Avalanche Tricolor: um jogo para reescrever a história dessa Libertadores

 

Grêmio 2 x 0 Libertad
Libertadores — Arena Grêmio

 

Gremio x Libertad

Geromel em lance flagrado por LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

 

Há coisas que marcam toda uma campanha. Que fazem a diferença. Que mudam um destino. A expulsão de Geromel foi uma dessas. Nosso Mito se foi e por ele muita gente deve ter baixado a cabeça, dado as costas ao jogo e desistido de lutar.

 

O Grêmio, não! O Grêmio jamais desiste.

 

Nesta mesma Libertadores já houve quem tenha apostado na nossa desclassificação. Traçado o pior dos cenários. Como se não soubesse dos Aflitos, das Batalhas e das histórias heróicas que marcaram nossa trajetória.

 

O Grêmio sempre acreditou!

 

Com um a menos em campo, o Grêmio não recuou. Kannemann e Matheus Henrique se desdobraram em campo. E com eles todo o restante do time se multiplicou. Cada um valia por dois. Solidários, ninguém deixava um só espaço do campo livre para o adversário atacar.

 

O Grêmio se superou!

 

Sem nosso Mito, coube a Renato mitar. Tirou André e colocou David Braz. Tirou Jean Pyerre e colocou Diego Tardelli. E seus pupilos fizeram história no segundo tempo.  

 

O Grêmio é copeiro!

 

Sem medo de jogar, manteve o controle da bola, arriscou dribles e escapadas. Foi em uma delas que conseguimos o escanteio que deu início ao primeiro gol, de Tardelli. Foi em outra, que conseguimos a falta que nos levou ao segundo, de Braz.

 

O Grêmio se agigantou!

 

Com a dupla vantagem no placar e de olho no regulamento, sabia que sair de campo sem levar gol era fundamental. E lutou como um gigante atrás de cada bola que se aproximava de nossa área. Na rara chance de gol do adversário, Paulo Victor foi ágil para impedir qualquer prejuízo — ciente de que era mais um protagonista daquela incrível história que estávamos reescrevendo. 

 

O Grêmio é Imortal!

 

 

 

 

Avalanche Tricolor: carta para o meu filho

 

Libertad 0x2 Grêmio
Libertadores — Assunção/Paraguai

 

Gremio x Libertad

Everton marcou os dois gols. Foto de LUCAS UEBEL/GRÊMIOFBPA

 

Oi, Greg

 

Tudo bem por aí?

 

Tenho certeza que a experiência do outro lado do mundo vai ser incrível. Se sentir saudades da gente, não se preocupe. É da vida. Eu também já morro de saudades, mas sei que daqui a alguns meses você estará de volta. E de volta com muito mais experiência, conhecimento, amizades, maturidade e aquele sorriso bonito que você costuma dar — um sorriso que nos revitaliza.

 

Estou escrevendo para contar que aqui nas nossas bandas, o Grêmio segue provando sua imortalidade.

 

Lembra que quando você estava fazendo as malas, a coisa andava feia para o nosso lado?

 

Tinha gente até que apostava que deixaríamos a Libertadores bem antes da hora. Falavam em crise. Em queda de produção. Problemas no vestiário —- é o que dizem quando querem espalhar que o grupo de jogadores não está se entendendo.

 

Aí vencemos na rodada passada da Libertadores.

 

Mesmo assim o pessoal questionava nossa chance de seguir em frente. Fazia projeções. Combinava resultados. E olhava com desconfiança para nossa capacidade de recuperação. Gente incrédula essa, não é mesmo? Parece até que jamais ouviu falar das nossas façanhas.

 

Chegou a final do Campeonato Gaúcho e ganhamos mais uma vez.

 

Eu e você vibramos juntos as defesas do Paulo Victor tanto quanto os gols marcados nas cobranças de pênalti. Lembra?

 

Você talvez não tenha percebido, mas quando corri para dar-lhe um abraço e comemorar o título gaúcho era um abraço de despedida. Quase que querendo que você ficasse por aqui. Mas consciente que não seria justo segurá-lo, diante das oportunidades que a vida lhe oferecia.

 

Hoje à noite, sabia que você não estaria mais por aqui. Sabia que não poderia contar com meu companheiro de sofrimento e de torcida. Sabia que não teria como lhe abraçar mais uma vez.

 

Mas também sabia que o Grêmio não nos deixaria na saudade.

 

Que voltaria a ser o Grêmio que me fez cobrir seu berço com camisa tricolor quando você recém havia nascido e nós conquistávamos o bicampeonato brasileiro, em 1996. Que lhe forjou gremista na histórica Batalha dos Aflitos, em 2005. Que nos encheu de orgulho enquanto assistíamos da arquibancada à presença do Tricolor no Mundial de Clubes, nos Emirados Árabes, em 2017.

 

E foi assim, Greg, que na noite de hoje, todos aqueles momentos que curtimos lado a lado voltaram à memória.

 

Desde os primeiros momentos da partida decisiva desta noite —- sim, era decisiva porque qualquer revés nos tiraria da competição —- estava na cara que aquele Grêmio que conhecemos estava em campo. Domínio total do jogo, bola de pé em pé, passes velozes e precisos, jogadores se deslocando de um lado ao outro para confundir os marcadores e aquela turma lá de trás acabando com a partida — sem dar chance aos adversários.

 

Você não imagina a defesa salvadora que o Paulo Victor fez no segundo tempo. Você não tem ideia o que jogaram Geromel e Kannemann. Gigantes!

 

E lá no ataque?

 

Bem, lá a gente tinha o Everton. E esse você conhece bem. Nós dois —- aliás, nós três, porque o Lorenzo estava com a gente na arquibancada —- vimos o Everton fazendo aquele gol no Mundial bem na nossa frente. Lembra?

 

Hoje, aquele Everton estava de volta.

 

No primeiro gol, ainda no primeiro tempo, ele tirou os marcadores e o goleiro para dançar  — confere na internet que vale à pena.

 

No segundo gol, com a ajuda do Pepê — sim, o Renato em lugar de trancar o time na defesa, o deixou ainda mais ofensivo no segundo tempo, colocando um dos nossos guris em campo —-, Everton driblou um, trançou a bola nas pernas do outro, limpou para a direita e bateu firme, definindo a nossa vitória.

 

Fizemos 2 a 0 contra o líder do grupo, que estava invicto na Libertadores, e na casa do adversário. Fomos superiores no primeiro tempo. E insuperáveis nos segundo. Com o resultado, estamos na luta mais uma vez, a uma vitória da classificação que será decidida em casa, na rodada final.

 

Para a festa ficar completa, só faltou você. Mas fique tranquilo porque sei que você tem um desafio super legal pela frente. E nós estamos torcendo muito para que tudo de certo aí do outro lado do mundo.

 

Vai em frente, curta cada momento da sua experiência. Eu me comprometo a manter você atualizado com as coisas que acontecem por aqui. Contando as façanhas do Imortal Tricolor —- que nesta noite revelou mais uma faceta da sua imortalidade.

 

Beijos e até mais!

Avalanche Tricolor: o dia do “não”

 

Grêmio 0x1 Libertad
Libertadores — Arena Grêmio

 

 

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Renato não estava com cara de bons amigos na foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

 

Lembra do guri de camisa tricolor com listras desbotadas da última Avalanche de Libertadores? Esteve de volta nesta noite de terça-feira, aqui em São Paulo — de onde curto à distância as façanhas do meu Grêmio. Estava sentado no sofá, diante da televisão. Sofrendo como naquela época. Com as mãos esfregando o rosto de cima a baixo. E os dedos escorrendo sobre a cabeça e empurrando os cabelos para trás — bem menos cabelo, é verdade do que antigamente.

 

Assim como aquele guri, esteve de volta também a lembrança de uma conversa que tive com meu padrinho por adoção,  Ênio Andrade — um dos maiores técnicos que já passaram pelo meu time. Dos tempos em que ele colocava a mão sobre meu ombro e me convidava a passear pelo Largo dos Campeões, no entorno do saudoso estádio Olímpico.

 

Seu Ênio, naquelas semanas em que o resultado em campo estava aquém do esperado por ele e sonhado por mim, costumava dizer que o futebol tem algumas coisas curiosas: “Tem o dia do “sim” e o dia do “não”, Alemão!”.

 

Quando o dia é do “não”, esquece! — me ensinou.

 

A bola que sempre rola redonda no gramado, pipoca para um lado e escapa pelo outro. Acostumada a chegar no pé do colega, vai parar na altura da canela. O movimento sincronizado se transforma em correria desordenada. O cruzamento nunca encontra a cabeça amiga. A defesa que espanta até fantasma se atrapalha. Sofre o drible e deixa espaço.

 

No dia do “não”, quem está melhor em campo sente dores e tem de ser substituído. E depois de o técnico já ter feito todas as substituições, sempre haverá mais alguém para se lesionar. Com tudo conspirando contra, com certeza não será o árbitro que vai ajudar. Não vê pênalti quando podia ter visto, vê menos ainda quando o pênalti realmente acontece. Deixa o cronômetro correr até a conclusão do ataque adversário. E, claro, é nesse lance que vamos tomar o gol.

 

Hoje, foi o dia do “não” para o Grêmio na Libertadores. Mas como o guri aprendeu com o Seu Ênio, não adianta se desesperar. Porque se o trabalho está sendo bem feito — e este é o nosso caso —, melhores dias virão. Até lá.