No rádio, às vezes, uma pergunta vale mais do que uma resposta longa e cheia de números.
Hoje, ao entrevistar Régis Dudena, secretário de Reformas Econômicas do Ministério da Fazenda, sobre o Desenrola 2.0, escolhi começar a conversa criando um personagem. Um brasileiro que ganha cerca de oito mil reais, tem parte da renda comprometida com consignado, está enrolado no cartão de crédito, no cheque especial e atrasou contas da loja onde costuma comprar.
Era um personagem fictício apenas no nome. Porque, na prática, ele representa milhares de pessoas que estavam ouvindo o rádio naquele instante. Aliás, milhões de brasileiros sufocados por dívidas e que podem se beneficiar das regras anunciadas pelo Governo Federal.
Sempre gostei desse tipo de entrevista. Ela transforma um assunto técnico em uma conversa possível. Sai o economês. Entra a vida real.
Quando o ouvinte consegue se enxergar dentro da pergunta, ele entende melhor a resposta. A entrevista deixa de ser apenas uma prestação de serviço e passa a cumprir uma das funções mais bonitas do rádio: criar companhia, identificação e acolhimento.
O rádio tem essa força. Ele fala com milhões, mas preserva a sensação de conversa individual. Como se cada pergunta fosse feita da mesa da cozinha, do volante do carro ou no caminho para o trabalho.
Talvez por isso eu goste tanto do rádio e dessas entrevistas. Elas nos lembram que comunicação não é despejar informação. É construir pontes para que a mensagem faça sentido na vida de alguém.
Quanto à entrevista com o secretário do Ministério da Fazenda, Régis Dudena, que teve o mérito de ser didático nas respostas e ajudar o ouvinte a ficar mais bem informado, você pode acompanhar o vídeo disponível neste post.
A pesquisa Genial/Quaest mais recente, feita em dez estados, que mediu a opinião do eleitor para as disputas estaduais trouxe um dado curioso. Mesmo com a polarização forte na disputa nacional, o eleitor demonstra cansaço desse ambiente dividido.
Segundo Felipe Nunes, sócio-fundador da Quaest, que entrevistamos hoje pela manhã, no Jornal da CBN, há uma preferência por governadores mais independentes, menos ideológicos e focados nos problemas locais. Um desejo que nem sempre se transforma em voto.
Tenho a impressão de que essa dissociação entre o que o eleitor diz ao pesquisador e o que decide na urna tem a ver com uma frase muito usada pelo meu colega e especialista em branding Jaime Troiano: o consumidor diz o que pensa e faz o que sente.
O entrevistado garante que vai escolher um produto mais saudável ou mais sustentável. Na hora da decisão, porém, leva para casa aquilo que desperta desejo, hábito ou confiança. Diante do entrevistador, a pessoa defende o consumo de produtos que respeitam o meio ambiente; na gôndola, leva aquele que cabe no bolso, a despeito dos ingredientes usados.
Ao ouvir Felipe Nunes não resisti à comparação. Quando exposto a pergunta se prefere um candidato ao governo do seu estado mais lulista, independente ou bolsonarista, a maioria fica na coluna do meio. Foi assim em São Paulo, Rio Grande do Sul, Goiás, Rio de Janeiro, Minas, Paraná e Pará.
A pergunta que fica é: será que é isso que ele fará?
A política tem uma particularidade que a diferencia do consumo. No supermercado, a prateleira está cheia de opções. Na eleição, o cardápio é limitado. Quem escolhe o que está disponível não é o eleitor — são os partidos, explica Nunes E, até aqui, eles seguem oferecendo opções fortemente alinhadas aos polos tradicionais.
Esse desencontro entre desejo e oferta cria um ruído interessante. O eleitor declara preferência por um caminho mais moderado, mas pode não encontrar uma alternativa viável que represente essa escolha. Diante disso, tende a voltar ao conhecido. Não necessariamente por convicção, mas por falta de opção.
Há também o fator emoção, que não pode ser subestimado. A identidade política, o sentimento de pertencimento, a rejeição ao adversário, tudo isso pesa na decisão final. Muito mais do que a resposta racional dada ao pesquisador.
Na política, a metáfora ganha outra dimensão. O eleitor pode afirmar que quer equilíbrio, mas, diante da urna, pode ser guiado por lealdades, medos ou expectativas que não aparecem com a mesma clareza na pesquisa.
No fim das contas, a frase que nasceu no marketing parece dialogar bem com o cenário eleitoral: o eleitor diz o que pensa. Resta saber o que ele vai sentir na hora de votar.
E, principalmente, se haverá, de fato, uma opção que permita transformar esse desejo em escolha real.
Athletico-PR 0x0 Grêmio Brasileiro – Arena da Baixada, Curitiba PR
Gabriel Mec em jogada de ataque. Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA
Um ponto ganho ou dois perdidos? Para quem ainda busca estabilidade na temporada, ponto fora de casa deve sempre ser comemorado. Sobretudo diante de um adversário que tem sido imbatível quando está frente à sua torcida. A maioria dos que passam por lá sai de bolso vazio. Não tem o que festejar.
A lamentar, o fato de não sabermos, mais uma vez, usar a nosso favor a superioridade numérica. A expulsão de um dos jogadores adversários poderia ter sido mais bem aproveitada. Luis Castro preferiu ser conservador e manter a principal novidade na escalação: três zagueiros. Ao menos conseguiu conter a força ofensiva do time da casa. Não arrisco dizer que foi esse o motivo que nos impediu de vencer.
Em um raro momento da minha jornada de torcedor, não pude assistir à partida de hoje. Uma amiga querida estava aniversariando, e estar ao lado dela para comemorar esse momento me parecia mais apropriado. Entre conversas divertidas, companhia de amigos e comida de qualidade, fiquei de olho nas atualizações que piscavam na tela do celular. Teria sido a ansiedade que me levou a comer tantas tortas, quitutes e docinhos?
Sem assistir à partida, contentei-me com os melhores momentos quando cheguei em casa. Mas esse resumo do jogo nem sempre está à altura do desempenho de uma equipe. Tanto esconde falhas como pode omitir momentos de qualidade. Fui ler alguns comentários em redes sociais e reportagens. Pouco ajudou. A incerteza sobre a performance gremista nesta noite de sábado ficou mais confusa que o nosso meio de campo sem Arthur.
Consta que Tetê fez sua melhor apresentação desde que retornou à equipe. Por outro lado, houve quem reforçasse as críticas ao nosso atacante. De minha parte, quero crer que ele ainda desencantará e se tornará um jogador decisivo na temporada. Lembre-se: meus níveis de glicose e insulina estão altos neste momento — a torta de chocolate estava deliciosa.
Por mais que ainda estejamos perseguindo três pontos fora de casa, voltar a Porto Alegre com o empate nos mantém praticamente na mesma posição da tabela. Pode ser que seja apenas reflexo da minha felicidade por ter estado com colegas e amigos — e por não ter visto o jogo jogado por nosso time —, mas vou dormir com a sensação de que o ponto conquistado tem seu valor e merece ser comemorado. Entre a mesa cheia e o placar vazio, fico com a sensação de que o empate encontrou seu lugar.
As marcas deixaram de caber em um território. Basta observar um movimento que já faz parte da sua, da minha rotina: compramos de fora, estudamos fora, investimos fora — e, muitas vezes, sem sequer perceber de onde vem aquilo que consumimos. Um desafio aos gestores de marca, como alertaram Jaime Troiano e Cecília Russo na conversa que tivemos neste sábado, no Sua Marca Vai Ser Um Sucesso.
Outro dia, navegando por um site de compras, me dei conta de que aquele produto que parecia tão próximo vinha, na verdade, de outro continente. Não era exceção. É regra. Como resumiu Cecília Russo: “o consumo hoje não tem mais um endereço único”. A frase parece simples, mas carrega uma mudança profunda. O endereço deixou de ser geográfico e passou a ser simbólico.
Entramos em uma loja física no Brasil e levamos para casa algo produzido na Ásia. Abrimos um aplicativo e encontramos a etiqueta “compra internacional” com a mesma naturalidade de quem escolhe entre tamanhos e cores. A origem já não é o fator decisivo. É o desejo que fala mais alto.
Esse movimento vai além do carrinho de compras. Está nos jovens que buscam intercâmbio ainda no ensino médio. Está nas famílias que reorganizam a vida para estudar fora. Está nas plataformas que conectam estudantes a universidades estrangeiras. Nesses casos, não se compra apenas um serviço. Compra-se um projeto de vida.
Há também o dinheiro que atravessa fronteiras. Contas em dólar, investimentos fora do país, novas formas de proteger o patrimônio. Você haverá de lembrar quando uma viagem ao exterior exigia uma visita à casa de câmbio e nos obrigava a levar um maço de dinheiro estrangeiro na bolsa. Cecília sintetiza bem: essas empresas “vendem mais do que uma conta. Elas vendem tranquilidade, segurança, a ideia de expansão”. No fundo, vendem a sensação de que o mundo ficou maior.
Jaime Troiano ajuda a entender o que está por trás desse comportamento. Ele fala de algo que não aparece na etiqueta do produto. “Há um sentimento por trás de que eu não tenho limites, que o mundo é todo meu”. É quase um jogo de conquista. Quem já brincou de War entende a metáfora.
A curiosidade também entra em cena. Experimentar o novo. Sair do conhecido. Testar sabores, culturas, experiências. Nem todos se jogam com a mesma intensidade, mas a possibilidade está aberta. E isso já muda a relação com as marcas.
Há ainda um elemento silencioso: o desejo de pertencer. Consumir algo que vem de longe pode sinalizar a entrada em um grupo mais restrito. Lembro do que significava jogar basquete com um tênis All Star cano longo nos meus tempos de adolescente. Ter um daqueles pares de tênis dava a impressão de que jogávamos muito mais do que realmente éramos capazes. Para comprá-los, precisávamos da colaboração de algum conhecido que viajasse aos Estados Unidos. Eu tive de me contentar com um Charrua, comprado na fronteira do Rio Grande do Sul — mais acessível.
Como em toda escolha, existe o cálculo. Preço, oportunidade, proteção do dinheiro. “Há sempre alguma coisa ligada à ideia de fazer um bom negócio”, lembra Jaime. O racional acompanha o emocional. Caminham juntos.
No meio desse cenário amplo, uma pergunta se impõe: se tudo pode vir de qualquer lugar, o que mantém a relação entre marca e consumidor?
A marca do Sua Marca
Quando o consumo atravessa fronteiras, a confiança precisa ser o ponto de ancoragem. Produtos circulam, serviços se deslocam, experiências se multiplicam. O que permanece é a segurança de que aquela escolha vale a pena.
Ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso
O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, logo após as 7h50 da manhã, no Jornal da CBN. A apresentação é de Jaime Troiano e Cecília Russo.
Palestino 0x0 Grêmio Sul-Americana — La Cisterna, Chile
Tetê busca jogada no ataque. Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA
Dia cheio e diverso. Assim foi essa quarta-feira que terminou diante da televisão assistindo ao Grêmio. Começou cedo como sempre começam os meus dias. Atualizar o ouvinte com as notícias mais relevantes foi minha primeira missão.
Antes mesmo de encerrar essa jornada cotidiana, já estava a postos para outra tarefa: mediar discussões sobre como podemos inovar e tornarmos as cidades mais inteligentes. A noite chegou e eu estava no palco de uma festa beneficiente para ajudar a construção da matriz da igreja que frequento. O clima era de tango e comida argentina.
Agenda intensa. Nem por isso distante do jogo.
Quando consegui me conectar à partida, Carlos Vinícius já havia entrado para a história — daquelas que ninguém deseja protagonizar. Três cobranças de pênalti, três erros, hat trick. Rapidamente, surgiram comparações apressadas. Citaram Palermo, que desperdiçou três pênaltis em um jogo da Argentina contra a Colômbia, em 1999. Referência fora de lugar.
Carlos Vinícius perdeu o terceiro. Os dois primeiros foram defendidos após irregularidades que exigiram nova cobrança. O detalhe faz diferença.
Chama atenção a pressa com que parte da torcida encontrou um culpado. Nas redes sociais, não faltaram críticas a Luis Castro por manter o atacante como cobrador. Há um traço comum nesses julgamentos: ignoram o contexto. E tenho a impressão de que há um esforço em punir o técnico, sem justificativas.
O centroavante é o principal nome do ataque. Tem histórico, confiança e responsabilidade. Tirá-lo da cobrança naquele momento seria mais gesto de insegurança do que de estratégia. O jogador foi quem bancou a decisão de seguir na cobrança. E tem crédito.
O futebol, como a vida, costuma testar convicções.
Carlos Vinícius chegou a marcar um gol que poderia mudar a narrativa da noite. Recebeu fora da área, driblou o marcador e finalizou com precisão. Lance de atacante completo. O árbitro, porém, identificou irregularidade de Tetê na origem da jogada e anulou o gol. Não era a noite dele.
O Grêmio deixa o campo com um ponto. Queria três. Poderia ter três. O resultado não compromete o cenário, mas cobra atenção. A equipe segue com chances de liderança no grupo, mas precisará resolver um problema recorrente: vencer fora de casa.
O calendário ajuda. Restam dois jogos na Arena e apenas um como visitante. A conta é clara.
Antes de se deixar levar pelo ruído que domina parte do debate esportivo, vale ouvir o próprio protagonista. Carlos Vinícius resumiu bem: há dias — e noites — em que nada dá certo.
A frase serve para além do futebol.
Enquanto o resultado em campo frustrou, o dia fora dele foi produtivo. Houve troca de conhecimento, contribuição para uma causa relevante e encontros que justificam a correria.
O futebol não deixa esquecer: nem sempre o esforço entrega o placar esperado. A vida, por sua vez, lembra que o jogo não se resume ao resultado.
Júlia estava com o olhar perdido sobre a mesa de trabalho. Passou o dia todo assim. Marcelo percebeu e, ao fim do expediente, lhe trouxe uma xícara de chá: “Espero que fique tudo bem”.
Antônio foi enganado e prejudicado por uma pessoa que considerava próxima, a quem admirava, e ainda foi apontado como desonesto. Em nome do respeito a essa pessoa, optou por calar-se — para não causar sofrimento a outros, para não propagar o ciclo de dor.
Ana esteve ao lado do ex-marido no momento do adoecimento dele e fez o melhor que pôde para suavizar a angústia de quem um dia já partilhou tantos momentos bonitos com ela.
Beleza moral.
Existem atitudes humanas que causam encantamento, fascínio, espanto. Há pessoas que caminham pelo mundo com harmonia, encaixando-se onde são necessárias gentileza e atenção, demorando-se onde o cuidado pede tempo e um olhar atento aos detalhes.
Beleza moral arrepia. Ela materializa a honestidade, a coragem, a justiça, a generosidade, a magnanimidade. Conecta-se com algo que temos dentro de nós, uma essência que pulsa e se expande quando presencia atos de bondade e ética.
E por que esses atos têm nos causado espanto e encantamento? Descrevendo assim, parecem tão simples. É que o simples já não vale tanto. A tecnologia, a vitrine nas redes sociais, a fama, o dinheiro, os bens materiais, “a diferenciação” — tudo isso abafa o simples.
A beleza moral parece não encontrar mais terreno onde crescer. Ela acontece, poucos veem. A pessoa desiste ou, quando não desiste (ainda bem!), caminha quase só, com pouca força para gerar grandes movimentos de mudança. A sociedade segue sem ver, sem valorizar.
Repare:: em um tempo em que reclamamos tanto de solidão, grosseria e egoísmo, não cairia bem uma boa dose de beleza moral?
Precisamos caminhar. A vida se constrói no movimento. Agora, a pergunta é: como estamos caminhando? Que rastros cada um de nós deixa para trás ao passar?
E se alternássemos o grupo de corrida, o grupo de futebol ou os encontros com amigos com o Grupo de Caminhada da Beleza Moral?
— Vamos juntos?
Dra. Nina Ferreira (@ninaferreira.psiquiatra) é psiquiatra, psicoterapeuta e sócia fundadora da LuxVia Health Center. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.
Vivemos em uma época em que sentir parece ter se tornado secundário. Muitas pessoas cresceram sem aprender a reconhecer seu mundo interno e, por isso, enfrentam ansiedades difíceis de nomear e desejos que nunca chegam a se concretizar. Ao mesmo tempo, o mundo externo oferece estímulos infinitos, enquanto nossas possibilidades reais de realização, limitadas pela própria condição humana, são bem menores. Esse descompasso fragiliza o sentimento de identidade, enfraquecendo o senso de eu.
O avanço acelerado da internet e da inteligência artificial intensificou esse cenário. A hiperconectividade tornou-se parte do cotidiano: trabalhamos, estudamos, nos informamos e nos entretemos por meio de telas. Embora isso amplie o acesso ao conhecimento e facilite a comunicação, também traz desafios profundos.
Fato é que, se, por um lado, estar sempre conectado democratiza informações e estimula novas formas de criatividade, por outro, pode nos afastar de nós mesmos. A mesma tecnologia que potencializa experiências e resolve problemas também favorece a dependência digital, reduz o tempo dedicado à vida off-line, prejudica a concentração e enfraquece as relações presenciais.
É nesse ponto que surge a necessidade urgente de resgatar o sentir: aquilo que vivenciamos internamente diante de cada experiência. Em uma sociedade que valoriza excessivamente a razão e o intelecto, o sentir é frequentemente negligenciado, como se o cérebro fosse a única fonte das experiências humanas. Talvez a vida seja mais ampla do que isso.
O resgate do sentir
A ciência do Sentir propõe que o sentir é a experiência vivenciada da vibração que somos e com a qual interagimos. A partir dessa compreensão, ela nos convida a uma mudança de perspectiva: deixar de enxergar o ser humano somente por uma ótica estritamente materialista, abrindo espaço para uma visão vibracional, que integra sensibilidade, subjetividade e presença. Essa mudança amplia a nossa compreensão da realidade ao reconhecer que o mundo interno é tão importante quanto o mundo externo. Afinal, quando priorizamos somente o que acontece fora de nós e ignoramos o que se passa dentro — ou seja, o que estamos sentindo —, desconectamo-nos da própria subjetividade; e isso pode gerar vazio, desorientação e perda de sentido.
Perda de sentido que se torna cada vez mais comum quando se observa, especialmente neste início de terceiro milênio, pessoas negligenciando suas necessidades afetivas, entregando-se ao consumismo e permitindo que um ideal robótico se sobreponha ao humano. Em outras palavras, vemos indivíduos se abandonando, o que, inevitavelmente, se transforma em sofrimento.
Nesse contexto, a Psicomplexidade, como proposta pela ciência do Sentir, ganha relevância ao nos convidar a integrar pensamento e sensibilidade, a desenvolver empatia por nós mesmos. É curioso: fala-se muito em empatia pelo outro, mas raramente se discute a empatia por si mesmo, ou seja, a capacidade de ocupar o próprio lugar interno, acolher os sentimentos que estão sendo vivenciados, reconhecer as necessidades do momento e estabelecer uma conexão profunda consigo mesmo.
Em tempos de hiperconectividade, esse movimento é essencial. Precisamos estar atentos para não nos abandonarmos, não ignorarmos nossas necessidades afetivas, não nos deixarmos levar pelo consumismo nem permitir que o ideal robótico se sobreponha ao humano, pois, quando isso acontece, o sofrimento se torna inevitável.
O protagonismo diante da tecnologia
Fato é que precisamos nos escutar e nos respeitar enquanto humanos, renunciando ao ideal do “ser robótico” que o mundo contemporâneo tenta nos impor. Isso não significa rejeitar a tecnologia, que é bem-vinda e responsável por avanços importantes, mas assumir o protagonismo diante dela, em vez de permitir que determine o modo como vivemos.
Enfim, escutar-se e respeitar-se significa não permitir que o que sentimos seja abafado, que as máquinas nos sirvam de espelho para definir como vivemos, sentimos ou nos relacionamos. Significa, sobretudo, não rejeitar a nossa própria humanidade, não nos desconectarmos de nós mesmos.
Beatriz Breves é presidente da Soc. da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel. licenciada com Esp. em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia tit. Pen Clube do Brasil. Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad.
Alguns escritores conseguem transformar seu nome em referência antes mesmo de o leitor abrir o livro. O tema foi discutido no comentário Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, no Jornal da CBN, com Jaime Troiano e Cecília Russo.
A conversa parte de uma constatação simples: autores também operam como marcas. Eles constroem uma identidade que combina estilo, temas e forma de narrar. Essa identidade cria expectativa no público. Como explica Cecília Russo, “as pessoas sabem o que esperar dessa autora, desse autor e por isso eles vão atrás de um novo livro lançado”.
Essa previsibilidade não significa repetição mecânica. Trata-se de coerência. O leitor reconhece traços comuns — linguagem, profundidade dos personagens, tipo de conflito — e se conecta com essa entrega. É o que acontece com autores como Carla Madeira, que mantém uma assinatura emocional marcada por relações humanas intensas, ou Itamar Vieira Junior, cuja obra carrega um olhar social enraizado na realidade brasileira.
O mesmo raciocínio vale para nomes internacionais, como Colleen Hoover, Elena Ferrante e Haruki Murakami. Cada um construiu um território próprio. Quem lê já entra na história com uma expectativa formada. Esse é um ativo poderoso.
Jaime Troiano amplia o olhar ao lembrar que isso não é novidade. “Mesmo antes de nós falarmos de branding pessoal, autores mais clássicos também representam marcas, com estilos próprios, antecipando expectativas do próprio leitor”. Machado de Assis, por exemplo, consolidou uma escrita marcada pela ironia, pela análise psicológica e pela crítica social. Ao manter esses elementos, fortaleceu sua identidade ao longo do tempo.
Há outro ponto importante: autores, assim como marcas, não buscam agradar a todos. Escolhem um público, ainda que de forma intuitiva. Isso ajuda a consolidar uma base fiel de leitores, que acompanha lançamentos, recomenda obras e até valoriza edições especiais. Forma-se uma comunidade em torno da marca.
Essa relação também traz um desafio. Quando a identidade está bem definida, o autor passa a ser cobrado por ela. Mudanças bruscas podem gerar estranhamento. É o preço de ter construído uma promessa clara.
A marca do Sua Marca
Consistência e identidade são pilares de valor. Seja um escritor ou uma empresa, quem mantém coerência no que entrega cria expectativa, fideliza público e fortalece sua marca.
Ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso
O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, logo após às 7h50 da manhã, no Jornal da CBN. A apresentação é de Jaime Troiano e Cecília Russo.
A latinidade ganhou escala global, entrou no centro do entretenimento e passou a funcionar também como marca cultural. O tema foi discutido por Jaime Troiano e Cecília Russo no Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, no Jornal da CBN, a partir do impacto provocado pelo cantor porto-riquenho Bad Bunny no mercado da música e no imaginário do público.
O caso chama atenção porque rompe uma barreira antiga no Brasil. Durante muito tempo, artistas latino-americanos de língua espanhola tiveram dificuldade de ocupar espaço amplo por aqui. Cecília observa que esse cenário mudou de patamar. “A latinidade deixa de ser algo marginal e passa a ser algo de massa, de apelo mais democrático, furando todas as bolhas”, disse. A frase ajuda a entender por que o debate vai além da música. Não se trata apenas de um artista popular, mas de um fenômeno que desloca referências culturais e reposiciona símbolos latinos no consumo global.
No comentário, Cecília lembra que os números reforçam essa mudança. O crescimento de ouvintes brasileiros de Bad Bunny e a disparada de execuções após o Super Bowl mostram como uma presença artística pode ampliar seu alcance quando reúne identidade, repertório visual e conexão geracional. Na leitura dela, o artista “reforça várias lentes do que é o latino”, combinando marca-país, vínculo com a geração Z e os millennials e até um traço político em sua forma de se apresentar.
Essa análise ajuda a entender um ponto importante do universo das marcas: elas não são feitas só de produto, nome ou logotipo. Também são construídas por símbolos, linguagem, comportamento e contexto. No caso de Bad Bunny, entram nessa conta a defesa explícita de sua origem porto-riquenha, o uso do espanhol, a estética vibrante, a dança, as gírias e a sensação de pertencimento que ele oferece ao público.
Jaime acrescenta uma camada que torna o debate mais interessante. Para ele, o sucesso da marca latina de Bad Bunny no Brasil também passou por uma espécie de chancela cultural dos Estados Unidos. “Foram os americanos, ou foi a cultura americana e mais especificamente o maior evento mundial americano, o Super Bowl, quem catapultou o Bad Bunny”, afirmou. A observação traz certa ironia: parte do público brasileiro pode ter se aproximado da latinidade depois de vê-la validada no palco mais poderoso da indústria cultural americana.
A provocação de Jaime toca num traço histórico do Brasil. Muitas vezes, o país se relaciona com a América Latina de maneira ambígua: geograficamente inserido, culturalmente próximo em vários aspectos, mas nem sempre disposto a se reconhecer plenamente como parte desse conjunto. Quando ele diz que é “como se nós tivéssemos de costas para a América Latina”, aponta para uma resistência antiga, agora tensionada pelo sucesso de um artista que transformou sua identidade em força de mercado.
A marca do Sua Marca
O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso ensisna que fenômenos culturais não se explicam por uma única causa. A força de uma marca nasce do encontro entre identidade, contexto, linguagem, visibilidade e circulação social. A latinidade, hoje, parece ter deixado de ser apenas uma referência periférica para disputar espaço no centro da cultura de massa. Resta saber se esse movimento é passageiro ou se veio para ficar.
Ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso
O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, logo após às 7h50 da manhã, no Jornal da CBN. A apresentação é de Jaime Troiano e Cecília Russo.
Tetê comemora seu gol Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA
Reencontrei o padre José Bortolini na missa desta manhã de domingo. Havia algum tempo que eu não voltava à Capela da Imaculada Conceição, construída na esquina da rua onde morei boa parte da minha vida, em São Paulo. Nos últimos meses, tenho dado preferência às celebrações na comunidade de Nossa Senhora das Graças, ao pé do prédio onde moro atualmente. A fé, como o futebol, também se reorganiza conforme o endereço.
Padre José já foi personagem em outras edições desta mal-traçada crônica esportiva. Estudioso da Palavra, mestre em Sagrada Escritura e autor de dezenas de livros, ele segue, aos 74 anos, ministrando missas com uma dinâmica própria. Convive com uma doença que insiste em testá-lo, mas não lhe reduz a presença. Bortolini reaparece nesta Avalanche por outro motivo: é gremista de Bento Gonçalves.
Em muitas ocasiões, ao fim da cerimônia, trocamos impressões rápidas sobre o “nosso time”. Já houve domingos em que o sorriso antecipava a confiança para o jogo da tarde. Em outros, bastava um olhar para revelar a apreensão diante da fase da equipe. Nunca faltou fé. Nem ironia.
Neste domingo, porém, algo mudou. Assim que a missa terminou, aproximei-me disposto a decifrar quais sinais ele me transmitiria sobre o Grêmio, às vésperas da disputa por uma vaga na final do Campeonato Gaúcho. Cumprimentamo-nos. Desejamos um bom domingo. E paramos ali. Nenhuma análise tática. Nenhum palpite. Preferimos o silêncio.
Talvez seja isso que o Grêmio e Luis Castro estejam precisando: silêncio.
Silêncio para trabalhar. Silêncio para ajustar. Silêncio para reconstruir.
O time vem de temporadas marcadas por instabilidade. Sofreu gols em excesso, flertou com riscos desnecessários e alternou momentos de lucidez ofensiva com apagões defensivos. A troca de comando técnico e as mudanças no elenco indicam que há diagnóstico. Ainda falta continuidade.
Há sinais positivos. A equipe mostrou, no primeiro tempo da partida deste fim de tarde, organização na saída de bola e ocupação mais racional dos espaços pelos lados do campo. Houve triangulações interessantes e aproximação entre meio e ataque. Faltou transformar volume em finalização qualificada. No segundo tempo, o ritmo caiu. A linha defensiva voltou a apresentar desajustes no balanço, especialmente nas transições rápidas do adversário. E, diante da pressão, alguns jogadores optaram pelo passe lateral em vez do enfrentamento individual que poderia romper a marcação.
Não se trata de falta de capacidade. O elenco tem nomes capazes de entregar desempenho mais consistente. A incorporação de reforços, a saída de profissionais e a tentativa de estabelecer novo padrão de jogo exigem tempo — palavra que raramente encontra abrigo nas arquibancadas e nas redes sociais.
Enquanto a engrenagem não encaixa, convivemos com oscilações que frustram expectativas. Ainda assim, há diferença entre instabilidade e ausência de rumo. O que se percebe hoje é um processo em curso. Incompleto, irregular, mas identificável.
Ao deixar a capela, fiquei pensando que reconstruções não se fazem aos gritos. Nem no altar, nem no vestiário.