Conte Sua História de São Paulo – 464 anos: uma lembrança que não é minha

 

 

 
Por Anna Frank
Ouvinte da Rádio CBN

 

 

 

 

 

 

Entre 1970 e 1973, estudei no Ginásio Estadual de Vila Nova Friburgo, próximo do bairro de Interlagos. Foi nesse período que conheci uma amiga que estudou comigo os quatro anos. Ela morava no bairro de Veleiros, que ficava próximo da escola. Tinha um pai muito bravo e de pouco diálogo com os filhos. Nas disputas, sempre prevalecia a vontade dele. Lembro que minha amiga tinha muito medo do pai.

 

 

Naquela época, as crianças podiam voltar à pé da escola para casa e nós duas, sempre juntas, caminhávamos falando de nossos sonhos e pensando em nosso futuro, casamento, filhos … Nós adorávamos ouvir Renato e Seus Blues Caps, que era o máximo do rock brasileiro. Também gostávamos de um doce puxa-puxa, um tipo de melado que toda garotada comia. Havia o guaraná caçulinha, o bolo Pulman – que delícia! Inesquecível!

 

 

Ah, tinha a Jovem Guarda com suas guitarras e músicas barulhentas. Era moda usar calça boca de sino e blusa de seda com babado. Além da mini-saia, que minha amiga guardava na minha casa para vestir depois da escola sem que o pai dela soubesse.

 

 

Minha amiga gostava muito da mãe dela, que parecia uma pessoa muito doce e meiga, carinhosa com os filhos. Sempre tinha um sorriso e um beijo guardado no coração.

 

 

thumbnail_blusa

 

Como nem tudo na vida é sonho, a mãe dela morreu de repente e a vida dessa amiga passou a ser um inferno. Além de sofrer a perda da mãe, tinha de suportar a tirania do pai. Sequer a morte da mãe podia chorar. O pai, numa atitude de desespero, trancou o quarto da mãe, proibindo para sempre que ela pudesse entrar lá. Com medo de perder todas as lembranças, essa amiga me incumbiu de guardar uma blusa que era da mãe dela. Disse que a pegaria mais tarde, quando as coisas estivessem mais calmas.

 

 

Nós estávamos no último ano do ginásio quando aconteceu essa tragédia. Eu fui para o Colégio Oswaldo Aranha fazer o colegial e perdi o contato com ela. Agora, após 30 anos, eu gostaria muito de poder devolver esse tesouro a essa amiga de infância, que guardo até hoje em memória de sua querida mãe.

 

 

Desculpe-me a falha de memória, mas infelizmente não lembro mais seu nome e também não sei se ela ainda lembra dessa triste história. Mas não gostaria de fazer minha transmutação sem cumprir esta missão tão importante que ela deixou em minha
vida.

 

 

Anna Frank é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Venha comemorar mais os 464 anos da nossa cidade: escreva seu texto para milton@cbn.com.br.

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