Conte Sua História de SP: meu pai me levava para ver provas de remo no Tietê

 

Por Ricardo Pinto Filho
Ouvinte da Rádio CBN

 

 

Meus pais e eu viemos morar no Brasil em idos do ano de 1958. Meu pai, que atuou no corpo diplomático como adido comercial, se aposentou, e passamos a morar na cidade do Rio de Janeiro, mais especificamente em Copacabana.

 

Meu pai, homem dinâmico não queria parar de trabalhar e reingressou no mercado de trabalho, participando dos negócios de uma empresa de tecidos, que atuava com tecidos finos e seda importados.

 

O negócio obrigava meu pai a fazer viagens constantes à São Paulo, onde visitava negociantes e empresas importadoras para ver e comprar produtos.

 

Normalmente, viajava no meio de uma semana e retornava no meio da outra. Nos finais de semana em que ficava por aqui, aproveitava para rever velhos amigos de quando aqui morou por algum tempo. Sempre procurava visitar uma sobrinha muito querida, casada com um financista, que vivia em São Paulo fazia muito muitos anos.

 

Nas minhas férias escolares, sempre acompanhava meu pai nessas viagens. Eu adorava a viagem, sempre de ônibus, pois meu pai tinha medo de avião. Me recordo bem do ônibus GMC da Cometa, prateado, com janelas amplas com seus vidros Ray-Ban verdes e com o forte ronco do seu motor traseiro. Nada comparado aos ônibus urbanos.

 

Bem lembro que a via Dutra ainda tinha pista de mão dupla, que bem suportava o tráfego daquela época. A viagem sempre era muito tranquila e confortável.
Assim conheci São Paulo ainda criança.

 

Muito embora São Paulo não tivesse praia, me encantou pelos programas que proporcionava e as coisas e comidas que eu não achava pelo Rio. Meu pai, fora dos afazeres, me levava a passear pelos encantos paulistanos.

 

Sempre ficávamos no Centro, mas meu pai gostava de ir ao bairro oriental da Liberdade ou dos italianos do Bexiga. Nossos passeios sempre tinham museus, exposições, shows e parques para ver. Gostava muito de ir ao Jardim Zoológico, ao Jardim Botânico, ao Parque do Ibirapuera sendo o Planetário e o Museu da Aviação os meus prediletos. O Parque da Independência e o Museu de mesmo nome.

 

Visitávamos a Cidade Universitária, sem deixar de ir ao Instituto Butantã e seu serpentário.

 

Não me recordo ao certo de quantos lugares conheci, mas de um em especial, sempre me lembro, por causa do meu pai.

 

Ele, quando jovem, foi remador de competições no Clube de Regatas Guanabara. Remava em barcos de competição como o iole e os esquifes. Esse esporte sempre fez parte da sua vida e competições esportivas dessa modalidade sempre o atraiam.

 

Assim, sempre que estávamos em São Paulo e havia competições no Rio Tietê, a partir da Ponte das Bandeiras, ele me levava. Me lembro que para chegar lá, nosso táxi passava por grandes trechos de mato alto, como se ali não houvesse cidade até chegar a margem esquerda daquele rio, junto ao clube Tietê.

 

As regatas sempre atraiam muito público, naquele domingos pela manhã. Os barcos de cada prova alinhavam em uma espécie de píer de madeira e de onde a molecada pulava para se esbaldar no rio ao final das provas. Lembro do meu pai falar das guarnições do Espéria, Tietê, Corinthians e o Náutico da cidade de Santos.

 

Guardo nas minhas recordações do quanto cristalinas eram as águas do Rio Tietê. Tinha gente que pescava ou a garotada que nadava em grande farra, com suas bóias feitas com câmaras de ar de automóveis. Se vão 50 anos e ainda relembro esses fatos guardados em minha memória.

 

Depois de muitas andanças em minha vida, acabei por vir morar em São Paulo.

 

Hoje, estou casado com uma filha dessa cidade, com quem constituí família. Moro no bairro da Pompéia e invariavelmente passo todos os dias pela marginal Tietê a caminho do trabalho. Vejo com muita tristeza a que condições reduzimos o nosso Rio Tietê.

 

Falo assim “nosso” porque me julgo como parte de São Paulo, que tão bem me recebeu quando aqui vim morar e construir o meu futuro. Essa é a mina história de São Paulo.

 

O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar no CBN SP, logo após às 10h30, e tem a sonorização do Cláudio Antonio

A Condenação: história real para ser vista sempre

 

Por Biba Mello

 

 

FILME DA SEMANA:
“A Condenação”
Um filme de Tony Goldwyn.
Gênero: Suspense,Drama.
País:USA

 

A história verdadeira de uma irmã dedicada que se forma advogada para defender seu irmão, injustamente acusado de um homicídio. Kenny sempre foi um garoto problemático e perseguido pela polícia. Quando algum crime acontecia na cidade, ele logo era investigado. Sua irmã se chamava Betty Anne Waters e sacrificou a vida, seu casamento e seus filhos por esta obsessão: provar a inocência do irmão. Depois de ficar sem dinheiro, seus advogados não conseguirem absolver o irmão, ela, muitos anos depois, consegue se formar e, finalmente, achar provas que o inocentaram.

 

Por que ver:
Se você, assim como eu, adorar histórias verídicas. O filme, no geral, é bem feito, as atuações coerentes e, mesmo nada se destacando, a história é legal. Vale como entretenimento. Hylary Swank e Sam Rockwell passam uma veracidade que emociona.

 

Vale a pena conferir.

 

Como ver:
Este filme pode ser visto sempre. Com amigos dos mais diversos tipos, família e etc… Este não é um assunto infantil, portanto já sabem, nada de filhos menores de 12 anos, ok?

 

Quando não ver:
Vou me permitir um pouco de humor negro…Você tem algum amigo acusado de assasinato? Ele certamente não será a companhia ideal.

 

“Curuzes”!!!

 

Biba Mello, diretora de cinema, blogger e apaixonada por assuntos femininos. Dá dicas de filmes e séries aqui no Blog do Mílton Jung

Conte Sua História de SP: nos ombros de meu pai assisti à festa da cidade

 

Por Deise Caramello
Ouvinte da rádio CBN

 

 

Naquele dia, percebi que algo muito importante estava acontecendo . Minha mãe nos vestiu, eu e meu irmão, com nossa melhor roupa, nosso melhor sapato.  Fomos até o ponto de ônibus -eu, meu pai, minha mãe e meu irmão – todos rumo ao centro de São Paulo. No letreiro do ônibus  estava escrito em letras grandes “CIDADE”.

 

Apesar de nascida no Tatuapé, morávamos em um bairro de Guarulhos. E “cidade” queria dizer “Centro de São Paulo”. Passamos pela Penha, Avenida Celso Garcia, Rangel Pestana e chegamos ao ponto final: a  praça Clóvis Bevilaqua.

 

Era um movimento só; que eu não entendia, mas achava lindo… todas aquelas pessoas. Eu estava muito alegre por estar ali, naquele agito. Meu pai segurava firme a minha mão e, assim, seguimos pela praça da Sé, rua Direita, praça do Patriarca até chegarmos ao glorioso viaduto do Chá.

 

No Vale do Anhangabaú, bandas e fanfarras desfilavam com sons, cores e bandeiras … radiantes por estarem ali comemorando o aniversário da cidade. Foi então que todos olharam para o céu. Um som ensurdecedor nos envolvia cada vez mais. Meu pai me colocou sobre seus ombros e uma chuva prateada desceu sobre nós. Nos meus quatro anos., estava vivendo um sonho, um conto de fadas. Encantada.

 

Era São Paulo em festa pelos seus quatrocentos anos de fundação.

Conte Sua História de SP: meu encontro com D. Eva em Moema

 

Por Marina Zarvos Ramos de Oliveira
Ouvinte da CBN

 

 

Olá D.Eva!

 

Espero que minha carta a encontre cheia de vida como quando a conheci. Nossas vidas se cruzaram dias atrás. Foi no cruzamento de duas movimentadas avenidas de nosso bairro, Moema. Preparava-me para atravessar quando a vi do outro lado ensaiando o mesmo. Se tudo desse certo, iríamos nos encontrar no cruzamento das ruas. Se tudo desse certo…

 

Num “flash”um temor me assola: suas frágeis pernas e braços, carregando um carrinho de feira abarrotado de suprimentos, fardos de água em uma mão e uma garrafa na outra, teriam a agilidade necessária para a empreitada? Movida pelo medo de que algum carro a atingisse, saí em sua direção o mais rápido que pude. Postei-me ao seu lado para juntas atravessarmos. Ofereci ajuda e a senhora, um tanto ofegante, agradeceu-me e aceitou. Apenas para ajudar na travessia, não me permitiu segurar o carrinho.

 

Sãs e salvas após atravessarmos, comento sobre o peso que carregava, reitero meu pedido para puxar o carrinho e acompanhá-la até seu destino. A senhora aceita, mas me entrega apenas a garrafa de água.

 

Percebo um forte sotaque e ponho-me a conversar. Caminhamos juntas dois quarteirões, suficientes para saber que D.Eva, com 90 anos e um 1,5 metro de altura, imigrante romena, esta mesmo é preocupada comigo: ”cuidado esquina mais perigosa que a anterior”, alertava-me.

 

D.Eva, como me esquecer de seu olhar atento para os dois lados? E de sua voz? Ecoa até agora ao me dizer certeira: “vamos,vamos”. E fomos em direção ao seu prédio. Naqueles últimos metros, outra revelação bombástica.

 

– “Morei cinco anos debaixo da terra”, disse D.Eva.
– “Debaixo da terra? Como assim?”
“Sim, saía apenas para procurar comida à noite.Tempos difíceis os da Segunda Guerra”!

 

Paro minha caminhada para recuperar o fôlego e enxugar as lágrimas. Dona Eva prossegue e já sinaliza ao porteiro sua chegada…

 

“Por favor, D. Eva, deixe-me levar até o elevador”, pedi a ela.

 

Neste instante, percebo que meu desafio maior aproximava-se. A entrada escolhida pela senhora foi a da garagem com uma longa e íngreme rampa. A senhora, tal qual uma jovem e habilidosa “skatista”, desliza em direção à garagem, enquanto prendo minha respiração. Não esquecerei o sorriso largo da senhora ao voltar-se para trás e olhar-me com ar de vitória absoluta e total.

 

Despedimos-nos no térreo, não sem antes receber inúmeras, incontáveis e maravilhosas bênçãos.

 

Perdi a direção, o rumo e o motivo pelo qual sai naquela manhã. Nada mais importava, mediante a beleza da lição de força e de vida que recebi. Perguntava-me como não a havia visto antes? Somos vizinhas próximas e há mais de 20 anos! São Paulo nos acolheu generosamente. Minha família emigrada da Grécia, fugindo da mesma guerra e a senhora da Romênia.

 

D.Eva, que benção tê-la encontrado naquele dia! Nossas ruas se cruzado! Nossas vidas se encontrado aqui em São Paulo!

 

PS: Eva tem origem no hebraico :”Hawwá”,que quer dizer ” Cheia de vida”.

Conte Sua História de SP: o primeiro beijo nas ruas da minha cidade

 

Por Adriano Prezia
Ouvinte da Rádio CBN

 

 

A cidade marcaria definitivamente a minha vida no ano de 1973 com o meu presente maior. Ao contrário do compositor, sempre fui um apaixonado pela inteligência, formosura, beleza e simpatia da mulher paulistana.

 

O encontro ocorreu quando já não me fazia muito sentido as pipas no ar, a bola nos pés e o sonho do moleque peladeiro.

 

Tudo começo quando fui fazer o cursinho pre-vestibular no “MED”, onde também estudava o sonho da minha vida. O prédio era na Rua Augusta, entre a Dona Antônia de Queirós e Marquês de Paranaguá.

 

Lembro-me da lanchonete em frente. E dos alunos das diversas turmas, chegando com muita alegria. Candidatos ao vestibular da Mapofei, responsável pelos exames de exatas; do Cecem, que realizava a seleção dos candidatos às escolas médicas e do Cecea, da área de humanas.

 

Os primeiros sorrisos, convidativos. A aproximação tímida. A boca seca, as mãos úmidas e as primeiras palavras vacilantes. A procura por assuntos, os descobrimentos pessoais. A amizade e as primeiras confidências. O acompanhamento ao ponto de ônibus da Rua da Consolação.

 

Enfim, o primeiro beijo de amor, tão sonhado e desejado.

 

Estávamos no banco traseiro da Veraneio ao ano, dirigida pelo Fernando, que no banco da frente era acompanhado pela namorada dele. Seguíamos em direção a Rua Augusta, que naquele trecho tinha o asfalto converto pelo carpete. Era o ponto de comércio e de encontro de jovens, mais badalado da cidade de São Paulo. No som do carro, tocava a nossa inesquecível canção, Killing Me Softley With His Song, na voz de Roberta Flack.

 

Depois do beijo, continuamos pela Avenida Brasil, pegamos a Cardeal, Fradique, Aspicuelta e finalmente a Fidalga. O destino era a casa da amada, na Vila Madalena, uma vila onde moravam muitas das famílias de imigrantes portugueses, parte dos padeiros e feirantes da cidade de São Paulo.

 

Foi assim que nasceu um grande amor, vivo até hoje, que deu frutos, e frutos dos frutos.

 

O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar, aos sábados, no programa CBN SP

Conte Sua História de SP: navegava curioso pela Paulista

 

Por Fábio Henrique de Carvalho

 

 

Falar de São Paulo talvez seja mais fácil do que se apaixonar definitivamente pela cidade. Nos meus 40 anos, nasci distante da metrópole, mas desde pequeno tive a oportunidade do convívio com esse lugarzinho cheio de tudo.

 

Na infância, com os tios morando em um prédio na rua Cubatão, em visitas frequentes aos queridos parentes, foi que comecei a me deparar com a grandiosidade do lugar.

 

Navegava curioso pela Paulista, tendo no curso da nau cinemas com filmes que jamais veria em outros cantos. O Vão do MASP era indecifrável naquela infância. Como se sustentava? Livrarias enormes. Gente de outro mundo com a face fechada cruzava meu caminho. Os olhares nunca se cruzavam (até hoje é assim!).

 

E garoava! E mesmo assim ninguém se intimidava. A avenida permanecia movimentada. Capuzes e blusas de cores sortidas decoravam as faixas de pedestres. Os passos não mudavam pela garoa. Eram apressados em qualquer dia e estação do ano. Menos os meus. Os meus eram passos curtos de uma criança. Escutava no caminho sotaques diferentes. Muitos deles eram engraçados. Eu imitava baixinho aqueles tons. Queria guardar só para mim cada detalhe daquele mundo novo.

 

Do chão das calçadas saia vento através de grades que cobriam fossas profundas. Que seria aquilo? Me assustava… E no segundo seguinte já estava me divertindo com a descoberta.

 

Hoje, continuo navegando por São Paulo. Os passos já não são tão lentos quanto os de um menino. Mas ainda busco pelos olhares que tocam o chão e o infinito.

Conte Sua História de SP: os parques que me levaram ao escotismo

 

Por Emerson Beraldo

 

 

Minha mãe tinha casa no Butantã, no Jardim João XXIII, onde crescemos e descobrimos a vida. Meu pai trabalhava no comércio e não tinha muito tempo para dar atenção aos filhos, mas nos domingos de folga sempre nos levava para passear nos parques da cidade que só víamos no horizonte.

 

Zoológico, nossa! Como era longe! Eram duas horas de ônibus até lá. Hoje não gasto mais de 30 minutos.

 

No Parque do Ibirapuera tinham o lago, a Bienal, a Prefeitura (sim ela ficava no parque, onde hoje é o prédio da PRODAN), lá podia subir nas árvores, no monumento às Bandeiras, onde tinha uma placa com os nomes dos Bandeirantes que desbravaram nosso Estado, e ficávamos fascinados com o tamanho do Obelisco.

 

Para pegar o ônibus de volta, passava por uma praça, ao lado do Obelisco, chamada “Escoteiro Aldo Chioratto”, naquela época eu só conhecia escoteiros pela TV e pensava: “um dia vou ser escoteiro”.

 

Já no Parque da Previdência tinha um bosque que em nossa imaginação de criança, se transformava em uma floresta assustadora como nos filmes de terror.

 

Adorávamos subir na antiga caixa d’água em forma de Cúpula, de onde avistávamos a cidade. Sentados nos bancos ao lado da administração víamos o Estádio do Morumbi. Dava até para ouvir o barulho das torcidas em dias de jogos.

 

Em 1986, durante um destes passeios pelo Parque da Previdência, logo ao chegar cruzei com um garoto muito bem uniformizado. Foi a hora, eu e meus irmãos corremos para perto de minha mão e dissemos:

 

– Aqui têm escoteiros! Queremos participar!

 

Foram meses de espera pelo chamado que enfim veio, e no sábado, 28 de março de 1987, estávamos lá, prontos para começar, não tinha ideia que aquilo mudaria para sempre nossas vidas.

 

Mundo Corporativo: Joni Galvão ensina a contar super-histórias

 

 

A história deve destacar valores universais, que possam ser compartilhadas com todas as pessoas, e explorar situações reais, que têm poder de engajar a audiência ao gerar identificação. Essas são algumas das dicas do empresário Joni Galvão especializado em storytelling ou a arte de contar histórias. Em entrevista a Mílton Jung, no quadro Mundo Corporativo, Galvão fala da estratégia de comunicação corporativa que tem permitido com que pessoas e empresas fiquem mais próximas de seus clientes e objetivos. Ele é o criador da The Plot Company e autor do livro “Super-histórias no universo corporativo”, publicado pela Panda Books.

 

O Mundo Corporativo é apresentado, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas, no site http://www.cbn.com.br, com participação dos ouvintes pelo e-mail mundocorporativo@cbn.com.br. O quadro é reproduzido aos sábados, no Jornal da CBN.

Conte Sua História de SP: nossas mudanças, e as do Carnaval, também

 

Por Elmira Pasquini

 

 

Em 1937, quando nos mudamos de Itaquera, que era um lugar muito agradável com suas chácaras, sem luz elétrica, sem calçamento e sem água encanada, muito diferente da Itaquera de hoje,fomos morar na Avenida Brigadeiro Luiz Antonio, número 146.

 

Era uma casa pequena, de sala, dois dormitórios e banheiro, cujas cozinha e área da lavanderia ficavam no alto, com vistas para um matagal que mais tarde veio a tornar-se a Avenida 23 de Maio.

 

Estávamos felizes, perto do centro da cidade, a 140 metros do largo São Francisco, bem perto da já famosa Faculdade de Direito 11 de Agosto.

 

Após quase dois anos, recebemos um convite para desocuparmos essa residência pois acabava de ser aprovada a construção de um viaduto que iria passar por cima da Avenida 23 de Maio, ainda a ser construída, ligando a Rua Cristovão Colombo, que sai do Largo São Francisco, com a Avenida Brigadeiro Luiz Antonio.

 

Hoje ambos são partes importantes no centro da cidade de São Paulo.

 

Logo conseguimos um belo sobrado na própria Avenida Brigadeiro Luiz Antonio número 254, onde, na parte de baixo, havia a loja da companhia  Gessy. Lá nos acomodamos com muita facilidade e conforto, morando quase em frente ao Restaurante e Pizzaria Giordano, apenas a cem metros do Cine Teatro Paramount. Quanto conforto, quanta facilidade. Tínhamos diversas linhas de bonde para diversos lados da cidade.

 

No Carnaval, assistíamos ao desfile de blocos em carros conversíveis. Um carnaval bem diferente dos dias de hoje. Eram grupos de jovens uniformizados como marinheiros, havaianos, soldados romanos, damas antigas, clubes esportivos … que passavam cantando as gostosas marchinhas de carnaval: “o Jardineira porque estás tão tristes”… “Mamãe eu quero”,  Eu fui a touradas de Madrid…” e outras mais. De vez em quando paravam, desciam de seus carros e formavam alegres blocos, atirando serpentina, lança perfume e confetes.

 

O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar aos sábados, no CBN SP, logo após às 10h30 da manhã. A sonorização é do Cláudio Antonio.

Conte Sua História de SP – 462 anos: da minha casinha no Butantã até onde o olhar alcança

 

Por Samuel de Leonardo

 

 

No Conte Sua História de São Paulo, trechos do texto enviado pelo ouvinte-internauta Samuel de Leonardo, nascido em 1956, na cidade de Inúbia Paulista. Veio para a capital no fim dos anos de 1950 quando a família se fixou em uma chácara na rodovia Raposo Tavares:

 

Dias difíceis aqueles, contavam meus avós. Pouco trabalho, pouca comida e um frio de matar. Minha avó japonesa, era assim que a chamávamos, permanecera com os irmãos de minha mãe tocando a lavoura de café na região de Rinópolis, interior de São Paulo.

 

Com dignidade, meu avô paterno tocava a lida na chácara e subsistíamos com o que ali se plantava: verduras, mandiocas, muitas abóboras, muitos chuchus e criação de galinhas. Meu pai ingressou na construção civil, foi ser servente de pedreiro. O que poderia mais conseguir um semi-analfabeto que dos 30 anos vividos frequentara a escola apenas dois?

 

Decorrido pouco tempo ele conseguiu ingressar na Prefeitura Municipal de São Paulo, no cargo de gari, e com isso passara a ganhar um pouco mais. Assim como todo brasileiro, a casa própria era o seu sonho. Com muito sacrifício comprou terreno num loteamento novo em São Domingos, lá pelos lados do Butantã, na zona oeste.

 

Lembro-me vagamente dos dias vividos na chácara nas imediações onde hoje está erguido o Shopping Raposo Tavares: a bola colorida, presente dada pela mulher que era a dona do local; a minha queda de cima do barranco quando soltava bolhas de sabão com canudo de talo de mamona feita pelos meus tios. Tenho vivo em minha memória quando, aos três anos, pela primeira vez entrei em um veículo motorizado, um caminhão. Foi o dia da mudança para a casa nova, um cômodo apenas, perdido numa imensidão de terra vermelha, mas que para nós era um lar.

 

De frente àquela casinha olhando um pouco mais para alto podia-se avistar um imenso milharal e uma imagem tal qual uma colcha de retalhos em várias tonalidades de verde, repleta de verduras. Era a chácara dos Fonsecas. À direita uma estreita rua subia rumo às casas, que se perdiam de vista, espalhadas colina acima em direção ao Bonfiglioli. À esquerda, a poucos metros da casa, uma imensidão de sapezais e, mais abaixo, um córrego com várias tábuas ao seu redor. Ainda ao longe uma estradinha que terminava em uma granja e um pouco mais à frente podia-se contemplar os telhados de uma olaria lá pelos lados do Rio Pequeno.

 

Aos fundos outra colina em menor escala onde a uns 200 metros passava uma estrada de terra batida, caminho principal daquele então modorrento lugarejo onde existia um comércio capenga formado basicamente por uma única avenida que abrigava uma padaria, a farmácia do Zé, o salão de barbeiro do João, o Ligeirinho, o Armazém dos Gregos, um açougue que não me recordo o nome do dono, e mais de uma dezena de botecos, desses onde o estoque principal é variado, variado nos tipos de cachaças, e com o salão ocupado por mesas de bilhar.

 

Perceba que morávamos em um grande buraco.

 

Samuel de Leonardo é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A narração é de Mílton Jung e a sonorização de Cláudio Antonio. Envie seu texto para milton@cbn.com.br