Boa notícia não dá audiência

 


Por Carlos Magno Gibrail

O Brasil conquistou seis medalhas de ouro, três de prata, duas de bronze e dez certificados de excelência no maior torneio de educação profissional e tecnológica do mundo. Ocorrido em Londres no mês de outubro. Tirou o segundo lugar, ficando na frente do Japão, da Suíça e demais países desenvolvidos. Atrás apenas da Coreia do Sul.

Esta notícia não foi estampada com o merecido destaque em nenhuma das mídias, que, coincidentemente, abrem as primeiras páginas para alardear os rankings de educação que tem colocado nosso país em constrangedoras posições.

A mesma imprensa que brada a necessidade do ensino técnico, não abriu espaço para informar que a dupla gaúcha Christian Alessi e Maicon Pasin, do Centro Tecnológico de Mecatrônica, do SENAI, em Caxias do Sul, ganhou o ouro em mecatrônica e foi o destaque da equipe brasileira, vice-campeã do 41º Worldskills, que reuniu 944 competidores de 51 países e receberam mais de 200 mil visitantes. Assim como deixou de informar que Willian Grassiote do SENAI de Taguatinga é o melhor profissional do mundo em mecânica de refrigeração. Jecivaldo de Oliveira é excelência na aplicação de revestimento em cerâmica, após três anos treinando dia após dia, sem feriado, sem fim de semana no SENAI DF. Guilherme Augusto Franco de Souza do SENAI Mooca SP, é ouro em desenho mecânico em CAD. Gabriel D’Espíndula do SENAI Paraná é o melhor do mundo em eletrônica industrial. Natã Barbosa é ouro em web design pelo SENAI de Joinville. Também de Joinville Leandro Duarte e André Peripolli programaram um robô móvel e ganharam certificado de excelência. Do SENAI do Rio, Rodrigo Ferreira da Silva, filho de segurança de joalheria, é o melhor do mundo na ocupação de joalheria.

À falta de informação temos o oposto quando, por exemplo, na CBN, ao lado de qualificados comentários de Lucia Hipólito, Miriam Leitão, Max Gehringer, Arnaldo Jabor, etc. comandados por Mílton Jung, há a intromissão de um repórter anunciando acidente fatal de algum anônimo no trânsito paulista. Como se a má-noticia, mesmo que sem pedigree, tenha que comparecer no cardápio jornalístico.

Há, entretanto uma boa notícia, pois a tecnologia através da pressão dos dois bilhões de internautas ou dos cinco bilhões de proprietários de celular no evoluído mundo atual, abrirá definitivamente a customização da editoria. Ou seja, vamos selecionar a pauta de interesse. Por segmento, e individualmente.

Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda e escreve, às quartas, no Blog do Mílton Jung

A morte de um repórter cinematográfico

 

Última imagem gravada pelo repórter Gelson Domingos

Filho de jornalista, sobrinho de jornalista, afilhado de jornalista e casado com jornalista, jornalista que sou sofro quando sei que um colega de profissão foi morto à bala, vítima da troca de tiros entre policiais e bandidos. Gelson Domingos, 46 anos, foi alvo encontrado de um tiro de fuzil durante a cobertura de uma operação da PM contra o tráfico de drogas na favela de Antares, em Santa Cruz, no Rio de Janeiro. Estava com colete de segurança, insuficiente para impedir a morte.

Um dos meus tios, Tito Tajes, foi repórter em guerra – por favor, parentes de melhor memória, me digam em qual delas. Mesmo sendo uma das pessoas mais queridas por mim, infelizmente nunca conversamos muito sobre as aventuras dele naquela cobertura, mas imagino como difícil deve ser o campo de batalha. Minha mulher, repórter de televisão, apesar de evitar as pautas mais perigosas, invariavelmente se depara com situações complicadas. Às vezes, uma simples gravação de rua a coloca no meio de um assalto ou no caminho de um caso policial. Sem contar que, atualmente, babacas sem causa têm atacado também estes profissionais quando entram ao vivo.

Apesar de alguns anos trabalhando no conforto de um estúdio de TV e rádio – onde vivenciamos outros tipos perigosos -, antes de ser âncora estive na rua, também. Como repórter, porém, poucas vezes tive de me deparar com ações de violência. Lembro de uma perseguição na qual transmiti ao vivo a fuga de bandidos que estavam em três carros com reféns após longa e dura rebelião de presos no Presídio Central de Porto Alegre. Entre o carro de um dos chefes da quadrilha e o da polícia estava o da rádio na qual trabalhava. Deste narrei boa parte do caminho por onde os bandidos passavam. Em nenhum momento eu e motorista levamos em consideração o risco de sermos atingidos por balas disparadas de um lado ou de outro.

No trajeto da notícia nem sempre calculamos o risco real da situação. Verdade extrapolada quando nos referimos aos repórteres cinematográficos e suas câmeras sempre apontando para o alvo mais significativo. Apesar de experientes, são repórteres bem menos valorizados do que aqueles que aparecem diante das câmeras e em algumas emissoras sequer lhes é dado o direito de serem chamados como tal. Mesmo assim, motivados pelo desejo de registrar a melhor história ao público esquecem o medo, as balas e a guerra na qual estão metidos. Transformam-se em vítimas de suas próprias escolhas e do compromisso que assumem ao entrar na profissão, o que em nada exime a responsabilidade das empresas nas quais trabalham, das condições e equipamentos que lhe são oferecidos e do País em que vivemos, no qual guerras diárias são travadas nos morros e favelas expondo não apenas jornalistas, mas cidadãos que aqui sobrevivem.

Jornalismo em tempos de redes sociais, no MIS

 

Vendendo meu próprio peixe. Neste sábado, estarei no MIS – Museu da Imagem e do Som – a convite dos Twitteiros Culturais de São Paulo para conversar com Mona Dorf e José Luiz Goldfarb sobre o jornalismo em tempos de redes sociais. Arrisco dizer que esta é uma versão do Rádio na Era do Blog, que lancei há quatro anos em palestras de comunicação e bate-papos informais aqui no Blog.

A seguir, o material de divulgação dos organizadores do ETC Sampa:
                                              
No próximo sábado, dia 22 de outubro, das 16 às 17h30, os dois conhecidos jornalistas discutem a influência das Redes Sociais no Jornalismo durante o ETC_Sampa (Encontro dos Twitteiros Culturais de São Paulo), no MIS (Museu da Imagem e do Som), com mediação do multidisciplinar José Luiz Goldfarb (@jlgoldfarb). Entre as questões, estão “Como as redes sociais transformam o jornalismo?”, “Como será o jornal do futuro?”, “Existe algo acontecendo que altera fundamentalmente a produção e veiculação de informações?” e “Como o Twitter interfere no furo jornalístico”. A entrada é franca. O debate pode também ser acompanhado pelo Twitter, através da hashtag #REDEMIS.
 
Sobre o ETC

Criado em 2009, o ETC está em 19 cidades brasileiras e reúne twitteiros que agitam a cultura dentro e fora do twitter. Os convidados debatem temas específicos,  relacionados com o Twitter e a Cultura, sempre com a participação do público, que vai ao evento ou está presente virtualmente, via twitter e stream.Foram desses grupos que surgiram movimentos como o #doeumlivro, que arrecadou 360 mil livros em dois anos (entre novembro e janeiro de 2009/2010 e de 2010/2011). “Agora em Sampa os ETCs passam a ser mensais, no MIS”, afirma Goldfarb. 
   

O rádio na cobertura do 11 de Setembro

 

Para lembrar os 10 anos dos atentados de 11 de Setembro, reproduzo neste post trechos do livro “Jornalismo de Rádio” (Editora Contexto), que publiquei em 2004, no qual, entre tantas histórias, conto como foi a cobertura na rádio CBN dos ataques nos Estados Unidos.

Para ler o texto completo sobre os bastidores desta cobertura da CBN, compre o livro aqui

E ouça aqui o plantão CBN com a primeira notícia sobre o atentado em Nova Iorque

Onze de setembro de 2001 se inicia, antecedido por uma cortina musical tocada na velocidade da emergência que marca as edições extraordinárias no rádio. O primeiro par[agrafo do mais dramático capítulo escrito pelo terrorismo internacional na era moderna é anunciado, ironicamente, em trinta segundos, tempo reservado na comunicação do mundo capitalista para a venda de produtos e a oferta de serviços. No texto improvisado que descreve a cena inicial do prédio em chamas, de 110 andares e 412 metros de altura, se oferece ao público o que seria a propaganda de maior impacto dos grupos anti-americanos.

Os meios de comunicação multiplicam a mensagem enviada por Osama Bin laden e pela Al Qaeda, através de pilotos suicidas e aviões-bomba. Cada veículo, usando de seus recursos característicos para conquistar o público ansioso pela informação. A televisão estava lá quando o segundo Boeing acertou a torre sul do World Trade Center, quinze minutos após o primeiro ataque, transmitindo ao vivo o “espetáculo”. O rádio propagou o feito terrorista narrando o acontecimento em off tube, como nos grandes jogos internacionais de futebol— sem precisar pagar pelos direitos de transmissão. A internet também calçou a cobertura nas imagens da TV, na noticia do rádio e nas informações das agências internacionais, a maioria levando em tempo real material colhido pela CNN.

Nas ruas, o pedestre tem atenção despertada pelo anúncio do painel eletrônico: “Terroristas arremessam aviões sobre WTC”. Na tela do telefone celular, o texto do serviço de mensagem informa; “Torres gêmeas em fogo, após ataque terrorista”. O pager na cintura da calça chama: “Terror no ar: avião com passageiros atinge Pentágono”. Jornais e revistas mobilizam redações para rodar o mais cedo possível uma edição extraordinária — prática abandonada desde o advento da internet.

A sociedade informativa, fenômeno na virada do Terceiro Milênio, acorda para viver o dia que ainda não acabou.

MAIS UM DIA DE TRABALHO

O CBN São Paulo, programa que apresento desde 1999, estava apenas começando. Era hora de falar do esporte com os destaques dos clubes. Antes, já havíamos passado em revista a tropa de repórteres. Cada um apresentando a informação que cobriria naquela manhã. Meteorologia, trânsito, estradas e aeroportos, informações da cidade — este é o nosso foco das 9h30 ao meio-dia, horário destinado ao noticiário local na rádio CBN, que tem boa parte da programação dedicada aos temas nacionais e internacionais.

Logo cedo, após ler um jornal diário, assistir aos telejornais da manhã e ouvir um trecho da programação da rádio, havia negociado com a produção, pelo viva voz do celular no carro, a pauta do dia. A produtora Fabiana Boa Sorte, na redação, havia feito o balanço das reportagens que poderiam entrar gravadas; conversado com o chefe de reportagem para saber quais assuntos seriam cobertos pelos repórteres; e feito varredura nos demais jornais impressos. Também já recebera, pelo correio eletrônico, sugestões de ouvintes e assessores de comunicação.

Ao entrar no ar, duas entrevistas estavam fechadas — ou seja, os convidados estavam disponíveis para falar sobre o tema nos horários propostos. Ainda se aguardava o retorno de um terceiro entrevistado. Não tinha sido encontrado pela produção até aquele momento. Alguém da assessoria dele ficara de telefonar de volta. Os comentaristas␣ tinham assuntos decididos. Os cartuchos com reportagens, sonoras e teasers gravados, estavam separados, cada um com sua devida cabeça redigida em laudas de computador. Ao operador de áudio Paschoal␣Júnior, que comanda a mesa de som responsável por levar a rádio ao ar, havia sido passada as orientações do que seria apresentado. Ele, por sua vez, havia feito algumas sugestões a partir de notícias que lera no jornal ou ouvira na programação da rádio, desde às seis horas da manhã. O pessoal da área técnica é parte integrante da equipe de jornalismo, e tem de ser consultado. Essa interação facilita o andamento do trabalho.

Em geral, buscamos tratar de questões relacionadas à vida do cidadão. Fatos que mexem com o dia a dia do paulistano. Ações de participação da comunidade, à medida em que a parceria com o poder público deve ser incentivada. Também orientam nossa pauta denúncias contra desrespeito aos direitos humanos e a fiscalização do que as autoridades públicas fazem com nosso dinheiro.

A minha frente, o computador recebia mensagens de todo o tipo. A quantidade de spams (material enviado para os correios eletrônicos sem autorização nem utilidade) é enorme e atrapalha a avaliação criteriosa daqueles que merecem alguma atenção.␣Já desperdicei meu tempo levantando a seguinte estatística: de cada vinte e-mails que aterrissam na caixa de correio eletrônico, cinco merecem ser abertos, dos quais três têm de ser respondidos e apenas um tem direito e respeito para ser registrado no ar. Além do correio eletrônico, navegava na internet em busca de informação e acessava as agências de notícias. Um televisor sobre a mesa, ao lado do computador, estava ligado na Globonews, canal de notícias 24 horas, da Rede Globo de Televisão. Entrávamos no ar para mais um programa. Mas era 11 de setembro de 2001.

FOGO NO AR

A agência internacional acabara de anunciar, em apenas uma linha, o incêndio na torre, em Nova York, provocado pelo choque de um avião, e a Globonews interrompia a programação para reproduzir imagens, ao vivo, da CNN. Pelo canal interno, todas as emissoras da CBN eram comunicadas de que em trinta segundos seria formada rede para notícia extraordinária. Imediatamente, quem estava no ar em Cuiabá, Curitiba, Maringá, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Brasília ou qualquer ponto do país em que houvesse retransmissora da Central Brasileira de Notícias parou a entrevista, a reportagem, seja lá o que estivesse sendo apresentado, para ouvir o Plantão CBN, transmitido do estúdio em São Paulo.

Com base nas primeiras informações, anunciei o incêndio no World Trade Center, imaginando um acidente de avião ocorrido há apenas dez minutos. Disse que seria um Boeing 737, mas se descobriu em seguida que o avião era modelo 767, duas␣ vezes mais pesado e com quase o dobro de capacidade para transportar passageiros. Encerrado o plantão, continuamos em rede descrevendo as imagens. O apresentador da CBN no Rio de Janeiro, Sidney Rezende, passou a dividir o comando da programação.

Às 10h03, logo após a leitura do Repórter CBN — síntese noticiosa com duração de dois minutos, que vai ao ar de meia em meia hora —,transmiti ao vivo, o choque do segundo avião, com a voz revelando o impressionante da cena.

Até aquele instante ainda era difícil entender o que acontecia à nossa frente. Impossível não se emocionar, porém, com as imagens. Produtores no Rio e em São Paulo já haviam ligado para correspondentes em Nova York, em Washington e na Europa. Apuradores haviam levantado detalhes nas agências. Quem conhecia alguém nos Estados Unidos, correu para o telefone em busca de informação. Na redação, todos os monitores estavam sintonizados nas emissoras a cabo americanas. O escritório da BBC Brasil também foi acionado. E a cobertura se iniciara há apenas seis minutos.

DEU NO RÁDIO

O “espetáculo” do 11 de setembro foi planejado para ser transmitido pela televisão. A diferença de tempo entre o choque de um e outro avião nas torres gêmeas vai ao encontro dessa idéia. O primeiro, da␣ American Airlines, chamou atenção das emissoras americanas que circulam por Nova York com suas equipes móveis de alta tecnologia.

Quem anda pelas grandes avenidas de Manhattan se depara a todo o momento com os técnicos, sem a companhia de repórteres, em pequenos e ágeis furgões. Haveria tempo suficiente para se direcionar uma câmera para o prédio que se enxergava de vários pontos da ilha. Daí a facilidade para reproduzir, ao vivo e a cores, o segundo ataque.

O recado enviado pelo segundo avião, o Boeing da United Airlines, era claro. Se alguém não havia entendido até então o que estava acontecendo — e eu, que transmitia tudo aquilo, não entendia␣ mesmo — ali estava a verdade. Um ataque programado para se transformar em fenômeno midiático. A câmera era a única forma de contato do mundo com aquele cenário. A aproximação do local atingido era impossível. Toda e qualquer leitura que se fez naquelas primeiras horas foi construída a partir da imagem.

Apesar de o episódio ter privilegiado a televisão, como ocorre nos shows de entretenimento, no Brasil, o rádio teve papel importante na cobertura jornalística do 11 de setembro. No momento em que o ataque se iniciou, boa parte das pessoas não estava mais em casa. Encontravam-se no carro, a caminho do trabalho, ou haviam chegado ao escritório. Nas escolas e universidades, as aulas tinham começado. Muita gente se deslocava a pé nas ruas de comércio. Com esse quadro e com base em análise comparativa da audiência, arrisco dizer que a maioria da população ficou sabendo do atentado pelo rádio.

Números do Ibope deixam evidente a supremacia da programação radiofônica em relação à televisiva na faixa das nove às dez da manhã. Chega a ser, em média, três vezes maior o número de pessoas que ouvem rádio nesse horário do que os que assistem à televisão. Mesmo no decorrer do dia, o número de ouvintes supera o de telespectadores. Pesquisa do␣ Ibope, citada pelo Jornal do Brasil, mostra que no terceiro trimestre de 2003 os ouvintes foram 2.967.603, enquanto os telespectadores não passaram de 2.408.560, entre seis da manhã e sete da noite, no estado de São Paulo.

Não tenho dúvida de que, alertado pelo plantão da rádio jornalística da cidade, o ouvinte saiu à procura do primeiro aparelho de televisão que houvesse nas proximidades. Reação provocada em todo o cidadão que, por outros meios de comunicação, até mesmo o telefonema de um vizinho, teve acesso à notícia. Mas, ao encontrar os canais que reproduziam as imagens da CNN para o mundo, esse cidadão se deparou com âncoras, repórteres e comentaristas atuando como se estivessem no rádio.

Sem acesso à “cena do crime”, a solução foi voltar as câmeras para o local do atentado e, por telefone, conversar com pessoas que escaparam do prédio em chamas, acionar correspondentes internacionais, entrevistar especialistas, falar com autoridades políticas e policiais em uma linguagem muito próxima à do rádio. Os programas jornalísticos na televisão não têm humildade suficiente para aceitar o uso do telefone como meio de informação. Um repórter que esteja diante da notícia, mas sem uma câmera, terá dificuldade de convencer o editor de que o fato deve ser transmitido, apesar da falta de imagem. Foi com o surgimento das emissoras de notícias 24 horas, como Globonews e Bandnews, que esse formato passou a ser aceito na TV brasileira, apesar de ainda encontrar muitas restrições. Antes disso, repórter ou entrevistado falando por telefone era␣cena rara na televisão. Por mais fascinante que seja a TV, fenômeno de massa de enorme impacto na sociedade, a imagem por si só não informa. É perigosa a idéia de que a câmera aberta diz tudo. De que o cidadão não carece de um intermediário para explicar o que vê. Precisa, sim. A reflexão, o questionamento e a apuração dos fatos são imprescindíveis para que o processo de comunicação se complete. Jornalistas e público não podem se tornar reféns da imagem.

O rádio contou para as pessoas o que acontecia no 11 de setembro e elas foram ver na televisão. Encontraram seus apresentadores favoritos fazendo rádio, apesar da imagem. E que imagem.


Leia o restante do texto, no livro Jornalismo de Rádio

Para escrever notícia no rádio, conte sua história

 

O post sobre o texto no rádio, escrito nesta terça-feira, proporcionou bons comentários aqui no blog. Em um deles, assinado pela estudante do segundo ano de jornalismo Kelly de Conti, foi reproduzido texto de Rosental Calmon Alves que faço questão de destacar neste espaço:

É muito normal, nas redações de rádio, o editor condenar um texto à lata de lixo e depois pedir ao redator que conte o que estava escrito (não como estava, naturalmente). Ao terminar a resposta, o editor fala: ‘Brilhante! É isso que eu quero. Reescreva exatamente como você acaba de me contar.’ E, muitas vezes sem perceber direito a lição, o redator volta à máquina meio intrigado, tentando lembrar, textualmente, como foi a conversa com o chefe. A essa simplicidade a gente só chega quando consciente das caracterizações do trabalho. Basicamente, precisamos saber: a) que escrevemos para alguém ler e alguém ouvir, sem possibilidade de outra leitura, em caso de não entendimento de algum detalhe; b) que, apesar de suas particularidades, o processo comunicativo, do qual estamos participando, deve aproximar-se do interpessoal, ou seja, devemos procurar o nível de uma conversa informal; c) que as notícias devem ser escritas objetivamente, de forma direta; d) que devemos dizer o máximo, com o mínimo de palavras, mas sem forçar.”

Boa notícia, também, na mensagem deixada pela professora de radiojornalismo Débora Menezes que revela seu cuidado para que o texto de rádio seja mais bem tratado. Como disse a ela, é da academia que iremos contaminar as redações.

A história do Chapeuzinho Vermelho no rádio

 

Tem uma brincadeira antiga na qual uma mesma notícia é apresentada em diferentes versões, adaptada ao estilo editorial de cada jornal, revista ou programa de televisão. Um exercício para entender melhor a mídia e mostrar como a forma de pensar do veículo e o próprio público-alvo podem influenciar a abordagem do assunto. A primeira vez em que me deparei com este texto a notícia em questão era o fim do mundo e havia coisas curiosas como acusação contra partidos políticos, destaque para as perdas econômicas e até uma, nunca esqueço, que destacava em letras garrafais: “O Rio Grande do Sul vai acabar“. Claro, se referia a um jornal gaúcho.

Nessa segunda-feira, recebi e-mail do ouvinte-internauta Joaquim S. Falcão Neto mostrando como a história de Chapeuzinho Vermelho seria contada na imprensa brasileira. Já conhecia este texto, também. Mas havia uma provocação interessante na mensagem copiada por ele: “E na CBN, como vocês noticiariam?”

A pergunta me permite falar um pouco sobre algo que me incomoda há bastante tempo no rádio brasileiro: o texto. Com as exceções de praxe, deixamos de lado o desenvolvimento de uma escrita apropriada para o veículo, o que significa dizer, apropriada para o ouvinte. E o que vem a ser isto? Escrevi no livro Jornalismo de Rádio, editado pela Contexto, sobre o assunto:

O jornalista catalão Iván Tubau, professor do Departamento de Jornalismo e Ciências da Comunicação da Universidade Autônoma de Barcelona, em seu livro Periodismo oral (Paidós, 1983), ensina que ao escrever para quem ouve, deve-se escrever como quem fala. O redator de rádio tem de levar em consideração que a notícia será falada; não pode se prender ao texto escrito do jornal, da agência de notícias ou internet, fontes de sua redação. Precisa recriá-lo. No rádio, assim como na televisão, a compreensão tem de ser imediata. Não se dá ao ouvinte o mesmo direito que o leitor tem de voltar atrás sempre que alguma ideia for percebida.

Mais adiante, reproduzo outro ensinamento de Tubau:

Quem escreve para rádio e televisão deve ouvir a algaravia da rua, ordená-la e limpá-la um pouco e devolvê-la levemente melhorada a seus emissores primigênios, procurando que estes a sigam conhecendo como sua.

Digo tudo isso para, finalmente, responder ao interesse do Falcão Neto. A notícia do Chapeuzinho Vermelho no rádio, muito provavelmente, seria “copiada e colada” de algum outro veículo de comunicação, infelizmente, como ocorre na maioria das vezes, sem nem mesmo se atentar para o interesse editorial que moveu o veículo-fonte.

Haverá aqueles colegas de rádio que lerão este post – é pretensão minha acreditar que algum deles lê este blog? – e logo pensarão consigo mesmo: “eu não faço assim” ou “na minha rádio, não”. Se for verdadeira a reação, parabéns. Você é um dos poucos que ainda se lembram do ouvinte ao redigir para o rádio.

A Copa no Brasil e as minhas copas

 

Por Milton Ferretti Jung

A Copa do Mundo de 2014, como se sabe, deu origem a uma polêmica provocada pela nossa Presidente. Até Sarney se manifestou contrário à medida provisória 527, editada por Dona Dilma e aprovada pela Câmara dos Deputados, que permite ao governo manter em segredo os orçamentos feitos por órgãos da União, estados e municípios não só para as obras do Mundial, mas também, dos Jogos Olímpicos de 2016. Têm razão o Presidente do Senado e Roberto Gurgel, procurador-geral da República. Este último entende que despesas públicas não devem ser assunto sigiloso. É evidente que, num País como o nosso, qualque medida que dê margem a falcatruas – e a 527 dá – deixa todo o mundo, mesmo os mais distraídos, com a pulga atrás das orelha. Espera-se que o Senado vete o artigo da MP que trata do sigilo.

Por falar em Copa do Mundo, lembro-me da primeira que foi disputada no Brasil, em 1950, época em que, imagino, não se metia a mão no dinheiro público com a volúpia vista nos dias de hoje. Tinha 15 anos e minha lembrança daquele episódio é muito vaga. Afinal, naquele tempo a cobertura da mídia (ainda nem sequer se conhecia essa palavra) não era como a que se faz hoje. Só não esqueço é que, enquanto Brasil e Uruguai jogavam no Maracanã, estádio inaugurado em 16 de junho de 50 para permitir que o Brasil sediasse a mais importante competição disputada por seleções de futebol, eu assistia a um filme, não me perguntem qual e que amigo me fazia companhia no Cine Eldorado. Apesar de gostar de participar de peladas nos terrenos baldios da minha zona, em Porto Alegre, e de torcer para o Grêmio, minha relação com o futebol jogado nos estádios era muito distante. Ainda tenho na cabeça, entretanto, que a película foi bruscamente interrompida e uma voz irrompeu nos alto-falantes com a triste notícia da derrota brasileira na partida decisiva, contra o Uruguai. Confesso lisamente que não me abalei com a informação. Saí do cinema com a mesma cara com a qual havia entrado.

Comecei a dar mais atenção à seleção brasileiras em 1954. Então estava iniciando carreira no rádio. Comecei na Canoas que, apesar do nome, tinha estúdio em Porto Alegre. O Brasil não saiu campeão novamente na Suíça. Quatro anos depois me transferi para a Rádio Guaíba, onde ainda estou. Por esta ouvi todos os jogos do Brasil, na Copa da Suécia, em 58, como profissional radiofônico. Mendes Ribeiro narrou-os. Até ali, eu havia narrado somente uma partida de futebol: Cruzeiro e Renner, no Estádio da Montanha, mas isso antes de ir para a Guaíba. Festejei com colegas de trabalho o título conquistado por nossa seleção, desfilando no carro de um deles,meu saudoso amigo Pedro Carneio Pereira, morto num trágico acidente no Autódromo de Tarumã, em 1973, em que seu carro se chocou com o de outro competidor e os dois veículos pegaram fogo. Minha primeira Copa como narrador foi a da Alemanha. Nesta, o Brasil também não venceu. Estive de passagem na Argentina, pois relatei apenas uma partida. Na do México, em 1986, acompanhei a seleção brasileira em sua estada na bela Guadalajara. Era o narrador titular da Guaíba e não precisei ir para a Cidade do México, na final, porque o Brasil havia caído antes dela.

A do México foi a minha última Copa do Mundo na condição de narrador. Nas demais, fui apenas torcedor. Serei, na de 2014, se Deus quiser, o que fui na de 2010. Nesta, mais torci para que meu filho,o responsável por este blog,fizesse um bom trabalho jornalístico, ele que esteve lá a serviço do Portal Terra, do que mesmo pela nossa seleção. Os métodos de Dunga e algumas de suas escolhas não me agradaram. Agrada-me ainda menos a medida provisória de Dona Dilma, capaz de beneficiar os que se interessam por Copa do Mundo apenas pelos lucros ilegais que ,provavelmente, a competição lhes poderá render. Ah, por favor, se Mano Menezes for o técnico do Brasil na próxima Copa, mesmo preferindo que ele fosse realizada em outro país, vou torcer para que tenha sucesso. Sou-lhe grato pelo que fez pelo Grêmio.

Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quartas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele).

A volta da síntese noticiosa

 

Por Milton Ferretti Jung

Dia 30 de abril de 2010. Saía do ar, nesta data,o Correspondente Renner, síntese informativa que vinha sendo irradiada desde a fundação da Rádio Guaíba e era um marco na programação da emissora. Ao deixar de ser apresentado já não tinha a chancela de seu primeiro patrocinador. Este, porém, quando alguém fazia referência à síntese informativa, geralmente continuava sendo citado. O nome – Correspondente – e o sobrenome – Renner – permaneciam na cabeça dos ouvintes, que teimavam em não se acostumar com as novas e mais recentes denominações do noticiário. Com Renner a patrociná-lo, o noticioso teve quatro apresentadores: Ronald Pinto, Mendes Ribeiro, Ênio Berwanger e este seu criado.

Vou ter de falar, com a devida licença dos leitores, na primeira pessoa. Explico: comecei a apresentar o Correspondente Renner em 1964 e cumpri esta agradável tarefa até a sua penúltima edição, da qual não fui o apresentador, o que me poupou uma leitura que faria, provavelmente, com imensa tristeza. Afinal, cheguei a ser o locutor que, no Brasil, permaneceu mais tempo apresentando o mesmo noticiário. Eron Domingues e Lauro Hagemann, locutores do Repórter Esso, aquele no Rio, este no Rio Grande do Sul, síntese que balizou o Renner, marcaram época na radiofonia brasileira, mas ficaram no ar menos tempo que eu. Confesso que ambos foram meus mestres. No início, tentava imitá-los,o que durou até encontrar meu próprio estilo.

No próximo dia 30, data do quinquagésimo-terceiro aniversário da Rádio Guaíba, o Correspondente estaria de aniversário. Eu escrevi estaria? Ledo engano. Vou revelar agora o motivo pelo qual, data vênia do responsável por este blog, meu filho Mílton Jung, estou tratando de um assunto que, embora possa parecer estranho aos paulistas, toca-nos – a mim e a ele – muito de perto, uma vez que eu ainda sou locutor da Guaíba e o Mílton começou nela sua exitosa carreira radiofônica.

Há menos de um mês,Solange Calderon,Diretora de Programação da Rádio,convocou-me para dar-me uma notícia das mais alvissareiras: o Correspondente voltará ao ar um ano e dois dias depois de ter deixado a programação da Guaíba.E,praticamante,nos mesmos moldes dos bons tempos. E com o mesmo nome porque patrocinado pelo Banco Renner.

Os alunos de jornalismo gaúchos – o Mílton e a nossa Diretora estiveram entre eles – poderão, novamente, escolher como tema para o trabalho de encerramento do curso, o Correspondente Renner. Tenho certeza que os ouvintes desta síntese informativa,os antigos, que se diziam saudosos dela, e os que aprenderão a apreciá-la por sua credibilidade, serão nossos ouvintes, de segunda a sábado, às 09h, 13h, 18h50min e 20h.


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

De ouvinte a âncora do Jornal da CBN

 

Ao chegar em São Paulo, em 1991, repórter da TV Globo, pedi ajuda aos colegas na busca de informações sobre a cidade. Precisava de uma fonte confiável e me sugeriram a rádio que só tocava notícia. A CBN acabara de ser inaugurada, emissora que inovava a programação com a grade toda voltada ao jornalismo.

Foi assim, por recomendação, que descobri a rádio na qual fui trabalhar sete anos depois a convite do jornalista Heródoto Barbeiro, então meu colega na TV Cultura. Era o retorno para o veículo que havia me lançado na carreira jornalística, em 1984, quando atuei na Guaíba de Porto Alegre.

Cheguei na CBN apenas para cobrir férias e em alguns meses fui definitivamente contratado. No início apresentei o programa do meio-dia, em seguida o das cinco da tarde, para após alguns anos me estabelecer no CBN SP, onde aprendi muito sobre a cidade. Foi debatendo os temas de São Paulo, elencando seus problemas e suas soluções e transformando aquele espaço em um fórum de discussão que forjei minha cidadania paulistana.

Lá se foram pouco mais de 12 anos desde que falei pela primeira vez na CBN e, nesta segunda-feira, recebo uma oportunidade única. Mariza Tavares, diretora de jornalismo, me confiou o comando do Jornal da CBN em substituição ao colega que me abriu a porta da emissora. Heródoto levará seu talento e experiência para a TV RecordNews.

Duplo desafio: assumir o posto que foi, desde a fundação da rádio, de um dos profissionais que mais admiro e ancorar o principal jornal da CBN. Para amenizar o peso destas tarefas, conto com o apoio de uma das mais competentes equipes de jornalismo do País.

Em 20 anos, passei de ouvinte a âncora do Jornal da CBN. Era muito mais do que eu poderia querer. Agradeço a todos que sempre me ajudaram a fazer das coisas que mais gosto na vida: jornalismo.

N.B: O CBN SP estará nas boas mãos da Fabíola Cidral. Todo sucesso a você, querida amiga.

Modismo e analfabetismo que assolam a mídia

 

Por Mílton Ferretti Jung

Talvez eu seja um chato, mas não de galochas, porque, mesmo quando chovia, as usei pouquíssimo e somente por exigência paterna. Meu pai temia que, se molhasse os pés, pegaria gripe. Além disso, não creio que ainda exista quem as vista. Posso esperar, então, que minha chatice, pelo menos, dispense o acréscimo referido linhas acima.

Seja lá como for, vou tratar do modismo que tomou conta da mídia. Não estarei faltando com a ética. Afinal, estou na estrada da profissão desde 1954, o que, imagino, me assegura certos direitos, um deles o de criticar o que me irrita quando leio jornais, vejo televisão e/ou ouço rádio.

Claro que não tenho a pretensão de escrever algo parecido com o que, faz bom tempo – mas nunca esqueci do texto – Stanislaw Ponte Preta, pseudônimo de Sérgio Porto, alinhou no livro intitulado “O festival de besteiras que assola o país”. Creio que pesquisou um bocado para reunir as asneiras que coletou na época ou, quem sabe, nem precisou se esbaldar procurando-as, tantas foram.

As de agora também são muitas, diferentes, porém, das relatadas por Stanislaw. Vou, no entanto, citar poucas para não encher a paciência dos que me dão o prazer de sua leitura aqui no blog do meu filho. Não sei se por preguiça ou desconhecimento gramatical, principalmente a turma das rádios não usa mais os verbos reflexivos, isto é, os que exigem a presença da partícula apassivadora – o se. Aí o que se escuta, por exemplo, é que “o jogo iniciou, o jogador machucou, o time concentrou”, e outras pérolas semelhantes.

Já o verbo realizar se transformou num proscrito. É pouquíssimo usado atualmente. Preferem dizer que “o festival aconteceu”. Tudo acontece, pouco se realiza. Devem ter aprendido a besteira com os cronistas sociais…

A moda que mais me incomoda, entretanto, é a do uso indiscriminado do verbo apontar. Parece que, para ele, não existem sinônimos. Não passa um dia que não se lê o maldito apontar em frases nas quais poderia ser substituído por indicar ou mostrar, sem prejudicar o sentido.

Afora esses modismos (até, talvez, analfabetismos) que causam dor de ouvido, ainda se faz necessário aguentar certos neologismos, entre os quais, um que detesto profundamente por ser uma invenção desnecessária. Refiro-me a disponibilizar. Seria bem mais fácil utilizar oferecer que, aliás, é bem mais bonito do que seu imenso sinônimo inventado sei lá por quem.

Acredito ter feito critica construtiva. Quem não concordar,que se manifeste.


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)