Desafio à frente: recalculando …

 

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

 

Foto: Pixabay

 

“Mais coisas sobre nós mesmos nos ensina a terra que todos os livros.

Porque nos oferece resistência.

 Ao se medir com um obstáculo o homem aprende a se conhecer”

Antoine de Saint-Exupéry

 

 

Muitas pessoas se recordam de Saint-Exupéry por seu famoso livro O Pequeno Príncipe (1943). Durante meu pós-doutorado na França, conheci sua história como piloto do correio aéreo francês, através de suas experiências descritas no livro Terra dos Homens (1939).  Um livro poético cujas frases muitas vezes me faziam voltar e ler novamente por conta de suas narrativas tão profundas sobre a vida, amizade e heroísmo. Imaginar o que era pilotar aviões que atravessavam oceanos com uma única hélice e sem pressurização, aviões cujos motores não ofereciam segurança e falhavam de repente, com “barulheira de louça quebrada”, me fazia refletir que isso era possível graças à coragem daqueles pilotos.

 

Na vida cotidiana somos convidados ao enfrentamento de desafios. Situações que vão exigir reinvenção, novas atitudes, mudança, mas acima de tudo coragem. Coragem para acreditar em nós mesmos e trilhar outros caminhos.

 

Construir novos objetivos e se engajar para atingi-los pode ser uma tarefa árdua. Quem nunca pensou: “isso é demais para mim” ou “não vou dar conta”? Por costume ou hábito, muitas vezes as pessoas estão insatisfeitas com o modo como estão vivendo, mas não conseguem mudar. Preferem a certeza ao risco, numa ilusão de que assim estão seguras, protegidas dos perigos da vida. Subestimando a própria capacidade de superar os desafios, desconsideram que a incerteza é uma das características do mundo que vivemos.

 

Mudanças levam tempo, exigem planejamento e dedicação. Mudanças geram autoconhecimento, nos permitindo enxergar potencialidades que nem sabíamos que eram nossas. Geram aprendizagem. O mais curioso é que ao decidirmos realizar algo diferente, as transformações se iniciam, produzindo novos comportamentos. Pense em alguém que decidiu aprender a cozinhar ou dirigir, a praticar uma atividade física, um segundo ou terceiro idioma, trocar de emprego… a decisão inicial gerou uma ação, um comportamento direcionado para atingir esse objetivo.

 

As estruturas neurobiológicas localizadas nos lobos frontais, mais especificamente no córtex pré-frontal, desempenham um papel essencial na formação de metas e objetivos, bem como no planejamento de estratégias necessárias para alcançá-los. Além disso, o córtex pré-frontal é responsável pela avaliação do sucesso ou fracasso das ações realizadas e o estabelecimento de novas estratégias, quando se torna necessário mudar o curso de ações ou pensamentos de acordo com as exigências do ambiente.  

 

Uma vez ouvi o CEO de uma empresa dizer que atingir um objetivo em nossa vida deveria ser como usar o aplicativo de trânsito: você coloca o destino que deseja chegar e segue o trajeto definido. E se errar? Para isso existe o “recalculando”. Não é desistindo, é recalculando.

 

Apesar de Albert Einstein ser sinônimo de genialidade, ter desenvolvido a teoria da relatividade e ter sido eleito o mais memorável físico de todos os tempos; suas palavras servem de incentivo para aqueles momentos nos quais a gente quase joga a toalha, pensa em desistir, mas se recorda que vale a pena tentar novamente:

 

“Eu tentei 99 vezes e falhei, mas na centésima tentativa eu consegui. Nunca desista de seus objetivos mesmo que esses pareçam impossíveis, a próxima tentativa pode ser a vitoriosa”.

 

Se assim era para o gênio, imagine para nós, pobres mortais! Diante de novos objetivos, surgem os obstáculos, mas a gente se empenha, se esforça, desenvolve habilidades… se conhece e se supera. Como no aplicativo de trânsito, a gente recalcula e chega lá.

 

Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Instagram. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung