Conte Sua História de SP: a saga deste povo soteropaulistano

 

Por José Dilson Cavalcanti

 

 

Viemos de longe, somos Pernambucanos, Paraibanos, Cearenses, Alagoanos, somos todos Nordestinos. Mas, em São Paulo, somos Baianos.

 

Lá , na terra natal, muitas vezes e a maioria das vezes, nem conhecemos nossa Capital, por isso, adotamos essa cidade como símbolo de adoração e respeito. E a tratamos como Capital do Nordeste, pois ela serve para todo mundo que nasceu lá.

 

Para trás, deixamos famílias, amores, sonhos perdidos e parte da alma natal.
Viemos buscar, nessa serra pelada de concreto e automóveis, a chance que ficou no caminho, por causa da falta d’água e do trabalho.

 

Buscamos, no final desse arco-íris, o pote de ouro prometido.

 

Viemos para ajudar nesse desenvolvimento, construindo estradas, escolas, casas, prédios, metrô, pontes e criar avenidas. Foi isso que nos coube quando chegamos, pouco estudo, vontade de trabalhar, essa mão-de-obra rápida e barata, e ajudar os que ficaram lá. Ainda assim, tínhamos que agradecer, pois tirávamos o sustento.

 

Ajudamos a construir essa cidade, inquieta, exigente, transformadora e moderna.
Trouxemos a comida, os costumes, as crenças e a musicalidade, que são a energia necessária para misturar à cultura paulista e dar sentido à nossa vida nessa cidade, que tem potencial de País.

 

Somos todos lutando por uma única causa, a causa maior e mais justa das causas, a Felicidade. Esta cidade nos acolheu, do jeito que deu, não podemos dizer que foi fácil, deu oportunidade e certa dignidade.

 

Tivemos que ser bravos e perseverantes, para podermos educar os filhos e alimentá-los. No total não dá para se queixar, caso contrário, não estaríamos aqui a viver, se emocionar, a amar.

 

Não pensamos em agradecimento, em nenhum momento, pensamos somente em sermos lembrados, uma espécie de crédito por produção.

 

Fizemos dessa Terra Prometida nossa Canaã, outra espécie de nação de alma e coração, pois foi construída com sangue, suor, determinação e amor dos nossos irmãos.

 

Somos os carpinteiros, pedreiros, serventes, peões, cozinheiras, empregadas domésticas, jogadores de futebol, músicos, atores, pessoas comuns etc…

 

Só temos a agradecer por essa cidade existir e existirmos juntos, nessa cidade.
Somos filhos dos filhos.
Somos filhos dos Baianos.
Somos todos “soteropaulistanos”

 

O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar aos sábados, logo após às 10h30, no CBN SP. Tem sonorização do Claudio Antonio e narração de Mílton Jung

Conte Sua História de SP – CBN 25 anos: o rádio transforma a vida das pessoas

 

 

No Conte Sua História de São Paulo, que comemora os 25 anos da rádio CBN, você ouve o depoimento do ouvinte-internauta Antonio Arivaldo, que fotografava vendas da cidade enquanto trabalhava de cobrador de ônibus. Descoberto pela CBN teve sua história contada no ar e sua vida mudou radicalmente: teve direito a exposição de arte, motivou-se a voltar a estudar e hoje é formado em pedagogia.

 

O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar, aos sábados, logo após às 10h30, no CBN SP. Tem a sonorização do Cláudio Antonio e a narração de Mílton Jung

Conte Sua História de SP: o primeiro dia de aula, no Rio Pequeno

 

Por Samuel de Leonardo

 

 

“II Grupo Escolar do Bairro do Rio Pequeno”

 

“São Paulo, 11 de fevereiro de 1963”

 

Após nos posicionarmos em fila e ter entoado o Hino Nacional defronte ao prédio localizado na antiga Estrada Quatro ainda sem asfalto, atual Avenida José Joaquim Seabra, no Bairro do Rio Pequeno – Butantã, adentramos a sala de aula. Com o giz branco Dona Lurdinha (Maria de Lurdes Reis da Costa – nunca esqueci o seu nome) desenhara essas letras no quadro negro. Assim, numa tarde de verão, teve início o meu primeiro dia de aula naquela escola. Na verdade até então não sabia ler, mas a dedicada mestra explicou em detalhes às crianças o que traçara no quadro negro.

 

Ainda assustado com a novidade, trajando camisa branca, calça curta azul-marinho e calçando o novo Conga azul chegara a minha vez e, todo nervoso e sem jeito, apresentei-me balbuciando meu nome, confundindo-me com o Tute, apelido dado pelos meus avós paternos e o meu legitimo nome, Samuel.

 

A estrutura do prédio era todo de madeira. Dois galpões em tom azul desbotado pelo tempo, sobrepostos em pequenas colunas de tijolos à vista que comportavam duas salas de aula. O teto não tinha forro e podiam-se notar as robustas vigas cruzadas sustentando o telhado de amianto e as janelas enormes apresentavam algumas vidraças quebradas, talvez por pedradas.

 

Dispostas em fileiras carteiras duplas de madeira já desgastadas pelo tempo acomodavam a todos. À frente uma pequena mesa e uma cadeira destinada à professora, ao fundo dois armários que um dia foram envernizados completavam o mobiliário. Nota-se que o desmazelo das autoridades com a educação já se fazia presente.

 

Naquele dia nossa primeira atividade foi desenhar pequenos círculos até completar a folha. Caderno aberto sobre a carteira, lápis na mão e as “bolinhas” irregulares iam se distribuindo sobre as linhas. Então com toda a paciência do mundo nossa professorinha passou pelas carteiras elogiando a arte de cada um.

 

De repente ouve-se o tilintar da sineta tocada pelas mãos da servente, assim era denominada aquela que ainda não chegara a bedel. Hora do recreio, algazarra em profusão no enorme terreiro empoeirado a céu aberto que circundava o imóvel. Não havia muros para delimitar onde terminava a escola e começava o imenso matagal morro acima. Uns corriam para os banheiros situados nos fundos da escola, outros devoravam a lancheira. Para os que não trouxeram merenda era só descer até a pequena cozinha, única edificação de alvenaria posicionada à entrada daquela construção rústica, e apanhar um kit.

 

Enquanto os meninos corriam de um lado a outro no pega-pega, as meninas brincavam de roda ou pulavam amarelinha.

 

Novamente o tilintar da sineta, hora da segunda parte.As crianças voltaram ofegantes, suados e descabelados, alguns com os uniformes manchados por algum alimento. Eu não poderia ficar para trás, sujara a camisa branca de terra e com certeza seria repreendido pela minha mãe.

 

Agora na outra folha do caderno Dona Lurdinha pedira que desenhássemos um sol, depois uma árvore e uma casinha. Barbada, desenhar era comigo mesmo.

 

Antes que tocasse pela última vez a sineta daquele dia, ela escreveu na lousa “lição de casa”. Os meninos deveriam trazer uma folha de alguma planta qualquer, enquanto que as meninas uma flor de acordo com a preferência de cada uma.

 

Anos mais tarde após os dois galpões serem criminosamente incendiados, naquele lugar o governo construiu um belo complexo educacional com classes modernas, uma quadra e um ginásio poliesportivo coberto. Durante o dia fora batizado de Escola Estadual Daniel Paulo Verano Pontes.À noite funcionava o Ginásio Estadual Ministro Américo Marco Antônio, onde conclui o antigo ginasial.

 

Da “lição de casa” e daquela primeira vez eu nunca me esqueci, pena que aquele dia passou como um bólido, assim como rápidos foram as semanas, os meses, os anos.

Conte Sua História de SP: a vida devolveu à minha boneca os seus pés

 

Por Elza Conte

 

 

Faz mais de 60 anos e ainda parece que sinto aquela alegria por estar chegando a hora de encontrar minhas amigas para brincarmos nas calçadas da Conselheiro Lafayette. Todos os dias treinávamos religiosamente pulos diferentes de corda. Ahhhh as brincadeiras de roda!!!! Amarelinha? às vezes deixávamos os meninos participarem….tão arrelientos, com aquelas bolinhas de gude tão sem graça, e aquelas figurinhas de jogadores de futebol, que na brincadeira de Pif e Paf, faziam tanto barulho, que poderiam acordar nossas bonequinhas, dormindo silenciosamente nos seus carrinhos, enquanto brincávamos e não podíamos segurá-las…

 

Como era costume na época, os brinquedos eram muito reverenciados pelas crianças. A boneca do ano que estava sempre primorosamente vestida era o único presente, ganho no Natal anterior, evidentemente fruto de bom comportamento… (cá entre nós, meu pai era um ser muito generoso, mesmo com alguns desvios de comportamento, ele dava um jeito de arranjar alguma desculpa, para pelo menos no natal, ganharmos o nosso brinquedinho tão esperado)….

 

Bem, na minha vida de várias recordações lindas, havia meu irmão mais velho, arteiro de marca maior, me escolheu com vítima preferida… Ele adorava me ver chorar… E eu chorava mesmo…o que para ele certamente, era uma diversão…

 

Certo dia, quando entro no meu quarto, a bonequinha do ano, estava pendurada no lustre, onde ele houvera treinado boxe com ela. Ao ver aquela cena grotesca, que para mim, digna de todos os horrores, quase desmaiei. Ao salvar minha filhinha… ela perdeu os pés…. Meu Deus! E agora? Como explicar esta situação para minhas amigas, uma delas a madrinha da boneca?

 

O batizado acabara de acontecer. Quem foi o padre? Logicamente meu irmão mais velho que fazia o papel com perfeição. A missa foi em latim, imagine só. Que batizados deliciosos. Após a cerimônia, era servido um guaraná (excepcionalmente permitido para a cerimônia) em minúsculas tacinhas, de joguinhos infantis, e docinhos da padaria cortados em quatro.

 

Interessante, agora lembrei que havia apenas madrinhas e não padrinhos das nossas bonecas. Mas que feministas éramos? Na festinha o único menino que participava era o Padre e meu irmão mais novo, como seu possante carrinho. Ressalte-se que na época, tomávamos refrigerante, um copo, apenas no almoço de domingo.

 

No dia seguinte, logo ao acordar, minha mãe havia conseguido, não sei como, uma mantinha, para cobrir a pobre boneca sem os pés. Quando ela me entregou a mantinha para cobrir a boneca, disse-me a frase mais importante que ouvi em toda a minha vida, e para a qual eu delego a importância que dou ao ser humano com que convivo:

 

Filha, uma mãe ama seus filhos e os seres mais humildes nesta vida, com ou sem os pés…

 

Eu achei aquela solução na época divina. Eu poderia mostrar para todas as minhas amigas a minha boneca e com uma manta.

 

Quando saí para a rua, uma chuva de papéis prateados homenageou a mim e minha bonequinha. Disseram-me que era a comemoração dos 400 anos de São Paulo….Lógico não acreditei….A festa era minha.

 

Esta história foi contada inúmeras vezes dentro do meu círculo pessoal de amizades…. E todos acham sempre muita graça do comportamento de meu irmão, o que sem dúvida marca com algo importante em minha vida.

 

Muitos anos depois, e sabendo da história da boneca, um grande amigo meu quis dar-me um presente: conseguiu uma cópia da fotografia em meu computador e encomendou um quadro para um pintor, que faz reproduções em tela de fotografias.

 

No dia em que este meu amigo veio me entregar o presente, muito sem graça, disse-me:

 

– Elza, eu queria lhe dar este quadro de presente, mas o pintor achou muito estranho a boneca sem pés e os pintou.

 

Pela segunda vez na vida, eu chorei por causa dta boneca:

 

– A vida devolveu à minha boneca os seus pés…..

 

Minha doce saudade do meu irmão mais velho, ser humano maravilhoso que hoje vive entre as estrelas.

Conte Sua História de SP: os passeios de bicicleta na pista do aeroporto de Congonhas

 

Por Walter Whitton Harris

 

 

Na minha juventude, morava no bairro de Campo Belo, e as ruas eram de terra batida e não havia calçadas.

 

As ruas principais do bairro (Rua Prudente de Moraes, hoje Rua Antonio de Macedo Soares, e a Rua Vieira de Morais) que cruzavam com as outras, eram as únicas cobertas com paralelepípedos, alguns quarteirões com calçadas, outros não.

 

O movimento de automóveis era pequeno, com trânsito maior de caminhões e ônibus. Dependíamos destes ônibus e dos bondes para ir e vir do centro.

 

Andar de bonde, então, era uma aventura. No trajeto que ia da Praça João Mendes até Socorro, o bonde levava quase duas horas. Depois de descer a Rua Conselheiro Rodrigues Alves e passar pelo Instituto Biológico, entrava numa longa reta, com trilhos à semelhança de uma estrada de ferro.

 

Da mesma forma que uma ferrovia, as paradas tinham os nomes em placas presas entre dois postes com a identificação pintada em letras pretas sob fundo branco, cuja sequência até chegar em Santo Amaro eram: Ipê, Monte Líbano, Moema, Indianópolis, Vila Helena, Rodrigues Alves, Campo Belo, Piraquara, Frei Gaspar, Volta Redonda, Brooklin Paulista, Petrópolis, Floriano, Alto da Boa Vista e Deodoro.

 

Daí por diante, os trilhos voltavam a ficar embutidos nos paralelepípedos e viam-se muitas casas e lojas comerciais.

 

Pois o fato é que durante todo o trajeto desde o Biológico, havia grande número de chácaras e poucas casas, estas últimas se aglomerando junto às paradas dos bondes. Do Largo 13 de Maio, centrão de Santo Amaro, o bonde, que era fechado, descia até a Praça São Benedito. Quem quisesse atravessar a ponte sobre o rio Pinheiros e chegar à Praça de Socorro, fazia a baldeação para um bonde aberto. Pergunto-me até hoje o motivo disso. Será que a ponte não suportava o peso de um bonde maior, ou não havia passageiros suficientes e era vantagem retornar logo para a cidade com o bonde maior?

 

Íamos de bonde para o Colégio Estadual que ficava em Santo Amaro. Muitas vezes os nossos professores nos faziam companhia, pois poucos tinham seus próprios carros.

 

Lembro-me bem de uma ocasião em que os bondes pararam no Brooklin, um atrás do outro e tivemos de ir a pé até a escola, uma pernada e tanto. Os meus colegas e eu passamos em frente à fábrica de chocolates Lacta. Logo adiante, vimos o motivo. Na parada Petrópolis, um bonde em alta velocidade havia colhido um caminhão distribuidor de água da Fonte Petrópolis (que existe ainda hoje), arrastando-o por vários metros. Não me lembro se alguém saiu ferido. Havia garrafas de água e cacos de vidro por todo lado. Será que o motorneiro desceu o declive existente em frente à Lacta à toda e não conseguiu parar em tempo e pegou o caminhão que estava atravessando a linha?

 

A vida, na adolescência, era bastante pacata e singela. As andanças de bicicleta com um grupo de coleguinhas era uma delícia. Dois quarteirões depois de nossa rua, começavam as chácaras onde eram plantadas hortaliças que abasteciam a cidade de São Paulo. Havia estreitas passagens nas chácaras pelas quais íamos com nossas bicicletas até chegarmos ao Aeroporto de Congonhas. Naquele tempo, o aeroporto não era cercado e íamos até a cabeceira da pista e lá ficávamos observando os aviões passar por cima de nossas cabeças para pousar. Nem imaginávamos o perigo pela qual passávamos, porém a gente sabia que estávamos errados pois, vez ou outra, saíamos correndo de lá quando um jipe vinha em nossa direção, piscando os faróis. Era apenas um incentivo para ousarmos voltar. Será que cercaram o aeroporto por nossa causa?

 

A nossa rua de terra era um convite para se jogar “taco”, uma modalidade brasileira simplificada do “cricket”. A finalidade era derrubar, com uma bola (geralmente de tênis), uma casinha em formato de tripé feita com alguns finos galhos de árvore e que era defendida por quem estivesse com o taco. No jogo inglês, há três pequenos postes, unidos por travessas pequenas no seu topo que precisam ser derrubadas. Meu pai esculpiu um lindo taco para mim, que era invejado por todos os jogadores. Está guardado como lembrança daqueles tempos.

 

Outro jogo bastante gostoso era com bolinhas de gude. Fazíamos três buracos equidistantes alinhados na terra e um quarto buraco em ângulo reto com o buraco da ponta. Tínhamos de alcançar aquele último, mas também precisávamos afastar os adversários, atingindo suas bolinhas com a nossa.

 

Depois de fazer nossas lições de casa, ficávamos jogando até o anoitecer, quando nossos pais nos chamavam para jantar e dormir. É desnecessário dizer que voltávamos para casa resmungando e de mau humor.

 

Os dias passam céleres e eis que estamos retratando fatos de mais de cinquenta anos atrás! Como era bom não ter responsabilidades, não ficar preso dentro de casa em frente a uma televisão, que poucos tinham naquele tempo. Não havia computadores, nem éramos escravos de celulares, tablets etc. Eram outros tempos. Ah, tempos idos, que não voltam nunca mais…

 

O Conte Sua História de São Paulo tem sonorização do Cláudio Antonio e narração de Mílton Jung. O quadro vai ao ar, aos sábados, no CBN SP, logo após às 10h30 da manhã.

Conte Sua História de SP: o relógio da Luz e o incêndio do Museu

 

Por Lucineti da Rosa Possacos Alves

 

 

Sou nascida no Paraná. Com o falecimento do meu pai, em 1973, minha mãe resolveu tentar a vida na cidade de São Paulo, onde já estava sua irmã. Chegamos aqui, minha mãe, meu irmão e eu, com apenas três aninhos, e vivemos no Jaçanã.

 

A história que me marcou foi em um marco de São Paulo: a Estação Rodoviária da Luz. Esperávamos ansiosamente pelo mês de julho, quando tínhamos nossa tão sonhada férias, para visitarmos nosso avó que morava em Santa Cruz do Rio Pardo.

 

E lá íamos nós para estação rodoviária:  eu ficava maravilhada com tudo, principalmente com o relógio. Com todo esforço, tentava saber as horas e quando sairia nosso ônibus. Julho era muito frio e esta era mesmo a cidade da garoa.

 

Apesar de bem agasalhada, minha boquinha tremia e os dentes batiam.  Para esquentar minha mãe nos levava em um bar e tomávamos uma média bem quentinha com famoso pão na chapa.  Ali ficávamos até o momento de embarcar.

 

Como eu era a caçula, tinha a preferência da janela. E lá estava eu admirando toda a cidade, principalmente o Rio Tietê, o qual tinha receio que o ônibus caísse dentro. Logo  era vencida pelo cansaço e adormecia. Quando chegávamos  ao destino já nascia a expectativa para voltar, pois o que mais me encantava era admirar aquela região.

 

Alguns anos depois, foi inaugurada a Rodoviária  do Tietê. Fiquei sem entender nada, agarrei minha mãe e falei que estávamos no lugar errado, chorei, mas não teve jeito, era dali mesmo que teríamos que sair, só fiquei mais calma quando avistei o Rio Tietê, mas já não era mais a mesma coisa.

 

Cresci, estudei e  após alguns anos aquela região se tornou meu trajeto para o trabalho. Por 14 anos, passar pela Tiradentes  e ver aquele cenário sempre me levou a um passado simples, porém muito feliz.

 

Um momento único para mim foi quanto tive o prazer de levar meu filho, Rafael, de 5 anos, para conhecer a região e o Museu da Língua Portuguesa.

 

Hoje, trabalho em Suzano, me livrei do trânsito, mas sinto saudades da lembrança!

 

Dia desses entrei na internet e tomei aquele susto, uma grande tragédia: o incêndio no Museu, como doeu meu coração, parecia que ali iria embora um pedaço da minha história.

 

Acompanhei cada segundo daquele drama e foi um alívio quando soube que o relógio, aquele que não marcou apenas horas, mas também um pedacinho da minha vida, não tinha sido atingido. A dor ficou um pouco menor.

 

No dia seguinte por ironia do destino, tive uma reunião na Zona Sul e por ali passei: a dor invadiu minha alma e chorei, com a esperança que venha a reconstrução e esse marco da cidade nunca deixe de existir.

 

O Conte Sua História de São Paulo tem sonorização do Cláudio Antonio e narração do Mílton Jung. O quadro vai ao ar, aos sábados, no CBN SP.

Conte Sua História de SP: uma cidade que vai além da rua principal

 

Por Nair Kuniy

 

 

São nove horas da noite de 28 de fevereiro de 1960. O trem da Companhia Paulista de Estrada de Ferro chega pontualmente na Estação da Luz e dele eu desembarco junto com meus pais e mais três irmãos. Meu irmão mais velho, de dezoito anos, veio antes a fim de procurar uma casa para alugar. Estamos nos mudando para São Paulo. Eu vou completar quatorze anos daqui a três semanas e estou curiosíssima para conhecer a cidade da qual tanto ouço falar. Um primo que já mora aqui há alguns anos providenciou para os nossos primeiros dias, até a chegada do caminhão com os móveis, nossa acomodação junto à família de seu sócio. Eles têm uma pequena loja de produtos alimentícios, à Rua Galvão Bueno, no bairro da Liberdade, e a casa fica nos fundos da loja.

 

No caminho da estação de trem até a casa, olho pasma, pela janela do táxi, para os edifícios e as luzes da cidade. Eu venho de Vera Cruz, interior do estado. A cidade é tão pequena, que a igreja, um solitário semáforo e um edifício de três andares são as referências mais importantes. Para mim, o início e o fim de Vera Cruz estão delimitados pela extensão da rua principal. Meu primeiro pensamento ao ver tantos edifícios e luzes intermináveis é saber onde começa e onde termina a cidade de São Paulo.

 

Com o passar dos primeiros dias, as surpresas ainda se sucedem à medida que eu vou conhecendo mais um pouco o novo lugar. Bonde, escada rolante, elevador, feira livre, locais maravilhosos como o Aeroporto de Congonhas, o zoológico, o Anhangabaú, o Parque do Ibirapuera e, também, muita gente, de todas as idades e cores, em qualquer lugar que se vá, além do frio intenso e da garoa à medida que o inverno se aproxima.

 

Outro pormenor que não pode deixar de ser citado é o aviso de que devemos tomar muito cuidado com os batedores de carteiras. Eu os imagino uma espécie de prestidigitadores, pois a fama é de que suas vítimas não percebem quando são surrupiadas.

 

Outra grande surpresa é a casa em que vamos morar: na Vila Clementino, perto do Hospital São Paulo. Imensa a meu ver. Um sobrado, com um pequeno jardim na frente e um quintal todo cimentado nos fundos. Três dormitórios, duas salas, cozinha, despensa e dois banheiros. Nossa última residência, em Vera Cruz, não tinha sequer banheiro privativo. Usávamos uma fossa, compartilhada com mais duas famílias.

 

Uma das salas já está reservada para minha mãe abrir um salão de cabeleireira e por isso ela logo procura uma escola para a sua formação. Meu pai consegue um emprego de alfaiate com um patrício que tem uma bela alfaiataria na Domingos de Moraes. Meus dois irmãos mais velhos também começam a trabalhar e eu cuido da casa e da comida, com a ajuda da outra irmã menor. Até minha mãe começar a trabalhar, o que leva seis meses, o dinheiro mal dá para sobreviver e pagar o aluguel. No ano seguinte, a renda do salão já cresce o suficiente para vivermos com mais conforto e, assim, podemos retornar aos estudos e continuar até terminar a faculdade. A cultura japonesa sempre valorizou muito uma boa formação educacional e, felizmente, o Brasil é um país que permite a ascensão social daqueles que estudam e não perdem a chance de crescer profissionalmente.

 

Nair Kuniy é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade. Envie seu texto para milton@cbn.com.br. 

Conte Sua História de SP: “Vai pra Sum Paulu, fía?”

 

Por Flávia A Souza
Ouvinte-internauta da Rádio CBN

 

 

Contemplar diferenças. Eis o mistério e o encanto desta metrópole. Das marginais superpovoadas aos parques-oásis, das robustas pontes às estreitas ruas de favela, da plataforma incessante de modernos edifícios à arquitetura imperial remanescente, do sincretismo dos idiomas das gentes do mundo ao mundo de gente de dialetos regionais, da insegurança sem alento ao irradiante fascínio da celeridade, da ilusão camuflada ao discreto e adormecido amor sublime, do indivíduo central ao coletivo em nichos, do anonimato ao ensaio da vaidade, das perguntas evitadas às respostas contundentes, das dúvidas oscilantes às certezas insistentes.

 

Sim, contraste e esplendor. E semeio meu caminho por estas bandas.

 

“Vai pra Sum Paulu, fía?”, indagou minha família, do Centro-Oeste do Brasil, quando aqui ancorei. Vivi meus 20’s, 30’s e já me aproximo dos 40’s na capital do desenvolvimento. Culpo-me pela saturação, pois sou imigrante, dentre os tantos que catalisam os problemas desta cidade mais do que as soluções. Também me indulgencio quando emano ternura por esta terra tão intrigante e sedutora.

 

No balanço, sinto-me mais que menos. Daqui fiz o benço do meu filho, inspirada pela Abençoada missão de fazer dele um homem bom: meu presente para São Paulo, quem me traz tantos presentes, a cada fato e sentimento que vivo, com sorriso, às vezes úmido, mas sempre providente.

 

Flávia Souza é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capitulo da nossa cidade: envie seu texto para milton@cbn.com.br

Conte Sua História de SP: minha vida na cidade começou de fato no Fórum João Mendes

 

Por Paula Calloni
Ouvinte da rádio CBN

 

 

O Hospital e Maternidade Central Nossa Senhora da Abadia, em Santo Amaro, que era administrado por freiras, já não existe mais. Lá conheci meus pais pela primeira vez, quando tinha 15 dias de vida, em 1968.

 

Eles já tinham 3 filhos, mas queriam mais uma menina. A freira levou minha mãe ao berçário e mostrou vários recém-nascidos, abandonados pelas mães biológicas… a maioria solteiras e recém-chegadas à cidade. Ao me pegar no colo, minha mãe disse: “quero esta”. E não adiantou a irmã apresentar outros bebês: “quero esta!” – disse mamãe, firme.

 

Dias depois, lá fui eu para o fórum João Mendes, região da Sé, nos braços da enfermeira Venina de Oliveira Costa, já falecida, que me entregaria para meus pais adotivos.

 

Quantas vidas se encontrando na São Paulo que se agigantava, vivaz, onde viver já era uma correria.

 

Naquela manhã, o juiz da Vara de Menores do Fórum propôs que eu ficasse num abrigo para menores até sair a papelada oficial da adoção.

 

Nesse momento, meu pai, imigrante italiano, me segurou firme e desafiou o juiz: “ela é minha filha e se eu não sair com ela no colo hoje, vou deixá-la aqui!”.

 

O que fazer? O juiz se viu encurralado. E cedeu. Ufa…

 

Ganhei uma família. Ganhei um lar.

 

Hoje, quando passo ao lado do Fórum João Mendes, olho para ele, imponente, sem jamais esquecer que ali, de fato, começava a minha história com São Paulo.

 

O Conte Sua História de São Paulo tem sonorização do Cláudio Antonio e narração de Mílton Jung. Vai ao ar aos sábados, após às 10h30, no CBN SP. Para participar, envie seu texto para milton@cbn.com.br

Conte Sua História de SP: lembranças de São Roque, nosso galo bom de briga

 

Por João Rodrigues Neto

 

 

Em 1969, eu com 12 e meu irmão com 11 anos passamos por um perrengue por conta da tal briga de galo. Movidos mais pela necessidade do dinheiro do que amor ao esporte, dois adolescentes, quase criança, nos metemos em treinar e levar galo pra brigar.

 

Morávamos num bairro extremo da periferia de São Paulo, em casa com grande quintal, rodeada por terrenos baldios e áreas verdes, parecido com ambiente rural. Nossos pais mantinham uma horta, pequeno pomar, e criação de galinhas. Numa grande ninhada, vingou um pintinho que logo nos primeiros dias de vida deu sinal de estar doente, o pintinho entrava em convulsão, debatia-se por alguns minutos, e depois voltava ao normal. Desenvolvia-se rapidamente tendo crescimento além do normal e sempre com o problema das convulsões, até tornar-se um belo galo, vermelhão, com forte bico e agudas esporas.

 

Minha mãe condoída com a situação resolveu preservar o animal e consagrou-o a São Roque, que ela acreditava ser o padroeiro dos animais. Assim esse galo não poderia ser molestado nem sacrificado devendo viver placidamente até sua morte natural.

 

De tanto brincar com ele, descobrimos como incitá-lo a ter as convulsões, bastava irritá-lo um pouco e o bicho danava a se debater, mas agora ficava extremamente agressivo. Com a noticia que se instalara no bairro uma rinha de galos, fomos até o local, a princípio por curiosidade, mas bastou ver as apostas para despertar nosso interesse, aí decidimos que colocaríamos o “São Roque” para brigar.

 

Dedicamos-nos a treinar o galo, todos os dias por uma hora, o bicho ficava cada vez mais agressivo. Chegou sábado, fomos à rinha e o “São Roque” deu o maior couro no Trovão, e ainda bateu dois outros galos no primeiro round, ali nascia um Campeão.

 

Outras brigas vieram, e nossa euforia só se comparava com o medo da mãe que já andava desconfiada. Naquele dia, a nossa seria a última briga da rinha, briga de campeões. Mas esse duelo não aconteceu, nossa mãe chegou e acabou com a festa.

 

A tragédia aconteceu mesmo foi na hora do jantar, após sentarmos à mesa nossa mãe colocou uma travessa com cheiroso frango (ou galo) ensopado. Ficamos petrificados com a cena, num choro convulsivo saímos da mesa, nosso herói estava ali morto, preparado ao molho pardo. Nos recolhemos tristes por ter quebrado a palavra dada à mãe, e por ter perdido nosso melhor amigo.

 

Pela manhã ouvimos o cantar de um galo, e imaginávamos ser o espírito do “São Roque” se despedindo. Meu irmão foi ao armário pegou uma vela acendeu-a e começou a rezar pedindo a Deus que levasse o “São Roque” para o céu dos Galos, onde a vida deve ser bem melhor. Minha mãe vendo aquela situação se aproximou nos pegou pelo braço, abriu a porta e nos mostrou o “São Roque” que esplendoroso cantava saudando um novo dia. O frango servido à mesa havia sido outro.

 

O “São Roque” viveu ainda por um bom tempo, até desaparecer, provavelmente indo para o céu dos Galos.

 

O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar, no CBN SP, aos sábados, logo após às 10h30. Tem narração de Mílton Jung e sonorização do Cláudio Antonio.