Conte Sua História de São Paulo: o metrô era novidade na ida ao primeiro emprego

Luciana Fátima

Ouvinte da CBN

Na lotação do Metrô

Comecei a trabalhar em 1991, três anos após a inauguração do Metrô Itaquera. Até então, era preciso pegar ônibus direto para a estação Tatuapé. Meu expediente começava às oito da manhã e eu precisava acordar duas horas antes para não me atrasar. A linha 3-vermelha do metrô sempre foi lotada.

Para não sucumbir às agruras do transporte público aprendi logo que eu teria de desenvolver um instinto de sobrevivência. Carregar a bolsa na frente do corpo era mandatório. Não usar sapatos que saíssem fácil dos pés era imprescindível. Pensar rápido e buscar a porta com menos aglomeração, fundamental.

Foi assim que, em um dia de superlotação, encontrei uma brecha no primeiro vagão. Entrei e fui espremida ao longo das 13 estações. Alívio para respirar melhor só na Sé, quando muita gente descia para a baldeação. Chegando ao Anhangabaú, desci do trem, subi as escadas e deparei com um lugar totalmente diferente. Desesperada, olhava e não reconhecia nada.

Enquanto desviava das pessoas que quase me atropelavam, me esforçava para identificar algum prédio familiar. Nada! Será que desci na estação errada? Não! Foi quando lembrei da orientação de uma amiga que me ensinara o caminho no primeiro dia de trabalho: “entre sempre nos últimos vagões, caso contrário sairá do lado errado da estação e vai se perder ao sair para a Sete de Abril”.

Foi como na música dos Titãs: “eu me perdi… na selva de pedra … eu me perdi” 

Depois de voltas e mais voltas na região do Teatro Municipal, atravessei o Viaduto do Chá e encontrei a Líbero Badaró. Ali eu já reconhecia os prédios. Mais alguns metros e chegaria ao meu destino: a rua José Bonifácio, onde era a sede empresa em que trabalhava. Eu estava assustada, desalinhada, suada e atrasada – em pleno período de experiência… E só me dei conta disso ao bater o cartão.

Bater cartão? Antes de começar a trabalhar, essa expressão me era tão abstrata quanto possível. Era um equipamento grande de ferro com um relógio analógico, que controlava os horários da nossa vida – entrada, saída e o intervalo de almoço. Ao lado dele, em um quadro na parede, ficavam os cartões de todos os empregados. Nas primeiras vezes em que bati o meu cartão, não o encaixei no lugar certo e o carimbo da hora saiu errado. Precisei carimbar novamente, sobrepondo os números até acertar o quadradinho. Até hoje não sei como o Departamento Pessoal entendia meus horários.

Eu fazia o possível para não me atrasar. E, depois da lição aprendida, mesmo que só conseguisse entrar nos primeiros vagões do metrô, lá em Itaquera, eu cuidava para atravessar toda a plataforma da estação Anhangabaú e sair do lado certo.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Luciana Fátima é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também a sua vivência na nossa cidade. Envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Ouça outros capítulos no meu blog miltonjung.com.br ou no podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: estive lá no dia em que o metrô foi inaugurado

Clênio Caldas

Ouvinte da CBN

Photo by sergio souza on Pexels.com

Na manhã de sábado, 14 de setembro de 1974, tudo apontava para um acontecimento aguardado há tempos pela população de São Paulo: o início da operação comercial do Metropolitano de São Paulo!

Desde 1968, quando as obras de construção do novo sistema de transporte coletivo começaram, ali no bairro do Jabaquara, confluência das avenidas Fagundes Filho e Jabaquara, numerosas ruas, avenidas, praças, sofreram severa intervenção de máquinas, caminhões e operários que rasgaram o solo e aprofundaram escavações para implantar o corredor Norte-Sul do metrô da cidade.

O povo paulistano suportou com paciência os transtornos de interdições, alteração de itinerários de linhas de ônibus e alternativas diversas para o trânsito caótico da capital paulistana. 

O serviço de bondes, tradicional e histórico na cidade, fora definitivamente encerrado em abril daquele ano. Era preciso dar lugar à moderna tecnologia. Paulatinamente, a obra foi seguindo o curso da linha pioneira que ligaria o bairro do Jabaquara, na zona sul, à outra extremidade, no bairro de Santana, zona norte. A extensão para além de Santana, para o bairro do Tucuruvi, ocorreu somente anos mais tarde.

Dois anos antes, em 6 de setembro de 1972, como parte das celebrações do Sesquicentenário da Independência do Brasil, fora inaugurado o pátio de manobras do metrô no Jabaquara, com as presenças do governador Laudo Natel e do prefeito José Carlos de Figueiredo Ferraz. Ali estávamos prestigiando o grande evento e cumprimentando as autoridades. 

Nos fizemos presentes, também, na viagem inaugural da operação comercial, mantendo até hoje o bilhete, picotado por fiscais. Embarcamos na composição que rumou da estação Jabaquara para a estação Vila Mariana, percorrendo apenas as estações Conceição, São Judas, Saúde, Praça da Árvore, Santa Cruz, até alcançar a estação terminal provisória, Vila Mariana. Daí em diante, outros trechos foram sendo liberados gradativamente à medida que as obras eram concluídas.  

Mais de cinquenta anos decorridos daquela radiosa manhã! O sistema metroviário foi ampliado gigantescamente: além da Linha 1-Azul, vieram as Linhas 2-Verde, 3-Vermelha, 4-Amarela e 5-Lilás; foram acrescentadas a Linha 15-Prata do monotrilho e a integração com as linhas da CPTM, formando um extenso complexo metroferroviário na Grande São Paulo

Dentro de algum tempo, a linha 6-Laranja passará a integrar essa rede. 

Nestas cinco décadas minha admiração pelo Metrô de São Paulo não esmoreceu, pelo contrário, se converteu em orgulho genuíno por esse transporte, a ponto de traçar comparações com outros sistemas visitados nas cidades de Chicago, Boston, Nova Iorque, Washington, Toronto e Santiago do Chile. 

A todas nosso metrô se destaca e se sobrepõe! Declarei isto em visita monitorada ao CCO, a convite da Direção do Metrô, anos passados, dirigindo palavras a funcionários reunidos no anfiteatro local. 

Este é o meu testemunho de brasileiro, residente há 70 anos nesta megalópole, e ainda na expectativa de participar de outras inaugurações do melhor e mais elogiável sistema de transporte sobre trilhos, o Metrô da Cidade de São Paulo!!!

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Clênio Falcão Lins Caldas é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade: escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outras histórias, visite meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: transportes são nossas metáforas coletivas

Por Fabio Monastero

Ouvinte da CBN

Photo by Andre Moura on Pexels.com

 

Um táxi ou um caminhão de mudanças; um ônibus, um trem ou mesmo uma pequena motoneta, não parecem ser capazes de nos transmitir ideias muito complexas; entretanto – a aceitar o que me disse um nativo grego, amigo com nome de um deus – são verdadeiras e bem concretas metáforas; isto se dá porque, em sua língua milenar, essa palavra indica – entre outras coisas  e simplesmente – a condução ou o transporte diário de conceitos, coisas ou pessoas de um lado para o outro, um levar além…

Os gregos, portanto, usam metáforas diariamente e, mais, os transportes coletivos são suas metáforas coletivas. Com essa informação na cabeça, torna-se quase impossível entrar num vagão de metrô em São Paulo, por exemplo, sem uma atitude respeitosa, pois, afinal, estamos penetrando parte de uma enorme metáfora das grandes cidades.

O moderno Metropolitano paulistano corre, surreal, nas profundezas…

Dentro do casco metálico, a mente viaja para dimensões inesperadas; o trem é realmente uma grande metáfora da vida – as pessoas nele entram e saem sem que as demais tenham a menor ideia se, porque ou quando isto se dará.

Cada vagão, em cada composição, pode ser uma vida ou uma vila, cidade ou país, onde cada um sabe apenas de si.

Cenas que se repetem por toda a cidade.

Nas várias paradas, existem ansiosos quase arrombando as portas, querendo fazer parte da viagem ou dela sair a qualquer custo.

Para entrar, uns vem a passos lentos e seguros, aparentando jogar com o tempo, atentos, entretanto, ao rápido fechamento das portas. Raros bloqueiam ou reabrem – com ou sem ajuda – as portas logo que estas se fecham, ainda com o trem parado e entram à força na vida, quero dizer, no trem. Quando o trem demora a partir, os apressados tornam-se prematuros; pode ocorrer que alguém se sinta desconfortável e saia antes do que previra.

Se alguma gente passa a viagem em paz, umas outras evidenciam algum tipo de sofrimento na alma e por vezes no corpo – aqui tem uma dor de cabeça; ali, cólicas.

Devaneios…

Velhos serenos e jovens angustiados; deficientes corajosos e pessoas normais e covardes; há mesquinhos, heróis, santos, dementes e gênios, de tudo nessa vida.

Lá na frente, um casal se beija como se o trem estivesse vazio e congelado pela eternidade. Prestando mais atenção, poderemos ouvir uma família coreana discutindo um assunto misterioso; talvez, ainda, observar duas meninas surdas-mudas, conversando e rindo animadamente numa alucinante e eloquente dança de gestos.

Um policial barrigudo boceja, calmo e tranquilo, pois, neste momento, sua vida não corre os riscos baratos que corre na vida exterior; um raro padre de batina, incoerente com os chamados novos tempos, parece orar baixinho, feliz com seus sedativos alienantes. Aqui ao lado, um senhor grisalho, com um sugestivo perfil grego, com certeza, nem está pensando nas metáforas da eventual terra ancestral.

As mulheres misturam seus perfumes e suas cores, avaliadas e desejadas em sonhos ou evocando mães, filhas ou amantes distantes; os homens, em geral menos exuberantes, mexem com a imaginação dessas mulheres da mesma forma.

A cada parada, o quadro muda, dinâmico, sem deixar vestígios do fotograma anterior; tudo recomeça a cada momento.

Um súbito tumulto lá longe, na frente do vagão, assusta os que não sabem do que se trata; um jovem tenta puxar a cordinha de emergência, mas só consegue entreabrir a porta, com um pequeno solavanco no trem; logo se vê, no espaço aberto pelas pessoas agitadas, um homem se levantando, constrangido, depois do que pareceu um rápido ataque epiléptico. Na parada, alguém desce com ele, decidindo interromper a própria viagem para ajudá-lo.

Numa percepção extrema, podemos até entender as manoplas das saídas de emergência como alavancas de suicídio, pois uma vez acionadas, deve haver a saída imediata – dessa vida metroviária.

A implacável composição prossegue veloz, indiferente, firme em seus trilhos de aço – completamente fria. Não interessa ao trem quem nele entra ou sai; aparenta conduzido por uma entidade invisível que, periodicamente, projeta sua voz dos céus ou do teto de um salão de Ezequiel – por vezes ininteligível, pelo menos aos não-iniciados. Essa entidade superior, em sua desconhecida sabedoria, determina condições como paradas, tempos e velocidades – desde que o grande computador central o permita. Essa divindade maior está em local desconhecido pelos passageiros e sabe coisas que eles ignoram existir; só a grande máquina conhece o que vai acontecer, o passado, o presente e o futuro, a cada minuto da viagem.

É possível cogitar se existe vida em outras linhas, ainda que, por definição suprema e para que não se destruam – paralelas euclidianas, gregas – as linhas, planos e dimensões dos trens nunca poderão se cruzar sob pena de mútua extinção. Tudo correrá de acordo com o planejado, desde que os sacerdotes do templo – os funcionários – continuem seu rígido culto diário.

Surpreendentemente, não existe condutor…

Enfim, a pergunta: Existirá outra vida no além-metáfora?

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Fabio Monastero é personagem do Conte Sua História de São Paulo.  A sonorização é do Claudio Antonio. Para ler o texto completo do Fabio, visite agora o meu blog miltonjung.com.br. Você também pode participar: envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Quer conhecer outros capítulos da nossa cidade, coloque entre os seus favoritos o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: meu espelho na estação Pinheiros

Por Thays Bertin Rodrigues

Ouvinte da CBN

Photo by Andre Moura on Pexels.com

No Conte Sua História de São Paulo, o texto da ouvinte da CBN Thays Bertin Rodrigues:

Minhas primeiras lembranças de São Paulo são da infância. Eu sabia que havíamos chegado à capital pelo obelisco imponente que nos recebia logo na entrada de quem vinha da Rodovia dos Bandeirantes — e pelo perfume nem tão agradável do Rio Pinheiros.

Observava a cidade através da janela do Escort branco da família, a caminho do litoral sul. Sentia uma mistura de ansiedade e euforia, uma energia que me arrepiava. Naquele momento, sem saber interpretar, já percebia uma conexão com a cidade, uma vibração dessa metrópole imensa — tão gigantesca quanto os sonhos de uma menina de oito anos, sem imaginar que, um dia, aquele cenário se tornaria seu destino.

Foi somente em 2018, na fase dos “de repente 30”, que me tornei residente da cidade. Nos anos seguintes, São Paulo me presenteou com muito: amigos, cultura, diversidade e até um Rio Pinheiros com um novo perfume, que passou a me acompanhar diariamente no caminho para o trabalho.

Depois, veio a pandemia, um período de restrições e isolamento. E, quando menos esperava, São Paulo me trouxe um marido de origem nordestina e, em seguida, o privilégio de gerar no meu ventre um futuro paulistano.

Hoje, às 18h, na Estação Pinheiros, enquanto faço a baldeação entre a Linha Amarela e a CPTM, olho para cima. Vejo os andares repletos de escadas rolantes, as pessoas indo e vindo, a cidade pulsando com sua funcionalidade, sua diversidade! Tudo aquilo me lembra um formigueiro — igual ao que vi no Planeta Inseto no último sábado, quando levei meu pequeno paulistano para conhecer.

É nessa grandiosidade da Estação Pinheiros que sinto, novamente, a mesma conexão e vibração que me arrepiavam quando era apenas uma menina do interior. É como um espelho: nessa São Paulo, reconheço quem eu sou. Amiga, diversa, funcional, alegre, forte e, ao mesmo tempo, doce. Grande!

E, nesse olhar ao espelho, me apaixono novamente. Pela minha vida. Por quem sou. Pela cidade que escolhi e que também me escolheu: São Paulo.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Thays Bertin Rodrigues é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é de Cláudio Antonio. Escreva o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite agora meu blog miltonjung.com.br ou vá até o Spotify e adicione entre os seus favoritos o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: minha imagem na janela do metrô

Por Marcelo Vieira Pinto

Ouvinte da CBN

Foto de Pixabay

Essa história deve ser contada na primeira pessoa, não por prioridade, mas para expressar fielmente a realidade do sentimento. A generosa frieza da humanidade. Acordei lépido, depois de um sono, por minha consideração, longo, de cinco horas ininterruptas e o complemento posterior de mais três.

Um belo desjejum à base de frutas, sanduíche e o querido e esperado café, acompanhado de uma disposição incomum para a prática esportiva. O sentimento era de um senhor vigoroso, equilibrado e me lembro bem da atenção em manter o foco na minha pessoa.

Sai à rua em direção ao metrô Brooklin para cumprir um compromisso. O caminho se apresentava com uma energia colorida pelo sol forte, que esquentava o ambiente, mas o bem-estar interior se sobrepunha a qualquer pensamento negativo.

Entrei no espaço, comprei meu bilhete e caminhei em direção à plataforma. Sentia-me o melhor cidadão paulistano, admirando a simples educação popular nas escadas rolantes e o inesperado respeito ao entrar no vagão. Ambiente com lotação completa, o calor das pessoas era inevitável sentir, embora o ar-condicionado estivesse em perfeito funcionamento.

Subitamente, uma jovem se levanta me oferecendo seu assento. Sua expressão era de uma pessoa caridosa. Sinceramente, meu sentimento foi em direção oposta ao que eu sentia segundos atrás. Inesperadamente, tive a percepção de que transparecia a imagem de um frágil senhor, um idoso que carecia de um assento.

Agradeci, recusei e automaticamente olhei minha figura, que refletia na janela do veículo, e o esforço para encontrar aquele senhor vigoroso foi de certo modo desgastante. Passados alguns minutos, me desloquei para o centro do vagão, quando, acreditem, um senhor obeso, juro, bem obeso, se levanta para me ceder seu lugar.

Desculpem-me, mas é difícil demais andar em equilíbrio. Acho que vou comprar uma bengala para minha cabeça.

Ouça aqui o Conte Sua História de São Paulo

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O Minhocão do Morumbi – II

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

 

A degradação no monotrilho da linha Ouro, que ligará o Aeroporto de Congonhas ao Morumbi, não deveria ocorrer na mesma cidade em que o Elevado Costa e Silva escancara os problemas de obras viárias aéreas em regiões urbanas adensadas.

 

Entretanto, enquanto o Minhocão de Maluf foi realizado dentro do prazo e sem protestos populares, afinal era Ditadura, a obra de Serra e Alckmin não passou ilesa aos críticos, técnicos, moradores e populares antes de ser executada.

 

Ao ser detalhada, em 2010, muitos alertas foram incisivos, alguns, inclusive, publicados neste blog:

 

….

 A linha 17-Ouro que ligará Congonhas à rede de trilhos terá trens a 15 metros de altura, irá desapropriar área de 132 mil metros quadrados na qual serão derrubadas 2.300 árvores e onde 36 mil metros quadrados são ocupados por residências de alto e médio padrões. As demais estarão recebendo impactos ambientais ressaltados no relatório apresentado, que dentre outros aspectos enfatiza:

O morador que não tiver seu imóvel demolido deve sofrer outro impacto negativo de ALTA RELEVÂNCIA: a mudança da paisagem devido à presença de vigas de até 15 metros de altura …

 

Será um grande causador de incômodo à população vizinha, que pode ter uma redução da qualidade de vida”. A obra será usada por mais de 200 mil passageiros por dia …

 

Haverá ainda impacto sonoro. É sugerida uma proteção com barreira acústica para minimizar a propagação do ruído …

 

Nas vias de baixo tráfego haverá aumento significativo do movimento devendo atrair também camelôs e desvalorizando alguns espaços do entorno…

 

O padrão residencial vertical faz com que o impacto visual do monotrilho seja intensificado, pois alguns domicílios ficarão no mesmo nível que as estruturas permanentes”. Isto é, não escapará nada, nem casas nem apartamentos.

 

 

Em 9 de maio de 2012, houve grande manifestação por parte das entidades de moradores da região do Morumbi, onde existem dezenas de associações de bairro. Foi levantada a bandeira a favor do Metrô e contra o monotrilho, quando moradores, de classe média e média alta, levaram ao Palácio dos Bandeirantes a seguinte comparação:

 

Metro

 

Assim como ocorreu nas audiências públicas anteriores, nada disso adiantou e o sistema aprovado foi o monotrilho.

 

A mudança do estádio da abertura da COPA fez com que o ritmo da obra da linha Ouro fosse reduzido até a sua paralisação total, em janeiro deste ano.

 

Hoje, a degradação toma conta de toda a área envolvida na obra. Quer no aspecto da deterioração dos materiais, quer na ocupação através de moradores de rua, de viciados em drogas e bandidos em geral.

 

O Minhocão do Morumbi será reiniciado em breve, mas transportará dos 200 mil previstos apenas 40 mil por dia e não chegará ao estádio. O capital investido e paralisado, a depreciação dos materiais, a degradação ambiental e a desvalorização da área serão débitos a serem pagos pelos contribuintes.

 

É melhor prestarmos mais atenção nas próximas eleições.

 

Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Milton Jung, às quartas-feiras.

Desafio Intermodal chega a 10a. edição com bicicleta e moto mais eficientes

 

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Será realizado hoje, o 10º Desafio Intermodal da Cidade de São Paulo. O ponto de partida será a Praça Gal Gentil Falcão, na Avenida Eng. Luis Carlos Berrini, no Brooklin, com chegada em frente à Prefeitura de São Paulo(Centro), distante cerca de 10 quilômetros. Neste ano, participarão pessoas com bicicleta, carro e moto, que são os mais usados modais individuais, além de ônibus, trem e metro, que são os principais modais coletivos. Haverá, mais uma vez, participante fazendo o trajeto exclusivamente a pé (caminhando ou correndo), assim como patins, skates, ciclistas com bicicletas dobráveis compartilhando o transporte público.

 

O Instituto CilcoBr, que organiza o evento, preparou uma análise comparativa sobre os resultados registrados nos nove anos de Desafio que reproduzo, em parte, aqui:

 

Apesar do tempo ser o principal indicador para avaliar o desempenho de um modal, também levamos em conta os gastos dos modais com combustível e estacionamento, além da quantidade de poluição que o mesmo emitiu, portanto nem sempre o veículo mais rápido pode ser considerado o mais eficiente, até porque alguns modais mais rápidos possuem custos extremamente elevados (como o Helicóptero por exemplo) o que inviabilizaria a popularidade do mesmo, ou seu uso como uma alternativa eficaz para solucionar os problemas de congestionamentos das nossas cidades. 

 

Embora haja vários critérios para se avaliar, nessa análise feita por nós do Instituto CicloBR, vamos nos concentrar apenas no tempo dos modais mais utilizados e de acesso mais comum. Abaixo uma breve análise que realizamos quando comparamos o desempenho dos principais modais já testados nos Desafios realizados pelo CicloBR.

 

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Com base nesse gráfico, podemos analisar que desde as primeiras edições, tanto a bicicleta (seja por vias rápidas ou mais tranquilas), como a moto, foram infinitamente mais eficientes que o carro, que raramente fez seu deslocamento em menos de uma hora.

 

Nos primeiros anos, os participantes escolhidos, tanto para a bicicleta como a moto, eram pessoas que não tinham esses modais como principais formas de deslocamento, ainda assim conseguiram ser mais eficientes que o carro no quesito tempo. A partir de 2009, passamos a colocar ciclistas menos experientes por vias tranquilas e mais experientes por vias rápidas, escolha natural da maioria dos ciclistas que trabalham ou já trabalharam realizando entregas (também conhecidos como “Corriers”). O mesmo fizemos com os motoqueiros, quando não trabalham como motoboys, são motociclistas que usam seu veículo diariamente como forma de deslocamento.

 

Essa escolha acabou gerando uma relativa “disputa” entre esses dois modais, mas também serviu para mostrar a viabilidade desse serviço de entrega de documentos, que atualmente em São Paulo é monopolizados pelas motos.

 

Acesse aqui o estudo completo desenvolvido pelo Instituto CicloBr

Conte Sua História de São Paulo – 461 anos: meus passeios na Galeria do Rock e o cheiro do churrasquinho grego

 


Por Rogério Loro

 


 


Quando meus pais disseram que mudaríamos para a cidade de São Paulo, eu sabia que muita coisa seria diferente na minha vida. Imagina o que seria para um garoto de 14 anos que nasceu e viveu em uma cidade do interior, se mudar para a capital.

 


Nossa nova casa ficava em uma rua sem saída no bairro da Vila Formosa, bairro que tratei logo de explorar com minha bicicleta. Pedalando em meio ao trânsito local, pude conhecer lugares como o Mercado Municipal, o CERET, a Praça Sampaio Vidal e a Praça Silvio Romero.

 


Fui estudar na escola SENAI na Rua Anhaia no bairro do Bom Retiro e para chegar até lá utilizava o Metrô saindo da Estação Tatuapé, passando pela Sé até a Luz, mas na volta dava preferência ao trem que saia da Estação Brás, pois ele era mais barato que o Metrô e o dinheiro economizado, eu juntava com o que meu pai me dava, para comprar meus discos e camisetas na Galeria do Rock no centro, lugar que conheci com meus amigos de escola.

 


O centro de São Paulo era um paraíso para nós, lá ficavam além da Galeria, a maioria dos cinemas, lojas de troca de discos e livros e componentes eletrônicos. Ruas como a Barão de Itapetininga, 7 de Abril, Santa Ifigênia e a Praça da República, faziam parte do nosso roteiro particular em busca de novidades e claro, dos inesquecíveis carrinhos de Churrasco Grego com suco grátis, que alimentavam toda a molecada com um precinho bem camarada. As recomendações de meus pais eram sempre as mesmas: “-Tome cuidado nas ruas, pois é muito perigoso andar pela cidade e não fique comendo bobagens por aí”. Ah, nossos pais sempre exageram, a cidade nem era tão perigosa e os lanches e as esfihas da Rua Mauá nem eram tão porcaria assim. No Vale do Anhangabaú, eu e meu pai pegávamos os ônibus da CMTC em direção ao Morumbi para assistirmos aos clássicos do Timão, ou quando os jogos eram no Pacaembú íamos caminhando da Praça Marechal Deodoro até o estádio, e sempre tive a impressão que as caminhadas eram sempre mais curtas do que nossas conversas.

 


Passei minha adolescência e me tornei um adulto, casei e constitui família sempre aproveitando todas as inúmeras oportunidades que a cidade oferece, cheguei a retornar para Jundiaí minha são cidade natal, mas acabei voltando para São Paulo atraído pelas inevitáveis oportunidades profissionais que ela oferece.

 


Hoje sigo minha vida ainda pedalando pela cidade, em meio a um trânsito muito pior do que na década de 80, a Galeria do Rock hoje parece ter muito mais jovens fantasiados de roqueiros do que aquela molecada da época com correntes de xaxim das samambaias da mãe penduradas no cós da calça, o centro da cidade me parece mesmo perigoso como os meus pais diziam, para ir aos jogos do Corinthians não preciso mais ir ao Vale do Anhangabaú, apenas caminho até o Itaquerão que fica próximo da minha casa, agora sem a companhia e as conversas com meu pai. Os lanches de Churrasco Grego?

 


Alguns ainda estão pelo centro da cidade, me falta agora coragem para comê-los.

 


Rogério Loro é personagem do Conte Sua Historia de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também a sua história da nossa cidade, escreva para milton@cbn.com.br

E as ciclovias!? Vão bem, obrigado (por enquanto)!

 

Ciclofaixa Moema

 

Esses dias, publiquei aqui no Blog texto no qual me referia ao esforço que devemos fazer para mudar nossos hábitos. Falava da atividade física e do mau costume que temos de voltarmos ao sedentarismo duas semanas depois de feita a inscrição na academia mais próxima de casa. Pesquisas provam que precisamos de 66 dias para transformar uma ação em rotina. Lembrei-me disso ao ler e publicar o texto do colega de blog Julio Tannus no qual critica as ciclovias implantadas em São Paulo e a falta de planejamento na cidade.

 

Por anos nos acostumamos a usar o automóvel, meio de transporte privilegiado tanto pela forma como a cidade se espraiou sem que o sistema público conseguisse alcançar as franjas da capital quanto pelo incentivo à indústria automobilística. De maneira geral, nossas cidades transformaram-se em grandes aglomerados urbanos sem que suas administrações encontrassem formas de financiar a expansão necessária do transporte coletivo – e São Paulo é o exemplo mais bem acabado deste modelo (ou seria, mal acabado?). O resultado é o drama diário de paulistanos que passam parte do dia emperrados no trânsito enquanto tentam se deslocar de casa para o trabalho, do trabalho para a escola, e vice-versa.

 

Desconstruir essa lógica da cidade, convidando as pessoas a deixarem o carro em casa e em troca oferecendo sistema de ônibus e metrô mais eficiente e espaço para bicicleta, é tarefa para muito mais do que uma gestão. Um costume que exigirá investimento e envolvimento em ações conjuntas do poder público e privado. Imagino que ninguém têm a ilusão de que as faixas pintadas nas ruas e avenidas, seja para ônibus seja para bicicletas, resolverão esse problema. Porém, e aí começo a me distanciar do que pensa meu colega de blog, havia a necessidade de alguém disposto a dar a “pincelada” inicial.

 

A atual administração decidiu tomar para si a responsabilidade de implantar ciclovias como já havia feito com as faixas nem tão exclusivas de ônibus. Aposta que o número de ciclistas aumentará – como já se percebe em algumas vias – tanto quanto cresceu a velocidade dos coletivos. É verdade que se esqueceu de conversar com os cidadãos, o que poderia ter amenizado a reclamação inicial e evitado alguns atropelos e rotas impróprias. As faixas vermelhas, porém, servem de alerta aos motoristas de carro para algo que o próprio Código Nacional de Trânsito já prevê, mas nunca foi respeitado: o compartilhamento da via pública entre carros, caminhões, ônibus, motos e bicicletas. Em nenhum momento é exigida identificação dos ciclistas e da bicicleta, mas lhe é cobrado o respeito às leis de trânsito – mesmo porque a condução imprópria deste veículo tende a ser muito mais arriscada ao seu condutor do que a terceiros.

 

As dimensões e geografia de São Paulo devem servir muito mais de incentivo do que restrição para o uso da bicicleta. Com uma cidade deste tamanho (e altura) pode-se, por exemplo, pedalar em trechos menores e medianos, reduzindo a frequência com que usamos o carro, ou integrá-la ao transporte coletivo, como ocorre em algumas estações.

 

O que mais prejudica a implantação das faixas de ônibus e de bicicleta é a falta de confiança do cidadão no poder público. Poucos creem que as medidas persistirão e apostam que assim que a tinta começar a desbotar as boas intenções permanecerão apenas na propaganda de governo. Prevêem que as faixas de ônibus nunca se transformarão em corredores exclusivos, e as de bicicleta logo estarão tomadas por todo tipo de obstrução. E têm motivos para isso: nossa história, como o próprio Tannus, descrente, descreve em seu texto, está cheia de bons planos nunca executados e execuções mal planejadas.

 


Não deixe de ler o texto do nosso colunista Julio Tannus que gosta muito de bicicleta, mas não de como estão nossas ciclovias

Conte Sua História de SP: minha cidade caleidoscópica

 

Por Carolina de Medeiros Cecatto

 

A São Paulo em que nasci é a cidade onde vou trabalhar desde os meus vinte anos. Não que eu tenha longeva idade, mas desde pequena já dava meus passinhos por ela. Aos 7, fazia exames na Vila Mariana, bairro em que nasci por sinal, porque logo precisei usar óculos e tampão. E minha nossa! Ia com minha mãe de metrô, e como eu adorava aquilo! Nunca achei em minha vida que entenderia os entremeios das linhas daquela lombriga de ferro – assim como nunca imaginei que essas linhas cresceriam tanto como agora, tanto como eu cresci.

 

Hoje, domino e escolho as plataformas, guiada às vezes pelo instinto das grandes massas, costurando entre elas, vislumbrando pessoas, paisagens e concretos: são os violinistas das estações de metrô, é aquela avenida de uma vida inteira chamada Paulista, são os adolescentes de cabelos coloridos e fãs de mangá nas escadarias da Liberdade, é o verde imperial do Parque da Independência, é o corre-corre, o compra-compra da 25 de Março, é a miscelânea abençoada de coisas que vejo e reparo e que me fazem sentir mais deslumbrada.

 

O lugar mais cosmopolita, de gente mais desconfiada, é a cidade mais acolhedora, acredite! Nos dias de chuva fica mais poética, mais indiferente e triste, mas é esse o seu charme. É de se ver o colorido da noite nas baladas, corpos e sinestesia e fluidos, é nelas que vinga um pouco de Sampa. Bate também o coração dessa cidade com o tráfego diário de carros, buzinas e xingamentos, e aquela palavrinha que todo paulistano detesta já é praxe: congestionamento.

 

Vibra a cidade com seus vários times valentes e pioneiros, além de tudo tradicionais, que jogam bola e dão brilho e paixão nos olhos da gente. Permeiam seus muros os grafites psicodélicos, sem contar as calçadas e as ruas com várias pernas malabares sobre seus skates e patins, a correria para pegar o ônibus – o lindo caos diário que tudo isso encerra!

 

É a cidade cheia de registros, de mistura fina, de seriedade, de inegável disposição, de comércio, da pizza mais gostosa, dos edifícios mais audazes e cinzas, da gente mais diversa e colorida. É a cidade que não desliga, nem pisca. É a minha São Paulo caleidoscópica.