Apesar de tudo… (parte 2)

 

Por Julio Tannus

 

… adoro a cidade de São Paulo. Passado um tempo morando na Rua São Lázaro logo após nossa chegada de Paraty, mudamos para a Av. Leôncio de Magalhães, 1.509, no Jardim São Paulo, no início dos anos 50.

 

O primeiro encontro: tínhamos em casa uma geladeira americana da marca Gibson. Era a única casa da vizinhança que possuía geladeira. Em um dia de muito calor, logo pela manhã, toca a campainha de casa. Ao atender a porta vemos, eu e meu irmão, duas menininhas loiras com forte sotaque alemão, que nos faz o seguinte pedido: “vocês podem dar um pouco de gelo?”. A partir daí ficaram nossas amiguinhas e passei a contar em alemão e a aprender algumas palavras dessa língua, e outras coisas mais. E também saber que várias famílias alemãs haviam fugido da guerra e vindo morar em São Paulo.

 

O primeiro susto: em frente a nossa casa, do outro lado da rua, ficava a Casa das Mangueiras. Uma enorme casa com várias mangueiras no jardim da frente. Éramos, eu e meu irmão, assíduos dessas árvores na época em que ficavam carregadas de deliciosas mangas. Até que um dia, ao chegar da feira com minha mãe, nos demos conta que algo de anormal se passava em casa. Meu irmão havia sido mordido por um dos ferocíssimos cachorros buldogues da Casa das Mangueiras. Se não fosse o caseiro acudir imediatamente, certamente ele teria sucumbido à ferocidade dos cães. Pouco tempo depois, um dos cachorros se soltou e entrou em nossa casa, onde finalmente teve seu fim.

 

As primeiras brincadeiras: Andávamos de carrinho de rolimã pela avenida, e também de bicicleta. Nas festas juninas fazíamos fogueira, fogão de tijolo onde assávamos batata doce, soltávamos fogos de artifício, balão e muita diversão, todas no espaço público. Na calçada de terra batida tínhamos nosso campo para jogar bola de gude. E também espaço para empinar pipa como diziam os paulistanos, que nós de Paraty chamávamos de “papagaio”. Os amigos eram de vários perfis: um deles se tornou comandante da Polícia Militar, outro que só andava de gravata e cujo apelido era “gravata” não sei que fim levou. Quando juntos, além das brincadeiras da época, gostávamos de chamar de “frangueiro” o goleiro Poy, que morava na vizinhança, e era do time do São Paulo e da Seleção Brasileira de Futebol.

 

A primeira mudança: Em meados dos anos 50 fomos morar no bairro dos Campos Elíseos, perto do antigo Palácio do Governo do Estado de SP, na Avenida Rio Branco no edifício Cícero Prado. Um prédio de 100 apartamentos onde a grande maioria era habitada por judeus, muitos deles fugidos da perseguição na Alemanha nazista. É com eles que me aproximei de Sigmund Freud. E também aprendi sobre a cultura judaica: aos sábados ia aos apartamentos onde moravam judias religiosas para acender o fogão de suas casas. Em frente ao prédio, fizemos um campo de futebol em plena Avenida Rio Branco, pois nesse trecho a avenida era apenas uma rua estreita.

 


Julio Tannus é consultor em Estudos e Pesquisa Aplicada e co-autor do livro “Teoria e Prática da Pesquisa Aplicada” (Editora Elsevier). Às terças-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung

A Viagem ( final)

 

Por Sérgio Mendes

 

Leia aqui o 1º capítulo de “A Viagem”

 

Leia aqui o 2º capítulo de “A Viagem”

Leia aqui o 3º capítulo de “A Viagem”

 

Naquela posição, ninguém ainda tinha percebido direito o que acabara de acontecer e a sensação de que meu pai daria outra vez a partida e continuaríamos, persistiu até que ele saiu do carro. Após submergir de nossas vistas na janela, emergiu com aquela cara de ‘hum, hum’ que eu nunca mais me esqueci. O eixo traseiro estava partido em dois, e as rodas dobraram se sobre ele fazendo a traseira do carro abrir as pernas fora do asfalto. Nós e o corcel amarelo em pleno Cerrado, frente e verso traspassados pela estrada a perder de vista dos dois lados. Então, saímos todos do carro e nos reunimos numa sessão do conselho diretor para discutir o que faríamos.A conclusão foi que um dos adultos seguiria de carona até a próxima cidade para buscar socorro, e os demais montariam guarda na estrada pra assegurar que o tal socorro tivesse a quem socorrer na chegada.

 

Assim se fez e assim aconteceu!

 

As horas a partir de então, foram uma sucessão de generosidade anônimas e o esvaziamento total das reservas familiares. Por causa disso, a viagem se completou com suas ultimas 24h a bordo da nave da mamãe.

 

O socorro chegou com o socorrista que depois de um exame minucioso na fratura exposta, igualmente emergiu a nossas vistas do outro lado do carro, com a cara de ‘hum, hum’ escondida detrás dos óculos de fundo de garrafa. Não conseguiu nos assustar por que a cara já tínhamos visto! Conversa vai, conversa vem, e nós em silêncio acompanhando o ping-pong. Hora olhando para um lado, hora para o outro.

 

Depois de muita exclamação e de cada um dos três partícipes naquela negociação dar umas duas ou três coçadinhas na própria cabeleira, chegaram a um acordo: o mecânico rebocaria o nosso corcel, providenciaria outro osso igualzinho e ainda faria o implante a troca de todos os centavos que nos restasse naquela altura do campeonato!

 

Demos o ping-pong por encerrado.

 

O socorrista, com ares de sabe-tudo e muito boa vontade, amarrou bem amarrado o eixo do nosso corcel e nos montou a todos, exceto o meu pai, na garoupa do seu próprio pangaré e fomos rebocados até o seu hospital de pangarés na entrada da cidade mais próxima. Meu pai ficara no nosso carro, apenas manobrando.

 

Ao chegar, apearam o paciente e entraram com ele para a mesa de operação. Do lado de fora da janela do CTI, quatro pares de olhos pequenos, arregalados, não perdiam uma só cena daquele capítulo final. Estávamos esticados e de pé, cada um esticado como era possível, é claro, obedecendo as curvas na coluna impostas pelos últimos dias.

 

Uma senhora que acompanhara nosso drama desde a chegada do comboio( pangaré partido e pangaré resgate) nos ofereceu sua casa para o pouso enquanto providenciavam outro eixo de outro pangaré partido em algum outro lugar. Dormiríamos aquela noite na casa dela.

 

No dia seguinte pela manhã, a peça chegou e o implante foi completado. Depois de um café com pão, leite e muito amor, estávamos de volta ao asfalto ou o que se pudesse chamar aquilo sob o carro, nas ultimas horas da nossa aventura. Prosseguimos nossa viagem pelo restante de estrada que faltava. A maior parte do tempo em silencio.

 

Nem mais a caixa do meu piano, nem as dores no corpo, nem as tensões pelo esgotamento quase completo de todo dinheiro disponível eram maiores que a vontade de chegar. À noite daquele último dia, passamos em um outro posto de combustível junto de uma porção de caminhões e seus caminhoneiros a quem meu pai contou a nossa história. Logo estávamos outra vez cercados do apoio de gente nossa, no meio de um mar de caminhões. Dormimos no carro.

 

Pela manhã, mais café com pão e estrada.
Então, já dentro do Mato Grosso.
Chegar em casa agora, era uma questão de horas.

 

Por volta das 16h, eu entre acordado e dormido e com meu pescoço curvado, por castigo sentado no meio do banco, avistei as luzes da nossa cidade. Lembro de tentar acordar minha tia e que ela me respondeu com um sopapo como se pensasse aquilo ser só mais uma brincadeira de mau gosto.

 

Me deixa dormir! Ela resmungou sem acreditar que a viagem chegara ao final. Mas logo as luzes invadiram o carro e todos os ainda dormidos despertaram. Como era boa aquela sensação!

 

As ruas que faltavam até o fim, eram bem conhecidas e mais um par de curvas, avistamos a praça da vila militar. Foi minha mãe quem abriu o portão e recolhemos o carro. Ninguém nem tocou e nada dentro dele. Só queríamos sair e reencontrar a casa.

 

Na manhã seguinte a nossa chegada, antes que os demais acordassem, fui eu quem me encarreguei de desmontar a cangalha. Não tive impulsos de dirigir o corcel e desmontei os fardos colocando as coisas no chão. Tudo tão indispensável que em uma noite, ninguém precisou de nada guardado dentro dele.

 

Pra que fique bem gravado na memória:

 

‘Nunca subestime nossa capacidade de acumular tranqueiras.’
Ao abri-lo, a fechadura respondeu bem e destravou a porta.

 

Soube depois que o corcel transplantado ainda carregou a família por mais algum tempo, antes de se estrelar num muro em uma balada etílica, a 50km/h, acordando um velhinho no meio da madrugada. Mas eu já não morava mais com meus pais. Naquele mesmo ano iria para um internato militar e igualmente não toquei mais no meu piano que até hoje segue embalado em sua caixa, em algum lugar de nossa casa. Não toquei nem quando retornava por alguns dias nas férias.

 

Isso aconteceu na ultima vez que viajamos todos juntos. Seis dias de carro, um corcel amarelo.

 

Ps: A fechadura colada com chicletes nunca foi descoberta. Nem depois que ele passou para outras mãos. Pelo menos não que eu tenha ficado sabendo.

Conte Sua História de SP: Nos tempos da rádio-patrulha

 

Um tempo em que quebrar as vidraças das casas vizinhas era travessura dos meninos do bairro, crime suficiente para que as autoridades policiais fossem chamadas e surgissem a bordo da rádio-patrulha, um Ford 46 pintado de preto e branco. É desta época as lembranças do ouvinte Domingos Sérgio Baroni, natural de São Paulo, nascido em 1933 e morador da rua Fortunato, no bairro de Santa Cecília.

 

Ouça o Conte Sua História de São Paulo com depoimento de Domingos Sérgio Baroni.

 

O depoimento foi gravado pelo Museu da Pessoa e sonorizado pelo Cláudio Antônio. Você também pode contar o seu capítulo da nossa cidade, enviando um texto para milton@cbn.com.br ou marcando uma entrevista em áudio e vídeo no site do Museu da Pessoa. O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar no programa CBN SP, logo após às 10 e meia da manhã.

A viagem

 


Por Sérgio Mendes

 

Quando entramos no carro para o teste, este também já era o início da aventura. Percebemos a obviedade que não caberíamos todos ali dentro, não comodamente. O espaço que naturalmente já seria apertado sem a caixa na traseira, ficou ainda menor com ela. Por sorte, a atmosfera lá dentro estava bem espessa com toda a comoção da despedida. E isso junto do pequeno bico de minha mãe, brigada com o meu pai, dava cabo de qualquer ameaça aos meus planos. À exceção da minha irmã mais nova, Zangada, permanecemos todos sem perceber a caixa ou se alguém percebeu, foi só um pouquinho!

 

Ao encostarmos no banco, os ombros pegavam-se de maneira tal que bastava pensar em mover o braço e o outro o levantava o seu. As cabeças das duas pobres criaturas do meio, Zangada e Meio-zangada, inclinadas. Enquanto Helenita e eu nos dois extremos até podíamos nos encostar, mas caber de verdade não cabia.

 

Conversando com a minha irmã do meio que agora tem ela própria dois filhos com pouco menos idade que tínhamos nós naquele tempo, chegamos a entender aproximadamente a quantidade de coisas que deveriam passar pela cabeça dos nossos pais cientes do tamanho da jornada que iniciavam com quatro crianças e um carro velho, sob os cuidados unicamente dos dois.

 

O bairro inteiro era de terra batida, e as primeiras ruas que venceríamos antes de chegar no asfalto eram as que mais conhecíamos em nossa curta existência. Da frente da casa de vovó, em linha reta passando pelo grupo escolar onde a minha mãe trabalhou, até a esquina da rua da minha tia, e depois pela frente da casa dela. Naquele ponto acenamos para os parentes que nos assistiam passar da varanda no segundo andar.

 

O carro seguia devagar, até porque mais rápido e não daria tempo de enxergarmos ninguém. Sacolejava suavemente como se estivesse dançando uma música do toca-fitas que não tínhamos.
Os parentes foram ficando ao fundo, e nós no banco detrás de ombros grudados e com os olhos vidrados na aventura. A mesma que devia fervilhar a cabeça dos meus pais, mas do nada, o quase silêncio foi interrompido por um estouro forte.

 

Pow !

 

Correu um frio pela minha espinha! O barulho foi feio mas o carro seguiu sua marcha lenta e nos embalava qual molejo de colchão como se não tivesse sido com ele.

 

Era o primeiro susto pra todos os demais, e o segundo pra mim, que de olhos vidrados, agora pareciam querer trincar.

 

Mais alguns metros e chegaríamos ao nosso primeiro obstáculo. A pista asfaltada da rodovia que cortava a cidade, e que era também a saída do bairro, ficava em desnível, e o carro teria que subi-la. Olhei pela primeira vez os rostos de todo mundo ali dentro e não percebi preocupação. O único parecia ser só eu mesmo.

 

Meu pai engatou a marcha mais forte e zaz! O carro subiu sem maiores dificuldades, mas não sem um outro estouro um pouco menor que o primeiro. Paramos logo em seguida.

 

Os olhos vidrados das meninas e os meus rachados um pouco mais pela segunda flatulência do pobre carro, se desmancharam qual musica de vitrola quando o disco diminui a rotação até silenciar por completo, mas a parada não foi por nada mais grave. Foi o desapontamento da minha mãe com o meu pai que se manifestou. Ela o fizera parar e desceu pra que trocássemos nós dois de lugar. Assumi o seu posto de co-piloto no banco da frente e ela foi para onde eu estava, o que apertou ainda mais as meninas.

 

Folgado como fiquei, me ative a um livro qualquer que me propus a ler. Costumava ser fiel aos meus propósitos, lembram? Mas a leitura não rendia com tanta coisa acontecendo. Todo aquele mato ao lado e não raro na própria rodovia…

 

Vezes só o barulho do motor, vezes alguma conversa, vezes um rebuliço da excitação de informar minha tia da cidade nova e vezes a minha leitura que teimava em não render. Prosseguimos nossa marcha e rodamos por mais de três horas ininterruptas, absolutamente excitantes, e portanto as atenções foram desviadas dos incômodos que sentíamos.

 

Na hora do primeiro almoço na estrada, ainda pudemos saborear a comidinha de vovó. Ela nos entregou embalada em uma lata para comermos ali mesmo no carro. Paramos num posto de beira de estrada para comer e esticar as pernas com tão somente algumas horas de toada a bordo do corcel amarelo. Cada um se deliciou com o cheiro e sabor da farofa e do arroz de viagem.

 

Enchemos o buxo e lambemos os beiços! Ainda tivemos tempo de nos lavarmos enquanto meu pai abastecia o carro e trocava alguma conversa com um dos frentistas. Parecia que o bico da minha mãe tinha diminuído um pouco, e ela até ensaiava alguns comentários com as meninas e comigo.
Pressenti que o meu posto folgado de co-piloto igualmente estava a beira de acabar, mas ele ainda durou por toda aquela tarde.

 

À noite paramos para descansar conforme nossos planos e dormimos em uma pensão.

 

As horas correram, as cidades e os estados também. Os dias anteriores foram mais ou menos da mesma maneira, comigo de volta ao banco detrás e meus pais outra vez reconciliados.
Três deles depois e já corríamos por mais de 1500Km desde a partida e portanto a Bahía também já ficara para trás. Até alí o carro comportara-se bem, exceto se a velocidade ultrapassasse os 80Km. Era como se o pobre nos alertasse que todo o conjunto daquela obra era instável demais. Ele entrava em um frenesi de tremores, nos chacoalhando a todos. E tão somente com isso, apesar de estendermos os dias e as curvas obrigadas nos nossos corpos, prosseguíamos nos aproximando de casa.

 

Foi só em algum lugar de Goiás que a minha irmã ‘Zangada’, irritada pelos dias de pescoço e ombros para frente, decidiu soltar a sua fúria sobre mim e sobre aquela caixa! Instantaneamente meu livro escorregou das minhas mãos e as pestanas derriçaram-se sobre os meus olhos no sono mais profundo e mais providencial que já tivera na vida.

 

Ela berrava o que todo mundo queria dizer de tanto incomodo e aperto. Queria parar, queria parar!
Ninguém, exceto a minha mãe, costumava dar muita bola para os reclamos dela naquele tom já muito comuns a pessoa zangada como ela. Mas desta vez a pobre estava acompanhada inclusive por D. Fátima que provara por alguns quilômetros daquela sensação de ter a cabeça pendurada para frente como peça de alcatra. Iniciou-se um motim a bordo do muar! Todos falavam ao mesmo tempo, exceto eu que fingia dormir, farsante como só. De nada adiantou.

 

Então esta era a hora da vírgula. A hora da vírgula! Eu pensei fingindo mesmo que sonhava, com balãozinho de nuvem e tudo.

 

Aline reclamava a dor nas costas. Helenita uma outra dor qualquer, minha mãe me falava apontando pra minha caixinha de nada, coitada, e o meu pai fechava o senho de maneira que eu interpretei ficaríamos a caixa e eu na estrada.

 

A hora da virgula, do entrevero, do acerto de contas, chegara.
Eu desesperado, mas de olhos semi-cerrados só apontava pro meu balãozinho de nuvem sinalizando que dormia…
Mas óbvio, junto com balão, ninguém acreditava!
Era tanto o barulho que o pobre carro não conseguiu se fazer ouvido no seu lamento.
Tremeu, tremeu e estrebuchou!
Neste instante, o do estrebucho, ouviu-se o único som mais forte que aquela humanidade ouvira desde antes de entrarmos no asfalto.

 

Bum!

 

E uma enorme língua de faíscas de metal cinzelando se viu no nosso rastro.
Quando olhei pra trás o tempo parou tudo dentro do carro e só voltou em quadros. Um por um.
Fez-se um silêncio ensurdecedor. Ninguém entendeu muito bem o que estava acontecendo. Muito menos eu, que até pouco antes daquele instante, sustentava a minha farsa.

 

Quando o tempo voltou a correr, o carro já estava parado por completo, e então ouvimos a minha mãe:

 

Todos estão bem? Perguntou assustada.
Sim, sim, sim, sim. E eu, com o meu balão de nuvens nas mãos disse por último, sim.
Estava acabada a farsa. A parte detrás do carro inclinara-se no asfalto e víamos os meus pais de baixo para cima num angulo esquisito. Mas estávamos de verdade todos bem.

 

O balão com meu sonho de gibi escorregou das minhas mãos e murchou no assoalho, por sobre o meu livro, bem no vão dos meus pés.

 


Leia outros textos de Sérgio Mendes publicado no Blog do Mílton Jung

Apesar de tudo…

 

Por Julio Tannus

 

 

Adoro a cidade de São Paulo. Foi aqui que cresci, me eduquei, me formei, constitui família e hoje desfruto da cidade com todos os seus lugares, praças, shoppings, restaurantes, cinemas, teatros, livrarias, exposições e sua vida incessante. E desfruto também dos amigos, amigas, colegas e vizinhos. Assim que cheguei de Paraty, no fim dos anos 40, fui morar na Rua São Lázaro, travessa da Rua São Caetano, hoje chamada de “Rua das Noivas”, mas até então uma rua movimentadíssima, com todo tipo de comércio, além, é claro, do Cine São Caetano. Minha primeira escola, aos cinco anos de idade, foi o Recanto Infantil Jardim da Luz, do Departamento de Cultura, no Parque da Luz próximo a Estação da Luz.

 

A primeira surpresa: após alguns dias de chegada à cidade, fui com minha mãe e meu irmão caminhando pela Rua São Caetano em direção ao Parque da Luz. Ao chegar na Av.Tiradentes, em frente ao antigo Liceu de Artes e Ofícios, hoje Pinacoteca do Estado, me deparei com o monumento a Ramos de Azevedo (Ramos de Azevedo foi o centro em torno do qual gravitou o renascimento arquitetônico da cidade de São Paulo), hoje transferido para a Cidade Universitária; e exclamei em alto e bom som, nos meus cinco anos de idade: “Olha mamãe, uma mulher de peito de fora!”. Foi uma gargalhada geral. E minha mãe retrucou: “Fica quieto menino!”.

 

 

A primeira raiva: íamos – eu, pai, mãe e irmão – passear no Viaduto do Chá, aos domingos pela manhã. Era o passeio dos paulistanos. Entre os meses de abril e maio, eu e meu irmão temos a mesma idade, pois a diferença entre nós é de apenas 11 meses. E minha mãe nos vestia igualzinho, com o mesmo terno de calça curta e gravata. Então as pessoas passavam por nós e sempre ouvíamos comentários do tipo “que gracinha”, “são lindinhos”. Até que alguém nos perguntava “são gêmeos?”. E respondíamos categoricamente “não somos gêmeos”. E logo vinha outra pergunta “que idade você tem?”, eu respondia “cinco anos”. E você, dirigindo-se ao meu irmão “quantos anos você tem?”. “Cinco anos”. E aí vinha a resposta terrível “Ah! mentirosos hein?” Ficávamos possessos de raiva.

 

 

O primeiro choque: aos domingos íamos ao Cine São Caetano assistir à sessão da tarde. Até que, em um domingo de muita chuva, meu pai decidiu ficar em casa e não nos levar. Ficamos frustrados por pouco tempo, pois nos demos conta que ambos, pai e mãe, estavam compenetrados em suas leituras. Sorrateiramente, descemos as escadas e logo estávamos caminhando apressadamente em direção ao cinema. Ao chegar, o porteiro indagou o que queríamos. Respondemos: “viemos encontrar nossos pais que estão no cinema”. De imediato propiciou nossa entrada. Após algum tempo de fascínio pelo que se passava na tela, fui surpreendido e sobressaltado por uma mão forte que repentinamente me levantou da cadeira. Era meu pai, com uma expressão de angústia e raiva. Fomos levados de imediato para casa, com uma promessa de castigo por causar tanto desespero aos pais.

 

O primeiro time: flamenguista por herança de pai e de tanto ouvir “uma vez Flamengo, Flamengo até morrer” me sentia desajustado diante de tantos palmeirenses, são-paulinos, santistas, e assim por diante. Até que na celebração do IV Centenário da cidade, no dia 6 de fevereiro de 1955, o Corinthians se tornou campeão e meu time paulista do coração.

 

 

E, de 9 a 11 de julho de 1954, com a imensa participação de toda a população, que invadiram as ruas de nossa cidade, ocorreram festas maravilhosas. Entre elas me recordo nitidamente da Chuva de Prata, que Randal Juliano, pela Rádio Record, dizia: “O sentimento do paulista faz com que a cidade se locomova até o viaduto do chá. E aqui a multidão ergue os olhos para o céu, de onde caem lâminas metalizadas… Lâminas coloridas metalizadas sobre o viaduto do chá. Iluminadas por holofotes do exército, com o esplendor e luminosidade bonita. Traduzindo a alegria do povo paulista neste nove de julho, que comemorava uma derrota… Talvez tenha sido o único povo a comemorar uma derrota.” E recordo aqui o Hino do IV Centenário:

 

São Paulo, terra amada
Cidade imensa
De grandezas mil!
És tu, terra dourada,
Progresso e glória
Do meu Brasil!
Ó terra bandeirante
De quem se orgulha nossa nação,
Deste Brasil gigante
Tu és a alma e o coração!
Salve o grito do Ipiranga
Que a história consagrou
Foi em ti, ó meu São Paulo,
Que o Brasil se libertou!
O teu quarto centenário
Festejamos com amor!
Teu trabalho fecundo
Mostra ao mundo inteiro
O teu valor!
Ó linda terra de Anchieta,
Do bandeirante destemido.
Um mundo de arte e de grandeza
Em ti tem sido construído!
Tens tu as noites adornadas
Pela garoa em denso véu,
Sobre seus edifícios
Que mais parece chegarem aos céus!

 


Julio Tannus é consultor em Estudos e Pesquisa Aplicada e Co-autor do livro “Teoria e Prática da Pesquisa Aplicada” (Editora Elsevier). Às terças-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung

Conte Sua História de SP: E nasce uma família na cidade

 

Do livro Conte Sua História de São Paulo (Editora Globo), reproduzo aqui o texto da ouvinte-internauta Luciana Gerbovi. “E nasce uma família na cidade” descreve como a família dela se encontrou na capital paulista:

 

Ouça aqui o texto sonorizado pelo Cláudio Antonio que foi ao ar nesse sábado, no CBN São Paulo

 

Foi São Paulo quem recebeu, em 1925, meu bisavô nascido e criado na antiga Iuguslávia. Por amos à família, à vida e à paz, saiu da cidade de Vela Luka carregando consido a esposa, um filho e três filhas, uma das quais se tornaria minha avó.

 

Foi São Paulo quem recebeu, anos depois, um adolescente também nascido na antiga Iuguslávia, que mais tarde se tornaria meu avô.

 

Foi São Paulo o lugar em que os então jovens iugoslavos se conheceram, casaram e tiveram três filhos, um dos quais seria meu pai.

 

Muitos anos antes daquele 1925 marcado pela chegada de meu bisavô, foi São Paulo quem recebeu meus trisavós, saídos da Itália e da Espanha, que aqui casaram e tiveram filhos e netor. Esses netos de espanhóis e italianos aqui se conheceram e tiveram seus filhos. A menina um dia seria minha mãe.

 

Foi em São Paulo, já na década de 1960, durante um trajeto de ônibus, que o jovem filho de iuguslavos e a jovem neta de espanhóis e italianos se encontraram, se apaixonaram e, a partir de então, protagonizam uma das mais belas histórias de amor e de respeito que conheço.

 

Foi também em São Paulo que esse casal teve sua primeira filha: eu.

 

Ainda que a vida profissional de meu paiu tenha me levado a passar a infância e a adolescência no interior do Estado, nunca deixei de estar em São Paulo: aqui mora toda a parte brasileira da história de nossas famílias.

 

Foi São Paulo quem me acolheu para os estudos de nível superior, onde encontrei grandes amigos e conheci o meu amor. É aqui que rpetendo ter e criar meus próprios filhos.

 

Foi, é e sempre será São Paulo

A versão brasileira do Barão de Münchhausen

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Os mais novos, imagino, jamais ouviram falar no Barão de Münchhausen e, muito menos, de Karl Friedrich Hieronymus Von Münchhausen. Mas essa pessoa, com nome difícil de pronunciar, a menos que se tenha algum conhecimento de sua língua – a alemã – existiu e entrou na história. O Barão nasceu no dia 11 de maio de 1720 e viveu durante 77 anos. Foi militar e senhor rural alemão. Sua vida rendeu, inicialmente, uma série que ficou célebre ao ser compilada por Rudolf Erich Raspe, com o título de “As Loucas Aventuras do Barão de Münchhausen”. Os livros destinavam-se, de maneira especial, a leitores juvenis. Contavam histórias fantásticas, alegadamente vividas pelo Barão que, em sua carreira militar, serviu não apenas ao exército do seu país, mas ao da Rússia. Depois de participar de duas campanhas contra os turcos, retornou para casa e começou, sabe-se lá por que, a espalhar relatos inacreditáveis, como, por exemplo, o de uma fuga durante a qual entrara em um pântano e, para não afundar e se afogar, puxou-se pelos próprios cabelos ou, dependendo da versão, pelo cardarço de suas botas.

 

Quem conta um conto, aumenta um ponto. Ou vários pontos. No caso de Münchhausen, tantos foram os exageros, que até o Barão os achou demasiados. Diziam que ele fizera viagens em balas de canhão e jornadas para a lua. Suas histórias, no entanto, não foram postas somente em livro e traduzido em várias línguas, mas rendeu um filme. Esse chegou aos cinemas da Alemanhã no auge da Segunda Guerra – 1943 – e foi usado pelo governo nazista para celebrar os 25º aniversário da UFA, a principal companhia cinematográfica do país. O Barão voltou ao cinema em 1989, quando Terry Gillian, que havia integrado o grupo cômico Monty Python, lançou a sua versão das “Aventuras do Barão de Münchhausen”.

 

Tenho um querido colega, cujo nome prefiro omitir, não vá ele pretender me cobrar direitos autorais, que é um emérito contador de histórias em que é protagonista, segundo ele, todas “reais”. Não são tão fantásticas quanto as do Barão, algumas das quais que me permiti apresentar aos leitores mais jovens deste blog, se é que esses existem. Aí está a primeira. Falávamos sobre aviões, se a memória não me falha, quando o nosso ou o meu Barão – como acharem melhor – contou-me que já havia sido piloto. E lembrou de uma ocasião em que o aparelho sofreu uma pane e ele se obrigou realizar pouso de emergência: desceu sobre uma rede de fios elétricos. Não deu, e não pedi maiores detalhes. Creio que, depois daquela aterrissagem, perdeu o jeito de voar: sentiu-se mal na primeira viagem aérea que fizemos juntos.

 

Esta é a segunda e, quem sabe, possa ser considerada mais “creativa” do que a primeira história. Adiléia Silva da Rocha, que ficou famosa com o nome artístico de Dolores Duran, cantora que nasceu no dia 7 de janeiro de 1930 e morreu com 29 anos, fez sucesso na sua época. Entre suas canções,havia uma que, relatou-me o Barão, ela fez em sua homenagem: “A noite do meu bem”. Ao ouvir a peta, fiquei imaginando o meu colega dançando com Dolores Duran e essa lhe sussurando ao ouvido que a música havia sido composta quando ela pensava nele.

 

A terceira história de hoje é a mais fantástica deste texto. O Barão, em uma de suas idas a serviço para os Estados Unidos, desembarcou em Washington. Nunca explicou direito como JF Kennedy ficou sabendo de sua presença em um hotel da capital americana. Não demorou, o telefone de seu apartamento tilintou. Imaginem, um assessor de JFK, falando português, transmitiu-lhe um convite do Presidente. Este queria recebê-lo nos jardins da Casa Branca…para um cafezinho.

 

Para encerrar as baronescas criações ou, melhor dizendo, invenções, existe a que o colega relatou quando foi à Argentina para cobrir uma competição automobilística. Depois de realizar o seu trabalho, contou-me que não encontrava condução para retornar ao seu hotel, no centro de Buenos Aires. Resolveu, então, seguir a pé até o seu hotel no centro de Buenos Aires. Eis que, de repente, um carro que ia na mesma direção, parou ao seu lado. O senhor que estava ao volante abriu a porta e, ”hablando español”, o convidou para entrar:

 

– Amigo,venga conmigo!

 

O Barão olhou para o gentil cavalheiro e, espantado, o reconheceu. O cidadão era, adivinhem, o lendário campeoníssimo Juan Manuel Fangio.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Jorge Marimon Mendes, um repórter esportivo inesquecível

 

Por Milton Ferretti Jung

 

 

O meu pai foi assinante durante muitos anos da Revista Selecções Reader´s Digest. Ele começou a lê-la na época da Segunda Grande Guerra. Claro, suas edições estavam sempre recheadas com histórias do conflito, nas quais as tropas dos Estados Unidos e de seus aliados protagonizavam batalhas fantásticas em que, via de regra, saiam vitoriosas. Já naquela época eu costumava ler desde revistas em quadrinhos – Gibi, Globo Juvenil e congêneres – a romances cujo conteúdo nem sempre era apropriado para adolescentes. Nas Selecções Reader’s Digest eu não deixava de ler, “O Meu Tipo Inesquecível”, presente em todos os números. Sob tal título, havia histórias acerca de pessoas que, de alguma forma, marcaram a vida e ficaram na lembrança de quem as relatava. Na manicure em que todas as quartas-feiras levo Maria Helena, minha mulher, existem revistas de vários tipos – Cláudia, Caras, Contigo etc. – mas, enfiadas numa pequena estante, meio escondidas, existem Selecções. São de meses passados,é verdade, o que não chega a ser problema, porque não se desatualizam, o que, por exemplo, ocorre com a Veja. Abro um parêntese para dizer que destesto as enormes revistas, repletas de fotos de pessoas que nunca vi mais gordas ou tão magras quanto as “top models” dos dias atuais.

 

Ao abrir a primeira das Selecções com que me deparei, procurei imediatamente, uma história sobre ”O Meu Tipo Inesquecível”. Folheei o exemplar e nada encontrei. O que fazer? Talvez o atual editor da Revista tenha entendido que não é fácil encontrar quem queira escrever acerca desse assunto. Ocorreu-me, nessa segunda-feira, que, se Selecções ainda tivesse “O Meu Tipo Inesquecível”, eu teria um capaz de preencher o espaço agora inexistente. Ao chegar à Rádio Guaíba, fiquei sabendo que Jorge Marimon Mendes fora encontrado morto, no sofá de sua casa, por sua filha Rosângela. Essa, viera a Porto Alegre para buscar o seu pai e levá-lo para comemorar, em Santa Catarina, o seu nonagésimo aniversário, que completaria nesta quinta-feira. Aparentemente, Jorginho, como era conhecido carinhosamente por seus colegas e amigos, aparentemente foi vitimado por um ataque cardíaco fulminante. Ao vê-lo a última vez, cheguei a pensar que o meu colega havia descoberto o elixir da eterna juventude. Prestes a fazer 90 anos, parecia ter pouco mais de 60, magro enxuto, disposto. Colorado, não perdia jogo do Inter e, pasmem, nem do Grêmio, desde que ambos não jogassem no mesmo dia.

 

Jorginho, que era o último ex-atleta vivo do Bambala, clube amador de Porto Alegre nos bons tempos dos campos de arrabaldes, começou sua carreira de jornalista em 1939, na Rádio Farroupilha. Teve passagens pelo Diário de Notícias, Zero Hora e Jornal do Comércio, em Porto Alegre; Jornal dos Sports e Globo, do Rio de Janeiro; Jornal da Semana, de Novo Hamburgo. Foi meu colega, na Guaíba, em 1958. Lembro-me que, quando Mendes Ribeiro era o principal narrador dessa Emissora, Jorginho tinha, nas nossas jornadas esportivas, uma única função: era ele quem informava as escalações das duas equipes e os nomes do árbitro e seus auxiliares. Jorge Marimon Mendes foi, também, presidente e vice-presidente da ACEG – Associação dos Cronistas Esportivo Gaúchos. Presto ao saudoso e insubstituível Jorginho minha última homenagem ao adotá-lo como “O Meu Tipo Inesquecível”.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

O carro

 

Sérgio Mendes é companheiro de Adote um Vereador, apóia o Movimento Voto Consciente, dá aula de inglês e passa sempre a impressão de que está de bem com os amigos. Não bastassem todas estes predicados, ainda escreve contos sobre sua vida e os deixa guardados no computador, máquina que ele também sabe mexer como poucos. Resolvi provocá-lo e ele aceitou a ideia de ceder alguns textos para o blog. O primeiro, publico hoje. Os demais, vamos ter de pedir para ele.

 

Bom proveito !

 

Causa de problema muito comum aos metais nas cidades do litoral, a maresia não perdoa. E um carro velho sempre tem aqueles grilos escondidos que ainda que bem escondidos, revelam-se qual orquestra de pífanos depois que o carro velho imprime algum movimento. Um grilinho até a gente deixa passar se o assunto é o sonho dourado de possuir um carro. Mesmo velho e com grilos falantes, a gente perdoa. Só que carros que envelhecem em cidades do litoral, não tem assim digamos, grilos. São uns besouros aqueles nhec, nhec….!

 

Estava se formando o cenário da nossa odisséia cruzando o Brasil. E nhec, nhec seria a trilha sonora. O diacho do carro não tinha um toca-fitas sequer.Mas também, não tínhamos fitas.

 

Fazia algumas semanas que estávamos em Picos outra vez. Eram as férias. De fato fim delas e precisávamos voltar. Minha mãe até já tinha planejado algumas vezes comprar um carro pra nós, ha anos nunca mais tivemos um. O problema é que eram daqueles planos que a gente faz sem pensar na parte prática da coisa. Os tempos eram outros, carro era coisa cara de se compra e ela tinha três filhos. A prioridade certamente não seria aquela. Pra completar o quadro, na cidade pra onde nos mudamos, todo mundo usava bicicleta e conosco em casa não era diferente.

 

‘Vejamos como vai ser’ era o que ela devia pensar.

 

Nós os meninos não tínhamos acesso a discussões muito sérias e carro era a típica conversa de adultos. Não podíamos, mas também nenhum de nós estava tão interessado assim.

 

O comando,‘menino sai pra lá’, também já tinha selado que não participaríamos daquele tema e por isso minha aguçada memória não registrou nada do que antecedeu aquela compra. O que eu sei e que creio que era o que acontecia então, é o que uma amiga pontuou numa situação semelhante:

 

‘Carro é sempre assim, a classe média pira!

 

Mas voltando pra onde parei, ele chegou!
E vinha de uma cidade do litoral, Fortaleza.
Era um belo Corcel II cor…, acho que era amarelo mas também puxava pra um bege. Ta bom vai, a cor era a mesminha da de um burro pálido fugido!

 

Acordei bem cedo como de costume e como de costume ninguém mais estava com os olhos nesse mundo a aquelas horas. Fui logo na cozinha beber água pra refrescar e procurar alguma coisa que pudesse matar a fome antes que ela me matasse.

 

Mal entrei e na mesa encontrei aquele chaveiro e sua chave encantada!
WoW!!! Ele chegou! Nosso carro chegou!
Corri pra fora e lá estava.
Eu não o tinha visto chegar, só sei que naquela manhã ele estava ali na minha frente. Lindo e cor de burro fugido, parado na frente de casa. E como se ele também tivesse acordado naquele instante, me chamava para um passeio matinal!

 

Esqueci da fome mas me lembro exatamente daquela sensação incrível de ser o todo poderoso dono de um carro e poder dar-lhe ordens de me levar para onde eu quisesse ir!

 

De tão confiante, voltei pra casa e peguei as chaves sobre a mesa. Até parecia que eu sabia ou podia dirigir.
Meus pais como todos, ainda estavam dormindo. Na noite anterior o meu pai tinha saído para uma volta pela cidade. Foi encontrar com os amigos e voltou, também como era de costume muito tarde ainda que ele soubesse, no dia seguinte viajaríamos rumo a nossa aventura inesquecível.

 

Paciência! A vida é assim mesmo.

 

Peguei as chaves como disse e fui dar uma olhada naquela belezura. Tentei abrir a porta do lado certo, o do motorista. Eu estava disposto inclusive a fazer o motor roncar! Recordei perfeitamente da lição em que um tio me ensinou que com a marcha em ponto morto o carro não pula na partida. Pronto, era tudo que eu precisava para guiar aquele corcel de vários cavalos. Aquilo sim era um super cavalo, era um Corcel II! Cor de burro, mas burro puro sangue eu cria!

 

Infelizmente ou felizmente não foi possível abrir o bicho por aquele lado. No lapso de tempo de tentar abrir, a sensatez que nunca havia sido o meu forte, me sussurrou que dar a partida não seria uma boa idéia.
De pronto refreei o impulso de piloto e dei a volta para abrir a porta do outro lado, aquele que segundo a sensatez, minha amiga pouco presente, seria o mais apropriado pra mim. Enfiei a chave e girei descuidado esperando que a porta abrisse. Senti um click e ela abriu.

 

Oba, pensei.

 

Ato contínuo fiz menção de retirar a chave como seria natural e como também natural em carros velhos de cidades litorâneas, a ferrugem tinha feito a sua parte. A chave trouxe junto com ela a fechadura. Não me lembro se me espantei. Era como se meu inconsciente estivesse disposto a não registrar nada daquilo para não quebrar o encantamento de estar do lado daquele possante só meu. Mas não teve jeito. O fato era concreto demais! Dei uma boa olhada naquele buraco e percebi que ele cheirava a menta. Duas fungadas desconfiadas e identifiquei que o cheiro era menta, mas não da folha que eu conhecia do jardim de vovó. Aquele cheiro era de goma de mascar. Sim senhor! Chiclete-bola Plóc!!! Esse sujeito eu também conhecia e realmente era ele quem estava ali. A fechadura estava grudada com goma de mascar mastigada. O autor daquela façanha mastigatória eu não fazia a menor idéia mas também nem estava interessado. Mesmo um tanto desgostoso com aquele primeiro contato, e sem querer entender que aquilo era prenúncio de coisa alguma, com muito cuidado, tratei de recolocar tudo no lugar e meio de soslaio puxei a porta e entrei. Primeiro no banco do passageiro na frente.
Um susto!!! Apreensivo e arrepiado me sentei e bem devagar me estiquei como que tomando posse daquele espaço.
Olhei tudo do piso ao teto. Olhei bem nos detalhes onde pudessem se esconder mais daquele fenômeno inimigo dos dentes saudáveis e mesmo entendendo que já não encontraria mais do engodo, continuei olhando. E olhei, olhei e olhei muitas vezes.

 

Estava aparentemente tudo lá, com exceção do toca-fitas. Algumas vezes forcei com cuidado as maçanetas internas que se moveram aparentemente bem.

 

Carros não eram novidade pra mim, claro que não. Na verdade a alguns anos meu pai já tinha comprado um outro Corcel II daquele mesmíssimo modelo na cor azul. Ele tinha até a buzina na manopla do limpador do para-brisa igualzinho ao primeiro. Só que diferente deste em que eu estava me acostumando era novo. Um carro zero quilômetro que depois de nós passou por muitas mãos na família. Primeiro ele tinha sido nosso depois foi para as mãos da minha tia Cecília e dela para o meu avô, pai de minha mãe. Com ele permaneceu muito tempo graças a ajuda dos conhecimentos de mecânica de carros velhos dos meus tios.

 

Carros não eram surpresa pra nenhum de nós, da mesma maneira que o Corcéu também não. Mas aquele era o primeiro que na sua constituição corpórea tinha chiclet, e tanto o chiclete como o fato daquele carro ser tão misterioso, teriam que se transformar numa viagem de mais de 2000km Brasil a dentro e levar no seu interior, seis pessoas.

 

Entre tantos pensamentos, olhei bem o painel, os pedais, cambio, bancos, inclusive forçando um pouco o encosto do de onde eu estava. Bem com cuidado é certo.

 

Pronto! Dei por completa a minha inspeção. A fome voltou com toda força e o possante lindo e cor de burro pródigo agora parecia assustador. Perdi a graça até de tentar ligar o muar.
Só queria pensar que correria tudo bem!

 

Saí dele, fechei a porta sem passar a fechadura e tornei a entrar em casa para depositar as chaves exatamente onde elas estavam.

 

Todos ainda dormiam.

 

Silenciosamente, saí outra vez e depois de fechar o portão de tábuas num tropeço das idéias, tomei a calçada que margeava o jardins de vovó seguindo o comando do estômago vazio. Eu estava determinado a me esquecer daquela fechadura suspeita como que para acreditar que ela não tivesse feito o que fez. Pensei num pensamento danado com toda a glicose que já escasseava mas apesar do esforço, a fechadura não queria deixar os meus neurônios em paz.

 

Rumei trançando as pernas e pálido feito uma vela, fui para a o reino encantado de vó Remédios, a cozinha.