Conte Sua História de São Paulo: Carta dos Fernandes

 

No Conte Sua Historia de São Paulo, o texto escrito em carta por Rogélio Fernandez enviado de Fortaleza, onde mora atualmente, para a sobrinha Luciana Fernandez, ouvinte-internauta do CBN SP:

Ouça o texto “Carta dos Fernandes” sonorizado por Cláudio Antônio

Os Fernandes moravam a cem metros do Rio Pinheiros – falo do natural, de margens serpeantes de águas claras, muito peixe e ingazeiros nas duas margens.

A casa era de alvenaria, com uma cozinha de zinco e um enorme fogão de lenha que a molecada, nos dias de chuva, se empoleirava para se esquentar do frio e comer bolinhos de chuva que a dona Letícia se cansava de fazer e não vencia a voracidade de cinco meninos e duas meninas. Era situada na Rua Visconde de Taunay, nº 39, no bairro de Santo Amaro.

O patriarca Rogério foi pai de doze rebentos, três dos quais morreram nos primeiros anos de vida e de dos quais pouco se falaram, até porque, a cada dois anos nascia de parto normal, com a ajuda da avó paterna, sete robustos pimpolhos. Dita casa não tinha forma geométrica definida, seria algo como octaedra ou poliédrica. Fato é que, à medida que a família aumentava, e isso ocorria de maneira geométrica, construía-se mais um cômodo. O narrador pertence a esta ninhada e é exatamente o quinto, de cima para baixo e de baixo para cima.

O terreno era enorme (se não me engano tinha 20 de frente por 45 metros de fundo), que meu avô materno Tizziano-Giovani, nascido em Legnano, Norte da Itália, cultivava com muito carinho frutas e hortaliças.

A vizinhança era parca mas a natureza era pródiga ao redor. Além da chácara dos Matarazzo, com ruas de jabuticabeiras, ruas de caquis, quadras de uvas, quadras de abacaxis que faziam fundo com nosso terreno, havia por todos os lados que se olhasse mata com goiabeiras, gabirobeiras, araçazeiros. A molecada se fartava de comer fruta da natureza ou as cultivadas que, quando não dadas, eram velozmente surrupiadas por debaixo da cerca de arame farpado.

Os vizinhos, contava-se nos dedos de uma mão: seu Henrique, caseiro da chácara dos Matarazzo; em frente dele, seu Fernando, dono da vacaria, também num terreno enorme do milionário número de um São Paulo que, àquela época que vendia leite em litros; mais abaixo, próximo ao rio, o Giardello, oriundo da Calábria, conhecido com tripeiro, que, além de vender tripas que matadouro dava de graça, promovia barulhentas tarantelas com sua sanfona de oito baixos; depois do rio, seu Roque balseiro, que atravessava as pessoas de barco ou, quando os raros veículos que naquele tempo por ali navegavam, fazia-o com a balsa, manejando os cabos de aço que atravessavam o rio; mais abaixo do rio ainda, na chácara de flores dos Dierberger, morava seu Arthur Schenor, marido de dona Nena, que freqüentávamos todos os finais de semana para andar de carroça e comer centenas de morangos que lá se cultivava às pampas.

Nem tudo era bonança, porém. Nossa casa era de telha vã e nas muitas noites de chuva a garotada tinha que cobrir o rosto com a colcha para não ficar respingada. De qualquer sorte, aquele pedaço da Vila de Santo Amaro, naquele tempo, era um paraíso: lagoas de chuva, lagoas perenes (como a do fundão), várzeas enormes e matas para se catar lenha que abastecia o fogão.

Mesmo com as dificuldades próprias de família pobre, do essencial nada nos faltava. Meu pai comprava tudo de saco de 60 quilos: farinha de trigo para fazer pão em casa, batatinha, feijão, arroz, açúcar, manta de carne seca e até bacalhau inteiro que se pendurava na porta do armazém. Afinal era tempo de segunda guerra mundial e todos os gêneros alimentícios eram racionados. Além disso, minha mãe criava galinha, pato, cabra e vaca de leite para reforçar a merenda dos muitos marmanjos, parentes e aderentes, que aportavam diariamente em casa para comer.

Fortaleza, 09 de Abril de 2008.

O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar logo após às 10 e meia da manhã, no CBN SP. E agora está em nova fase (leia o post)

Participe do novo Conte Sua História de São Paulo

 

CBN SPO Conte Sua História de São Paulo da CBN entra em nova fase com a parceria fechada com o Museu da Pessoa, instituição que incentiva o registro de histórias pessoais. No ar desde 2004, o programa reproduz textos enviados pelos ouvintes-internautas, sábados, logo após às 10 e meia da manhã. Nesta etapa, porém, você mesmo poderá contar suas memórias na CBN.

No Museu da Pessoa, profissionais especializados farão uma entrevista com você, gravada em áudio e vídeo, que passará a fazer parte do acervo da instituição. Trechos desta entrevista com momentos marcantes, cenas inusitadas e fatos curiosos serão editados e reproduzidos no Conte Sua História de São Paulo, em homenagem aos 456 da capital paulista, que vai ao ar entre os dias 18 e 25 de janeiro, às 10 e 40 da manhã, dentro do CBN SP.

Para agendar os depoimentos, você deve ligar para 011 2144-7150, ou entrar no site do Museu da Pessoa.

Ouça a entrevista com Karen Worcman, do Museu da Pessoa

O Conte Sua História de São Paulo fará parte da série de programas produzidos pela CBN em comemoração ao aniversário da cidade. A partir do dia 18, irão ao ar, também, “Redescobrindo o Centro Velho” com Heródoto Barbeiro e “Viver Melhor em São Paulo” com Michelle Trombelli. E no dia 25 de janeiro, segunda, o CBN SP será apresentado ao vivo, no Pátio do Colégio.

Conte Sua História de São Paulo: A égua chamada Nega

 

Francisco Ita Santiago
Ouvinte-internauta

Ouça o texto ‘Uma égua chamada Nega’ sonorizado por Cláudio Antônio

Nascido em 1933, no Parque São Jorge, Tatuapé, ali na Rua Santo Elias, comecei a trabalhar muito jovem, aos 11 anos, numa loja de móveis. Mas não era exploração de trabalho infantil e, sim, por necessidade. E, também, por vontade pois eu gostava muito do trabalho. Minha função era tomar conta da charrete puxada pela “Nega”, uma égua muito mansa e bonita, enquanto o meu patrão, Seo Henrique, comerciante de origem turca, ia fazer cobranças nas casas dos fregueses.

Certa manhã de verão de 1944, Seo Henrique entrou na casa de uma freguesa, na rua Santa Terezinha, travessa da avenida Celso Garcia e próxima à ferrovia. Fiquei lá um tempão esperando sem ter o que fazer. Na minha inocência de criança, eu só não entendia o motivo da demora do patrão. Mais tarde fui entender…

Já era quase uma hora de espera e nada. Como fazia muito calor e o sol estava forte, resolvi descer da charrete e encostar na parede, onde havia uma sombrinha. Nesse momento, o trem passou e apitou, assustando a égua que saiu em disparada pela avenida Celso Garcia, o que me deixou sem saber o que fazer.

Quando o patrão saiu e não viu a charrete ficou muito zangado me dando uma tremenda bronca. Contudo, não havia muito com que se preocupar, pois Nega sabia bem o caminho da cocheira que ficava a um quilômetro dali, na rua São Felipe. Tive de ir correndo buscá-la e, de fato, lá estava ela, tranquila bebendo água na sombrinha.

Numa outra ocasião, precisávamos atravessar um córrego para chegar a uma casa, porém a égua não queria passar de jeito nenhum. Falei para o Seo Henrique que era melhor ele ir andando, mas como insistia em fazê-la atravessar, ela deu um pinote, derrubando-nos na margem do córrego e sujando todas as nossas roupas, inclusive o terno do patrão que ficou uma “arara” com o pobre animal.

Era uma época difícil, pois o mundo estava em guerra, que só acabaria no ano seguinte, mas para mim que era criança, estava tudo bem. Todo fim de tarde eu levava Nega para a cocheira, ou melhor, ela me levava. Passava buzinando pelo caminho e o pessoal acenava para mim, já que todos me conheciam.

Hoje em dia, continuo caminhando, agora acompanhado pela minha esposa Josefina, pelos mesmos caminhos daquela época, pois ainda moro no mesmo bairro, conheço muita gente e todos continuam acenando quando passo, alguns ainda daquela época.

O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar aos sábados, logo após às 10 e meia da manhã, no CBN SP. Você participa enviando seu texto ou arquivo de áudio para contesuahistoria@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo: O trem da vida

 

Por Elza Guerra Alemán
Ouvinte-internauta

Ouça “O trem da vida” com sonorização de Cláudio Antonio

Bairro do Brás

O ano de 1947 corria. E corria mesmo. Minha mãe falava todos os dias que o ano estava passando muito veloz. Isto porque ela não queria mudar-se do bairro do Brás onde morávamos e meu pai já havia estipulado o mês de janeiro para a mudança. A cada 24 horas mais se aproximava o dia de irmos para outro bairro, o longínquo Real Parque. Era longe, muito longe, naquelas montanhas cheias de eucaliptos, depois da ponte sobre um grande rio. Varias vezes tínhamos ido até lá visitar a família Valladares – o senhor Andrés, dona Luisa e suas duas filhas. Até que achávamos divertido passar o dia na granja deles! Enquanto minha mãe se lamentava, eu e minha irmã não víamos a hora de mudar de casa.

Meu pai tinha uma hospedaria no bairro do Brás, na rua Dr. Almeida Lima. Era a “Pensão Brasil”, um hotelzinho de poucas ou nenhuma estrela e onde também morávamos.

Nessa ocasião, eu tinha 7 anos. Estava no primeiro ano do curso primário, na Escola Normal Padre Anchieta. Todos os dias, pela manhã, passava pela rua 21 de abril para chamar minha coleguinha Olímpia e juntas chegávamos à avenida Rangel Pestana, no belo colégio, para as aulas da professora Idalina Guerra.

Apressadamente o ano caminhava para seu final.

Meus pais procuravam levar-nos, a mim e a minha irmãzinha, a todos os lugares onde provavelmente seria muito difícil voltar depois da mudança. Íamos então com mais freqüencia aos cinemas do bairro. No Piratininga, no Brás Polytheama, no Universo, assistiamos filmes espanhóis, americanos, brasileiros e argentinos. Quando íamos a noite, a sessão era de dois filmes e não podíamos ficar na sala de exibição depois das vinte e duas horas. O lanterninha vinha avisar meus pais para se retirarem com as crianças. Alguns filmes, talvez o “Sob a luz de meu bairro”, o “24 horas na vida de uma mulher” ou o “Os sinos de Santa Maria” eles não puderam ver o final, pois certamente tiveram que sair antes de terminada a sessão. Era a lei na época.

O Teatro Colombo, no largo da Concórdia, além de espetáculos musicais e peças de teatro, também exibia filmes. Lá, nas matineés de algazarra, assistíamos desenhos e seriados cujos finais nunca mais saberíamos.
Aquele final de ano rendia em passeios. Fomos ao circo montado na rua Visconde de Parnaiba , quando levavam a peça “Os milagres de Lourdes” e lembro-me que eu e minha irmãzinha choramos emocionadas.

De outra feita vimos também a peça “O Ébrio”, talvez no mesmo circo, onde também nos derretemos em lágrimas.

O Parque Shangai, instalado no parque Dom Pedro, era um acontecimento. E lá fomos nós ver todas aquelas luzes, brinquedos que se moviam, a mulher gigante que ria, ria sem parar e acho que se chamava Chica Pelanca.

Assistir aos casamentos na igreja Bom Jesus era também uma grande distração. Tenho a impressão que não perdemos nenhum sábado. E depois de analisar os vestidos das noivas e os trajes dos convidados passávamos pela rua Caetano Pinto para que minha mãe pudesse matar a saudade de seu tempo de criança.(Foi ali que meu pai a viu pela primeira vez, quando não passava de uma menina, filha de imigrantes espanhóis).

Atravessar as Porteiras do Brás, quando estas se fechavam, era cansativo, pois tínhamos que subir uma escada de muitos degraus, andar por um corredor e descer do outro lado. Dentro da estação de trens, no local de embarque, havia uma balança para pesar volumes. Não sei como funcionava, porém quando meu pai nos pesava, a balança soltava um cartãozinho com desenho de algum animal. Lembro-me que sempre recebia o desenho de um carneirinho, talvez pelo meu pouco peso. Gostava de ouvir o sinal avisando que as porteiras iriam se fechar ou abrir. Elas barravam o fluxo de carros, bondes e ônibus que cruzavam a avenida Rangel Pestana, para a passagem dos trens.

Mas, voltemos a Pensão Brasil que tinha altas portas e janelas idem que se abriam para a rua. A construção seria com certeza do século XIX. Fazia parte de uma serie de casas geminadas, que nessa época, anos 40, eram residências de famílias proletárias. Meu pai alugara duas daquelas casas, que possuíam muitos quartos e as transformou em um pequeno hotel. Hotel que servia tanto aos estudantes da Escola

Aeronáutica, da rua Visconde de Parnaíba, como aos migrantes, despejados aos montes na Estação do Norte. Esses eram seus hospedes. O grupo de casas fazia vizinhança ao “Laticínios Paulista”, a usina de leite, que por sua vez ficava junto a outra passagem dos trens. Uma passagem também com porteiras que cortava a rua dr. Almeida Lima.

Pensam que não? Lembro-me e ainda penso ouvir o barulho dos trens… dos vagões de carga, do trem de luxo, da litorina… ouço o barulho das caixas metálicas, arrastadas pelos funcionários do Leite Paulista…com vasilhames de vidro…na calçada que estava constantemente molhada…

Aquele 25 de dezembro chegou num instante. A Aurora Pazzito, o Alfredo, a Maria, a menina bem vestida da última casa, eu e minha irmã, logo cedo saímos a rua para mostrarmos os presentes que havíamos ganhado. Uma boneca, um joguinho de sofá, panelinhas e um revolver do Roy Rogers faziam a alegria daquela meninice.

Os dias rolaram como bolinhas de gude na ladeira. E uma noite ouvi minha mãe nos chamando para ouvir os apitos das fábricas, as buzinas dos carros, os estrondos dos fogos de artifícios, os meninos com paus batendo nos postes. Era a festa do reveillon. Terminava 1947 e nascia um ano novo.

Dias depois, nossa parca mudança chegava ao Real Parque. Casas pequenas com grandes quintais, árvores, cachorros, galinhas e pássaros. Água de poço. Rua de barro. Era uma nova etapa, um novo trajeto do trem de nossas vidas.


O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar aos sábados, às 10 e meia da manhã, no CBN SP. Você participa enviando seu texto ou arquivo de áudio para contesuahistoria@cbn.com.br.

Neta escreve “Sem Remetente”

 

Neta Mello em lançamento de livro (Foto: Blog da Neta)

‘Sem Remetente’ guarda segredos em cartas escritas durante toda uma vida e leva o leitor ao próximo capítulo porque sempre parece que algo novo está para ser desvendado. Não é capaz, porém, de esconder características da autora Neta Mello, ao menos aquelas que ela nos permite conhecer em seus textos no blog ou em entrevistas como a que concedeu ao CBN São Paulo, que foi ao ar no dia de Natal.

O perfil de historiadora é evidente nos detalhes com que constrói os personagens e desenha os cenários por onde passam a família da Dona Julia, a escrevinhadora. As mulheres que surgem na trama tem a força da escritora. Perguntei qual das personagens femininas era ela, e a resposta está na segunda parte da entrevista que você acompanha aqui no blog.

Antes de chegar até lá, porém, Neta (pronuncie com ‘e’ fechado) conta o que a inspirou para tornar ‘Sem Remetente’ (Scortecci Editora) seu primeiro romance. Antes havia escrito “Crônicas Memórias” e “Pauliceia Ignorada”, a partir de histórias contadas por personagens anônimos da capital paulista.

Ouça a primeira parte da entrevista de Neta Mello

Agora, ouça o que diz Neta Mello na segunda parte da entrevista

Conheça mais de Neta Mello e “Sem Remetente” no Blog da Neta.

(Alertado pela Neta, descobri que a primeira parte da entrevista estava em alta rotação. Consertado o problema, uso a falha técnica para descobrir mais uma faceta da autora: segundo mensagem escrita por ela, os filhos disseram que a mãe é assim mesmo, acelerada, em altíssima rotação)

Conte Sua História de São Paulo: O tempo e o Natal

 

Sérgio Bragatte
Ouvinte-internauta

Ouça o texto “O tempo e o Natal” sonorizado por Cláudio Antonio

Natal em decoração (Luis F. Gallo)

Outro dia cheguei a seguinte conclusão: sou um velho. Sou um velho carcomido pelo tempo.

Esta conclusão se deveu em razão de que ainda gosto, e preservo o sentimento de gostar, daquilo que está em desuso hoje: escrever sobre o NATAL.

Distante das agruras de adulto, lembro-me criança, quando ansiava acontecimentos mágicos de modo a mudar a dura realidade de menino da periferia sem escola, sem quadras de futebol, sem água encanada, sem luz, sem asfalto, etc, só a violência era abundante.

Lembro das brincadeiras, onde encarnávamos os super heróis, ora éramos o super-homem, ora éramos o homem-aranha, o homem de ferro, zorro, cisco-kid e assim por diante, sempre sonhávamos o que faríamos com super poderes.

Lembro-me dos amigos crianças, das travessuras, dos maus feitos, das peças pregadas nos mais velhos, dos trabalhos esporádicos, para se conseguir uns trocados, das brigas.

No entanto, sempre foi o NATAL que afugentava os medos da infância pobre e permitiam sonhar e superar aqueles problemas, que imaginávamos serem insuperáveis.

Conta-nos a Bíblia que, tempos atrás, sobre uma cidade do oriente, chamada Belém, reluziu uma estrela quando nasceu um menino chamado Jesus. Vindos da Babilônia, três reis magos, três amigos, a seguiram até chegar a um curral, onde, em uma manjedoura presentearam um menino.

Foi o reencontro da criança com a amizade.

Nessa simbologia, concluímos que é a amizade que nos conduz àquela criança.

Sem dúvida, o Natal impregna a alma de estranha de nostalgia.

Paralelamente ao nefasto consumismo, é o caráter religioso da festa me deixa com saudades de Deus, com saudades de quando estávamos mais perto Dele: quando, exatamente, éramos crianças.
Daí o sentimento de querer acordar na manhã de 25 de dezembro e encontrar, nos sapatos, um símbolo de afeto, o afago à criança que dorme dentro de mim.

“Ora (direis) ouvir estrelas!”, canta o poeta.

São Paulo ao final do século é uma metrópole sem comparação. Temos situações antagônicas sem respostas. Temos o maior centro médico da América latina, ao mesmo tempo em que falta esgoto na periferia.
Temos toda oferta de todo tipo de tecnologia, ao mesmo tempo em que centenas de molhares de pessoas vivem na rua ou moram em favelas.

Produzimos tecnologia de engendrar vida em provetas e possuir olhos eletrônicos que penetram a intimidade da matéria e do universo, sem, no entanto erradicar a fome, a desigualdade e a injustiça.
Nossa cidade nos oferece tudo, exceto o que mais carecemos: um sentido para a vida.

Em São Paulo estamos perdidos numa vida adulta. Por vezes nossos sonhos desaparecem.

Lembro que quando pequeno ficava horas parado diante de uma árvore de natal, que se repetia ano após ano, vendo um luminoso colorido que piscava incessantemente.

Ainda hoje ao ver o piscar de luzes sinto-me remetido àquela infância dos super heróis; como se afagasse a criança dentro de mim, como me conduzisse por um leito seguro até o encontro do salvador.

“E agora, José?”

Agora, cabe a nós mudar o Natal e nós próprios. Procurar a estrela em nossas inquietações mais profundas. Descobrir a presença de ambos os Meninos em nosso coração.

E, como nos conta a Bíblia, ousar renascer em gestos de carinho e justiça, solidariedade e alegria.

Fazer-se presente lá onde reina a ausência: de afeto, de saúde, de liberdade, de direitos.

Dobrar os joelhos junto da manjedoura que abriga tantos excluídos, imagens vivas do Menino de Belém.

Viver o NATAL, não este o do consumo desenfreado, mas aquele das luzes piscando, que marcou o “tempo” de nossa infância, quando tudo podíamos e nada podia contra a gente, afinal éramos os super-heróis.

Que sejamos todos felizes e tenhamos um bom NATAL.

O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar aos sábados, às 10 e meia da manhã, no CBN SP. Envie seu texto ou arquivo de áudio para contesuahistoria@cbn.com.br

Heródoto, o Sunday Maionese e a Loka

 

Relíquias de um tempo que não volta mais (ainda bem). Era 1974 e quem brilhava nos palcos universitários era um professor com voz de galã de televisão que anos depois iria embalar as notícias do Brasil e do mundo. Mas isto foi muitos anos depois, porque naquelas tardes de sábado, o “maestro” da festa ainda tinha cabelos em cores naturais e sobrancelhas acentuadas como revela este vídeo do Festival Interno do Colégio Objetivo. No encontro musical, acompanhado com excitação pelas moçoilas, a participação especial era de Adoniran Barbosa, sendo possível identificar ainda Hermeto Pascoal, Rita Lee, Rogério Duprat, Guarabira, Sergio (guitarrista do Terço), Netinho (Incríveis), entre outros que faziam parte do corpo de jurados. Na apresentação … bem, na apresentação ouça a voz, olhe bem fundo naqueles olhos escuros e descubra você mesmo.

Conte Sua História de São Paulo: Os Amigos do Natal

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Erenice Bruno Pereira
Ouvinte-internauta

Ouça o texto “Os Amigos do Natal” sonorizado por Cláudio Antônio

Em dezembro de 1996, alguns amigos que se encontravam todos os dias num pequeno bar da região, na época conhecido por Bar do Albino, decidiram se divertir de maneira diferente. Compraram brinquedos e avisaram os vizinhos do Jardim São Bernardo, ali na zona sul, que levassem seus filhos na hora do almoço, do dia 23, para o bar. O Papai Noel estaria por lá distribuindo presentes.

Hora e data marcadas, a criançada se aproximou levada pelas mãos dos pais. O Valmir vestido de Papai Noel apareceu em cima da perua. Os meninos e meninas se aglomeraram em volta dele. Os amigos não imaginavam quanto emocionante seria aquele momento, que surgiu como se fosse apenas uma brincadeira.

Da lágrima de todos, nasceu os Amigos do Natal.

Nos primeiros anos, eles tiravam dinheiro do próprio bolso, e pediam mais um pouco aos comerciantes da vizinhança. Seguiam para a 25 de Março e saiam de lá cheios de brinquedos. Com mais crianças participando, mais presentes sendo distribuídos, tiveram de arrumar um espaço mais amplo. A saída foi transferir a festa para o Bar do Dogi, onde ocorre até os dias de hoje.

A cada ano, a frequência era maior. Havia cada vez mais Amigos do Natal. Alguns tiveram de ir embora, outros chegaram. A organização melhorou. E o dinheiro, encurtou. Não era mais suficiente para atender todas as crianças. Tiveram de mudar a forma de arrecadação. Realizaram vários eventos beneficentes, rifas, bingo, baile, churrasco com pagode. Tudo isso na mesma sede do bar que, nesta altura do campeonato, já era o Bar do Valmir – aquele lá da fantasia de Papai Noel.

Além das crianças que participam da festa no Bar do Valmir, os Amigos do Natal doam presentes a entidades de assistência. Primeiro a creche do Jardim São Bernardo e agora ao Refúgio de Cegonha, no bairro de Vargem Grande.

Em 2008, foram distribuídos 3 mil brinquedos e parece que o número de crianças não vai parar por aí. Hoje, são 17 os Amigos do Natal e um mundo de colaboradores que ajudam na organização dos eventos e na distribuição dos presentes.

Uma semana antes do Natal, as crianças do bairro já sabem, os carros com os Papais Nóeis – sim, agora não é apenas o Valmir que se veste nem dá para transportar tudo em uma só perua – percorrem as ruas chamando a garotada para a entrega dos brinquedos. São todos muito simples, mas doados com muito amor.

Se você quiser se transformar em mais um personagem desta história, nos ajude com mais brinquedos. As crianças agradecem. E o Papai Noel, também.

Se quiser ajudar os Amigos do Natal basta ligar para (011) 5973-5639

O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar sábado, às 10 e meia da manhã, no CBN São Paulo, Você participa enviando seu texto ou arquivo de áudio para contesuahistoria@cbn.com.br

Da República de Canudos ao Parque da Serra do Mar

 

Devastação da Serra: JT de 1985 e Folha de SP de 2009

Devastação da Serra: JT de 1985 e Folha de SP de 2009

 

Por Carlos Magno Gibrail

Favela é o nome de origem de planta rasteira encontrada na mata de transição entre a caatinga e a região de serrado. Antonio Conselheiro instalou a República de Canudos onde existiam muitas favelas. O governo ameaçado e os empresários amedrontados com a perda de mão de obra providenciaram tropas de combate para acabar com a crescente progressão do líder nordestino. Os soldados estacionavam num morro repleto desta planta tornando conhecido como Morro da Favela.

Após a ultima batalha, uma das maiores carnificinas da História do Brasil, tão bem narrada por Euclides da Cunha, a enorme quantidade de ex-combatentes foi para o Rio de Janeiro em busca de moradia, o prometido pagamento. O governo não cumpriu e os locais aos pés dos morros começaram a serem ocupados num processo natural de subida, já que a direção ao centro urbano não era viável. Daí não demorou muito para chamar os ex-combatentes de favelados e os locais de favela.

Quarenta e nove anos depois (1940) a ocupação da Serra do Mar começou em acampamentos de operários que iniciaram a construção da via Anchieta. A população se adensou a cada nova estrada. Mais 42 anos (1989) a segunda pista da Imigrantes terminou e os trabalhadores repetiram a história, que ocorre em todas as estradas recentes, como no Rodoanel de São Paulo.

Às construtoras dever-se-ia cobrar a remoção dos trabalhadores. Cobrar e controlar, pois o ambientalista Condesmar Fernandes de Oliveira lembra que a Ecovias deveria, em 1989, investir 2% do valor da obra da Imigrantes na remoção dos trabalhadores e mais 2% na preservação do meio ambiente . Não cumpriu. Em valores da época, aproximadamente 28 milhões de reais.

Hoje, as grandes cidades brasileiras estão cercadas por favelas e o Parque Estadual da Serra do Mar, abriga 7.500 famílias e 30.000 pessoas, graças não só ao descaso das construtoras, ao descontrole do Estado como também aos políticos locais. “A cada trecho construído e a cada eleição temos um novo surto de introdução de moradores” é o que assinala Mario Mantovani, diretor da SOS Mata Atlântica, desanimado e assustado, pois o IPT já adverte seriamente a possibilidade de uma catástrofe de desmoronamento total, estradas e moradias.

A Prefeitura de Cubatão, uma das maiores responsáveis pela grave situação é míope em relação ao tema, o que é facilmente verificado numa visita ao seu site. E Cubatão é a área mais complexa de ocupação do Parque e do Programa de Recuperação Sócio Ambiental da Serra do Mar e Mosaicos da Mata Atlântica.

O Parque Estadual é a maior unidade de conservação de proteção integral da Mata Atlântica abrigando 373 espécies de aves, 111 de mamíferos, 144 de anfíbios e 46 de répteis, muitas delas ameaçadas de extinção, além de fornecer água e espaço para lazer.

O programa custou R$ 1 bilhão, dividido entre Banco Inter-americano de Desenvolvimento – BID (45%), governo estadual (45%) e governo federal (10%). Seu objetivo é restaurar e conservar as funções ambientais das áreas inadequadamente ocupadas da Serra do Mar. Segundo o coronel Elizeu Eclair Teixeira Borges, comandante da Polícia Militar e um dos principais coordenadores do programa, a primeira ação desenvolvida pelo governo foi “congelar” as ocupações, aumentando a fiscalização nos bairros e proibindo que qualquer reforma ou construção fosse feita sem autorização ambiental.

São 315.000 hectares que vão de Cubatão até Caraguatatuba, cuja parte nevrálgica o Cel. Eclair garante que, a partir de 2007 com 76 homens e 11 viaturas, não foi admitida mais nenhuma família às 7.500 existentes. Acredita que 70% da população irão para a nova área a ser entregue com casas de 49 a 60m2, a um preço de 30mil reais, já com subsidio de 50% do Estado a serem pagos em 25 anos, dando mensalidades em torno de 100 a 130 reais.

Bom negócio, não fosse discurso anterior de políticos que vinham prometendo gratuidade nas cessões das moradias, além de facilidades primitivas, como não pagar água, luz e esgoto.

É talvez a grande dificuldade da desfavelização, embora como lembre Sergio Abranches, sem o ordenamento do Estado qualquer aglomerado humano sempre estará a mercê do poder de bandidos, afinal a autoridade é necessária para compor e harmonizar as relações urbanas.

É hora de política e não de políticos.

Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda, às quartas-feiras escreve no Blog do Milton Jung e sabe que promessa não cumprida é o que mais floresce nas nossas matas

Abraço no Liceu para salvar patrimônio da cidade

 

A fanfarra deu o ritmo para a manifestação em apoio ao Liceu Coração de Jesus, tradicional escola paulistana ameaçada de fechar devido a degradação da área em seu entorno, na região central de São Paulo. Ex-alunos, estudantes, professores, diretoria e cidadãos incomodados com a possibilidade de ver esta casa se fechar após 125 anos realizaram um abraço ao prédio, em um sábado (28.11) marcado por uma série de ações. A forte participação dos ouvintes-internautas no post “Liceu, simulacro e simulação”, assinado por Carlos Magno Gibrail, aqui no blog, demonstra bem o interesse da sociedade na preservação deste patrimônio. O slideshow que você assiste tem imagens enviadas pelos organizadores do movimento Viva Liceu que mantém um blog para reunir as informações em torno da luta desenvolvidas por eles para a recuperação da instituição com a valorização daquele espaço. Caso você tenha mais imagens envie para milton@cbn.com.br para que possamos incluir neste álbum digital.

Outros canais de informação sobre o Viva Liceu estão no Orkut e no Twitter.