorveteria, abríamos a torneira e tomávamos um copo d’agua estupidamente gelada.

 

Triste consolo para este pobre estudante!

 

Miguel Chammas é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Vamos juntos comemorar mais este aniversário da nossa cidade. Envie seu texto para milton@cbn.com.br. 

Conte Sua História de SP 463: O monstro da trilha do Tremembé

 

Por Ozair Lessa

 

 

O ano era 1961. Eu com cinco anos e meio morava na avenida Sezefredo Fagundes, antiga Vila Zilda, bairro do Tremembé, zona norte da cidade. Morava na parte de cima do sobrado. Embaixo, ficava a Pensão Fartura, nome do restaurante que minha mãe, meu irmão e minhas três irmãos administravam. Naquela altura, meu pai tinha saído pelo mundo em busca de uma situação financeira mais confortável para depois levar toda a família.

 

O restaurante era frequentado por motoristas de caminhões e ônibus que por ali acessavam a rodovia Fernão Dias, em direção a Minas Gerais. Com a família formada majoritariamente por mulheres, abaixo do letreiro com o nome do restaurante uma frase era sempre retocada para que nenhum freguês pudesse argumentar que não tinha notado: “AMBIENTE RIGOROSAMENTE FAMILIAR, RESPEITE PARA SER RESPEITADO”.

 

Para os mais distraídos ou que não sabiam ler, minha mãe deixava sempre bem visível um cassetete de borracha, presente de um primo integrante da antiga Força Pública. E quantas vezes vi aquele cassetete “cantar no lombo” de engraçadinhos que se enganavam com a aparência frágil da dona Benedita!

 

Eu era só uma criança muito feliz que, morando na entrada de uma grande reserva florestal, fazia dela meu quintal e passava o dia trepado em árvores dando asas à imaginação. Ali, eu e mais dois ou três amigos, cavalgávamos como o Roy Rogers, o garoto Rusty de Rin-Tin-Tin e o Zorro e Tonto. Às vezes, voávamos como o Nacional Kid.

 

Fui estudar no Grupo Escolar de Vila Bortolândia, hoje Escola Estadual Judith Guimarães dos Santos, distante uns dois quilômetros de nossa casa. Para me ensinar o caminho mais curto, meu irmão entrou por uma trilha batida dentro de um matagal. Na sua companhia até achei o caminho divertido.

 

Quando tive de ir sozinho, a história foi diferente: a trilha parecia interminável e cheia de ruídos estranhos. Foi que em um dia, um desse ruídos veio em minha direção e um “monstro” saiu de uma moita rangendo os dentes de forma ameaçadora. Quadrupliquei minha velocidade até ele desistir de correr atrás de mim.

 

No dia seguinte, o ritual para sair de casa foi mais lento: acordar, vestir o uniforme, preparar a lancheira com um sanduíche de pão com ovo e o frasco com suco ou água.

 

O que está esperando menino? Vai … se não você se atrasa!

 

Mas e o “monstro”? – pensei comigo. Não, não vou contar. Como explicar que eu, um homenzinho feito, que enfrentava os incas venusianos invasores da terra, estava com medo? E assim foram os dias: entrava na trilha, o monstro aparecia e eu chegava à escola suado e com taquicardia.

 

Numa das idas, já atrasado, esqueci de passar a alça da lancheira pela cabeça e quando o “monstro” apareceu corri e ela caiu no chão. O “monstro” parou de me seguir e foi direto na lancheira onde encontrou o pão com ovo preparado pela minha mãe. Entre uma mordida e outra, olhava para mim e parecia esboçar um sorriso de agradecimento.

 

Passei fome naquele dia, mas fiquei feliz e aliviado por descobrir o verdadeiro objetivo do “monstro” da trilha. Minha mãe também, pois a partir daquele momento pedi para que ela fizesse dois sanduíches.

 

“Tá crescendo este menino, tá com uma fome de leão!”

 

Mal sabia ela que o segundo sanduíche era o salvo-conduto, cobrado pela cachorrinha que vivia solta por ali, e de tão bem tratada ficou minha amiga.

 

Ozair Lessa é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. E a narração de Mílton Jung

Conte Sua História de São Paulo 463: as cocheiras dos Matarazzo, na Pompeia

 

Por Osnir G. Santa Rosa

 

 

Vi e participei de fatos dignos de nota desde que nasci na capital de todos os paulistas. Isso lá no início dos anos de 1940. Naquela época, milhares, milhões de famílias vinham para a cidade de São Paulo. A luta por moradia era terrível. Ainda não havia favelas. As pessoas se amontoavam em horrorosos cortiços.

 

Meu pai ingressou nas Indústrias Reunidas Francisco Matarazzo, na Vila Pompeia, zona Oeste da cidade, para dirigir os caminhões da Ford que substituiriam, como de fato substituíram, os veículos de tração animal.

 

Lá, havia 80 cocheiras muito bem preparadas para os muares que seriam, diríamos assim, despedidos. Ao mesmo tempo, a dona da casa em que nasci, na rua Duílio, no bairro da Lapa, também zona Oeste, pressionava minha família a devolver o imóvel porque havia quem estivesse disposto a pagar mais …

 

Meus pais estavam em polvorosa.

 

Foi quando meu pai soube que os animais já tinham sido dispensados do trabalho. Ele voou para lá a fim de assegurar uma das 80 cocheiras onde entendia ser possível viver com a família até conseguir outra casa.

 

Teve uma das maiores decepções de sua vida, que seria repleta de tantas outras decepções: todas as cocheiras já estavam ocupadas por outras famílias que, assim como a nossa, não encontravam um lugar decente para morar.

 

O Conte Sua História de São Paulo tem sonorização de Cláudio Antonio e narração de Mílton Jung.

Conte Sua História de São Paulo 463: a tristeza do palhaço, no Butantã

 

Por Samuel de Leonardo

 

 

Recordo que na minha infância passada no Jardim São Domingos, no Butantã, zona Oeste, era comum periodicamente instalarem-se circos e parques nos terrenos baldios existentes em abundância naqueles anos de 1960. Região ainda em formação, distante do centro, era praticamente um descampado com poucas residências e um comércio capenga, formado por uma única avenida que abrigava a padaria, a farmácia do Zé, o salão de barbeiro do João, o Ligeirinho, o Armazém dos Gregos, um açougue, e mais de uma dezena de botecos, desses onde o estoque principal é variado, variado nos tipos de cachaças, e ainda as mesas de bilhar.

 

Se o luxo e as chamadas coisas boas de consumo não eram acessíveis para nós garotos da periferia, a felicidade era farta. Tudo nos contentava: o jogo de bola no campinho ao lado de casa, a pipa com a armação de varetas de bambu, o carrinho de rolimã, o jogo de taco, a bolinha-de-gude, o peão e outras brincadeiras de custo zero.

 

O circo me fascinava, cuja paixão perdura até hoje. Lembro-me que freqüentemente se instalavam por vezes parques de diversões com brinquedos limitados, em precárias condições de segurança, e por outras alguns circos mambembes.

 

Dos parques tenho na memória as falas do serviço de alto falantes que repetidamente dava a nota:

 

-“Venham se divertir e passar horas agradáveis no Parque de Diversões Flor da Serra”

 

– “Agora, no intervalo musical uma canção que alguém presente no recinto oferece à garota trajando blusa cor de rosa e saia preta como prova de admiração.”

 

Com relação ao circo, além da fascinação, está vivo na memória fato ocorrido num domingo à tarde, quando o Circo e Teatro Jóia, do palhaço Rebian, estreava as novas lonas impermeabilizadas com um produto inflamável.

 

O locutor Ditinho anunciava as atrações:

 

“Grande tarde hoje no circo Jóia. No picadeiro: Rebian, o palhaço que fez rir mais de 5 mil crianças no ginásio do Ibirapuera, e no palco o astro do rádio e da televisão, o ídolo da mini guarda, Ed Carlos. Quem não vier o que é? É goiaba!”

 

Casa cheia, mas naquela tarde não pude ir, não tinha como pagar. O espetáculo se desenrolava com atrações variadas antecedendo o ídolo que à época ainda fazia sucesso. De repente gritaria geral:

 

Fogo! Fogo!

 

O caos é instalado. Do campinho onde jogávamos futebol, víamos a fumaça cinza se elevando, corremos em direção ao circo. Na contramão encontrei com o estimado amigo Eugênio, ainda mais branco em desabalada carreira rua abaixo. Quando nos viu parou para dizer:

 

Pegou fogo no circo.

 

Os bombeiros não chegaram a tempo de apagar o incêndio. Sobrou apenas o mastro central. Dentre todos os espetáculos que eu presencie em um circo aquele foi o que mais me marcou: no centro do picadeiro, Rebian abraçado à mulher grávida, com os filhos ao redor, choravam desolados. Nunca mais me esqueci de Rebian e sua família encenando a tragédia da vida real naquele picadeiro, em meio às cinzas que outrora proporcionara tanta alegria.

 

Essa é uma pequena homenagem ao palhaço Rebian, o Carioca, do Circo e Teatro Jóia, que me fez soltar muitas gargalhadas na infância e contestar desde então a frase que diz que “alegria do palhaço é ver o circo pegar fogo”.

 

É não!

 

Samuel de Leonardo é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio e a narração de Mílton Jung.

Conte Sua História de SP: com medo, quase perdi a festa do IV Centenário

 

Por Denise Gimenez Ramos
Ouvinte-internaura da CBN

 

 

A cada estouro enfiava-me ainda mais entre as ferragens de baixo do banco traseiro do grande Buick preto de meu pai. O ar rarefeito, com cheiro de pólvora queimada, entrava por trás do pinico branco que minha tia Maria levou, no caso de uma “emergência”. O parque do Ibirapuera era longe. Banheiro nem pensar. Os homens ainda tinham as árvores, mas as meninas…

 

Entre explosões e aplausos choviam prata e ouro.

 

– Oh! Nossa! Olha lá! Olha! Ohhhhhhhh! Nossa, que lindo! Mais um!

 

Era uma pirotecnia interminável, mas para mim, uma tortura sem fim.
Contaram que quando tinha um ano, um balão de gás estourou bem no meu rosto, e desde aí, nunca mais me recuperei do susto com rojões.

 

Mas naquele dia, de vez em quando, tantas eram as exclamações de espanto, que me atrevia a levantar a cabeça. E, puxa: que espanto! Não sabia que era possível o céu ficar tão bonito; o vermelho tão rubro e as estrelas tão perto. Quase podia tocá-las. Mas, para isso…

 

Sai daí menina! Mas que boba! Sabe quando você vai ver isso de novo? Daqui 100 anos! Sabe o que é isso, menina? Cem anos?

 

Fazia as conta: – Seis + 100 … quanto é mesmo? Ó Diváa, quanto é mesmo 6 + 100? Será que vou estar muito velha? É verdade que se não olhar agora, talvez nunca mais?

 

Eu confiava na Diva, minha prima mais velha. Mas, ela estava lá longe maravilhada e achando no mínimo ridículo aquele “medaço” todo.

 

Ainda bem que a Márcia, minha outra prima, companheira de esconderijo e medo, cochichando baixinho, quando tudo parecia silêncio, num gesto de extrema coragem, me puxou pelo vão entreaberto, e, agachadas na relva, ficamos lá, no deslumbre de uma noite que impregnou a memória e o orgulho de ser centenária. De ser da cidade que sabia sonhar alto, que sabia construir para baixo, que recebia os de fora e acolhia os de dentro.

 

Mais chuva, agora de triângulos prateados. Centenas, milhares. Corríamos pelas ruas maravilhadas. Quantos você pegou? Quantos? Ei, São Paulo, ei São Paulo, São Paulo da garoa prateada. Estávamos ricas. Cheias de prata.

 

Corro ansiosa pro armário. Que alívio! Lá está ele, lá no fundo, entre papéis amarelados, letra redonda, tesouros rabiscados, o triângulo de prata guardado. Bem guardado.

 

Meu pai já se foi. Ele era um paulista paulistano. Típico. Herdeiro de tradições europeias juntadas em solo indígena pintado de africano. Ensinava, mais pela ação do que pelo discurso, que ser paulistano era ser da turma dos ideais, da força transformadora, da criatividade ética, da luta, da integração, da honestidade e da cordialidade. Orgulhoso, ah isso ele era, muito. Orgulhoso de sua cidade, às vezes inconformado, mas acima de tudo esperançoso, crente. Isso ele tinha certeza.

 

Cria que tinha jeito e que devagar, mas sempre, persistentemente, os paulistanos caminhariam e um dia chegariam lá.

 

Mais chuva prateada, por favor!

 

O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar, aos sábados, 10h30, no CBN SP. Tem sonorização do Cláudio Antonio e narração de Mílton Jung.

Conte Sua História de SP: aos 11 anos conheci a cidade dos bondes e da garoa

 

 

Sou do Paraná. Da pequena cidade do norte do estado, Santa Inês, ali na divisa com o rio Paranapanema. Ainda hoje pequena cidade, pois diz o censo que não moram muito mais de 2 mil e 500 pessoas por lá.

 

Cheguei aqui em São Paulo em 7 de Setembro de 1964, em pleno feriado da Independência. No dia seguinte já havia conseguido trabalho na Praça João Mendes, no centro da cidade. É ali que temos o fórum que também leva o nome do famoso jurista João Mendes de Almeida, construído bem antes de eu chegar, na década de 1950.

 

Imagine que tudo isso me aconteceu com apenas 11 anos de idade. Foi nessa época que comecei a produzir um filme em minha cabeça com imagens que ainda estão muito presentes na memória: para o menino recém-chegado a cidade era enorme: lembro-me do movimento dos carros que já era facilmente percebido; por lá, também, passavam os bondes levando trabalhadores e estudantes; tinha ainda a correria das pessoas pelas calçadas; a garoa, que quase não existe mais, era a marca da cidade. E aqueles prédios …. gigantes.

 

Sou muito grato a São Paulo. Foi aqui que construi minha vida. Foi aqui que casei, há 42 anos, e consegui dar boa educação aos meus três filhos.

 

Só tenho a te dizer, São Paulo, obrigado, pois com todos seus defeitos te carrego aqui no meu peito.

 

Carlos Pereira da Silva é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio.

Conte Sua História de SP: as enchentes na época do verão de 1929

 

Por João Batista de Paula
Ouvinte-internauta da rádio CBN

 

 

Gostaria de falar um pouco da minha cidade São Paulo, da charmosa garoa, das noites escuras da serração do viaduto do Chá, da av. São João do Bar Automático, da Catedral da Sé. São Paulo das serenatas e dos cancioneiros das madrugadas. Do Largo do Piques, ponto de carroceiros com suas belas parelhas de cavalos que faziam mudanças e entregas.

 

Falar da sempre acolhedora São Paulo é falar de pessoas vindas dos quatro cantos do mundo, falar da minha Rua Fernandes de Abreu, ex-Mário de Castro, onde eu nasci no velho e bom Itaim bibi, que nos anos 40 e 50 era um interior dentro de São Paulo.

 

Quero falar para quem não viu as enchentes na época das chuvas de verão de 1929. Uma enchente de grandes proporções atingiu a cidade. As águas do Tietê não deram vazão  suficiente pelo rio Pinheiros, cobriram as várzeas. Dizia-se que a Light controlara a vazão das barragens existentes demarcando, assim, as áreas inundadas, que passariam a ser propriedade sua. Para demarcar casas e terrenos atingidos pela cheia, em uma rápida pesquisa constatei também que a Light providenciou a instalação de pequenas placas, como a que existe até hoje na Rua Porto Seguro. Por seu valor histórico, esse pequeno marco integra o Inventário de Obras de Arte em Logradouros Públicos. Minha mãe contava que essa enchente inundou parte da várzea do Policarpo que era no final do bairro do Itaim bibi.

 

Quero falar um pouco das brincadeiras da época, dos meninos que rodavam pião, nadavam nas lagoas e com forte imaginação montavam em fogosos cavalos de cabo de vassoura. Nos dias de chuva, saíam em disparada nas lamacentas ruas, brandindo no ar  espadas imaginárias. As meninas nos portões de suas  casas montavam  suas  casinhas e imitavam suas mães se fazendo passar por severas donas de casa. Eu era um menino solitário, ficava zanzando nessa imensidão toda.

 

Quando éramos jovens, costumávamos ir ao cinema no cine Dom Pedro ll, depois ir comer um pastel no Bar Automático.

 

Nesse tempo,  tudo era uma aventura!

 

O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar aos sábados, 10h30, no programa CBN SP, a sonorização é de Cláudio Antonio e a narração Mílton Jung