Avalanche Tricolor: emoção, sofrimento e lágrima como verdadeiros gremistas que somos

 

Grêmio 1×0 Pachuca MEX
Mundial – Estádio Haza bin Zayed/Al Ain

 

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É madrugada em Abu Dhabi! Voltei para cá depois de assistir à vitória que colocou o Grêmio na final do Mundial de Clubes, em Al Ain, que fica há cerca de uma hora e meia daqui. Temo que esta madrugada se estenda ainda mais, pois está difícil acalmar o coração e a excitação após partida tensa, disputada e sofrida como a desta estreia do Grêmio na competição.

 

Havia pedido 2 a 0 nas entrevistas que concedi para emissoras de rádio brasileiras, entre as quais duas CBNs, em Porto Alegre e São Paulo. Era muito mais um desejo de tranquilidade do que uma crença. Conhecedor das façanhas gremistas por que esperar que a classificação à final viesse com um passeio, como alguns quiseram dar a entender que seria obrigação do campeão da Libertadores? Fomos forjados no sofrimento e assim construímos nossas conquistas. Não seria diferente em um Mundial.

 

Ainda sinto o impacto da tensão provocada todas às vezes que o adversário ameaçava nosso time em desenfreados ataques. Nas bolas que Marcelo Grohe defendeu, nas que desviaram por força do destino ou nas que sequer chegaram ao nosso gol graças aos mitológicos Geromel e Kannemann. Ou às roubadas cirúrgicas de Cortez, que encarnou nessa noite Everaldo, Arce e todos os laterais que passaram por nossa história.

 

Tenho presente no corpo o resultado do sofrimento diante de ataques mal engendrados, de lances forçados e de jogadas inacabadas, que se repetiram em boa parte do jogo. Sem contar os gols desperdiçados em cobranças de faltas que chegaram a tocar a rede ou rasparam o travessão, mas sempre pelo lado de fora. Ou em lances como aquele em que Luan estava livre dentro da pequena área. Era só tocar na bola que ela entrava, gritavam na arquibancada. A gente sabe que lá dentro é tudo muito diferente, mas enquanto os nossos não conseguiam fazer a diferença só nos restava sofrer.

 

As marcas desta semifinal que me tiram o sono não estão apenas no peito e na alma. Estão na memória, também. Nas cenas que tenho vivenciado desde que desembarquei na Terra do Mundial. Na caminhada ao estádio ao lado dos filhos, na torcida cantando nosso hino e nossas cores, nos olhares que trocamos a cada minuto que se passava sem que o gol saísse. Na imagem dos guris aplaudindo, lamentando, gritando por este jogador, praguejando por aquele outro, vibrando e sofrendo como eu sempre vibrei e sofri.

 

E, claro, não me sai da cabeça o instante mágico em que Renato redivivo e incorporado em Everton disparou em velocidade pelo lado esquerdo em direção à área, balançou entres marcadores, abriu espaço e disparou com o pé direito para marcar o único e necessário gol que nos levaria à final do Mundial. Foi tudo ali, na nossa frente, diante de nossos olhos, bem pertinho de onde estávamos assistindo ao jogo. Parecia ter sido feito para nós. E tenho certeza que o foi.

 

Um momento único a ser vivido por mim que passei infância e adolescência dentro do saudoso estádio Olímpico e aqui realizo o sonho de ver meu time mais uma vez no Mundial. Um momento que pude dividir com as devidas emoção e lágrimas abraçado aos meus dois filhos, que viveram longe de Porto Alegre. Emoção e lágrimas devidamente retribuídas por eles como verdadeiros gremistas que são. Gremistas forjados por mim – sem dúvida – mas, especialmente, pela nossa história!

 

E que história experimentamos juntos nessa noite que não vai acabar tão cedo!

Conte Sua História de SP: os velhos e bons meninos do “Canto do Rio”

 

Por João Batista de Paula

 

 

No Conte Sua História de SP, o texto do senhor João Batista de Paula que está com 83 anos e mora em Interlagos. Mas o olhar dele está no Itaim Bibi e o texto é para homenagear um time de futebol, formado por meninos, lá na região

 

Era verão de 1941, portanto estávamos em pleno século 20. Local: a várzea do Itaim Bibi. Éramos uns trinta ou mais meninos que variavam a idade de nove a doze ou treze anos. Era a turminha da parte baixa do Itaim Bibi.

 

Eram as esperadas férias escolares de um verão que ficou marcado para todo sempre entre mil brincadeiras nas matas, nos campos, caçar pássaros, montar em cavalos sem permissão do dono, nadar nas muitas lagoas onde éramos bons nadadores. Em tudo o que fazíamos, as traquinagens de alguns meninos mais aventureiros não tinham limites. Só terminavam à noite, ali pelas nove ou dez horas, depois de passarmos por outras brincadeiras de rua. Naquele local não tinha asfalto nem iluminação nas ruas. O que era quase uma regra, os pequenos jardins nas casas. Naquele tempo, os meninos já tinham suas namoradinhas e as brincadeiras só terminavam quando a canseira nos alcançava.

 

Foi naquele verão de 1941 que, no nosso treininho diário de futebol, no campinho da Rua do Porto, começou um movimento entre os amigos: precisávamos fundar um time de futebol, coisa difícil devido a idade dos meninos, mas aqueles garotos eram diferentes, eram duros na queda. O campinho ficava em um terreno, ao lado da casa do Sr Deja, onde os meninos bebiam água e se refrescavam após o treininho. Nos fundos, o Córrego do Sapateiro, onde o Sr Souza, pai do Armando e do Nico, tinha um porto de areia. Era seu ganha pão. Alguém, olhando o monte de areia, pronta para a entrega, teve a feliz ideia de falar com Sr Souza se podíamos tirar areia de seu porto. imediatamente, ele não só permitiu como ajudou em tudo, como ferramentas e comprador para o produto. Foi também ele quem orientou os meninos no difícil trabalho que iam enfrentar: tirar areia do córrego do sapateiro para fazer fundos para compra de material esportivo.

 

Tudo começou ali. Quando o verão do ano de 1941 terminou, nós tínhamos um time de futebol com o forte nome “Canto do Rio” sugerido por Pedro Chaves, um adolescente da época. Não tínhamos a mínima ideia de quantos anos essa epopeia ou desafio de um punhado de meninos ia durar. Neste verão do ano de 2015,  agora em pleno século 21, já vislumbrando o centenário, com endereço próprio e vários bens, uma diretoria devidamente legalizada tem a difícil tarefa de zelar pelo enorme prestígio que o clube adquiriu nestes 74 anos de fundação.

 

Avalanche Tricolor: porque somos gremistas, meninos!

 

Inter 2 x 1 Grêmio
Gaúcho – Beira Rio (POA)

 

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Há três dias vejo um dos meus meninos vestindo a camisa do Grêmio. Não essa tricolor que vestem nossos jogadores em campo, mas camisas estilizadas, com destaque para o azul que nos representa, o símbolo no lado esquerdo do peito e imagens de um passado recente em que o Olímpico era nossa casa. Algumas tem dizeres impressos no tecido, mensagens enaltecendo nossa história e nossos mitos. Vestiu para ir a faculdade e a academia; para passear no shopping, também. Vestiu porque mesmo tendo nascido longe do Rio Grande aprendeu a ser gremista. Gosta de ser visto assim, identificado como tal. Os amigos mais próximos insistem em perguntar para quem ele torce aqui em São Paulo, como se torcer para o Grêmio não fosse suficiente. Ele não titubeia em responder: sou Grêmio e isso me basta!

 

Hoje, desde cedo, ele e o irmão acordaram mais atentos ao futebol do que costumam ser. Já devo ter contado aqui que, apesar da paixão do pai pelo esporte, eles preferem se concentrar nos times que disputam as competições eletrônicas, especialmente League of Legend, do que na bola rolando. No almoço, queriam saber como estávamos para a decisão e o que nos esperava na partida final.

 

Mesmo que diante do computador, torceram por mim desde o primeiro minuto de jogo, em Porto Alegre. Viram-me sofrer com dois gols que tiveram origem em falhas indesculpáveis de nossos marcadores. Viram-me vibrar no único lance em toda a partida no qual merecemos fazer nosso gol. Aproximaram-se de mim no segundo tempo para compartilhar o drama do relógio que corria para o minuto final. Lamentaram nossos erros e a falta de criatividade como lamentamos todos nós que torcemos pelo Grêmio.

 

Neste domingo, em que nossos defeitos se repetiram e nossos méritos não surgiram, assim como eu, os dois ficaram frustrados com o resultado final. É claro! Perder títulos sempre nos deixa com um gosto amargo. Tiveram, porém, mais uma lição de como um gremista é forjado. De que maneira nossa alma se constrói e nosso coração é massacrado. De que forma precisamos aprender a sofrer para nos tornarmos maior. De que o caminho até a vitória é aberto a partir dessas derrotas. Aprendizado que me fez mais forte na infância para me transformar em campeão do mundo na adolescência. E que está aí para moldar uma nova trajetória com as correções de rumo que se fizeram necessárias.

 

Independentemente do que tenha acontecido hoje e do que venha a acontecer amanhã e depois, nosso destino já está traçado: somos gremistas. E isso nos basta!

Avalanche Tricolor: um momento de transição

 

Coritiba 1 x1 Grêmio
Campeonato Brasileiro – Couto Pereira (PR)

 

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Meu filho mais velho completou 18 anos, nesse sábado. A data é especial para todo e qualquer jovem, talvez o mais simbólico momento de transição. É quando a vida parece nos entregar um certificado de responsabilidade mesmo que ainda tenhamos tantas incertezas sobre nosso comportamento. Somos adolescentes em um corpo de adulto, com deveres de adultos mesmo que nossa personalidade ainda não esteja amadurecida. Em algumas famílias, é o instante em que o pai puxa a cadeira, chama o filho para sentar à sua frente e em um ritual de passagem transmite-lhe toda a responsabilidade que será assumida a partir daquela data, talvez porque não tenha dedicado parte do seu tempo a ensinar-lhe com gestos e atos. Aqui em casa, nossas conversas são frequentes seja com o mais velho seja com o mais novo. Angústias e medos são compartilhados da mesma forma que alegrias e atitudes na busca de nos anteciparmos aos problemas que possam surgir – e eles sempre surgem. Há surpresas inevitáveis para as quais temos de ter discernimento para decidirmos o melhor caminho ou aquele que causará menos perdas. Com preparo – ou aquilo que, em família, consideramos ser preparo – cruzar a linha dos 18 anos deixa de ser uma transformação. É uma evolução.

 

Diante do jantar que organizamos para comemorar a data, a partida do Grêmio, em Curitiba, ficou em segundo plano – tenho certeza de que você, caro e raro leitor desta Avalanche, entenderá minha posição de colocar a família acima de todas as outras coisas. Cheguei assistir ao primeiro tempo na televisão quando detalhes de cada jogada mostravam a dificuldade para conter o ataque adversário, especialmente com a chuva que se intensificou quando ainda tínhamos o domínio do jogo, apesar de não transformá-lo em lances de gol – o que, aliás, é uma constante no nosso time. A caminho do restaurante onde os padrinhos do aniversariante nos esperavam, a solução foi o aplicativo para celular de uma das rádios gaúchas que transmitiam a partida, no Paraná. Pelo empolgação do narrador, percebia-se que a forma de jogarmos havia mudado em relação aos primeiros 45 minutos.

 

Um dos aspectos que me chamaram atenção é que a medida que a responsabilidade aumentava, com os adversários diretos na tabela fazendo seus resultados e o tempo do jogo se encerrando, Luis Felipe Scolari buscava soluções no banco de reservas, e a mão de obra disponível era relativamente jovem. Alan Ruiz, que voltou com o time já do intervalo, tem 21 anos e muito a ver com a mudança na nossa forma de jogar no segundo tempo – substituiu o volante Biteco de apenas 19 anos, mesma idade de Nicolas Careca que entrou no lugar de Dudu (22 anos). Tem 19, também, Erik que saiu jogando (demonstra ter muita qualidade) e foi substituído por Lucas Coelho, um ano mais velho apenas e autor do principal lance de ataque antes do gol. Só por curiosidade: Bressan na zaga e Ramiro no meio, desde o início em campo, têm 21 anos, também. Ou seja, um time claramente em renovação, em transformação, o que torna nossos desafios mais difíceis.

 

No momento em que cheguei a meu destino faltavam menos de 10 minutos para a partida se encerrar. Por respeito aos convivas, desliguei o rádio/celular e resolvi entregar nas mãos dessa legião de jovens a tarefa de nos manter na busca por uma vaga na Libertadores. Desliguei-me de coração, também, para me dedicar por completo ao momento de alegria do meu filho. Como sabe quanto gremista sou, ele voltou-se para mim com palavras de esperança: deixa que os guris resolvem, pai.

 

O jantar foi excelente, pratos e bebidas bem servidos e saborosos, conversa e lembranças emocionantes. O placar do jogo somente me foi apresentado algum tempo depois quando recebi ligação do meu pai que estava em Porto Alegre. Curiosamente em um time tomado de garotos, soube que dois velhinhos, Pará com um lançamento para dentro da área e Riveros se agachando para conseguir cabecear a bola, ambos com 32 anos, protagonizaram o gol de empate que nos manteve na disputa.

 

Um brinde a eles (e ao meu filho, também)!

Avalanche Tricolor: Meninos, eu vi, juro que vi

 

Grêmio 3 (5) x 1 (3) Goiás
Sulamericana – Avellaneda (ARG)

Menino, eu vi, eu juro que vi Vítor de braços abertos fazendo milagres em defesas impossíveis.

Meninos, eu vi, eu juro que vi Paulão despachando a bola para as arquibancadas sempre que o perigo esteve próximo.

Meninos, eu vi, eu juro que vi nossos alas correndo, aloprados, ao fundo do campo deixando tontos os marcadores adversários.

Meninos, eu vi, eu juro que vi Rochemback, Rafael Marques, Adílson e todos os nossos marcadores comendo a bola com a ponta da chuteira.

Meninos, eu vi, eu juro que vi Douglas com maestria entregar a bola aos seus companheiros como se a eles desse uma joia rara.

Meninos, eu vi, eu juro que vi Andre Lima atrapalhado colocando a bola para as redes e Jonas fazendo a única coisa que é capaz de fazer em campo: muitos gols.

Meninos, eu vi, eu juro que vi Renato gesticulando ao lado do campo, gritando frases inaudíveis na inútil tentativa de organizar o caos.

Mas eu vi muito mais do que isso, juro que vi, na noite e madrugada de futebol jogado na argentina Avellaneda, em estádio com emblemático nome Libertadores da América.

Estavam lá nas arquibancadas Lara, Arce, Ancheta, Airton, Calvet, Everaldo, Dinho, Gessi, Ronaldinho, Iura, André Catimba, Alcindo, Juarez, Tarciso … e tantos outros que se misturavam aos milhares de torcedores que empurravam os azuis à conquista de uma vaga na Libertadores.

O Grêmio foi grande, desta vez travestido de Independiente. Assim como o foi em tantos outros momentos mágicos do futebol mundial em que nossos espírito foi incorporado por times nem sempre com jogo qualificado, mas com desafios inacreditáveis

Avalanche Tricolor: É muito bom ser pai desses meninos

    Grêmio 3 x 0 Botafogo
    Brasileiro – Olímpico Monumental

    Olímpico Monumental

    Os foguetes começaram a estourar logo cedo. Alguns ônibus já estavam estacionados perto de casa e torcedores improvisavam o local para o churrasco. Ouviam-se gritos à distância e camisas do Grêmio desfilavam na calçada diante da casa de minha infância e adolescência. Foi ali que meu coração foi forjado gremista e minha alma, imortal.

    O clima era de decisão como tantas que havia assistido em meu passado porto-alegrense, boa parte delas com o direito de me iludir com os ídolos e me enganar com as promessas de vitória. Às derrotas, havia meu pai suficientemente maduro e calejado para me consolar.

    Hoje não, o pai era eu. Quem havia motivado os meninos para viajar à Porto Alegre e torcer pelo Grêmio no Monumental, neste começo de férias, é quem teria de assumir a responsabilidade pelo feito (ou desfeito).

    Por que não levá-los à primeira partida no Olímpico em jogo menos complicado? Quem sabe um de campeonato Gaúcho, desses por onde comecei a saborear o gosto pelas conquistas? Fui escolher logo uma “final” de Brasileiro, com a difícil tarefa de vencer e esperar um resultado externo para saber se teríamos o direito de estar mais uma vez na Libertadores.

    E se nada desse certo? O resultado ruim, a frustração, o estádio lotado de tristeza, os meninos me olhando querendo entender tudo aquilo ? Será que encontrarei lugar para eles sentarem e assistirem à partida com segurança?

    Nessas horas, tudo ganha uma dimensāo muito maior do que deveria. Tinha a responsabilidade de transformar aqueles momentos em algo especial, mesmo que boa parte do espetáculo não dependesse apenas de mim.

    Os meninos foram se vestir para o jogo, e buscaram na mala camisas azuis, sem que eu pedisse – davam sinal de ansiedade, também.

    Lá fora, a música entoada pelos torcedores aumentava, ainda faltavam algumas horas para seguir ao estádio, apesar de minhas preocupações já terem percorrido toda a curta caminhada até o nosso destino.

    Churrasco em família encerrado, não dava mais para recuar. Era hora de sair para ver o Grêmio no Monumental. É bem diferente do que vê-lo em qualquer outro lugar, muito mais do que torcer por ele diante da televisāo como os acostumei.

    Saí de casa de mãos dadas com os dois, e havia ainda a companhia dos meus irmão e sobrinho, ambos neófitos nestas caminhadas até o estádio – torcem pelo Grêmio sem sofrimento, na maior parte das vezes de ouvido apenas.

    Em Familia

    Tantas dúvidas e apreensões não resistiram atė a esquina da Saldanha Marinho, rua que sempre marcou o início do meu passeio ao Olímpico. Os primeiros passos na companhia deles foram suficientes para perceber quanta bobagem desnecessária havia passado pela minha cabeça. Temer o quê, se estar ali com meus dois filhos – acrescido de mais dois caras muito legais em minha vida – era, sim, o mais importante. Maior do que qualquer outra coisa que o futebol pudesse me proporcionar.

    Entrar no Pórtico dos Campēoes com eles em meio a multidão entusiasmada de gremistas foi especial, estávamos quase correndo como se não suportássemos mais a ansiedade de entrar no estádio e encontrar nosso lugar para gritar e comemorar aqueles instantes juntos.

    Pouco antes de subirmos ao nosso espaço não-reservado, encontrei dois velhos conhecidos. Verardi, eterno supervisor do clube, e Pedrão, antigo segurança sempre presente ao lado do time. Foi ele quem me lembrou de frase-lamento que repeti várias vezes ao meu pai sempre que uma adversidade surgia no caminho do Grêmio: “estão nos roubando, pai!?”

    Desta vez ninguém me roubaria a alegria de estar com meus dois filhos no Monumental, independentemente da estratégia armada pelos técnicos e do jogo jogado pelos times.

    Quis o destino, porém, que a alegria fosse completa.

    Meu time e a minha torcida foram cúmplices da satisfação de cantar trechos do hino rio-grandense ao lado dos meninos, de aplaudir a escalação e a movimentação dos jogadores, de socar o ar na bola que explodia no travessão ou fora tirada do adversário com um elegante carrinho.

    Foram cúmplices na festa do gol, dos três gols, emocionantes gols marcados por nossos ídolos. Os de André, Jonas e Douglas. Os evitados por Vítor e Paulão. Os quase feitos por Clementino. Os que se tornaram possíveis graças a inteligência emocional de Renato.

    Meu prazer, nosso prazer, de estarmos pulando, abraçando um ao outro, rindo dos torcedores boca suja, vibrando com o resultado e pedindo sorvete para matar a sede me fez criança como eles. Como na época em que eu era eles. Em que eu era apenas um menino apaixonado pelo seu time.

    Hoje, sou o pai desses meninos. Meus meninos gremistas.

    Vibrar

    Cético e entusiasmado, o Brasil no voo para o Hexa

     

    O aeroporto na Cidade do Cabo estava vazio para suas dimensões. E cheio de torcedores brasileiros a caminho de Johannesburgo. Eram 10 da manhã, e a partida do Brasil seria apenas às oito e meia da noite, hora local. Um deslocamento tranquilo e tenso, ao mesmo tempo. Com check-in sem estresse e voo na hora certa, a apreensão ficava por conta do que aguardaria a seleção no estádio Ellis Park, na disputa pela vaga nas quartas-de-final.

    Para completar este cenário de contradições, eu com mala em punho seguia o mesmo caminho que eles, passaria por Johannesburgo, mas não assistiria ao jogo. Nem mesmo na televisão. Estaria a bordo de outro avião tomando o rumo que a nossa seleção só pretende seguir depois do dia 11 de julho: São Paulo.

    Duas horas e meia depois de deixar a cidade em que morei nos últimos 21 dias, estava em Johannesburgo e do futebol consegui assistir apenas a alguns minutos da vitória da Holanda na Eslováquia. Suficiente para enxergar o meio-campo Arjen Robben comandando os Laranjas e tocando bola com uma categoria reservada a poucos. Fui saber da classificação holandesa pelo comandante do voo que ao anunciar em um “inglês-africano” o placar foi recepcionado com um leve murmurinho dos passageiros. Ninguém ali parecia preocupado com esta partida.

    No ar, restava fechar os olho e esperar que após duas, duas horas e meia, o comandante fizesse novo anúncio. De preferência, a vitória do Brasil. Não consegui dormir. Passei a lembrar daqueles torcedores animados do aeroporto. Um grupo se organizava para vestir a enorme camisa coletiva fabricada em verde e amarelo com o nome do Brasil a frente. Três outros levavam uma imagem de Ronaldinho Gaúcho: “se o Dunga não chama, a gente convoca”. A menina que encerrara seu compromisso no Cabo e deveria voltar ao Brasil conosco ficou exultante ao saber que havia um brasileiro vendendo ingresso para o jogo por U$ 200, bastaria descer na escala em Johannesburgo, remarcar o voo e torcer para que as malas já despachadas chegassem, sozinhas, com segurança a São Paulo.

    Todos repetiam o que parece ser um mantra do torcedor brasileiro: “rumo ao Hexa”.

    Passavam das 10 e meia da noite, jantar servido, serviço de bordo realizado, quando meu silêncio foi interrompido pela voz no alto-falante: “Ladies and Getlemen: Brazil 3, Chile 0, Brazil qualified for the last 8 of the World Cup”. Gritos e aplausos tomaram conta do voo 224 da South Africa. E eu pude dormir tranquilo sabendo que mais uma vez se confirmava a superioridade brasileira nesta Copa.

    O desembarque no Brasil foi depois das 11 e meia da noite, em um aeroporto de Guarulhos ainda mais vazio do que aquele que deixei na Cidade do Cabo. Apenas não tão bonito, muito menos moderno.

    Assim que matei a saudade com abraços e afagos, passei a receber um relatório completo sobre o que foi a partida, a partir dos dois analistas mirins que tem me municiado de avaliações técnicas e emocionais durante esta Copa:

    “Juan, Robinho e aquele número 9 fizeram os gols”, disse o mais velho. “Precisa ver o que o 9 (eles esquecem o nome composto de Luis Fabiano) fez, pegou a bola assim, cortou pra cá, tirou o goleiro e chutou no gol”, comentou o mais novo desenhando com as mãos toda a jogada do nosso goleador. “Gostei mais do Robinho, ele soltou a perna”. “Legal foi a barreira que os amigos fizeram para o Juan cabecear”, e eles se colocaram lado a lado para mostrar o posicionamento na cobrança de escanteio. “Foi mais de 50 quilômetros por hora a cabeceada que ele deu”. Nesta altura já não sabia mais quem contava o quê. Todos queriam mostrar seu entusiasmo com a vitória sobre o Chile de Bielsa: “o cara não parava no banco, se agachava, virava a cara, bufafa, e ele colocou três atacantes”.

    Hoje pela manhã, acordei cedo pra ver os lances da vitória brasileira e ouvir a avaliação dos críticos sobre o futebol jogado pelo Brasil. Do ufanismo que cega ao pessimismo que despreza, havia um pouco de tudo à disposição na TV e nos jornais.

    Na dúvida, resolvi pedir ajuda a Marcão, torcedor sofrido do Brasil que tem acompanhado o jogo com os meus dois comentaristas de plantão e que apesar de estar feliz por ter ganhado uma Jabulani de presente ficou cabreiro com a vitória: “Tô lembrando do Maguila que batia em todo mundo, mas quando pegou um cara bom mesmo, se entregou”, referência ao lutador de boxe sucesso por aqui, mas que beijou a lona quando encarou gente grande como Evander Holyfield (1989) e George Foreman (1990).

    A alegria dos meninos e o ceticismo do Marcão são sentimentos que parecem uma contradição, mas que se completam e têm ajudado o Brasil a construir seus resultados nesta Copa. Que sigam juntos, assim, até o Hexa.

    Azar do Chile !

    Direto da Cidade do Cabo

    E os meninos ? Não viram o jogo ontem ?

    A pergunta chegou por e-mail de um internauta pouco disposto a ler o que os comentaristas de plantão – dentro os quais este que escreve o blog – pensam sobre a seleção brasileira. Para ele, quem elogia o Dunga é puxa-saco, não entende nada de futebol. Quem critica, é uma anta que não aprendeu que o futebol atual busca o resultado. Nunca está contente. Por isso, prefere ouvir os inocentes de coração, como se estes ainda existissem.

    E como me cobrou, fui procurar os dois garotos que têm me ajudado a entender alguma coisa de futebol durante esta Copa, sobre os quais já conversamos neste espaço. Fiquei preocupado logo que os consultei, pois a primeira coisa que ouvi foi que “não tenho nada pra falar sobre este jogo”, na voz de quem esperava mais.

    Nada ? Gostou, não gostou ? Qualquer coisa pra me ajudar.

    “Só o goleiro é que foi bem”, disse um deles em elogio ao Julio César por quem ficou preocupado quando viu aquelas ataduras protegendo as costas. Machucado ou não, ele segurou a onda lá atrás, disse o outro.

    “Aquele cara de perna comprida foi legal, eles tirou uma bolas do Cristiano Ronaldo”, falou o outro se referindo ao Lúcio.

    Conversa vai, conversa vem, descobri que eles gostaram também de uma outra coisa: o juiz mexicano, principalmente quando ele resolveu dar um cartão amarelo duplo. Puniu um brasileiro e sem precisar baixar a mão puniu um português, também. “Parecia minha professora quando dá bronca num colega e aproveita para puxar a orelha do outro que estava rindo fora de hora”.

    O mais velho, admirador de Elano, queria mesmo é a garantia de que o meio-campista estará de volta no próximo jogo. “Quando eu vi o tanto de escanteio que os caras erraram lembrei dele”, disse ao falar, sem lembrar o nome, de Daniel Alves que assumiu a função na partida contra Portugal. “Ele não acertava uma, o escanteio sempre dava na perna do zagueiro”.

    Não gostaram do Júlio Batista, também. Defenderam a ideia de que ele teria de ter saído do time no primeiro tempo. Aprendi nestes três jogos que os dois são impacientes e imediatistas. Entrou, não mostrou, substitui. É o que defendem.

    Sabe do que eles gostaram? Do Felipe Melo quando devolveu a botina no Pepe. “Tinha que fazer aquilo mesmo, porque o Pepe tava muito chato e brigando com a gente”. Estão perdoados pelo desejo de revanche, eles ainda são crianças. Felipe Melo, não.

    Por serem crianças, não terem compromisso com a seleção, cansados de verem a chatice que marcou este terceiro jogo do Brasil, foram pragmáticos como o futebol atual: “delisgamos a TV e fomos jogar video-game”.

    Pelo tanto que o Dunga reclamou do time durante o jogo, parece que ele também teria preferido ficar diante do video-game e, quem sabe, disputar uma partida de Fifa 2010, na qual não teria necessidade de abrir mão do Kaká, Elano e Robinho, que fizeram muita falta ao nosso time.

    Segunda-feira eles estarão de volta, meninos.

    “Azar do Chile”, concluiu o mais jovem e atrevido.

    O jogo que os meninos viram II

     

    Direto da Cidade do Cabo

    “Ainda bem, f.d.p” foi o que Dunga teria dito assim que o juiz deu o apito final da partida contra a Costa do Marfim. Em vez de deixar os meninos envergonhados, eles até que gostaram do desabafo. Foi o que me disseram assim que os procurei para os comentários sobre a vitória e classificação brasileira.

    Os dois garotos, de 10 e 13 anos, apresentados neste blog, semana passada, após a estreia da seleção, fizeram tanto sucesso com a sinceridade de seu olhar, que decidi voltar a eles.

    Ao menos para os meninos-comentaristas, ninguém precisará pedir desculpas pelos palavrões, ao contrário do que teve de fazer o técnico da França Raymond Domenech, alvo dos xingamento de Anelka no intervalo do jogo contra o México. Depois de afastar o atacante, foi à imprensa dizer que “lamento por todas as crianças que seguem a seleção da França”.

    Os dois sabem que tem palavrão que ofende, tem palavrão que dá ênfase, tem palavrão dito no momento impróprio e tem palavrão que alivia. O de Dunga foi de alívio, naquele instantes. Os demais, ditos para quem não tem nada a ver com isso, e está apenas trabalhando, eles não ouviram e, portanto, não comentam. Fazem bem.

    Ficaram assustados mesmo foi com a maneira dura com que aquele pessoal da Costa do Marfim jogava: “eles não são os Elefantes, são uns cavalos”, disse o menor. Mais incomodados, ainda, quando viram os marfinenses entrar de sola na canela de Elano. Como já escrevi, o mais velho diz que o meio-campo brasileiro tem “cara de dó” e, por isso, decidiu torcer por ele, em particular. Deu sorte.

    Aliás, eles haviam reclamado durante o jogo a falta do gol do Elano. Pedido feito, pedido atendido, depois da boa jogada pela esquerda de Kaká. “Esse cara é legal, ele mostrou o nome das filhas depois do gol”, lembraram os dois, conquistados pela simpatia do “goleador”.

    Será que ele pode ser punido por isto ? Espero que não, a mensagem era pra família, caramba.

    Lembrei que eles queriam ter tirado o Kaká na partida de estreia já no primeiro tempo, antes mesmo da decisão do Dunga de substituí-lo: “Mas nesse jogo não merecia sair, apesar que disseram na TV que ele tinha de ter sido substítuido antes porque tomou o cartão amarelo”, comentou o mais velho. Sobre a expulsão: “Foi bem esquisito”.

    Esquisito é elogio para o que o juiz deixou acontecer no gramado.

    “O Robinho foi o Kaká do outro jogo, não fez nada desta vez”, concordaram os dois. “É, mas o Luis Fabiano fez bem mais do que todos eles juntos, num usou a mão, mas fez”, comenta o novinho que não havia nascido quando Maradona consagrou este lance no México86. “Foi o gol mais bonito que eu vi até hoje”, disse o mais velho que só assistiu aquele chapéu de Pelé, na Suécia58, pela televisão e em imagens desbotadas.

    A vó, que esteve do lado deles no jogo de ontem, tinha idade para lembrar dos dois gols históricos, mas nunca acompanhou o futebol, só assiste aos jogos pra ficar junto com os netos.

    Futebol-família é muito legal, mesmo que de vez em quando escape um palavrão.