Conte Sua História de SP: vinha pra vida, no coração da cidade

 

Por Silvio de Melo Martins
Ouvinte-internauta da rádio CBN

 

 

Nasci e moro em São Paulo há 61 anos.

 

“Alguma coisa acontece no meu coração. Que só quando cruza a Ipiranga e Av. São João” – Caetano Veloso

 

Sim! Alguma coisa aconteceu no meu coração quando cruzei o centro velho de São Paulo. Estava exatamente no cruzamento das Avenidas Ipiranga e São João. Não foi melancolia! Foi o que fizeram com a minha cidade.

 

Lembrei dos tempos de faculdade, vinha de Guarulhos onde estudava. Saía no meio da aula noturna, já cansado de um dia de trabalho, mas com o vigor da juventude vinha para a vida, no coração da cidade de São Paulo. Demorava duas horas para chegar.

 

Éramos quatro: eu, Robertão, Mishio e Jessé. Às vezes, vínhamos na Brasília velha do Robertão, mas para economizarmos preferíamos mesmo o ônibus. Parávamos no Parque Dom Pedro II, subíamos a Ladeira Porto Geral, logo a rua Direita, a praça Patriarca, depois Viaduto do Chá. Passávamos pelo Teatro Municipal, sempre fervilhando de gente elegante. Pela Pitt, com sua vitrine e luminoso imensos. Descíamos a Conselheiro Crispiniano e estávamos na São João.

 

Lembro das ruas cheias de vida, as pessoas que desciam apressadas para o Largo do Paissandú ou Praça do Correio, talvez para pegarem o ultimo ônibus ou quem sabe a última sessão de cinema.

 

A avenida São João com seus cinema: o Art Palácio, tão imponente. Havia outros, Olido, Comodoro, Ritz …

 

Nossas vidas estavam ligadas à São João. Viam-se as pessoas entrando nos cinemas, felizes para a sessão. Falando alto. Os filmes eram os últimos lançamentos de Hollywood. Casais que passavam por nós, por vezes caminhavam na noite quente se deliciando com um sorvete ou apenas comendo pipoca. O mundo não importava a eles! Nem a nós!

 

Nosso “point” era a livraria Avenida com sua entrada discreta, seus engraxates, a charutaria e a lanchonete. Sentávamos para tomar café e jogarmos conversa fora. Por vezes uma paquera, nada mais que isso. Às vezes, folheávamos uma revista, ríamos e comprávamos livros, principalmente os de química.

 

Andávamos pela São João, uma ou outra vez um filme ou uma caminhada até a Alameda Nothman com suas casas noturnas. Tomávamos mais café, refrigerantes … Quando a fome apertavam descíamos para comer um lanche frio no Largo do Paissandú. Andávamos pela madrugada despreocupados. E as pessoas sem qualquer vontade de ir embora, lotavam a avenida e as ruas laterais, davam vida ao lugar. Grupos vindo de um lado, outros no sentido contrário. Riam! Brincavam entre eles.

 

Muitas vezes saíamos em direção a Ipiranga, o Bar Brahma. Quantas vezes pudemos ver o Adoniram por lá. Sentado, tomando sua cerveja rodeado de amigos. Acredito que muitos sucessos tenham tido inspiração ali.

 

Fim de madrugada, às vezes chegávamos à Ipiranga e alguns bares estavam fechando. A população noturna das boates da região tomava seu rumo, por vezes em direção a São Luís ou República para pegar um táxi ou mesmo o elétrico que ali faziam ponto.

 

Nós, agora como outros, íamos em direção ao Parque Dom Pedro II. Jessé tinha um longo caminho, era o único que morava em Guarulhos. A noite tinha sido boa. Afinal fugíamos de uma semana trivial. Tínhamos nos divertido como tantos naquela noite.

 

Após a despedida do Jessé, tomávamos o ônibus rumo a zona leste. Pelo caminho íamos nos despedindo. Hoje nem sei por onde eles andam. A vida nos fez perder contato.

 

Hoje, alguma coisa acontece no meu coração, a cidade que eu amo, tão abandonada foi tomada pelos drogados e camelôs. Cada esquina está marcada pela violência e degradação. Hoje, porém, eu vi que tenho muito a ver com essa cidade e sou um dos responsáveis, pela omissão, no que ela se tornou.

 

Agora cruzo a Ipiranga e a Avenida São João, como cruzo as ruas do centro de São Paulo, e alguma coisa acontece no meu coração.

 

O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar, no CBN SP, aos sábados, após às 10h30. Tem a sonorização do Cláudio Antonio e narração de Mílton Jung. Para participar, envie texto para milton@cbn.com.br

Conte Sua História de SP: no banco do Pateo do Collegio

 

Mônica Ortiz
Ouvinte da Rádio CBN

 

 

Eu trabalhava na Associação Comercial de São Paulo, próximo ao Pateo do Collegio.

 

Era apaixonada por um funcionário da área de marketing. Ele era lindo.

 

Acontece que após alguns meses almoçamos juntos e fomos passear na região.

 

Sentamos em um banco dentro do Pateo do Collegio, ali onde São Paulo foi criada.

 

Naquele cenário histórico, ele me beijou.

 

Eu fiquei em êxtase, não lembrava de nada, não via mais nada, não sentia mais nada, além daquele beijo.

 

Foi, então, que uma mão cutucou meu ombro. Era o coroinha a mando do Padre que eu sequer sabia que vivia ali.

 

Mandou a gente circular para a minha total vergonha.

 

Fiquei super vermelha, constrangida ….

 

Mas quer saber: foi um momento único.

 

O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar aos sábados, no CBN SP, tem sonorização do Cláudio Antonio e narração de Mílton Jung

Conte Sua História de SP: os beijos de despedida na estação Vila Mariana

 

Por Dalva Rodrigues 
Ouvinte da Rádio CBN

 

 

Meu amor por São Paulo é caso antigo, desde que nasci, no bairro do Ipiranga, pertinho do museu, no comecinho dos anos 60. Minha rua , a Aracatu, na Vila Liviero, era de terra, vizinhança pequena, muitos terrenos vazios, campinhos e matas para as crianças explorarem com as mais diversas brincadeiras.

 

Como era gostoso conversar nas noites de céu limpo e estrelado…Histórias de ETs e papos que não acabavam mais (até uma das mães gritar que já passara muito da hora de entrar).

 

Nas noites frias de inverno, mal enxergávamos quem estava ao lado, de tão intenso era o nevoeiro. Voltar da casa da vizinha que tinha televisão, depois de assistir ao cine mistério – aos filmes de terror – era um ato de coragem: rapidíssimo, pernas para que te quero!

 

E no dia seguinte acordava com os galos cantando, o apito das fábricas chamando os operários que sumiam na rua, envoltos em neblina e garoa.

 

Meu primeiro amor de infância era irmão de meu amigo. Numa noite quente, na brincadeira ‘beijo, abraço ou aperto de mão’ ele escolheu: ‘beijo’, mas quando abriu os olhos e me viu, só quis mesmo me dar a mão… Bem me quer, mal me quer…Minha primeira desilusão. Um dia a família se mudou, perdi o amigo e o amor que ainda viveria muito tempo, só em meu coração.

 

Já moça, meus pais separados, fui morar em Vila Mariana, depois passei uns tempos no interior com meu pai, gostei da cidade, mas minha maior alegria era quando, chegando em São Paulo, subindo as escadas rolantes da estação República do Metrô, via minha cidade surgindo, linda, imponente…Como é bom voltar para casa, para nossa cidade!

 

Vivi um grande amor nesses tempos, amor que mais uma vez, mesmo sendo correspondido, não era meu. Um dia nos despedimos na véspera de Natal, na esquina da São João, em frente ao Largo do Paissandú. Foi o beijo mais romântico de minha vida…e o mais triste… Eu ali parada … ele atravessava a avenida. E enquanto as lágrimas desciam, soube que era próximo o fim. Até hoje sempre que passo por lá me lembro da cena.

 

Tempos depois me apaixonei novamente. Como eram bons os beijos de despedida na estação Vila Mariana,  quase todo dia. A suntuosa sala de espera do Cine Ipiranga foi palco de uma cena hilária quando quase saí no “braço” com uma menina que vendia balas, que ousadamente me ignorou e pegava no braço do meu noivo insistindo na venda… Esse episódio quase rendeu o fim do romance, mas superamos e nos casamos.

 

Hoje, moro na zona leste e os amores se foram…Acho que meu tempo já passou, tenho boas memórias, mas o amor por São Paulo…Esse não passa nunca!

 

O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar aos sábados, no CBN SP, logo após às 10h30 da manhã. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você participa escrevendo sua história para milton@cbn.com.br

Conte Sua História de SP: o passeio com meu filho ao centro da cidade

 

Por Mario de Salles Oliveira Malta Junior
Ouvinte da Rádio CBN

 

 

Na semana passada, meu filho João Pedro me pediu para tirar o título de eleitor, uma vez que completou 16 anos recentemente. Ao invés de simplesmente orientá-lo em direção ao Centro da cidade, decidi acompanhá-lo. Talvez por intuição de minha parte, senti que poderia ser um revival de meus 4, 8 ou 16 anos de idade, rumo retroativo a 1955 em diante.

 

O ônibus articulado nos deixou atrás da Catedral, onde antes eu descia do CMTC da Linha 16, que ia da Rua Machado de Assis à Rua Cardoso de Almeida. Dependendo da direção que seguia, o trolebus assim se chamava. Quando eu o tomava, descia justamente na Praça João Mendes ou no Instituto de Educação Caetano de Campos, situado mais adiante na Praça da República. Mas essas são histórias para outras oportunidades…!

 

Contei ao João que as lojas de artigos para umbanda e, acima delas, o Bilhar do Seu Martins, sempre chamaram minha atenção, me impressionavam. Se fisicamente não mais estão ali na esquina com a Quintino Bocaiúva, ao menos na minha memória permanecem. Como também estão registrados os odores sentidos por milhares de transeuntes que iam e vinham por ali. Do Bilhar, os odores eram de frituras, pedidas pelos frequentadores. Imagino: será que “Carne Frita” veio desse local? Com Rui Chapéu, foi um dos maiores.

 

Nossa caminhada nos levou ao Largo da Misericórdia, que leva consigo minhas mais profundas recordações. Ali, no 12o. andar de um prédio ainda muito estiloso, acompanhava o bisavô e o avô do João Pedro ao trabalho. Aliás, ouvia deles a frase “…vamos trabalhar…” e assim me julgava fazendo durante toda a manhã quando lá ficava. Tenho aqui em casa a máquina de escrever, o furador de papéis, grampeador da época. Para mim, verdadeiras relíquias.

 

Decidi dar uma parada mais longa ao redor da Praça do Patriarca. Contei ao João rápidas passagens sobre a Casa São Nicolau, que era o point do Natal e mostrava na vitrine brinquedos inconquistáveis para a maioria. Bastava vê-los e imaginá-los em casa…!

 

Também lhe mostrei que, nessa ou naquela janela, funcionava o consultório do Dr. Dácio, meu pediatra. Profissional competente e simpático, que uma vez me diagnosticou com anemia e me mandou para Poços de Caldas, alimentado basicamente com fígado na chapa e no liquidificador!

 

Fui então com o João ali quase na esquina com a São Bento: e a Casa Califórnia, como não mostrá-la a ele? Ainda está lá, desde 1920 ou ao redor disso. E os lanches, muitos são basicamente iguais. Dei a saída nos pedidos: sanduíche de calabresa com suco de laranja, pois era isto que sempre peço por lá desde 1954. E o João, para não contrariar a mim nem ao bisavô nem ao avô, adivinhem o que pediu???

 

Enfim, fomos em direção ao que viemos. Atendimento excelente no posto do TRE, rápido e cortês. Mais incrível para mim, o João Pedro gostou das histórias, disse querer voltar ao Centro com mais calma, levando o irmão mais novo conosco. Também me pergunto: será pelas histórias de São Paulo ou pelo sabor dos sanduíches?

 

Quero crer que seja pelos 2 motivos!!!

 

O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar aos sábados, no CBN SP. Os ouvintes podem enviar seus textos para milton@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo: a poesia da Terra da Garoa

 

Lúcia Edwiges Narbot Ermetice (Lu Narbot)
Ouvinte-internauta da Rádio CBN

 

 

A menina que eu fui
passeava às margens do Ipiranga
e imaginava o grito de D. Pedro I:
“Independência ou Morte!”

 

A menina que eu fui
brincava nas ruas sem asfalto e sem perigo,
e amava e se orgulhava de sua cidade,
a que mais crescia no mundo!

 

A menina que eu fui
ouvia a mãe falar dos antigos carnavais da Paulista,
desfile de carros enfeitados e gente chic,
o Corso, palavra reveladora das origens italianas.

 

Ah! A menina que eu fui!

 

O Ipiranga continua lá,
ecoando o grito de D. Pedro I,
mas as ruas em que eu brincava
hoje estão asfaltadas e perigosas.

 

No Carnaval da Paulista já não há mais Corso
e outros imigrantes somaram-se aos italianos
para fazer a cidade crescer.
E ela cresceu tanto, mas tanto, que virou um caos.

 

A menina que eu fui
e que hoje habita este corpo maduro
ainda assim ama e se orgulha
da cidade em que nasceu,
a sua Terra da Garoa!

 

O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar, aos sábados, logo após às 10h30, no programa CBN SP. A sonorização é do Cláudio Antonio e a interpretação de Mílton Jung

 

Conte Sua História de SP:encontrei minha namorada platônica

 

Por José Geraldo Barbosa Duarte Junior

 

 

Eu morava em Moema e estudava em Santo Amaro, na escola estadual Alberto Conte. Onde hoje está a Avenida Ibirapuera e a Vereador José Diniz havia uma linha de bonde. Era de bonde que seguia para a escola.

 

Tinha uns 14 anos e estava apaixonado pela colega de ginásio, mas não tinha coragem de revelar isso a ela. Era muito tímido. Ela virou minha namorada platônica. Morava no Brooklin e preferia o ônibus para ir a escola. Apenas algumas vezes, pegava o bonde.

 

Amigas em comum, que sabiam da minha paixão pela menina, resolveram agir como cupido. Quando a minha namorada platônica entrou no bonde, que naquele dia estava vazio, todas elas se afastaram de nós, deixando-nos sozinhos para conversar. Fiquei atônito.Não consegui nem cumprimentá-la. Sumiram todas as palavras da minha boca.

 

Talvez por não entender o que acontecia, a menina ficou na dela. Eu fiquei mudo até Santo Amaro. e minhas amigas ficaram desapontadas comigo.

 

O fato é que naqueles tempos nunca tive coragem de me aproximar dela e revelar minha paixão.

 

Os tempos passaram e essa coisa mal resolvida estava guardada em minha lembrança.

 

Hoje estou casado, com filhos e netos.

 

Não para viver um momento que nunca tive, mas como curiosidade, sei lá, queria encontrar aquela minha namorada platônica e saber como foi a vida dela.  Queria contar a ela a minha paixão.

 

E foi graças ao advento do Facebook que a encontrei.

 

Ela não se lembrava da minha existência, mas aquiesceu a amizade.

 

Foi quando, então, pude revelar aquela paixão juvenil. Mas não fique pensando outra coisa, não: hoje, somos apenas amigos e eu me senti liberto da paixão que me remoía.

 

O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar aos sábados, no CBN SP, logo após às 10h30. O quadro é sonorizado por Claudio Antonio e tem narração de Mílton Jung.

Conte Sua História de SP: no tempo em que não existia Minhocão no Bixiga

 

Por Walter Marques de Deus

 

 

Foi no ano de 1966 que nos mudamos para a Rua Maria José, na Bela Vista (mas pode chamar de Bixiga). Para quem não conheceu o Bixiga daquela época, não consegue imaginar como era legal viver ali. Não existia o Minhocão!  Existiam casas do século 19 bem no lugar do Minhocão…

 

Fomos morar num cortiço, onde éramos 13 famílias convivendo no mesmo quintal com as várias portas dos quartinhos alugados. Na maioria, eram ótimas pessoas.  A nossa rua era bastante estratificada, onde vizinhos se davam muito bem apesar das diferenças sociais. E acho que todo bairro era assim…

 

Casas com pessoas ricas e casas com pessoas pobres, que eram cortiços. A maioria não tinha garagem. Nem mesmo a dos ricos. Também, nem precisava.  Era só deixar o carro na rua, sem problemas.

 

Lembro bem dos ensaios da Vai Vai semanas antes do carnaval, onde os sambistas e foliões saíam pelas ruas, talvez para aquecer. Foram naqueles momentos,  nos meus cinco anos que comecei a conhecer o preconceito… É que os lojistas fechavam as portas para evitar contato com o pessoal da Vai Vai, na maioria negros.

 

Na nossa rua tinha uma feira, que existe até hoje!  A feira era um dia de festa pra mim! Por não existirem supermercados, as feiras eram mais agitadas, com todo tipo de pessoas. As relações eram bem mais próximas… De vez em quando vou comer pastéis nesta feira da Rua Maria José.

 

Em 1968, comecei estudar nas Escolas Agrupadas da Bela Vista, na rua Santo Amaro. Veja que o nome dado não fazia jus a uma escola com apenas três salas de aula. Mas eu adorava!  Jamais esqueci do nome da minha primeira professora, Dona. Gemma. Estudei ali, até a quarta série.

 

No Bixiga, existiam dois cinemas: o Rex e o Arlequim.  A primeira vez que fui num cinema, assisti a Peter Pan, no Cine Arlequim.  Quanta emoção!  É difícil explicar o que representava o ambiente de cinema para um garoto com mais ou menos sete anos de idade. Era algo realmente delirante!  Principalmente porque não tínhamos TV.

 

Mais tarde, graças a minha tia “Deusinha” que ficou nossa vizinha e comprou uma televisão, pudemos assistir aos jogos da Copa de 1970. Sim, pude ver a grande façanha da nossa seleção do sonhos.

 

Dias depois da conquista, senti o quanto era privilegiado em morar naquela rua pacata, uma simples travessa da Brigadeiro Luiz Antonio. Dali mesmo, pude ver a seleção do Tri em cima de um caminhão de bombeiros, descendo a Brigadeiro. Eu estava lá, do lado da requintada padaria Java! Que infelizmente não existe mais.

 

Conte Sua História de SP: o apito dos afiadores de faca

 

 

Por Wagner Nobrega Gimenez

 

Nasci no bairro do Brás, na Almirante Barroso, 838, em junho de 1954 – ano do IV Centenário de São Paulo. Essa casa não existe mais. Pertence a uma igreja evangélica. Naquela época se fazia partos em casa, como o meu. Dona Cândida, a parteira portuguesa, assistiu minha mãe, dona Luzia, em sete partos, um infelizmente de um natimorto, dois anos após o meu nascimento. Eu, filho temporão, o caçulinha,  brincava só com os moleques na rua: era jogo de bola, figurinha, cowboy, pega-pega, taco – brincadeirinhas que não acontecem mais.

 

Fiz o primário no Grupo Escolar Eduardo Prado, acho que ainda está lá; o ginásio no Colégio São João (que foi demolido; é sede de outra igreja evangélica). Cursei o Senai e me formei Técnico Têxtil em fiação, profissão e indústrias quase em extinção no Brasil.

 

Minhas recordações do centro de São Paulo, quando pequeno e jovem, incluem, entre outras, o Mappin, as Lojas Americanas – que bauru gostoso se fazia ali, será que ainda tem hoje? – a Pirani, na Av. Celso Garcia, onde no terraço havia um parquinho de diversões no qual eu brincava quando pequeno, levado pela Cida, minha irmã.

 

As recordações desses locais hoje inexistentes fazem às vezes eu me sentir como se tudo aquilo tivesse se passado em outro século, que de verdade foi, não é mesmo.

 

Se não vejamos:  tempo em que a TV era em branco e preto e existia o televizinho; que a vitrola, nos bailinhos aos sábados, tocava músicas gravadas em LPs; que existia namoro, noivado e casamento; que a minissaia e o biquíni eram novidades; que o Brasil tinha o melhor futebol do mundo, tinha o rei Pelé. Tempo em que passavam homens pelas ruas vendendo bijous e afiadores de facas e tesouras – ambos faziam barulhos para chamar a atenção dos moradores: os primeiros com uma matraca;os outros com um apito característico. Lembram desse som?

 

Poderia ficar recordando outras tantas cenas desta cidade, mas, não se engane, não sou saudosista. Emociono-me toda vez que recorda daqueles velhos tempos, mas sou muito feliz vivendo na São Paulo atual.

 

Para participar do Conte Sua História de São Pauo, envie seu texto para milton@cbn.com.br. O quadro vai ao ar aos sábados, logo após às 10h30, no CBN SP. A sonorização é do Cláudio Antonio.

Conte Sua História de SP: meu pai me levava para ver provas de remo no Tietê

 

Por Ricardo Pinto Filho
Ouvinte da Rádio CBN

 

 

Meus pais e eu viemos morar no Brasil em idos do ano de 1958. Meu pai, que atuou no corpo diplomático como adido comercial, se aposentou, e passamos a morar na cidade do Rio de Janeiro, mais especificamente em Copacabana.

 

Meu pai, homem dinâmico não queria parar de trabalhar e reingressou no mercado de trabalho, participando dos negócios de uma empresa de tecidos, que atuava com tecidos finos e seda importados.

 

O negócio obrigava meu pai a fazer viagens constantes à São Paulo, onde visitava negociantes e empresas importadoras para ver e comprar produtos.

 

Normalmente, viajava no meio de uma semana e retornava no meio da outra. Nos finais de semana em que ficava por aqui, aproveitava para rever velhos amigos de quando aqui morou por algum tempo. Sempre procurava visitar uma sobrinha muito querida, casada com um financista, que vivia em São Paulo fazia muito muitos anos.

 

Nas minhas férias escolares, sempre acompanhava meu pai nessas viagens. Eu adorava a viagem, sempre de ônibus, pois meu pai tinha medo de avião. Me recordo bem do ônibus GMC da Cometa, prateado, com janelas amplas com seus vidros Ray-Ban verdes e com o forte ronco do seu motor traseiro. Nada comparado aos ônibus urbanos.

 

Bem lembro que a via Dutra ainda tinha pista de mão dupla, que bem suportava o tráfego daquela época. A viagem sempre era muito tranquila e confortável.
Assim conheci São Paulo ainda criança.

 

Muito embora São Paulo não tivesse praia, me encantou pelos programas que proporcionava e as coisas e comidas que eu não achava pelo Rio. Meu pai, fora dos afazeres, me levava a passear pelos encantos paulistanos.

 

Sempre ficávamos no Centro, mas meu pai gostava de ir ao bairro oriental da Liberdade ou dos italianos do Bexiga. Nossos passeios sempre tinham museus, exposições, shows e parques para ver. Gostava muito de ir ao Jardim Zoológico, ao Jardim Botânico, ao Parque do Ibirapuera sendo o Planetário e o Museu da Aviação os meus prediletos. O Parque da Independência e o Museu de mesmo nome.

 

Visitávamos a Cidade Universitária, sem deixar de ir ao Instituto Butantã e seu serpentário.

 

Não me recordo ao certo de quantos lugares conheci, mas de um em especial, sempre me lembro, por causa do meu pai.

 

Ele, quando jovem, foi remador de competições no Clube de Regatas Guanabara. Remava em barcos de competição como o iole e os esquifes. Esse esporte sempre fez parte da sua vida e competições esportivas dessa modalidade sempre o atraiam.

 

Assim, sempre que estávamos em São Paulo e havia competições no Rio Tietê, a partir da Ponte das Bandeiras, ele me levava. Me lembro que para chegar lá, nosso táxi passava por grandes trechos de mato alto, como se ali não houvesse cidade até chegar a margem esquerda daquele rio, junto ao clube Tietê.

 

As regatas sempre atraiam muito público, naquele domingos pela manhã. Os barcos de cada prova alinhavam em uma espécie de píer de madeira e de onde a molecada pulava para se esbaldar no rio ao final das provas. Lembro do meu pai falar das guarnições do Espéria, Tietê, Corinthians e o Náutico da cidade de Santos.

 

Guardo nas minhas recordações do quanto cristalinas eram as águas do Rio Tietê. Tinha gente que pescava ou a garotada que nadava em grande farra, com suas bóias feitas com câmaras de ar de automóveis. Se vão 50 anos e ainda relembro esses fatos guardados em minha memória.

 

Depois de muitas andanças em minha vida, acabei por vir morar em São Paulo.

 

Hoje, estou casado com uma filha dessa cidade, com quem constituí família. Moro no bairro da Pompéia e invariavelmente passo todos os dias pela marginal Tietê a caminho do trabalho. Vejo com muita tristeza a que condições reduzimos o nosso Rio Tietê.

 

Falo assim “nosso” porque me julgo como parte de São Paulo, que tão bem me recebeu quando aqui vim morar e construir o meu futuro. Essa é a mina história de São Paulo.

 

O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar no CBN SP, logo após às 10h30, e tem a sonorização do Cláudio Antonio

A Condenação: história real para ser vista sempre

 

Por Biba Mello

 

 

FILME DA SEMANA:
“A Condenação”
Um filme de Tony Goldwyn.
Gênero: Suspense,Drama.
País:USA

 

A história verdadeira de uma irmã dedicada que se forma advogada para defender seu irmão, injustamente acusado de um homicídio. Kenny sempre foi um garoto problemático e perseguido pela polícia. Quando algum crime acontecia na cidade, ele logo era investigado. Sua irmã se chamava Betty Anne Waters e sacrificou a vida, seu casamento e seus filhos por esta obsessão: provar a inocência do irmão. Depois de ficar sem dinheiro, seus advogados não conseguirem absolver o irmão, ela, muitos anos depois, consegue se formar e, finalmente, achar provas que o inocentaram.

 

Por que ver:
Se você, assim como eu, adorar histórias verídicas. O filme, no geral, é bem feito, as atuações coerentes e, mesmo nada se destacando, a história é legal. Vale como entretenimento. Hylary Swank e Sam Rockwell passam uma veracidade que emociona.

 

Vale a pena conferir.

 

Como ver:
Este filme pode ser visto sempre. Com amigos dos mais diversos tipos, família e etc… Este não é um assunto infantil, portanto já sabem, nada de filhos menores de 12 anos, ok?

 

Quando não ver:
Vou me permitir um pouco de humor negro…Você tem algum amigo acusado de assasinato? Ele certamente não será a companhia ideal.

 

“Curuzes”!!!

 

Biba Mello, diretora de cinema, blogger e apaixonada por assuntos femininos. Dá dicas de filmes e séries aqui no Blog do Mílton Jung